DE TABOCAS A ITABUNA - 100 ANOS DE IMPRENSA

Agenor Gasparetto*

 

Neste ano, 1999, a mídia regional recebeu de Ramiro Aquino uma singular contribuição: o livro DE TABOCAS A ITABUNA - 100 ANOS DE IMPRENSA preenche um grande vazio. Trata-se do primeiro trabalho sistemático que procura resgatar a memória da mídia regional: dos jornais e revistas, do alto-falante às estações de rádios e à televisão. Essa contribuição é particularmente importante, porque coincide com o início do curso de Comunicação Social com habilitações em Rádio e Televisão da Universidade Estadual de Santa Cruz, que tem como pretensão principal se constituir num centro de produção cultural de qualidade. É, também, oportuno porque surge num momento em que a mídia investe fortemente numa nova direção, estando essa representada pela Internet. Nesse sentido, estamos em um novo momento de transição, assim como foi o primeiro jornal, o primeiro serviço de alto-falante, a primeira rádio e a primeira televisão.

Esse livro constitui-se numa referência obrigatória para quem tem pretensões de conhecer, escrever ou falar da mídia de Itabuna e, face, a polaridade exercida por Itabuna no Sul da Bahia, também referência regional.

Ramiro Aquino, com elegância, nos agradecimentos, reparte a autoria desse livro com outros profissionais e amigos. É generosidade, compreensível e louvável. O autor há muitos anos atua no rádio, atuou na televisão e na mídia impressa. Tem credenciais mais do que suficientes para a obra que decidiu realizar e a fez com competência e publica num estilo marcado pela leveza e simplicidade.

O livro se divide em cinco partes. Na última delas expressa sua gratidão aos amigos e colaboradores desse trabalho, destacando-lhes algumas características profissionais e pessoais.

Na quinta, em ordem alfabética, apresenta o quem é quem na mídia de Itabuna ao longo de sua já centenária trajetória, indicando o meio de atuação de cada um: jornais, revistas e livros; rádio e alto-falantes; televisão; e na categoria publicidade.

Na terceira parte, em DESCULPE A NOSSA FALHA, Ramiro Aquino expõe 67 casos que gravitam em torno de situações marcadas pela comicidade, envolvendo personagens da mídia itabunense, revelando também um pouco de sua alma. Nessa parte, o riso, face ao caráter engraçado de situações ou fatos, é espontâneo. Seguramente, muitas outras situações poderiam ser agregadas por outros profissionais, enriquecendo esse capítulo.

Na segunda parte, A MÍDIA ELETRÔNICA, Ramiro Aquino resgata a força do surgimento da primeira rádio em Itabuna, a Rádio Clube, seguramente um marco na mídia itabunense. Todavia, não esqueceu o serviço de alto-falantes que, por sinal, mesmo no penúltimo ano do século XX, teima em se fazer ouvir nas ruas de Itabuna, quer seja em sistema fixo ou sobre rodas Nesse sentido, o alto-falante também deverá ingressar no século XXI, ainda que como o pobre da família da mídia eletrônica. O autor participou intensamente da implantação e dos bons primeiros anos da pioneira Tevê Cabrália, em Itabuna, e seu depoimento é suficientemente revelador de sua trejetória e situação atual. Destaca o surgimento da primeira rádio FM, a Musical, hoje, Aleluia. Um fato revelador nos meios eletrônicos é a freqüente mudança de endereço e de proprietários em alguns deles. Destaca a liderança da Tevê Santa Cruz, da Rádio Difusora AM e da Rádio Morena FM, em seus respectivos segmentos, bem como o surgimento da FM Sul, que tornou o segmento das rádios FM em Itabuna, juntamente com a Gabriela de Ilhéus, extremamente competitivo, como revelou o Prêmio Primeiras & Melhores, Itabuna, ano de 1999 (www.primeiras-e-melhores.com.br), o que parece ser bom para Itabuna.

