Altamirando Marques - Diretor Geral da FESPI

 

Inicialmente, após cumprimentar os presentes, o Diretor Geral da Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (FESPI), disse não ser surpresa a fuga praticada há mais ou menos 2 anos pelo Sr. Joaquim Cardoso no tocante a FESPI.

Em seguida, disse que a região conhece bem a história da FESPI, inicialmente foi organizada em Ilhéus a Faculdade de Direito e em Itabuna a Faculdade de Filosofia.

Acrescentou que, de acordo com o que dispõe o artigo 7º da Lei 5540, lei esta que rege o ensino no país, para se criar uma Universidade ela tem que passar por dois estágios. São eles:

a) Fase da autorização e

b) Fase do reconhecimento.

Disse ainda que, no caso da FESPI, que foi organizada através de unidades devidamente reconhecidas, a Universidade não passa pelo 1º estágio.

Desde que nós nos constituímos em uma Federação de Escolas Superiores, temos um mínimo de oito cursos reconhecidos e podemos transferir alunos da FESPI para qualquer universidade do país, então, disse, na prática, já somos uma universidade autorizada.

Discute-se se esse reconhecimento a ser obtido deverá ser ditado pelo Conselho Federal de Educação ou pelo Conselho Estadual de Educação.

Uma vez criada uma fundação de direito público como entidade mantenedora, a competência seria transferida para o Conselho Estadual, destacou o Diretor-Geral da Fespi e presidente da FUNCRUZ.

Pairam dúvidas, disse, porque o parecer não foi de um conselho e sim de um conselheiro, sem citar qualquer disposição legal na qual se apoiou.

Lembra o diretor, que nosso Campus foi construído com o dinheiro da lavoura pela CEPLAC. Entende-se por isso que a nossa origem é Federal.

A FESPI, disse, organizou uma carta consulta, mas o Conselho Federal negou o reconhecimento da nossa universidade.

O documento, prosseguiu o diretor, foi tão bem elaborado que serviu de modelo para uma universidade de São Paulo. Mas o tempo correu, houve um esvaziamento da CEPLAC, como decorrência da crise que atravessa o cacau.

Em 1986, acrescentou o diretor, a CEPLAC teve cortado do seu orçamento a verba destinada ao ensino de 3º grau, instalando desta forma a crise na FESPI, pois este orçamento representava 35% da verba, 35% vinha da anuidade paga pelo alunado e 30%, participação do Estado, da União e outras fontes.

Então, em 1987, recebemos a última transferência por parte da CEPLAC. Uma transferência ínfima, lembra o diretor, acrescentando que o Estado da Bahia, em 87, já participava com 59,65%, o alunado com 18,65% e a União com 1,82%.

Nesse ponto, disse, a crise estava instituída em princípios de 1988, em decorrência das péssimas condições em que se encontrava a FESPI. Foi, então, deflagrada a greve na FESPI, recorda o diretor.

A greve levou seis meses, de março a setembro. Foi, nesse momento, observou o diretor, que a FUSC encaminhou ao Governo do Estado a decisão do seu Conselho, declarando sua incapacidade de manter a FESPI e solicitando por parte do Governo do Estado a manutenção da mesma, e, prosseguiu dizendo, uma vez isso concretizado, passaria-se o patrimônio da FUSC para uma entidade desde que esta tivesse a finalidade de criar a Universidade de Santa Cruz. Embora o Governo do Estado não comungasse com a idéia de criação da Universidade Estadual, pois acreditava na Federalização.

Mas, em virtude do risco de fechamento, disse, o Estado, então governado por Waldir Pires, assumiu sua manutenção. Por decreto, foi instituído o ensino público e gratuito nas universidades da Bahia, FESPI inclusive.

E enquanto não fosse criada a Universidade, o Estado a manteria, por via orçamentária (Art. 36 da Constituição do Estado).

Contudo, no entender do diretor, o Estado não poderia manter a FESPI caso não existisse uma fundação de direito público, pois não poderia fazê-lo através de uma instituição de direito privado.

Poderia fazê-lo, no entanto, por via de convênio. Mas diretamente, como unidade orçamentária do Estado, mas a FUSC não poderia ser inserida.

Por unanimidade, a Assembléia criou a FUNCRUZ, com a finalidade de manter a FESPI e criar a Universidade de Santa Cruz. Foram feitas escrituras de constituição.

E o Governo do Estado cumpriu seu papel, sua parte, disse o diretor. Hoje integramos o orçamento do Estado e este ano (91) temos uma verba de Cr$ 222 milhões para o custeio de projetos, fora a folha de pagamento.

E perguntou: "o que faltou para ser concluído o processo de estadualização?"

O processo não foi adiante porque pairou uma dúvida quanto a absorção de pessoal da FESPI, pessoal sem concurso que atuava na Universidade, principalmente no curso de Filosofia. Fez-se reuniões em Salvador com o pessoal do planejamento para se analisar a possibilidade de abrir uma exceção para a FESPI.

