Selem Rachid Asmar

 

Iniciou a sua fala fazendo dois elogios: um ao Seminário e o outro a existência do IESP.

Disse que a região se caracteriza pela falta de solidariedade, afirmando que a sua fala não será simpática, mas será diferente, talvez não agradará a grupos, partidos políticos, ou pessoas.

Disse que não concorda com os que falaram anteriormente quando afirmaram que a solução para a região é simples e passa necessariamente pela política.

Afirmou que a região praticamente não tem solução e que tem escrito que a saída não passa nem pela economia, nem pela política, passa sim, pelo homem, pelo cultural, e que medidas de cunho espiritual (homeopatia, seicho-no-iê, espiritismo, etc) são mais adaptadas à solução da região.

Disse que a região tinha tudo de subdesenvolvida, todas as características, exceto a renda "per capita" que não era baixa, e agora nem mais isso tem, embora considere que não se pode calcular essa renda exatamente.

Disse que a sua fala não será dirigida a questão dos recursos materiais, da economia, etc, mas sim ao lado espiritual do homem.

Assinalou que sair da crise, ao seu ver, envolve quinze medidas.

A primeira diz respeito ao que chamou de "religião cacaueira", pois tudo gira em torno do cacau, mesmo aqueles que não têm cacau só pensam em cacau e que é preciso fazer uma "cruzada" para acabar com essa religião. Afirmou que o cacau está em fase terminal, mas que ainda é um dos componentes fortes e que precisamos de um trabalho espiritual muito intenso para erradicar esse fenômeno.

Em segundo lugar, como saída, afirmou que é preciso definir o que seja realmente Região Cacaueira, o que se constitui hoje em uma coisa muito complexa e confusa. Segundo o debatedor, os discursos são desencontrados nesta área, alguns citam a Região Cacaueira incluindo o Extremo Sul, o diagnóstico da CEPLAC inclui oitenta e nove municípios. Ele, como sociólogo, considera a Microrregião Cacaueira (FIBGE) e por aí vai. Portanto, disse, não há uma uniformidade metodológica quando se quer referir à região e isso tem causado enormes confusões.

Afirmou que mesmo a própria CEPLAC tem fugido quanto ao debate sobre a definição ou ao conceito da região. Disse, portanto, que para início de conversa é preciso ter unicidade quanto a isso, a respeito da região. Como exemplo citou o trabalho do Sr. Waldeck Ornelas que inclui o Extremo Sul como parte da região, afirmando que uma leitura desse trabalho é importante como início de conversa.

Como terceiro aspecto, citou o problema da teorização, dizendo que é preciso teorizar a região. Disse que na região somos mais executores, fazedores de coisas, como exemplo típico citou o fazendeiro de cacau que não teoriza nada. Disse que nós "curtimos" muito, produzimos riquezas e desigualdades, mas não teorizamos. Disse que, modéstia a parte, ele, bem ou mal, procurou sempre teorizar a Região Cacaueira e como exemplo citou os seguintes artigos: "Cavalete Cultural", "Crise dos Anos Um", onde previu a pior crise para 1991, "Conceito de Região", "Pobre Região Cacaueira", "Pobre Região Rica", "Lobby e Lobo", "Dialética no País do Cacau". Disse que teoria por aqui é tida como coisa negativa e que é preciso continuar teorizando.

Como quarto ponto citou a questão da consciência regional. Disse que enquanto não existir consciência regional e identidade regional, a região não terá coesão pois falta sentimento de pertinência. Disse que a consciência, ou "vestir a camisa" regional é mais do que extrair um produto. Disse que os fazendeiros agem como se tivessem controle remoto para administrar a sua fazenda, não sentem o "cheiro da terra". Disse que os produtores sempre se reportam a outras regiões, quando a situação melhora um pouco. Disse que participar das coisas daqui é o começo de tudo, afirmou que escreveu um artigo sobre esse problema intitulado "Consciência Regional".

Como quinto ponto disse que é imprescindível envolver o Extremo Sul, pois esta área é uma área que acredita, é um motor novo. Acredita em novas culturas e sobretudo acredita mais ainda que não precisa do técnico para explicar coisas, surgiu sozinho e não precisou do Dr. da CEPLAC para nada, não precisou de técnicos para produzir abóbora de dois metros, mamão, turismo, etc. Disse, portanto, ser de extrema importância o contato com esta região nova que respira desenvolvimento e tê-la como aliada é uma "janela" excelente para superar a nossa situação.