Na primeira parte, A MÍDIA IMPRESSA, Ramiro Aquino sublinha o papel do jornal como meio de comunicação. O simples dado de que Itabuna, antes de ser município, já tinha três jornais é revelador. E observe-se que nesta terra, ainda hoje, são muitos os que não lêem e nem escrevem. Mesmo assim, no início do século, ainda na condição de pequena vila do município de Ilhéus, Itabuna ostentava três veículos de comunicação escrita.

Pelo exposto acima, é muito rica a contribuição de Ramiro Aquino à memória da mídia regional, trazendo à tona fatos esquecidos, personagens quase perdidos no silêncio do tempo. Além de resgatar essa memória, o que é muito importante, no fundo, o que Ramiro Aquino também fez foi prestar, à sua maneira, com elegância e sutileza, uma homenagem singela aos muitos que construíram, com suas próprias vidas profissionais, a história dessa mídia. Esse fato é, também, relevante.

Como o próprio autor afirma, são possíveis algumas lacunas. No propósito de contribuir com essa pesquisa, faço as seguintes ponderações:

  1. faltam elementos sobre os jornais que surgiam e desapareciam com grande rapidez, sobretudo no que tange ao desaparecimento. Creio que talvez valesse a pena penetrar mais na linha editorial de cada um deles, captar-lhes a motivação de fundo, as disputas e, quem sabe, dessa forma, reconstruir a história política de Itabuna, uma vez que jornais naquela época costumavam ser porta-vozes de grupos política e ideologicamente definidos e tinham objetivos bastante claros. Mesmo no limiar do século XXI, essa característica, ainda que talvez mais suavizada, ainda persiste. Basta conferir qualquer edição e em qualquer banca. Esses acréscimos agregariam uma nova dimensão ao livro.
  2. na mídia impressa está bastante pobre a presença de livros. Assim como podem haver jornais que passaram despercebidos nessa primeira investida, no que tange a livros, há um déficit que pode ser preenchido. Nesse caso, talvez fosse oportuno alargar o foco, passando de editados em Itabuna para sobre Itabuna.
  3. dado que o autor olhou para além de Itabuna, destacando o Diário da Tarde de Ilhéus e o Tabu de Canavieiras, penso que em uma próxima edição poderiam ser agregados outros jornais de Ilhéus, de Camacã e de outras cidades, como Itapetinga. Nessa, o jornal Dimensão, sob o comando de Flávio Scaldaferri, com atuação em Itabuna e citado no livro, há quase trinta anos edita um dos melhores jornais do interior da Bahia, gráfica e editorialmente falando, nessa bela e bem cuidada cidade de Itapetinga.
  4. o livro também toca apenas de leve no novo espaço aberto pela Internet como modalidade de mídia eletrônica, que apresenta a vantagem da interatividade e, ao mesmo tempo, da massividade. Numa próxima edição, seguramente, a Internet como canal privilegiado de mídia deverá compor uma nova parte deste trabalho de Ramiro Aquino.
  5. dado que o livro oscila da narração ou descrição factual ao depoimento e testemunho pessoal, já que o autor é também protagonista da história que resgata, ganharia maior riqueza se houvesse um maior aprofundamento teórico. Por exemplo, o que se entendia nas décadas de 20 e 30 pela expressão jornais críticos e o que hoje essa expressão traz à mente? Para muitos, seguramente, o significado não é o mesmo. A explicitação dessa diferença conceitual teria o mérito de uma melhor contextualização dos fatos documentados e oportunizaria uma melhor interpretação.

Essas ponderações são sinalizações que poderão ser objeto de investimento de tempo para uma nova edição, aprofundando a temática. O essencial a ressaltar é que Ramiro Aquino, com o livro aqui comentado, marco um belo gol na história da mídia regional. Como dito no início, foi um gol marcado num momento singular, pela emergência do meio de comunicação mais poderoso já inventado pelo Homem, a Internet, e pela implantação do curso de Comunicação Social em Rádio e Televisão na UESC.

Afora isso, o livro vale pelo resgate que faz da memória regional e, nesse resgate, a elegante homenagem que o autor presta aos que a construíram.

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*Professor da UESC, responsável técnico pela empresa Sócio Estatística (www.socio-estatistica.com.br)