PESQUISAS ELEITORAIS: INFORMAÇÃO E PROPAGANDA [1]

Publicado na Revista SBPM – Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado. Agosto 1999. Ano II, nº 09, pp.  12-21.  (Este artigo saiu na revista, involuntariamente, sem autor).

Por Agenor Gasparetto[2]  

A última eleição para presidente e para governadores nos estados e no Distrito Federal, em outubro último, colocaram em evidência as pesquisas eleitorais além do necessário. Admitindo-se que as pesquisas deveriam ser um pouco como juizes em uma partida de futebol, o demasiado espaço ocupado na mídia e nas discussões não foi um bom sinal, uma vez que tomaram demasiadamente a cena em lugar dos atores principais, os políticos, e do processo eleitoral, ainda que as pesquisas sejam parte integrante. Isto coloca em pauta o questionamento sobre o papel e o lugar efetivamente ocupados pelas pesquisas nessa eleição e também em outras.  

Em resumo, há duas posições principais claramente delineadas quanto ao papel e o lugar das pesquisas numa eleição. A primeira será aqui denominada técnico-metodológica ou simplesmente tecnicista e a segunda, ético-política.

   

1. A perspectiva técnico-metodológica

  A primeira posição é ocupada pelos institutos de pesquisa e pelos meios de comunicação, responsáveis pela sua divulgação.  Trata-se do ponto de vista de atores sociais diretamente interessados na questão, tendo como plano mínimo de interesse a dimensão mercantil, que se traduziria, aqui, em audiência e/ou leitura. E como dimensão máxima, a vontade de também influir significativamente nos destinos das eleições. Para essa perspectiva, o problema das pesquisas se resume e se reduz ao erro, à falta de exatidão, ou melhor, à probabilidade de uma pesquisa apresentar um erro além do estipulado. 

  No seio dessa perspectiva, há duas linhas: os que  apostam na neutralidade pura e simples das pesquisas, considerando-as como mero reflexo da realidade, sem poder de indução alguma. Os institutos tendem a se entrincheirar nessa posição enquanto corporação, embora individualmente a realidade tende a ser diversa, como no caso dos diretores do Datafolha e do Brasmarket, por exemplo. Há também os que admitem alguma influência, mas consideram essa influência como parte integrante da normalidade do jogo democrático. Os meios de comunicação tendem a defender essa perspectiva. Em comum, essas duas perspectivas não vêem maiores problemas quanto à realização e divulgação de pesquisas eleitorais, ou por serem neutras do ponto de vista da influência sobre eleitores, ou porque essa influência é inteiramente democrática, já que as eleições seriam o palco das múltiplas influências, idéias e informações (Folha de São Paulo), as pesquisas além de informar, exercem função civilizatória (Luís Francisco Carvalho Filho) ou possibilitam o eleitor conciliar afinidade com pragmatismo eleitoral (Renato Lessa) entre outros.

  Sendo assim, o problema, quando existente, é sempre um problema de  isenção e de  integridade metodológica, dizendo respeito ao grau de exatidão dos resultados. Logo, as soluções propostas tendem a ser solucionáveis dentro de parâmetros considerados aceitáveis, já que se resumiriam ao erro. Esse seria superável pela adoção de um  manual de interpretação dos resultados das pesquisas e pela padronização dos procedimentos de pesquisa, das margens de erro, como foi proposto por diretores de institutos de pesquisa (IBOPE, Datafolha, Vox Popoli e Soma) quando convocados para prestar esclarecimentos sobre seus métodos à Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, atendendo convite do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), em 11 de novembro de 1998 (Folha de São Paulo, 12/10/98, 1-3; www.OGlobo.com.br/politica, 13/11/98).

Nessa reunião, na Câmara dos Deputados, o diretor-executivo do IBOPE, Carlos Augusto Montenegro, a propósito de uma possível instalação de uma CPI, argumentou: torço para que haja uma CPI: vou trazer os questionários e tabular as pesquisas junto com os deputados (www.Oglobo.com.br/politica, 13/11/98). Esse posicionamento revela com muita clareza qual é a compreensão  de Montenegro quanto à influência das pesquisas. Simplesmente, inexiste o problema ético de uma possível influência. Por fim, visando buscar credibilidade, foi proposto que, além do referido manual de orientação e a referida padronização das margens de erro, seriam realizadas palestras para explicar que as pesquisas não influenciam o resultado das eleições (idem), ou seja, para cimentar essa posição, seria necessário uma campanha visando mostrar a isenção e a neutralidade das pesquisas eleitorais sobre a decisão dos eleitores.

Sendo assim, restrições à divulgação se constituem em censura prévia, num atentado contra a liberdade de imprensa e o direito do cidadão em ter acesso aos resultados. São reveladores dessa posição afirmações como: Não se trata aqui, é óbvio, de procurar eximir os meios de comunicação das responsabilidades por seus produtos. Mas determinar de antemão o que não pode ser veiculado é policiar a expressão livre de idéias e informações – ou seja, chancelar a censura (Folha de São Paulo, 28 de agosto de 1997, 1-2), ou ainda, qualquer tentativa de censura seria interpretada como cassação do direito do eleitor de ter acesso a toda informação que deseje, a fim de fundamentar suas decisões políticas... Será inaceitável que seja interditada a livre circulação dos dados obtidos pelas pesquisas eleitorais (Folha de São Paulo, 9/11/98, 1-2). Para a Folha de São Paulo, discordar dessa posição eqüivaleria a não aceitar um debate inteligente sobre as pesquisas, postura de demagogos e autoritários. No fundo, qualquer restrição a expressão livre de idéias revelaria paternalismo e defesa de privilégio, porque  esconderia intenção de tutelar a sociedade, julgando-a incapaz de usufruir da democracia, a qual implica confronto de influências, idéias e informações, e porque as pesquisas continuariam a ser feitas e alguns teriam acesso a elas, condenando a massa dos cidadãos a votar no escuro, respectivamente (idem).

