PESQUISA ELEITORAL E SONEGAÇÃO DE INFORMAÇÕES

 

1. O Jornal das Dez da Globo News, da noite de ontem, comunicou que a partir desta última semana mudará a forma (e o conteúdo) de divulgação de pesquisas eleitorais. Em vez da divulgação completa passará a divulgar os percentuais de votos válidos, adotando critério da totalização do TRE. O argumento para essa mudança foi o de facilitar a compreensão dos resultados para o telespectador.

Creio que essa mudança parece subestimar a capacidade de entendimento do telespectador. Se o argumento utilizado fosse verdadeiro poderia  ter sido adotado desde o  início. A rigor, essa mudança significa um empobrecimento da informação divulgada e, porque não dizer, uma sonegação de informações ao telespectador, que passará assim a receber  resultados eleitorais como se fossem fatos consumados, já que não se fala mais de indecisos e nem de votos nulos e brancos. Penso que o argumento dos votos  válidos é bom para depois da votação. Antes, o telespectador tem o direito de ter a informação completa, com a intenção de voto nos candidatos, com o percentual de indecisos, bem como o percentual de nulos e brancos. Do contrário, tem-se a impressão de que se está assistindo o resultado pós-eleição. Portanto, o retorno a metodologia de divulgação anterior é melhor para a democracia e para o  telespectador.   

 A pesquisa eleitoral, nesta eleição, sofreu grande desgaste. Esse  deriva não apenas dos resultados contraditórios por vezes divulgados, (que por gerarem dúvida não são tão ruins para a democracia), mas também na multiplicação das pesquisas. São tanto os institutos, não institutos e candidatos que em alguns municípios estão fazendo pesquisas eleitorais que o eleitor, em alguns, dá sinais explícitos de saturação  e o número de recusas em conceder entrevistas é  alto e crescente. Esses fatos preocupam, uma vez que as recusas,  em sendo muitas, podem comprometer a qualidade da amostra nos locais em que isto está acontecendo. Há locais em que a probabilidade do entrevistador receber um “não” já é maior do que um “sim” para a entrevista. Com isso, a representatividade da amostra pode estar se tornando problemática. Esse poderá ser um assunto que deverá merecer reflexão por parte da ABIPEME e da ANEP.  

Agenor Gasparetto
Sociólogo

Itabuna, 26 de setembro de 2000.

 

Intenções de voto e votos

 Na noite de ontem, 27, voltei a assistir ao Jornal das Dez do Globo News. Foram apresentados os resultados das pesquisas de intenções de voto em Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro. Os resultados foram apresentados nas duas versões: normal, com informação completa, e “votos válidos”. Prevaleceu o bom senso na apresentação, ainda que ainda persista um pequeno problema. A falta da apresentação completa só ficou na noite do anúncio dessa nova forma de noticiar os resultados eleitorais, acima referida. Naquela noite foram apresentados os resultados das intenções de voto em Salvador. Todavia, na apresentação da noite de ontem  chamou a atenção o fato de que a apresentadora fala em “votos” e não em “intenções de voto”. É possível que essa transformação da “intenção de voto” em “voto” consumado se deva à natureza dos “votos válidos”, que só passam a existir depois da apuração. As pesquisas, reafirma-se, não captam votos. Captam intenções de voto e há uma sutil diferença entre uma coisa e outra. Esse é o pequeno problema acima referido.

Agenor Gasparetto

28 de setembro de 2000.