FESTA DE SÃO JOÃO E MEIO AMBIENTE

A festa de São João ocupa importante espaço no imaginário do brasileiro, particularmente do nordestino. É uma festa querida, com muita música, danças, forró, licor,  caipiras, bandeirolas, tudo num arranjo alegre e colorido. Seguramente, para muitos é a principal festa. Mobiliza crianças, jovens, adultos e idosos. Todos são tocados positivamente por ela. Integra com Santo Antônio, dia 12, e São Pedro, dia 29, o calendário festivo do mês de junho. Sua força e popularidade faz com que o ano escolar das crianças e jovens de Itabuna, por exemplo, esteja subordinado a ela. Período de São João também é o período das férias escolares do meio do ano.

Todavia, essa festa apresenta componentes que merecem análise e parecem incompatíveis com posturas ecologicamente corretas. A propósito, parece se fazer um silêncio cúmplice por parte dos movimentos e grupos ecológicos. Provavelmente, colocá-los em discussão eqüivaleria em fazer frente a valores históricos, de grande apelo popular e que vêm de longe no tempo.

O primeiro desses componentes  é a fogueira de São João. Parece impensável um São João sem fogueiras, sem belas fogueiras. Em muitos lugares, particularmente em pontos das rodovias próximos às cidades,  esperam por compradores dezenas de fogueiras montadas para esquentarem, brilharem e marcarem as festas nas casas e arraiais nas ruas das cidades e povoados. Aqui, a festa de São João se constitui num fator de corte de muitas árvores. Certamente, não será a fogueira nossa que irá salvar o planeta do desmatamento, do efeito estufa e dos problemas ambientais. Mas a nossa e a de todos os outros somam milhares talvez milhões de fogueiras e árvores que perderam o direito à existência. O problema é como manter viva a tradição do São João sem desmatar e sem queimar madeira?  Como não destruir o encanto de São João? Realmente, é difícil resolver esse problema, no fundo, de ordem cultural.  São João sem fogueira, no início, parece que fica mais pobre. No entanto, é preciso colocar na balança se nossa festa e nossa alegria precisa necessariamente do sacrifício de muitas árvores. Talvez, se nas escolas começarmos a mostrar  o valor das árvores em pé, quem sabe não consigamos manter o calor, o brilho e a magia do São João sem sacrificá-las! Não precisa ser feito de sopetão. Aos poucos. Quem sabe? O tempo dirá. Aqui, os grupos ecológicos poderiam ter um importante ponto de educação ambiental. Isto porque essa também custa, exige um preço. Achamos que vale a pena pagá-lo.

É preciso que a tradição do São João surgiu e se consolidou num longo período de tempo. Nesse, havia muito mais florestas e árvores e muito menos gente e animais em criação do que do hoje. Hoje, a realidade e a consciência tem que ser outra, ainda que as coisas não precisem acontecer de uma só vez.

O segundo são as bombas. São a alegria da garotada. Aqui e acolá, todavia, sobram ferimentos graves em crianças e adultos e aqui e acolá explode um ponto de fabricação de fogos de artifício, legalmente, “clandestino”, com várias, às vezes, com dezenas de vítimas, como recentemente aqui na Bahia mesmo. Essas pessoas perderam suas vidas e arruinaram famílias porque a festa e o período das festas juninas estão fortemente associadas com explosão de bombas e bombinhas de São João. E haja barulho. Haja poluição sonora. Haja no ar o cheiro de enxofre. Haja fumaça. Mais uma vez, a festa de São João parece perder seu encanto sem o som das explosões, sem o cheiro no ar da queima das bombas misturado à queima da madeira e outras coisas. Todavia, em nome de uma consciência ecologicamente correta seria preciso libertar essa festa sobretudo dessa componente. A propósito, na Alemanha só é permitido o uso de fogos de artifício apenas num único dia do ano, no Reveillon. E lá também se comemora o São João, com fogueira, evidentemente.

Uma terceira componente são os balões. Responsáveis por incêndios em vários lugares e, não raro,  com muitos prejuízos. Felizmente, no Sul da Bahia, o São João parece não precisar desses balões e nem por isso deixou de ser São João e fazer a alegria de muitos.

O fato dos balões mostra que é possível libertar o São João de suas componentes negativas, como o corte de árvores para a fogueira, mas sobretudo das bombas, mantendo seu lado bom. O desafio de uma nova educação ambiental nos contextos das festas juninas, especialmente do São João, exige a reconstrução ou a reinvenção do São João e das festas juninas, sob parâmetros ecologicamente corretos, sob o signo do novo século que está por vir.  Aqui, soa estranho que haja pessoas e prefeituras disputando quem faz a maior fogueira de São João. Seguramente, esse não é um bom caminho na perspectiva da educação ambiental.

Se a substituição dessas componentes fosse retirada de uma só vez, sem dúvida, no início pareceria uma perda muito grande. No longo prazo, todavia, a natureza agradecerá. A questão é saber se estamos dispostos ou não a uma nova cultura, a uma nova mentalidade, em que a festa  não esteja associada à derrubada de árvores  e sua queima em belas fogueiras nas noites frias do São João. A questão está em saber se somos capazes de reinventar o São João. Possível, é claro que é. Se nós realmente queremos isso, isso cada um terá que responder a si próprio. Portanto, neste São João e São Pedro, é tempo privilegiado para pensarmos em um novo São João, mantendo a alegria e a emoção, mas com menos árvores sacrificadas e menos explosões e menos cheiro de enxofre no ar. 

Agenor Gasparetto
Sociólogo

21 de junho de 2000.