   

2. A perspectiva ético-política

A segunda perspectiva é de natureza ético-política e defende que as pesquisas eleitorais influem no processo eleitoral, não sendo neutras. A questão passa a ser: em que circunstâncias elas são legítimas, eticamente aceitáveis e em que circunstâncias não o são, porque estariam ferindo o direito dos candidatos a uma igualdade mínima de condições e o eleitor de refletir, sem ser assediado pelas pesquisas?.

  As pesquisas eleitorais divulgadas exercem sobre candidatos, militantes e eleitores, em graus diversos, influência que, dependendo das circunstância, interfere nas condições da disputa. O cerne do problema situa-se no fato de que os eleitores, em conseqüência de discursos e de práticas, internalizam uma pretensão de infalibilidade dos institutos, reforçada pelos meios de comunicação.

 Na prática, esse  problema consiste no fato de que eleitores assumem, em graus variados, os resultados das pesquisas como verdade imune ao erro. Obviamente, quanto menor o acesso à informação e maior a ignorância do eleitor, mais forte é essa tendência, como revelou estudo anteriormente realizado[3].

Sendo assim, o erro metodológico não é mais o principal problema. Na perspectiva da internalização da pretensão de infalibilidade das pesquisas pelo eleitor, sequer é o problema. Ao contrário,  independentemente da vontade e da intencionalidade dos que divulgam resultados de pesquisas e dos institutos, contribui com a democracia, na medida em que induz o eleitor a desconfiar, a ser mais crítico, a refletir, pois quem erra uma vez pode errar outras vezes.

Sendo esse o problema, a solução do mesmo está na adoção de medidas capazes de  neutralizar essa pretensão de infalibilidade. Essa pretensão decorre da necessidade dos institutos de reforçarem sistematicamente sua credibilidade, sendo essa ancorada na exatidão dos resultados eleitorais, ou seja, faz parte, ainda que não intencionalmente, da lógica de propaganda e de marketing dos institutos sobre si mesmos. Aqui, ao contrário do que afirma Walter Ceneviva (Folha de São Paulo, 31/10/98, 3-2), partindo do pressuposto de que as pesquisas sérias constatam ou desvendam a realidade subjacente, não criam o fato, ou seja, são mero reflexo da realidade, o fato é que quanto mais sérias parecerem as pesquisas, maior é a internalização pelo eleitor de sua pretensão de infalibilidade.

  As restrições à divulgação, antes de ser uma chancela à censura, como afirma o jornal Folha de São Paulo, significam assegurar um mínimo de igualdade de condições nas disputas eleitorais, reduzindo o impacto do efeito Mateus ou atenuar o impacto da lei do mais forte, produzido pela divulgação das pesquisas eleitorais. Seria, por assim dizer, excluir as pesquisas da condição de contribuintes com o quadro das  desigualdades eleitorais, apontadas pela Folha de São Paulo (em  05/11/98,1-2).

Um argumento utilizado para a defesa do uso irrestrito do direito de divulgar poderia ser resumida a essa pergunta: por que só os políticos poderiam ter acesso privilegiado aos resultados das pesquisas eleitorais, condenando as massas a votar no escuro? Uma resposta, para realçar as razões, sem dúvida exageradas a essa pergunta poderia ser: pelas mesmas razões por que não são revelados a todos os operários os segredos tecnológicos de um produto ou não é revelado a todos os generais e aos oficiais das forças armadas americanas ou russas o código secreto do arsenal atômico. A rigor, há em tudo, quase sempre, mais sombra do que luz, há quase sempre mais ocultamento, desinformação e/ou falta de informação do que transparência e pleno conhecimento.

Quando os institutos e os meios de comunicação, por exemplo, querem fazer crer que as pesquisas são neutras, na prática, com informações ou com palestras para explicar que as pesquisas não influenciam o resultado de eleições, como proposto na Câmara dos Deputados (www.Oglobo.com/br/politica, 13/11/98), estão encobrindo mais do que revelando sobre a natureza das pesquisas eleitorais. A rigor, a necessidade de tais palestras é indicadora do seu contrário.

Na prática, a defesa incondicional do direito de divulgar em todos os contextos os resultados das pesquisas eleitorais parte do pressuposto de que os eleitores têm grau de instrução e acesso igual às informações. No entanto, uma olhada sobre as estatísticas de instrução escolar e de renda parecem ser indicadora do contrário. Trata-se não de considerar o eleitor vítima ou mero objeto da propaganda (Folha de São Paulo, 05/11/98, 1-2), mas reconhecer que o mesmo não é imune à desigualdade na massa publicitária (idem). Admitindo-se que os resultados de pesquisas eleitorais são ou cumprem mais do que o papel de informação, podendo também assumir função de propaganda respaldada em percentuais, é possível que a conclusão da Folha de São Paulo sobre o direito irrestrito sofra alguma revisão.

Um outro pressuposto é que o eleitor, não fossem as pesquisas divulgadas, votaria no escuro ou às cegas, utilizando expressão de Otávio Frias Filho(Folha de São Paulo, 08-10-98,1-2).  Esse pressuposto também é falso. O eleitor conversa com seus vizinhos, colegas e amigos em diferentes ambientes. Essas conversas, ainda que limitadas, dão ao eleitor uma idéia vaga do que está acontecendo. Ele ouve falar sobre os candidatos e até pode assistir ao Horário Eleitoral Gratuito ou estar presente em um comício. É também por essa razão que, não raro, os políticos demandam uma questão nas pesquisas: quem vai ganhar? O eleitor tem uma noção que se aproxima bastante do quadro de intenções de voto, embora essa questão específica reflita sobretudo o volume de propaganda. Uma segunda fonte de luz para o eleitor não votar no escuro são as pesquisas divulgadas até dois dias antes das eleições, ou seja, até o último dia de campanha política. Acredita-se que essas luzes são suficientes para o eleitor pensar e, livre do assédio de luzes de última hora e fora de contexto de campanha e de embate eleitoral, votar.   A rigor, esse é o ponto crucial. No curto  período de tempo após o término da campanha eleitoral, por se caracterizar em um contexto de não livre discussão pública de idéias e fatos, as pesquisas divulgadas acabam por lançar luz demais e focalizada sobre o eleitor, fazendo crescer nele o risco de  ofuscamento, ainda que não se possa afirmar que o mesmo seja reduzido a vítima ou a mero objeto. O risco, em razão do exposto, talvez não seja tanto o de votar no escuro, mas votar ofuscado por holofotes que não podem ser contestados pelas candidaturas que não aparecem bem nas pesquisas. Esses focalizam desigualmente as candidaturas, privilegiando o primeiro ou os primeiros, dependendo do caso, e  colocando os últimos como definitivamente fora do páreo, contribuindo para a migração de votos e a apatia dessas candidaturas e de seus eleitores de coração.