Como sexto aspecto citou a questão do planejamento regional que foi abordado pelo técnico José Alexandre. Disse também ser extremamente importante o planejamento urbano que foi relegado pela CEPLAC. Citou que a própria constituição obriga a fazer planejamento urbano através dos planos diretores, disse que o de Itabuna tem vinte anos. Disse que se as cidades de Ilhéus e Itabuna quiserem fazer a sua área metropolitana, que é importante, é preciso planejar o urbano. Disse que conturbação entre estas duas cidades é "conversa fiada" e que está somente na cabeça do arquiteto, pois as duas cidades não se amam muito. Uma tem os braços voltados para Uruçuca e a outra para Itapé. Perguntou: "que tipo de conurbação é essa? onde os prefeitos brigam e não há interação entre as cidades? Mesmo a Universidade fecha na hora do almoço.

Como sétimo aspecto citou a necessidade de se ter um órgão de desenvolvimento regional, o próprio Waldeck Ornelas disse isso. Disse que isso pode ser feito revitalizando o ICB ou criando um outro órgão. Disse que a CEPLAC nunca fez desenvolvimento regional, que é intencional, mexe com as estruturas, com as pessoas, desestrutura status. Disse que o IESP pode se tornar um órgão de desenvolvimento. Portanto, segundo o debatedor, é preciso que haja pessoas para estudar e direcionar ações e fazer pressão, o que é muito importante.

Como oitavo ponto chamou a atenção para a necessidade de organização regional. Disse que aqui as pessoas não se organizam para nada e que tudo é feito na base do "Bumba meu Boi". Para superar isso é preciso fazer cursos de extensão sobre organização e que talvez se pudesse aprender com o PT sobre formas de organização. Disse que a região não se organiza nem para pedir as coisas mais básicas e que tudo é feito de forma isolada.

Como nono ponto citou a questão relacionada com a articulação da região com outras. Disse que nem mesmo as áreas dentro da própria Região Cacaueira estão articuladas e citou como exemplo Gandu que é outro mundo, como também Ipiaú. Isso também acontece a nível institucional. Disse que a FESPI, não se articula com a CEPLAC, a Prefeitura de Itabuna não se articula com a Prefeitura de Ilhéus, e assim por diante. Disse que as instituições existem muito mais para articular o "lobo" do que para articular o "lobby".

Como décimo ponto citou que é preciso acabar com o individualismo e que isso faz parte do tal "Cavalete Cultural". Disse que todo mundo deveria ler seu artigo "Pobre Região Rica" que é a melhor coisa que fez e que explica bem esta questão. Como exemplo do individualismo citou uma reunião em que esteve presente, no dia do trabalhador, onde estavam meia dúzia de pessoas e os políticos, secretários municipais lá não estavam. Disse que o individualismo por aqui é muito forte e que tem atrapalhado profundamente a região.

Como décimo primeiro ponto, disse que a bancada do cacau não existe e que inclusive já escreveu sobre isso, e que não vai se delongar neste assunto.

Como décimo segundo aspecto citou a necessidade da FESPI se integrar com a indústria regional. Disse que a indústria aqui não participa da vida comunitária. Disse que a indústria poderia fazer doações para ajudar a comunidade. Disse que, neste sentido, a FESPI também não participa da vida comunitária e que seus cursos são dissociados da vida da região e que só agora essa tentativa vem sendo empreendida pelo atual Diretor Geral da FESPI. Disse que o único curso que tem a ver com a realidade regional é o de Enfermagem. Disse que o empresário aqui tem medo da indústria o que não acontece em Jequié, Conquista, etc, e que os dois únicos empresários industriais que eram grandes, já não estão tão grandes.

Como décimo terceiro ponto citou a necessidade de evitar a dominação de Ilhéus e Itabuna que ele considera perigosa, com prejuízos para os municípios circunvizinhos. Disse que é preciso aglutinar forças e termos muito cuidado, senão se estabelece uma relação de dominador-dominado que é o que nos caracteriza em relação a Salvador.

Como décimo quarto ponto citou a preocupação que se deve ter com o meio-ambiente.

Como décimo quinto ponto disse que é necessário chamar a atenção do Estado para as carências da região (educação, saúde, etc). Disse que o Estado não manda dinheiro para a região para as coisas básicas.

Finalmente, como solução para os graves problemas, sugeriu o debatedor que se elegesse um governador da região. Segundo ele, isso poderia modificar a região. Como exemplo, citou Guanambi, onde existe asfalto em todos os lugares.