PERSPECTIVAS DA REGIÃO CACAUEIRA NUMA ECONOMIA GLOBALIZADA1

Agenor Gasparetto2

 

As perspectivas desta região, Cacaueira, Sudeste, Sul da Bahia ou, ainda, centrada em Ilhéus e Itabuna, tem seu futuro condicionado ao que souber fazer com as potencialidades que apresenta e tem grandes dificuldades em realizar.

Para se ter uma idéia disso, basta apenas referir que, do Censo Demográfico de 1991 à Contagem Populacional de 1996, dos 41 municípios da Microrregião Ilhéus-Itabuna, 27 perderam população, incluindo Itabuna e a própria Microrregião de Ilhéus-Itabuna. Esse é um dado revelador da dramaticidade da crise porque passa essa importante região do estado da Bahia.

Nesta região, quaisquer que sejam os indicadores que forem tomados, todos apontam para uma região sub ou mal desenvolvida. Aqui, o surto demográfico e econômico possibilitado pelo cacau não resultou numa economia estável e autosustentada, tampouco numa sociedade desenvolvida. Hoje, trata-se de uma região descapitalizada, com matriz produtiva frágil e simples, praticamente centrada em um produto, e esse em decadência, voltado para o exterior. Apresenta grande dificuldade de geração de oportunidades de negócios, de emprego e renda. Os investimentos acenados para ela são reflexos de incentivos decorrentes da guerra fiscal entre os estados brasileiros, no propósito de atraí-los. Contudo, o indicador mais forte parece ser a perda de população em termos absolutos.

Isto posto, nesta discussão, pretende-se enfatizar a dimensão sócio-cultural desse quadro de crise, que é, via de regra, ofuscada pela dimensão econômica. Aqui, o problema situa-se, de uma perspectiva larga, no âmbito da cultura, e numa perspectiva mais estrita, na baixa capacidade de nossa sociedade em incorporar tecnologias já existentes, mas que não são ainda dominadas, e na insuficiente e deficiente capacidade de empreendimento. Em razão disso, oportunidades em realizar as potencialidades não são realizadas. O caso da agroindústria é ilustrativo: tem-se (ou poder-se-ía ter) matérias-primas, há tentativas, mas os resultados estão muito aquém do desejado e do necessário.

Ressalta-se que a crise porque passa esta região torna-se mais dramática na medida em que a mesma se vincula a um contexto de globalização, numa sociedade exposta frontalmente à competição. Nesse cenário, como assinalou recentemente o professor Juarez Freitas3, o mundo globalizado não será generoso para os despreparados. É ilusão apostar em facilidades, já que a lógica que comanda esse megaprocesso não aponta para uma maior igualdade social e econômica inter e intra-povos. Ao contrário, trata-se de uma dinâmica comandada pelo mercado, mais poderoso que qualquer economia ou país tomado individualmente, sobretudo os que se situam fora do eixo central da economia moderna. O mercado aponta para a concentração de poder e de renda, dada a dimensão tecnológica desse novo ciclo econômico. A exclusão, via desemprego tecnológico, de muitos em benefício de uma elite, parece ser uma das suas principais características.

Retomando, e para melhor explicitar, o problema regional, serão tomados alguns indicadores da área de educação, iniciando pelo indicador alfabetização. Não se trata do neo-conceito que define alfabetizado como aquele que dominaria informática e, para alguns, uma língua estrangeira. Trata-se do conceito clássico: saber ler e interpretar um texto simples.

Nesse particular, as Microrregiões Ilhéus-Itabuna e Porto Seguro têm Percentual de alfabetizados próximo a 54% e na Microrregião de Valença, esse Percentual cai para 42,5%. Na Mesorregião Sul Baiano o Percentual de pessoas com cinco anos e mais alfabetizadas é de aproximadamente 52% contra 59% para o estado da Bahia em seu conjunto. O Percentual de alfabetizados com cinco anos e mais é maior em Itabuna, atingindo 71,8% contra 58,7% em Ilhéus. Observa-se que, na área rural, a taxa de alfabetização é inferior a 50% em todos os municípios, o que faz desse meio também um celeiro de analfabetos. Tomando-se como referência pessoas residentes com 14 anos, as taxas de alfabetização são melhores, atingindo 83% em Itabuna; 80% em Ilhéus; 74% na Microrregião de Porto Seguro; 69% na Microrregião Ilhéus-Itabuna; 58% na Microrregião de Valença, perfazendo para a Mesorregião Sul Baiano um Percentual de 69,5% contra 74% para o conjunto do estado da Bahia. Observa-se que o quadro do Sul da Bahia, no tocante à alfabetização, é inferior ao observado na Bahia em seu conjunto.