Expostas as duas perspectivas ou interpretações das pesquisas eleitorais e seus principais argumentos, no propósito de elucidar a realidade das pesquisas eleitorais, serão explicitados alguns pressupostos e conceitos.

 

3. Pressupostos e conceitos:

  3.1 - Todo processo eleitoral é singular, único. 

  Ao contrário da realidade no campo da natureza física, a realidade social, em que se situam as pesquisas eleitorais, é singular, única, não sendo possível sua repetição nos moldes de um experimento físico. Há um fato que às vezes ocorre e é utilizado como argumento a favor da não influência das pesquisas eleitorais: mesmo com pesquisa mostrando tendência numa direção, não raro, outra candidatura supera expectativas, vencendo ou  saindo-se melhor do que o previsto. Desse fato, deriva-se, apressada e superficialmente, a seguinte conclusão: as pesquisas não influem. Observa-se, primeiramente, que a influência é relativa, no sentido de que atinge de várias formas e com diferente intensidade o eleitor. Ela tende a ser absoluta apenas para uma categoria de eleitores, os que votam ganhador ou para não perder o voto. A rigor, no caso do fato acima referido, não fossem as pesquisas, o desempenho poderia ter sido bem melhor do que o observado. Sendo assim, o correto seria dizer: mesmo contra as pesquisas, a candidatura saiu-se bem.

  Nessas situações, se os resultados divulgados pelas pesquisas fossem outros, nunca saberíamos a resultante em termos de voto.  Provavelmente, o desempenho desse candidato subestimado pela divulgação das pesquisas seria bem melhor do que o observado.

  A singularidade de todos os processos eleitorais inviabiliza o recurso a esse argumento. Em sendo usado, deveria sê-lo no sentido oposto, ou seja, o da influência, já que contra o processo de subestimação, logrou desempenho melhor do que o atribuído pelas pesquisas.

 

  3.2 – Significado dos resultados de pesquisas eleitorais:

  É aqui importante refletir sobre o significado dos resultados de pesquisas eleitorais. Não há um significado único. As pesquisas assumem diferentes significações e desempenham funções diversas. Ignorar as diferentes significações é empobrecer a realidade. Dentre as principais significações, destacam-se:

a) As pesquisas são feitas para captar momentos de um processo, são retratos. Uma sucessão de retratos pode apontar uma direção, pode antecipar tendências. Todavia, trazem consigo a probabilidade, ainda que pequena, de erro. As pesquisas são tentativas de aproximação da realidade, aproximações, não a realidade. Por essa razão, apresentam sempre erro amostral e intervalo de confiança.

b) As pesquisas também se constituem ou cumprem a função de formação de opinião ou, em outras palavras, influenciam, não são neutras. Isto não significa dizer que são condenáveis. Ao contrário, como argumenta a Folha de São Paulo ou o Diretor-Executivo do Datafolha entre outros, por exemplo, cumprem importante papel no processo eleitoral.  

  Na perspectiva dos candidatos e dos profissionais de marketing, os resultados das pesquisas eleitorais são informações especiais, de singular importância no processo eleitoral. Sendo assim,

  c) assumem funções de ferramenta útil ao planejamento e para a tomada de decisões, estratégias e ações de campanha e, também,

d) podem se constituir em peças de propaganda eleitoral.

  Em resumo, são informações, e como toda informação dotada de relevância, são tomadas em consideração e podem influir. Nesse sentido, são informações com potencial de propaganda, que pode ser realizada em determinadas situações.

  Na perspectiva dos eleitores, os resultados das pesquisas são informações úteis, mas em graus variados, como mostra, por exemplo, estudo de Márcia C. Nunes,  Örjan Olsén e Joseph Straubhaar, no artigo O uso de pesquisas eleitorais em decisões de voto, publicado pela revista especializada em pesquisas de opinião, Opinião Pública[4] (CESOP/ UNICAMP, Campinas, SP, Ano I, dez./93, Vol.1, nº 2, pp. 63-75. 

  São informações que sintetizam situações complexas. Sintetizam, em percentuais de fácil entendimento, a resultante em intenções de voto, um quadro de ações e estratégias das diferentes candidaturas. Em série, revelam tendências, a evolução do processo.

  São sínteses numéricas que têm a pretensão de conter a verdade das urnas, antecipando-a pela expressão “se a eleição fosse hoje...”, que poderia ser assim interpretada “mantendo-se tudo como está, esse será o resultado das eleições”.  Essa é a verdade de que são portadoras e nisso reside o potencial enquanto peças de propaganda, ainda que sejam apresentadas pelos meios de comunicação como informação disputando espaço com um mundo de outras.

  No entanto, uma vez publicadas, e conhecido o quadro, quem não é o primeiro redefinirá estratégia e tentará, dentro das regras do jogo democrático, por todos os meios ao seu alcance, reverter a situação. Já quem está na frente, tentará manter-se ou mesmo ampliar vantagem, ficando atento aos sinais vindos de seus adversários. As estratégias e as ações das diferentes candidaturas tendem a levar em conta a situação revelada pelas pesquisas, que desempenham papel, aqui, de sinalizadoras do grau de acerto das estratégias e das ações empreendidas. Nesse sentido, não se participa do ponto de vista de que a pesquisa é uma fonte de informação como qualquer outra (Figueiredo, 1994).