Foi aceita a absorção do pessoal da FESPI, mas ao elaborar o dispositivo, o procurador do Estado acrescentou: "Após transferência dos bens da FUSC para a FUNCRUZ", complicando todo o processo, no entender do diretor.

A FUSC convocou o Sr. Joaquim Cardoso e propôs a ele a transferência do patrimônio da FUSC para a FUNCRUZ. Haveria a transferência e a doação, pois o nosso campus é originário de três aquisições, disse. Uma doação de 14 hectares e uma compra a família Nabuco de 12 hectares. A família Nabuco, ao fazer a doação _ FUSC, estabeleceu que aquele bem não poderia ser transferido a não ser para uma universidade, justifica. Isto apesar do artigo 3. que dizia que se a Fundação perdesse a função de mantenedora, esse bem seria destinado a uma entidade educacional que, no caso, é a própria FESPI.

A FUSC, disse o diretor, tem um Conselho Superior que não existe em fundação nenhuma do mundo. Possui dois conselhos, um Conselho Superior e um Conselho Executivo, sendo que o primeiro é honorífico, nunca tinha até então se reunido, e foi criado com o intuito de homenagear algumas personalidades ligadas as questões regionais, explicou o diretor.

Mas a indefinição por parte dos dois conselhos da FUSC determinou a continuidade do processo.

O Governo do Estado, lembrou o diretor, convidou o Sr. Joaquim Cardoso para a reunião e ficou estabelecido por proposta do próprio Joaquim Cardoso, a transferência do patrimônio da FUSC para a FUNCRUZ, com exceção dos bens que estivessem na cláusula restritiva. Sendo esta composta pela doação da Família Nabuco, que automaticamente seria incorporada ao patrimônio.

O Sr. Joaquim Cardoso, posteriormente, numa palestra na Maçonaria, em Itabuna, disse que passaria o patrimônio, mas não as suas instalações iniciais.

Uma Universidade, prossegue o diretor, não pode funcionar sem as instalações necessárias para o seu funcionamento. Foi quando disse a ele que dessa maneira não poderia aceitar.

Mais recentemente, em uma reunião do Conselho, o Sr. Joaquim Cardoso disse que não iria transferir coisa nenhuma, pois não ía passar para os cofres do Estado um patrimônio que pertence a lavoura cacaueira. "E o prédio da CEPLAC que foi doado a Procuradoria Geral da República sem um tostão de indenização?", lembrou o diretor.

Daí, disse ainda, tomamos conhecimento que também o presidente do CNPC, Sr. Hélio Bandeira teria dito que não concorda com a transferência do patrimônio do cacau para o Governo do Estado.

Na escritura de constituição da FUNCRUZ, explica o diretor, existe uma cláusula que diz que na hipótese de dissolução da mesma antes da criação da Universidade, seus bens retornariam para o Estado, com exceção daqueles cujos doadores opusessem cláusula em sentido contrário.

No entanto, prossegue o diretor, no momento da transferência dos bens da FUSC para a FUNCRUZ, esta colocaria as cláusulas necessárias no sentido de impedir a passagem do patrimônio para o Estado.

Estamos com a carta-consulta pronta, dependemos apenas da passagem do patrimônio, reiterou. O nosso projeto de Fundação Universitária é nos moldes da UnB, de Brasília.

Se amanhã tivermos o peso político suficiente, será necessário um ato simples para a federalização, mudando a fonte de recursos do Tesouro Estadual para o Tesouro da União. Esta é a maneira mais viável para dar a FESPI a estabilidade que ela precisa.

A FESPI é um centro de maior importância para a região, disse, pois esta depende dela como centro de pesquisas.

Nenhum grande centro de pesquisa no mundo conseguiu se desenvolver sem estar atrelado a uma Universidade, argumentou o diretor. Porque não atrelar o CEPEC a FESPI, afim de que possamos desenvolver uma estrutura capaz de sanar os problemas graves de nossa região relacionados com o meio ambiente e o cacau?.

Com a instalação de um curso de Agronomia para formação de pessoal técnico capaz de viabilizar a diversificação da nossa economia, bem como formar administradores rurais, para auxiliar esta transformação.

No entendimento do diretor, o sustentáculo da economia do estado foi a economia cacaueira.

A única solução é que o Governo do Estado, durante 10 anos, destine o ICMS para a criação de um fundo revitalizador, processando as transformações que queremos.

A FESPI é a universidade do estado de menor custo, nossa despesa, disse, é 1/3 da de Feira de Santana. Nosso salário é igual ao do Rio Grande do Norte e nossa arrecadação é igual a do Paraná. A UNICAMP dispõe de 300 milhões de dólares por ano, mas porque o Estado de São Paulo criou essas condições? perguntou.

Nós não estamos em crise, o Governo do Estado cumpriu com a sua parte, cabe-nos realizar a nossa, transformando a FESPI. É apenas uma questão de boa vontade, concluiu o diretor.