RESUMO

PESQUISAS ELEITORAIS: INFORMAÇÃO & PROPAGANDA

Por Agenor Gasparetto*

Na última eleição presidencial as pesquisas alcançaram uma evidência, possivelmente, além do recomendável, supondo-se que as pesquisas deveriam trazer à lembrança o desempenho de um juiz em uma partida de futebol. Os debates foram intensos naquele primeiro momento e à medida em que nos distanciamos da eleição, porém, o calor foi se dissipando e, hoje, tudo parece esquecido, até a próxima eleição, talvez.

Esta revista, na edição anterior, publicou um artigo** sobre essa temática, e nesta está sendo retomado de forma esquemática, através de duas figuras.

A Figura 1 explicita o argumento de que apesar das pesquisas metodologicamente não mudarem ao longo de um processo eleitoral, sua significação para o eleitor e as funções que desempenham mudam em razão dos diferentes contextos em que são divulgadas. Ignorar as diferenças de contexto e de significação corresponde a um viés sociológico, não contribuindo para o entendimento da realidade.

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A Figura 2 explicita as principais características das duas grandes perspectivas frente às pesquisas e sua divulgação: a postura técnico-metodológica e a ético-política. Essas posições, todavia, não são excludentes, mas remetem a problemas de ordem diferente.

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Argumentou-se que a questão chave concernente às pesquisas e sua divulgação situa-se no fato de que os eleitores tendem a internalizar uma pretensão de infalibilidade dos institutos, sendo essa reforçada pelos meios de comunicação. Na prática, esse problema consiste no fato de que eleitores tendem a assumir, em graus variados, os resultados das pesquisas como verdade imune ao erro. Essa pretensão de infalibilidade decorre da necessidade dos institutos em reforçarem sistematicamente sua credibilidade, sendo essa ancorada na exatidão dos resultados eleitorais, ou seja, faz parte, ainda que não intencionalmente, da lógica de propaganda e de marketing dos institutos de si mesmos. Aqui, quanto mais sérias parecerem as pesquisas e maior a pobreza cultural do eleitor, maior tende a ser a probabilidade de internalização pelo eleitor de sua pretensão de infalibilidade. Obviamente, essa pretensão é também endossada integralmente pelos meios de comunicação.

As pesquisas são sínteses numéricas de fácil entendimento, que têm a pretensão de conter a verdade das urnas, antecipando-a pela expressão "se a eleição fosse hoje...", que poderia ser assim interpretada "mantendo-se tudo como está, esse será o resultado das eleições". Essa é a verdade de que são portadoras e nisso reside o seu potencial enquanto peças de propaganda.

Uma pesquisa ser portadora dessa mensagem, ao alcance do entendimento de todos, via televisão, tem um significado há um ano da eleição, tem outro a um mês, tem um outro bem diferente na noite que antecede à eleição e tem outra conotação pós-voto, na pesquisa boca de urna, quando desaparece o "se..." e entra o "em quem votou".

Diante do exposto, o artigo encerra fazendo uma análise de soluções propostas e aponta para aquelas que podem contribuir para neutralizar o problema da tendência de internalização pelo eleitor da pretensão de infalibilidade das pesquisas e, também, pelos meios de comunicação que as divulgam.

As soluções ao problema ético-político apontado, (que não elimina o esforço na direção da exatidão e da integridade técnico-metodológica), passam necessariamente pela neutralização dessa tendência e remetem às exigências legais, superando sua dimensão burocrático-cartorial. Entre as medidas, duas seriam de grande alcance: a primeira, que o registro das pesquisas incluísse os resultados eleitorais propriamente ditos, além do plano de pesquisa, hoje objeto do registro. A segunda, o período de divulgação de pesquisas eleitorais coincidir com o término da campanha eleitoral, ou seja, encerrar dois dias antes da eleição, já que esse é o período em que a divulgação é crítica, pois acaba se constituindo numa campanha por outros meios, mesmo que não haja interesse eleitoral direto do instituto e/ou do meio difusor. Uma terceira medida, após as eleições, seria a Justiça Eleitoral tornar público os resultados das pesquisas divulgadas, em seu domínio, e os resultados das urnas.

Decorrem disso duas conseqüências, o eleitor perceberá com maior clareza a natureza das pesquisas, reduzindo o grau de internalização da pretensão de infalibilidade das mesmas e os institutos com melhor desempenho, sem lançar mão do artifício da pesquisa boca de urna, poderão se afirmar por mérito real no mercado das pesquisas.

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*Sociólogo, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC, responsável técnico pela empresa Sócio Estatística, Itabuna, BA, www.socioestatistica.com.br

** Trabalho apresentado no II Encontro de Comunicação e Política, promovido pela Faculdade de comunicação da UFBA, Salvador, BA, em dezembro de 1998.