  3.3 - Diferentes significações assumidas pelas pesquisas eleitorais:

  Metodologicamente, as pesquisas eleitorais, ainda que hajam nuanças técnicas ou metodológicas, no essencial,  não variam ao longo do processo eleitoral, tampouco de instituto para instituto. No entanto, o contexto no qual as pesquisas são realizadas e divulgadas varia significativamente.

  Em razão das mudanças de contexto, as pesquisas eleitorais ao longo do processo eleitoral, ainda que metodologicamente não mudem no essencial,  assumem significações e funções bastante diversas. Há três significações e funções distintas, nítidas: duas significações que emergem na divulgação das pesquisas pré-voto, configuradas pelas pesquisas divulgadas antes das eleições, e uma significação é pós-voto, configurada pelas pesquisas boca de urna.

  3.3.1 - Das pesquisas boca de urna

  As pesquisas boca de urna são pós-voto. Da perspectiva da influência na decisão do eleitor, nada significam, são natimortas.

No entanto, desempenham três funções importantes no contexto desta discussão:

a) antecipam em algumas horas os prováveis resultados das eleições, sendo essa a função manifesta;

b) os institutos, via de regra, utilizam os seus resultados como fontes de legitimação e de credibilidade das suas pesquisas. Seguramente, essa é a sua função principal. Na prática, funcionam como poderoso instrumento de salvaguardamento da imagem dos institutos. A propósito, é raro ver institutos fazerem como o Brasmarket no segundo turno das últimas eleições, que confrontou os resultados de sua última pesquisa pré-eleitoral, publicada pela revista Isto É, no dia 24, com o resultado das urnas (Isto É, 1518, 4/11/98, p.37).

c) com a massificação dos seus resultados e seu confronto com o resultado das urnas, o eleitor perde de vista o desempenho dos institutos no período pré-voto. Dessa forma, o foco do problema deixa de ser a influência e passa a ser apenas o erro das pesquisas que, na pesquisa de boca de urna, via de regra, tende a ser menor. Esse processo de deslocamento dos resultados pré-voto para os resultados de boca de urna operam o estratagema de desfocar a discussão da divulgação das pesquisas eleitorais do problema ético e político para o problema da exatidão ou do erro metodológico, derivando daí o discurso da neutralidade e do direito (elevado à condição de monopólio, irrestrito, absoluto) de divulgação pelos meios de comunicação. Reforça-se no eleitor, em resumo,  uma imagem ou a mencionada pretensão de infalibilidade das pesquisas eleitorais.   

  Essas são, na prática, as funções desempenhadas pelas pesquisas boca de urna.  Graças a sua utilização, descontextualiza-se a discussão sobre uma possível influência indevida, passando-se do problema ético-político ao problema do erro metodológico, abrindo caminho para os argumentos de sua neutralidade e do direito ilimitado à sua divulgação e à interpretação como imposição de censura, demagogia ou autoritarismo qualquer limitação desse direito. E, uma vez elevadas, as pesquisas boca de urna, à condição de referência para o desempenho dos institutos, pelo menor erro, via de regra, cometido nelas, melhora-se as condições de legitimação dos institutos.

3.3.2 - Das pesquisas pré-voto 

  Aqui, há duas situações ou significações que as pesquisas podem assumir:

a) até dois dias antes das eleições, ou seja, até o último dia de campanha eleitoral. Nesse período, seus resultados competem no livre jogo das influências, próprio das campanhas.

b) no período entre o término da campanha eleitoral e o dia da eleição, incluindo-o. Nesse curto espaço de tempo, a divulgação de resultados de pesquisas eleitorais não pode ser contestada e joga livre, absoluta enquanto informação.

a) Das pesquisas divulgadas até o término da campanha: a sua divulgação é eticamente aceitável, pela razão de que o eleitor tem o direito de ser informado sobre as perspectivas das diferentes candidaturas, podendo, se assim o desejar, pautar sua decisão, combinando  afinidade com algum pragmatismo, sendo essa a conotação dada pelo Datafolha e Folha de São Paulo, como sustentam o cientista político Renato Lessa, do IUPERJ, e o doutorando em Ciência Política na Unicamp, Carlos Novaes. Aqui, é concorda-se com o discurso da Folha quando afirma que a democracia implica confronto de influências, de idéias e informações (Folha de São Paulo, 9/11/98, 1-3) ou de que o processo eleitoral numa democracia consiste em multiplicar “influências”, como afirma Otávio Frias Filho (Folha de São Paulo, 08-10-98, 1-2). A divulgação situa-se num contexto de campanha, de livre discussão, de questionamento  e de contestação.

As pesquisas no período imediatamente anterior ao do Horário Eleitoral Gratuito, bem como as  que ocorrem muito antes, há um ano ou mais da eleição, por exemplo, tendem a cumprir funções de subsídio à tomada de decisões quanto a uma possível participação no processo político, subsídio a um planejamento, bem como podem ser utilizadas como peças de propaganda ou formação de opinião. Já no contexto de campanha, até dois dias antes das eleições, a realização e divulgação de pesquisas constituem parte do jogo democrático, cumprem, e em parte reduzem o efeito da propaganda de situação eleitoral sem aderência à realidade. Nas palavras de Luís Francisco de Carvalho Filho, institutos de pesquisas independentes, além de informar, exercem uma função civilizatória. Sem eles, a manipulação por parte dos candidatos seria ilimitada (Folha de São Paulo, 8/10/98, 1-3). Enfim, as pesquisas são uma conquista da sociedade e devem ser preservadas. 

b) Das pesquisas após o término da campanha até o dia da eleição, incluindo-o:  essas funcionam, na prática, como uma continuação da campanha eleitoral por outros meios, independentemente da intencionalidade dos realizadores e veiculadores das mesmas.  O seu efeito, aqui, pelo contexto marcado pela ausência de quem as conteste, tende a ser mais forte. Aqui, o direito dos meios de comunicação de informar assume contornos de uso monopolizado do direito, já que os candidatos prejudicados não dispõem de meios capazes

de neutralizar esse tipo de efeito.  Portanto, a divulgação das pesquisas no período de campanha e nesse curto espaço entre o término da campanha e o ato do voto tem significações bem diferentes, pela diferenças dos contextos.