As taxas de desempenho produtivo, ou seja, o período de anos necessário para que um aluno, em média, complete as quatro séries iniciais do 1º grau, revela a seletividade do processo de ensino e o fracasso do sistema educacional na Mesorregião Sul da Bahia. Apenas dois municípios da Microrregião Ilhéus-Itabuna levam menos de sete anos, situando-se parte expressiva dos municípios na faixa dos 10 aos 15 anos, para completar, em média, as primeiras quatro séries do primeiro grau. Itabuna leva 8,7 anos e Ilhéus 11,8 anos para completar as quatro séries iniciais. Observa-se que Itabuna é o município que apresenta, de longe, os melhores dados no tocante à educação no Sul da Bahia.

Ratificando a gravidade desse quadro, marcado pela alta seletividade do sistema educacional e social, o índice de sobrevivência mostra que, de cada mil crianças que ingressam no primeiro grau, apenas completam a 4ª série: 403, em Itabuna; 315, em Ilhéus; 499, em Eunápolis; 416, em Itamaraju; 426, em Teixeira de Freitas e 429, em Valença. Esses são os principais centros urbanos da Mesorregião Sul da Bahia e são os municípios com melhor desempenho.

Em outras palavras, em não sendo superado esse problema de base, quando se questionar sobre as perspectivas desta região, estar-se-á diante de um quadro que não apontará para grandes dias num mundo globalizado, a menos que seja a pobreza e a exclusão social e econômica as marcas desse novo mundo. A questão é, portanto, como romper o círculo vicioso do subdesenvolvimento e da pobreza material e cultural.

Aqui, pode ser oportuno observar a estratégia e a experiência de outras sociedades bem sucedidas. E essa experiência mostra que só há futuro naquelas em que a educação escolar foi incorporada e a sociedade, em seu conjunto, foi educada. Nesse ponto, acredita-se, está a principal contribuição desta Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC. Não se trata, todavia, de um trabalho para um mandato político. Trata-se de um empreendimento que demanda pelo menos uma geração, se se for capaz de colocar a sociedade na direção certa.

Está-se dizendo que é preciso criar uma cultura de valorização do estudo, da educação, do mais alto mandatário à mais pobre das famílias. Esse valor precisa ser conquistado e está fazendo falta, fazendo a diferença e, no caso do Sudeste da Bahia, para menos, o que é o pior.

Nesse sentido, enquanto a sociedade como um todo não se der conta e não assumir o compromisso que lhe cabe, o futuro não será muito brilhante, mesmo nas áreas onde o potencial parece sorrir, como na área turística, como se verá adiante.

A superação desse problema de base, sem dúvidas, é possível. Teve-se no passado recente, e tem-se hoje, sociedades que assumiram esse compromisso e provaram e provam que quando há vontade política, quando há determinação, o impossível torna-se possível.

A esse respeito, o mundo assistiu deslumbrado ao excepcional desempenho de crianças asiáticas em testes nas áreas de Ciências e Matemática. Na prova de Ciências, em 21 países, as melhores posições, pela ordem, foram: Cingapura, República Tcheca, Japão e Coréia. Na prova de Matemática, a ordem foi: Cingapura, Coréia, Japão e Hong Kong. O Brasil participou do 1º teste, há cinco anos, e ficou em penúltimo lugar e foi deixado de fora neste último. O excepcional desempenho dos estudantes asiáticos, pensa-se, reflete o valor dado à educação naquelas sociedades.

A Coréia do Sul, no final da década de 50, após 25 anos de ocupação japonesa e de uma guerra civil que dividiu o país em dois, apresentava um quadro desolador.

É bom lembrar, que no início da década de 60, a taxa de alfabetização da Coréia era de 13%. Hoje, é de 98%. A renda per capita era de U$$ 100. Hoje, é de 8.220 (cerca do dobro da brasileira). A Coréia do Sul é um país praticamente sem recursos naturais, do tamanho do Sudeste da Bahia, mas com cerca de 40 milhões de habitantes contra nossos 2 milhões. Obviamente, não se trata de simplesmente copiar, mesmo porque isso não é possível. Tampouco achar que lá tudo está resolvido. Mesmo assim, é preciso incorporar valores e estratégias bem sucedidas, adequando-as à nossa realidade.

