Cultura de
arrancar plantas dos espaços públicos
Assim
como no meio intelectual há a (sub)cultura de que livro emprestado não tem
devolução; assim como nas filas (de bancos e outras) há quem considere que
atalhar o acesso é “natural”; também no que se refere ao espaço público não
zelar por ele ou se livrar do lixo incômodo das mãos (latinhas, plásticos,
papéis e outros que “ornamentam” nossas ruas e passeios, mesmo quando o
pessoal da limpeza ainda está ao alcance da vista, esse condenado a uma
batalha permanentemente perdida, fazendo jus à condição de Sísifo dos nossos
tempos); essa (sub)cultura também existe em relação a praças e jardins. Essa
(sub)cultura e suas diversas manifestações são, a rigor, formas de
corrupção. Essa certamente é a saúva do Brasil, um mal crônico, que vem de
longe no tempo e parece arraigado na psicologia do brasileiro, embora,
sejamos justos, não só e os recentes escândalos contábeis nos Estados
Unidos parecem ilustrativos.
Aqui,
essa cultura manifesta-se no hábito de arrancar plantas e flores. E, segundo
o jardineiro que toma conta, “é obra de mulheres”. Pessoalmente, considero
um mal menor quando são arrancadas para re-plantio. Nesse caso, ao menos, a
planta está cumprindo a função que se pensou para a mesma. A propósito,
seria um prazer dar mudas se essas fossem solicitadas, o que, felizmente,
também acontece. Está em nossos planos fazê-lo. (E é tão simples fazer uma
muda a partir da que está no espaço público sem prejuízo a esse! Ah, se
soubessem!). No entanto, o mais comum é a simples ação de arrancá-las,
deixando as cicatrizes na terra como testemunho. Houve também um caso em
que, além de arrancar dracenas vermelhas e deixando as demais, a lâmina do
facão não perdoou duas iukas que formavam o início e o fim de um arranjo e
isso antes de completar uma semana de plantio.
No dia
8 de setembro, na rotina de trocar idéias e acompanhar os trabalhos do
jardineiro, deparamo-nos com uma situação inédita: num dos canteiros,
amarrada com uma corrente a uma das placas de trânsito, foi posta uma grande
placa retangular, de uma empresa itabunense anunciando os melhores produtos
da cidade no seu ramo.
Nesse
caso, partimos do pressuposto de que colocar a placa num dos canteiros em
que há mais de dois meses estamos trabalhando não deveria ser
necessariamente interpretado como “colher onde não se plantou”, mas
decorrência de um hábito bastante comum na cidade, uma vez que há inúmeros
espaços públicos tomados privadamente, seja colocando cadeiras e mesas e
dessa forma ampliar a capacidade de bares e restaurantes, seja ocupando
espaços públicos como praças e passeios e canteiros de avenidas, realizando
algum tipo de comércio, sem nenhuma contrapartida com esse mesmo ambiente e,
não raro, contribuindo, pelo descaso, com a sua deterioração. Quem se der ao
trabalho de circular pelas principais avenidas da cidade, não terá
dificuldades em constatar essa privatização do espaço público.
A
propósito da empresa que colocou sua placa no espaço que assumimos,
entendemos que se trata do reconhecimento do potencial em termos de
marketing que é um espaço público bem cuidado. Sendo isso verdadeiro,
remetemos um e-mail para o setor da Prefeitura Municipal que trata da
adoção de praças para entrar em contato com a referida empresa, não apenas
para retirar essa placa fora de contexto, mas sobretudo para apresentar um
grande número de praças da cidade necessitando de cuidados e que nelas a
empresa poderá colocar, legitimamente, a sua placa. E gostaríamos que isso
viesse a acontecer. Itabuna será melhor em razão disso.
Retomando a questão das plantas, já foram plantadas cerca de 1.444 pingos de
ouro e, já no final da primeira semana, mais 74 mudas de reposição.
Evidentemente, algumas mudas também morrem, ainda que, dadas as chuvas quase
diárias das últimas semanas, isso seja raro. Hoje, 8 de setembro, em uma
lateral de um dos canteiros, não há uma única muda para contar a história.
Ao todo, serão necessárias mais 170 mudas apenas no canteiro central,
onde a retirada foi menor. Há laterais de canteiros em que todas as
mudar foram arracandas, sem exceção, supondo o trabalho de alguém com
propósitos de revenda das mesmas. Ao todo, seguramente, será necessário o
re-plantio de mais de 500 mudas, por enquanto. Realmente, é um pouco
desalentador esse quadro. Das 18 dracenas (verdes e vermelhas) plantadas há
uma semana no canteiro central, já faltavam cinco plantas. Foram plantados
também cerca de 170 mudas de ligusto, que, felizmente, continuam.
Enquanto não formos capazes de criar uma cultura de maior respeito em
relação ao espaço público, deverão prevalecer onze horas de várias cores,
verbenas vermelhas e outras plantas de menor valor comercial. Essas,
sobretudo as verbenas, ainda que arrancadas, dada a quantidade existente nos
canteiros, as lacunas mal são percebidas.
Essa
situação ilustra a fragilidade de nossa cultura pública, que tem no lixo
incansavelmente jogado nas ruas, avenidas, praças e mesmo no Rio Cachoeira,
possivelmente, um indicador privilegiado. Parece ser um traço de nossa
cultura um zelo até excessivo com o corpo (até três banhos diários, em
pleno inverno) e mesmo o interior das casas. No entanto, o que parece sobrar
para si, acaba faltando no espaço público. Da nossa parte, vamos continuar
cuidando desse espaço, que é da comunidade itabunense. Estamos certos de que
ainda chegará o dia em que em nossas praças e jardins, caso se queira,
também roseiras, brancas, vermelhas, amarelas, rosas, e toda sorte de flores
que hoje parecem ser um convite à apropriação privada, pela mão “esperta”,
poderão ser plantadas e apreciadas.
Agenor Gasparetto
Itabuna, 09 de setembro de
2002