 

3.3.4 - Da influência das pesquisas eleitorais 

Ronald Kuntz, diretor do Brasmarket, afirma que uma pesquisa que mostra um candidato mal posicionado pode levar os financiadores da campanha a investir menos, ou levar as bases políticas, como prefeitos e correligionários, a reavaliar seus apoios (Isto É, 1548,4/11/98,p.37)[5]. A questão, como afirma o professor de História da Unicamp, Marco Aurélio Garcia,  é a de saber se as pesquisas são instrumentos de aferição da opinião pública ou, ao contrário, se elas se transformaram em meios de (des)constituição dessa opinião pública, sendo o principal problema o impacto no resultado das eleições (Folha de São Paulo, 13/10/98, 1-3). Para o jornalista Cláudio Weber Abramo, a questão é a mídia, pois as práticas brasileiras, baseadas na credulidade do público, favorecem a manipulação mais deslavada e isso seria feito, na grande imprensa, não alterando números, mas enfatizando o que interessa e suprimindo o que não interessa (Folha de São Paulo, 13/10/98,1-3).

Walter Ceneviva, que assina a coluna Letras Jurídicas, da Folha de São Paulo, reconhece que apesar da Constituição garantir o direito de realizar e divulgar pesquisas,  a liberdade constitucional não é absoluta, podendo a lei impor limites (Folha de São Paulo, 31/10/98, 3-2), sendo essa decisão compartilhada também por Janio de Freitas (Folha de São Paulo, 08-10-98, 1-5). No entanto, parte do pressuposto de que as pesquisas sérias constatam ou desvendam a realidade subjacente, não criam o fato, ou seja, são mero reflexo da realidade. Sendo assim, a questão passa pela qualidade e pela seriedade dos institutos e essa seria revelada pelo desempenho dos mesmos. Contudo, aponta um outro elemento positivo das pesquisas, que seria  o fato dessas,  além de revelar preferências, detectam rejeições, ou seja, criam o fato. Para ilustrar, o autor cita o caso de Maluf,  no segundo turno da última eleição, em São Paulo, na qual a rejeição foi constatada pelas pesquisas, cuja credibilidade, para definir apoio ou oposição, justifica sua preservação pelo direito (Idem). Nessa mesma trilha, o diretor-geral do Datafolha, Mauro Francisco Paulino, aposta na independência do Datafolha como argumento para a publicação irrestrita de suas pesquisas. Nas suas palavras, o Datafolha só faz pesquisas de opinião e eleitorais para veículos de comunicação e os obriga, por contrato, a divulgá-las sem restrições. Toda informação que o Datafolha colhe na população é devolvida a ela como notícia (Folha de São Paulo, 5/11/98, 1-3). Paulino afirmou que esse instituto  não se limitou a apurar a intenção de voto. Usou diversas técnicas para explicar as mudanças conjunturais e ajudar o eleitor a compreender diferentes aspectos do processo eleitoral (idem). Para Paulino, a questão se resume à independência, imparcialidade e transparência do trabalho dos institutos. Para Otávio Frias Filho, divulgar pesquisas é levar ao cidadão informação relevante que lhe permita formar decisões (Folha de São Paulo, 08-10-98, 1-2).

Essa posição é louvável não só pela linha política, mas sobretudo porque assume a influência dos resultados das pesquisas eleitorais divulgadas. No entanto, há um curto período, após a campanha e o exercício do voto, em que a divulgação é ética e politicamente problemática.  Mesmo participando da opinião de que valores como imparcialidade, transparência e independência são cruciais nessa atividade que sobrevive da credibilidade pública,   é discutível o uso monopolizado do direito às custas da igualdade de condições das diferentes candidaturas. Essa igualdade (mínima) de condições está sendo sacrificada no altar do direito de liberdade de expressão absolutizado, pelo não reconhecimento dos contextos substancialmente diferentes em que as pesquisas são divulgadas, anteriomente explicitados. Isto posto, a principal diferença em relação à posição, por exemplo,  da  Folha de São Paulo ou do Datafolha acontece no período entre o término da campanha eleitoral propriamente dita e a eleição e se resume ao reconhecimento de diferenças de contextos: divulgação na campanha e quando essas são proibidas pela Lei Eleitoral. Há uma outra discordância e essa diz respeito ao uso da pesquisa boca de urna como referência para legitimação do desempenho do instituto. Essas diferenças parecem expressivas.

Quanto aos eleitores, esses podem ser afetados em graus variados:

a) apenas induzindo a apatia em eleitores que sentem que seu candidato não tem chances, como foi detectado em trabalho anterior[6].

b) induzindo a alguma forma de voto útil (útil, obviamente, para uns às custas de outros), combinando afinidade com algum pragmatismo;

c) até tomando das pesquisas sua decisão, pela razão de não perder o voto. É esse último o eleitor mais susceptível ao poder da divulgação dos resultados de pesquisas eleitorais. O alcance desse voto está associado ao grau de pobreza cultural. As estatísticas sobre escolaridade da população eleitora, por exemplo, mostram o alcance dessa razão de votar.

A influência das pesquisas é desigual nos eleitores, variando de decisiva  para um segmento de eleitores, indutora do voto útil para outro, a causadora de uma maior apatia em outro, sem nenhuma influência em seu voto, no entanto. Em suma, essa influência pode ser traduzida nas expressões efeito Mateus ou a lei do mais forte, na medida em que dá mais a quem mais tem, tirando de quem tem menos ou pouco tem.