Entende-se que, como reflexo desse quadro, há, nesta região, um problema de ordem cultural, básico, e uma insuficiente e/ou deficiente capacidade técnica e gerencial. E para ilustrar esse último, basta constatar que os novos empreendimentos importam todo o primeiro escalão, técnico e administrativo. Mais uma vez, aqui se situa o papel maior da UESC: formar quadros em quantidade necessária e com a qualidade desejada. Para resumir, nessa perspectiva, acredita-se que há em tudo que se está passando, também uma dimensão cultural mal resolvida.

E para finalizar, essas reflexões serão associadas a um caso concreto que, como se disse, brilha no horizonte como potencialidade, mas que teima em ficar ainda distante: o turismo, embora a cada ano um pouco mais próximo.

Pensa-se que o problema do turismo não se circunscreve à infra-estrutura, que é uma condição, sem dúvida, necessária, porém, ao nosso ver, insuficiente. Não bastam bons hotéis, aeroporto, restaurantes e tudo o que compõe o complexo turístico. É preciso uma sociedade educada, preparada, à altura desses investimentos, o que pressupõe, obviamente, vontade política. Do contrário, as perspectivas serão instáveis, sombrias, continuando-se como uma cidade ou região de recursos e pontos turísticos, mas sem ser uma cidade ou uma região que respira e vive o e do turismo. Uma região com altos e baixos, com avanços e recuos, sem a necessária consistência para uma arrancada desenvolvimentista sólida, estável.

As tabelas em anexo revelam a relação do ilheense com o turismo4. Mostram que Ilhéus ainda não possui uma cultura francamente favorável ao turismo, como pode ser observada em outras cidades, como em Porto Seguro, por exemplo.

Concluindo, falta a esta região um pouco de uma Cena em seu cotidiano, em nossa realidade, que as Secretarias de Educação, as autoridades, a população em geral não está conseguindo incorporar e passar. Essa Cena, extraída de um texto da Revista BRASIL EM EXAME, da Coréia do Sul, é a seguinte:

"Depois da aula, o aluno volta para casa com a pasta abarrotada de lições para serem entregues no dia seguinte. Terminado o jantar, retira-se a mesa, apaga-se a televisão e toda a família se reúne em torno do aluno para ajudar na lição"(p.15).

Entende-se que nesta cena se encerra talvez o principal segredo do sucesso coreano e de outros povos emergentes, bem como da força capaz de fazer com que superem suas crises. É essa cultura, essa valorização da educação como passaporte para o futuro, generalizado, que está fazendo falta e faz, seguramente, a diferença. Isto porque se for verdade que o futuro do mundo globalizado não deverá ser generoso para sociedades insuficientemente qualificadas, então o futuro desta região passa necessariamente pela elevação do grau de instrução formal de sua população, em seu conjunto.

 


Referências Bibliográficas

1. Revista Brasil em Exame. Exame. Abril Cultural. 1997.

2. Classificação dos Municípios Baianos: Indicadores Selecionados. V.1 Salvador, BA: SEI/CAR. 1997.

3. Classificação dos Municípios Baianos: Informações Básicas. V.2. Salvador, BA: SEI/CAR. 1997.

4. Sócio Estatística Pesquisas & Consultoria Ltda. Banco de Dados: Pesquisas de Opinião sobre Turismo. 1996/1997.

5. MATOS, Zilney e GASPARETTO, Agenor. A crise da Região Cacaueira. Qual a Saída IESP/Documento-Proposta. Ilhéus, BA. 1991.


Notas

1. Trabalho apresentado no V Encontro Baiano de Geografia e o VII Encontro de Estudos Geográficos da UESC, de 6 a 10 de outubro de 1997. UESC, Ilhéus, BA. 1997. Publicado na Revista da UESC Especiaria. Ano I, nº 1, jan./jun. 1998. Ilhéus - Editus, 1998.

2. Sociólogo, Professor da UESC, Responsável Técnico pela Sócio Estatística Pesquisa & Consultoria Ltda..

3. Professor Juarez Freitas, em palestra proferida na CNPC, em Itabuna, janeiro de 1995, tendo como título MERCOSUL.

4.Serão também incorporados resultados de uma pesquisa realizada pela Sócio Estatística após o Seminário-referência em Porto Seguro, ouvindo turistas, em novembro de 1997. Porto Seguro é uma cidade e município em que mais e melhor incorporou a vocação e condição de cidade e município que vive o e do turismo no estado da Bahia, condiçção que Ilhéus ainda está distante.