3.3.4.1 - Do direito de informar: no fundo, utilizar o argumento da neutralidade absoluta, não diferenciando contextos, como vem sendo feito, é querer assegurar o uso monopolizado do direito. Assim como há o direito de informar, também há o direito de igualdade de condições, de não interferência de fatores externos nas  campanhas e nos destinos de uma eleição. Esse monopólio não parece ser bom para a democracia, como nenhum monopólio o é. É preciso, também, respeitar o direito do cidadão de refletir sobre o que foi a campanha e escolher livremente, sem o concurso de uma campanha por outros meios, após o período de campanha propriamente dito.

Da perspectiva dos meios de comunicação, é preciso não perder de vista que  há, no mínimo, o interesse mercantil, traduzido num aumento da audiência ou da venda de jornais.  A propósito dos meios de comunicação, note-se que os resultados das pesquisas eleitorais tendem a ganhar as principais manchetes, os espaços nobres. Caberia aqui uma pergunta: qual é o princípio-mor que comanda o espaço que deve ocupar cada notícia num veículo de comunicação?. Se as pesquisas fossem neutras, seriam inúteis da perspectiva do impacto e da sua influência. Jornais, revistas e programas noticiosos, na perspectiva de sua linha editorial e de seus interesses, não costumam colocar manchetes insossas, desinteressantes.  É a capacidade de impactar que conta. Decididamente, as pesquisas impactam, embora nem todo impacto seja condenável e é por essa razão que ocupam espaço privilegiado.

Portanto, para resumir esse tópico, das significações e funções assumidas pelas pesquisas, as pesquisas boca de urna, como pesquisas pós-voto, são natimortas na perspectiva de sua influência na decisão do eleitor. As pesquisas que acontecem no contexto em que é vedado aos candidatos atos de campanha política, até 48 horas antes do dia das eleições e no dia das eleições,  configuram-se como uma continuação da campanha eleitoral por outros meios  e um uso abusivo do direito de informar. Já as pesquisas anteriores, situadas num contexto de livre discussão e de campanha eleitoral, são eticamente aceitáveis e já fazem parte da tradição política brasileira.

 

4 - As exigências legais para divulgação são essencialmente peças burocráticas, cartoriais, repetindo-se de pesquisa em pesquisa

Como estão hoje, as exigências legais são, a rigor, peças burocráticas, cartoriais, que são encaminhadas por cada pesquisa à Justiça Eleitoral, com algumas atualizações, do tipo: período de realização, por exemplo. As demais informações, como: valor, contratante, erro amostral, questionário, praticamente, na maior parte dos casos, é repetição. Cabe a Justiça Eleitoral por um carimbo, sem maiores implicações. A Lei hoje exige que o registro aconteça cinco dias antes da divulgação. Como as pesquisas são realizadas também  a um ou dois dias da eleição, o registro é feito anteriormente, a partir de um plano de pesquisa. Ocorre que nem sempre a realização coincide com o plano. Na prática, o que se está registrando não é a pesquisa, mas um plano de pesquisa, que poderia ter sido elaborado, por exemplo, muito tempo antes de sua realização. Esse fato explicita o caráter cartorial do registro das pesquisas.

A Justiça Eleitoral não exige, dada sua formatação,  a tempo, o que mais interessa a quem duvide das pesquisas. Por uma razão muito simples: o tempo costuma ser demasiadamente longo para a obtenção dessas informações e quando são obtidas, há uma nova pesquisa na mídia, obsoletizando a informação da anterior, ou a eleição já aconteceu. Nesse sentido, acreditar, como Novaes (Folha de São Paulo, 10/10/98, 1-3), que os mecanismos já adotados pela Justiça Eleitoral são suficientes é subestimar a complexidade desse problema.

 

5 - Propostas para o(s) problema(s) da divulgação das pesquisas

Diante do exposto, já não é possível se falar em apenas uma ordem de problemas decorrente do desempenho dos institutos de pesquisas nas últimas eleições e sua divulgação. Há pelo menos problemas de duas ordens: um problema de ordem técnico-metodológica e outro de ordem ético-política.

 

5.1 - Soluções propostas para os problemas de cunho técnico-metodológico, ou seja,       para o problema do erro: 

a) Estímulo à concorrência.  A concorrência entre diversos institutos é apontada como solução por muitos, como Renato Lessa, (Folha de São Paulo, 18/10/98,1-3), Carvalho Filho (Folha de São Paulo, 8/10/98,1-3), Paulino (Folha de São Paulo, 5/11/98, 1-3) entre outros, e é desejável e deve ser estimulada. No entanto, na prática, a concorrência pode se revelar insuficiente. Nessa última eleição, no segundo turno, em São Paulo, o Datafolha divulgou uma pesquisa dando conta de uma virada expressiva de Mário Covas sobre Paulo Maluf. O IBOPE iria divulgar outra pesquisa mostrando um quadro oposto. Dado o fato, o IBOPE recuou, não divulgando os resultados ainda pró-Maluf, tendo isso motivado reações, como por exemplo, a do senador Antônio Carlos Magalhães. Há um outro fato: uma coisa é ter concorrência ao nível de realização de pesquisas de intenção de voto. Outra coisa é fazer com que o Jornal Nacional, da Rede Globo, por exemplo, as divulgue. Como fazer com que uma empresa privada, ainda que concessão pública, não privilegie alguns institutos em detrimento de outros? De qualquer forma, o princípio da concorrência é saudável.

Na prática, essa solução, que é boa, tem limitações. Renato Lessa, ainda na perspectiva da concorrência, enquanto dirigente de um instituto acadêmico, propõe a realização por centros universitários de excelência de pesquisas eleitorais (Folha de São Paulo, 18/10/98, 1-3).  Aparentemente, essa é uma boa saída, ainda que o cientista em pauta contextualize o problema na dimensão da integridade metodológica das pesquisas e não vê já maiores problemas na influência das pesquisas, na decisão do eleitor combinando afinidade e pragmatismo, ignorando os diferentes contextos do processo eleitoral. Mesmo tendo como foco apenas a dimensão erro, na prática, a saída proposta parte de um pressuposto falho: o de que os centros universitários de excelência são imunes ao erro. Esses têm grande experiência na análise de resultados e do quadro político-eleitoral, mas não têm grande experiência na realização de pesquisas eleitorais. Seguramente, o mercado não necessita dessa saída. Ainda há o problema de quem iria financiá-las.

b) Pesquisas independentes. Walter Ceneviva, da Folha de São Paulo, distingue entre pesquisas informativas do público e pesquisas vendidas aos partidos ou aos candidatos (Folha de São Paulo, 31/10/98, 3-2), sendo as primeiras pesquisas sérias e as últimas teriam um pecado original, ou seja, sua vinculação com partidos ou com candidatos[7]. Essas distinções, todavia, metodologicamente não se sustentam. Não é o destinatário que faz uma pesquisa ser mais ou menos séria. A avaliação sobre a qualidade e correção de uma pesquisa é sempre a posteriori,  após a eleição. Até a apuração das urnas, não há como sustentar a correção e a qualidade de uma pesquisa. A história de um instituto, sem dúvida, é muito importante, mas não assegura necessariamente o futuro.  Além do mais, há que se observar que a pesquisa como referência para atestar essa qualidade tende a ser, via de regra,  a de boca de urna, que é uma pesquisa natimorta da perspectiva da sua influência sobre a decisão do eleitor  no ato do voto e não deveria ser utilizada para esse fim.

c) Pesquisas para não mais de um cliente. Dentre as soluções aventadas, destaca-se, ainda, a proposta de que um instituto não poderia prestar serviços de  pesquisa a mais de um cliente. Esta proposta parte do pressuposto de que, nesse caso, alguém sairia prejudicado. Todavia, metodologicamente, não faz sentido essa restrição.  Essa proposta decorre da pressuposição de que quem faz pesquisa também exerce a função de conselheiro político. Nesse sentido, o problema radica-se no fato de que institutos podem estar ultrapassando a função pesquisa, ocupando o lugar e o papel desempenhado pelos profissionais de marketing. Quando o instituto de pesquisa se limita ao o que revela a realidade e deixa a outros profissionais o como mudar ou o que fazer com os dados para interferir no curso dos fatos, esse problema deixa de existir.

d) Manual de interpretação dos resultados e padronização das margens de erro das

pesquisas. Essa proposta apresentada por alguns diretores de institutos quando convocados para dar explicações na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados (www.Oglobo.como.br/política, 13/11/98),  parece ter limitações práticas. A padronização é um problema do cliente de uma pesquisa, que é quem vai pagar e deve decidir sobre qual o erro amostral que está disposto a aceitar, já que pontos a mais ou a menos no erro implicam custos. O ponto de equilíbrio entre o quanto está disposto a investir numa pesquisa e o erro a que essa decisão implicará é um problema do cliente. Nesse sentido, a padronização precisa ser acordada, não imposta. Quanto ao manual, já há os Códigos de Ética das Associações de pesquisa de mercado, como ABIPEME, ANEP, ESOMAR. Os dados apresentados são suficientemente claros e o eleitor não tem problemas em entendê-los. O problema está em quem divulga as pesquisas que nem sempre enfatiza as circunstâncias dos resultados divulgados e sua significação, como, por exemplo, o período de realização das pesquisas ou a questão formulada. Essas informações já constam nos relatórios de pesquisa elaborados pelos institutos. Na prática,  são limitadas as perspectivas desse manual.

e) realização de palestras  para explicar que as pesquisas não influenciam o resultado de eleições (www.Oglobo.com.br/política, 13/11/98).  Essa é a posição de institutos enquanto corporação. Como foi exposto anteriormente, não é a posição de diretores de institutos individualmente, pelo menos em seus artigos jornalísticos. Essas palestras, pelas razões expostas, em sendo necessárias, deveriam ser realizadas com propósito oposto, para que o eleitor valorize as pesquisas em seus méritos reais e não as tome como verdades imunes ao erro, ou seja, para que o eleitor neutralize a internalização pelo eleitor da, porque não dizer compreensível,  pretensão de infalibilidade dos institutos, não inibindo a reflexão do eleitor. Essa proposta é expressão pura do corporativismo.

5.1 – O Problemas de cunho ético-político:

O problema ético-político das pesquisas e de sua divulgação situa-se na internalização, pelo eleitor e também pelos candidatos e seus assessores, da pretensão de infalibilidade das pesquisas, tendo na massificação pelos institutos dos resultados das pesquisas de boca de urna como legitimadoras do seu desempenho um fator importante desse processo.

Nessa perspectiva, o grau real de exatidão das pesquisas é secundário. Para ser mais preciso, a explicitação da vulnerabilidade, portanto, do erro, é o antídoto capaz de neutralizar essa tendência.

5.1.1 – Uma não-solução  para os problemas de cunho ético-político:

- proibição da divulgação das pesquisas.  Essa posição extremada não faz sentido. As pesquisas já foram incorporadas à cultura política brasileira. Exercem influência e, salvo circunstâncias, essa é benéfica à sociedade. A questão é definir melhor os limites.

Isso é possível de ser atingido adotando-se algumas medidas pela Justiça Eleitoral, sem prejuízo de outras soluções, como, por exemplo, o estímulo à concorrência na realização, mas sobretudo na divulgação dos resultados das pesquisas.

5.1.2 – Uma solução  para os problemas de cunho ético-político: divulgação com            restrições.

Nesse sentido, caberia à Justiça Eleitoral, antes das eleições:

a) exigir que junto com o registro das pesquisas também sejam anexados os resultados eleitorais das mesmas, para que o objeto do registro seja efetivamente as pesquisas e não planos de pesquisa.  O registro passaria, desse modo, a ter conteúdo, superando a sua atual função cartorial ou burocrática;

b)  vetar a divulgação de pesquisa após o término da campanha eleitoral, ou seja, a partir de 48 horas antes do dia da eleição até o fechamento das urnas. Isso asseguraria um mínimo de igualdade de condições pós-campanha eleitoral. Noutras palavras, por que a Justiça Eleitoral determina um término das campanhas eleitorais e, nesse curto espaço de tempo e contexto de não livre discussão de idéias, quando todos por Lei devem calar, candidaturas são beneficiadas e outras prejudicadas por um fator externo e fora de controle dos candidatos e dos partidos?.

Caberia à  Justiça Eleitoral, depois das eleições:

- tornar público, nos meios de comunicação, como etapa necessária e sua função inalienável, o confronto entre o desempenho da última pesquisa registrada (em seu domínio) e as urnas, explicitando as diferenças. O argumento de que o quadro muda após dias será facilmente aceito pelos cidadãos, já que as pesquisas são um retrato de um momento do processo. Decorrem disso duas conseqüências, o eleitor perceberá com maior clareza a natureza das pesquisas, reduzindo o grau de internalização da pretensão de infalibilidade das mesmas e os institutos com melhor desempenho, sem lançar mão do artifício da pesquisa boca de urna, poderão se afirmar por mérito real no mercado das pesquisas. Portanto, não parece haver o risco de  um instituto ser prejudicado em sua imagem se  tiver  realizado uma única pesquisa e essa tiver acontecido um mês antes e na eleição, essa não for confirmada. Isto provará que a realidade é dinâmica e que não se pode tornar definitivo um retrato que captou um dado momento do processo. A rigor, o eleitor não deverá condenar o instituto pela mudança da realidade. Quando todos os eleitores incorporarem essa cultura, as pesquisas ganharão relevância como reflexos de momentos da realidade e perderão força como peças de propaganda a serviço de candidaturas. Num contexto como esse, sua divulgação perde ser caráter de influência indevida.

Acredita-se que explicitando e propondo alternativas de neutralização do que aqui se denominou de internalização do eleitor da pretensão de infalibilidade das pesquisas,  de alguma forma, se está reforçando os propósitos como os da Declaração de Porto Alegre, expressada pelo Colégio de Presidentes dos Conselhos Seccionais da OAB, reunido em Porto Alegre, no período de 07 a 09 de outubro de 1998, em seu ponto primeiro:

- A utilização de pesquisas eleitorais como instrumento de publicidade enganosa em proveito de qualquer candidato, por violentar a livre manifestação do voto, representa um desserviço à plenitude democrática do Estado Brasileiro.

6 - Referências Bibliográficas

ABRAMO, Cláudio Weber.  Besteirol eleitoral.  In Folha de São Paulo, 13-10-98, 1-3.        

CASTRO, Reginaldo.  Não proibir, mas regulamentar.  In Folha de São Paulo, 10-10-98, 1-3.        

CENEVITA, Walter.  Credibilidade das pesquisas.  In Folha de São Paulo, 31-10-98, 3-2.

CARVALHO FILHO, Luís Francisco.  As pesquisas e a democracia.  In Folha de São

      Paulo, 08-10-98, 1-3.        

FOLHA DE SÃO PAULO.  A CPI das pesquisas. In Folha de São Paulo, 09-11-98, 1-2.

FOLHA DE SÃO PAULO.  Desigualdade eleitoral.. In Folha de São Paulo, 05-11-98, 1-2.

FOLHA DE SÃO PAULO.  Eleições: Diretores falam a deputados; Institutos propõem

      manual de pesquisa.  In Folha de São Paulo, 12-11-98, 1-13.

FRIAS FILHO, Otávio.  Golpe contra as pesquisas.   In Folha de São Paulo, 08-10-98,

     1-2.

GARCIA,  Marco Aurélio.  Distorções na eleição e no segundo turno. In Folha de São

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FREITAS, Janio. Pesquisas outra vez. In Folha de São Paulo, 08-10-98, 1-5.      

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      executivos e a reeleição. In Anais do IV Seminário de Pesquisa da UESC. pp. 94-108.

      Dezembro de 1996. Ilhéus:Editus.  1998.

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www.oglobo.com.br/politica. Institutos de pesquisa mudam para melhorar.  13-11-98.

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PAULINO, Mauro Francisco.  O Datafolha nas eleições 98.  In Folha de São Paulo, 05-11

     98, 1-3.        

 

[1] Trabalho apresentado no II Encontro Nacional de Estudos de Comunicação e Política, dia 18 de dezembro de 1998, no Auditório da Faculdade de Comunicação da UFBA, Salvador, Bahia.

[2] Sociólogo, Professor da UESC, Ilhéus, Bahia. www.socio-estatistica.com.br

[3] Artigo Divulgação de pesquisas eleitorais e decisão do eleitor.  Integrante do II COMPOLÍTICA. Artigo A lógica que comanda processos eleitorais para cargos executivos e a reeleição. Publicado nos Anais do IV Seminário de Pesquisa da UESC, realizado em dezembro de 1996, Ilhéus, Bahia.

[4] A revista especializada em pesquisas de opinião, Opinião Pública, é uma publicação do CESOP/ UNICAMP, Campinas, SP. O artigo em referência foi publicado no Ano I, dez./93, Vol.1, nº 2, pp. 63-75. 

 [5] Se  as pesquisas eleitorais não influíssem, como explicar que até hoje, como sócio-proprietário de uma empresa de pesquisas, não entreguei um único relatório a quem estava bem nas pesquisas sem ver seus olhos brilharem de contentamento, contagiando assessores e militantes?.  Assim como quem estava aquém das expectativas foi tomado por desalento, contagiando seu pessoal mais próximo?. Nesse sentido, as pesquisas tendem a afetar primeiramente a auto-estima e o entusiasmo dos candidatos e de seus militantes.

 [6] Artigo Divulgação de pesquisas eleitorais e decisão do eleitor. Encaminhado para publicação.

  [7] Otávio Frias Filho, no artigo Golpe contra as pesquisas (Folha de São Paulo, 08-10-98, 1-2) assim se refere: É óbvio que os demais institutos, que aceitam fazer pesquisas para políticos, têm  muito menos credibilidade do que o Datafolha, que só faz pesquisa eleitoral para a imprensa.