Inicialmente, o agrônomo Roberto Setúbal, disse que a
palavra-chave, crise, revela um atestado de incompetência. Disse ser necessário a
identificação: de quem é a crise? Da agricultura, do comércio, da indústria,
dos segmentos produtivos do estado, do modelo econômico?
Na sociedade, segundo o agrônomo, em grau maior ou menor de
cumplicidade, todos têm uma parcela de responsabilidade.
No entender do agrônomo, faz-se necessário fazer uma análise de
contexto sobre o que é a agricultura do cacau. Disse que a agricultura cacaueira está
inserida em um contexto que implica duas dimensões. Sendo:
a) a nível macro, e
b) a nível regional, micro, local.
Segundo ele, na dimensão macro, a agricultura é um reflexo das
políticas governamentais ao longo do tempo, sobretudo o atual estágio da agricultura,
que reflete o modelo adotado neste setor fundamental da sociedade brasileira. Disse, que
no final da década de 60 e na década de 70, foi adotado modelo de modernização
do campo, com ênfase ao avanço tecnológico, que subordinou a agricultura ao setor
industrial, notadamente na produção de insumos e equipamentos e nos conflitos entre
segmentos deste setor.
Disse, ainda, que a organização destes setores ampliaram o grau de
subordinação da agricultura, que, segundo ele, sempre fora colocada em segundo plano
neste país rural.
Assinalou que deve ser levada em conta a questão estrutural dos
recursos e da Mão de obra.
Disse haver latifúndios em que predomina a subutilização do recurso
terra, ao passo que nos minifúndios a Mão de obra é o item de subutilização.
De um lado, há sobra de Mão de obra; do outro, de terra. O problema,
disse, se agravou com o próprio processo tímido de reforma agrária.
Na dimensão micro, a economia cacaueira é bastante vulnerável, pois
apresenta bons momentos e momentos de desigualdade e diferenças.
No entender do agrônomo, a crise não pode ser distinguida por
uma só razão, há um quadro de crise de várias natureza: cultural, política,
institucional, econômica e até tecnológica.
Disse, ainda, que os componentes da crise que criam uma
fragilidade no sistema, são: condições ecológicas e históricas, próprias do processo
de desenvolvimento, que, no seu entender, criaram uma função de produção predominante,
que é o cacau para exportação. Aí, disse, começam a ser caracterizadas as
peculiaridades dessa região e as suas conexões, por ser um modelo de exclusivismo, do
cacau, da monocultura.
Assinalou, o agrônomo, que o cacau se insere no sistema internacional,
onde a participação de quem produz é reduzida ou inexistente, ficando a mercê de ciclos
bons e desfavoráveis. Sendo que esses últimos tem predominado e refletem o nível de
renda, oferta de emprego, nível de poupança.
Segundo ele, há também a questão cultural, que faz com que
uma economia de ciclos alternados não crie condições de auto-sustentação.
Disse que o produtor rural tem dificuldade de se organizar, de
ter a sua representação numa economia em que a participação dele é, na primeira
etapa, a etapa de produção propriamente dita.
Isso, no entender do agrônomo, faz com que os ganhos desses bons
momentos sejam sempre apropriados por outros setores, que se situam em outras fases da
cadeia produtiva de cacau.
Disse, ainda, que os interesses estão localizados fora da região, a
nível de comerciantes, exportadores, industriais de cacau e multinacionais, dizendo ser a
falta de organização do produtor o que o torna vulnerável, sem acesso à
superestrutura capitalista de mercado internacional de cacau.
No pensar do agrônomo, existe um certo comodismo histórico,
que determina uma visão muito individual, muito pontual, da economia que ele próprio
gera.
Disse que outro componente é a questão política.
Hoje, disse, o cacau representa 0,5% da receita nacional e 5 a 8% do
ICMS do Estado; contudo, já representou 80% .
A região atuava como mantenedora e, ainda assim, não temos registro
de termos eleito um Governador do Estado, um Senador ou de termos exercido uma
influência, ou mesmo consolidado alguma bancada Federal ou Estadual que defendesse os
interesses do cacau.
Disse ainda que a estrutura do poder se faz de forma muito
tímida e muitas vezes até dissociada do interesse da maioria da própria sociedade.
Disse que as iniciativas históricas para resolver o problema da
região sempre ostentaram um caráter de imediatismo emergencial via
"creditismo".
Assinalou que a criação do Instituto de Cacau da Bahia, na
década de 30, e da CEPLAC, na década de 50, constituiu-se na formação de dois
grandes instrumentos, que tinham por finalidade corrigir as desigualdades no quadro da
economia da sociedade regional.
Disse, ainda, que notabilizaram-se estas instituições por ações,
via crédito, boa infra-estrutura, ensino, extensão e pesquisa, que foram, no entanto,
insuficientes para remover as causas estruturais das crises.
No seu entender, os indicadores do crescimento são visíveis, o que
houve, foi uma apropriação da riqueza de forma desigual, ou seja, ela não se deu
em todos os segmentos que compõem a cacauicultura e a maior parte dessa apropriação foi
absorvida por segmentos de fora da região.
As saídas, disse, existem, mas elas passam por mudança nas
atitudes e comportamento da sociedade. E a sociedade, segundo ele, não pode
ser subserviente.
Já o Estado não deve ser tratado como causa, a causa é a
sociedade.
No dizer do agrônomo da CEPLAC, a sociedade deve estar vigilante, o
que ainda não foi muito evidenciado na questão da Vassoura de Bruxa. O produtor
precisa superar a fase que se traduz na pergunta que produtores lhe fazem acerca da
doença acima referida: "Como está a Vassoura de Bruxa lá na minha
fazenda?"
Disse, ainda, que a participação do produtor é insubstituível e
intransferível e a atuação do Estado deve ser meramente complementar.
Para concluir, disse que se criou uma idéia de que nada aqui vale, a
terra, a sociedade, gerando um clima de descrença.
Enquanto grupos que vem de fora investem na região, a exemplo da
compra por estes de fazendas de cacau em Camacã, que é área de foco da Vassoura de
Bruxa.
Disse que temos instituições como a CEPLAC, ICB e a FESPI,
que detém nível de conhecimento pormenorizado capaz de viabilizar um diagnóstico, que
torne viável a agro-industrialização, a diversificação, uma vez que
esta região é uma das poucas no país, que tem a fronteira agrícola ainda bastante
extensa e por ser explorada, ao passo que os recursos em terra encontram-se esgotados em
outras regiões.
A saída, no dizer do agrônomo, não está em Brasília, nem
nos políticos. Está, sim, na capacidade de articulação dos diferentes grupos
que compõem essa sociedade da Região Cacaueira, afim de fazer pressão sobre os
políticos e sobre o Estado nos seus diferentes níveis.
Temos um compromisso solidário de mudar isso e passa pela
participação indelegada de vocês na sociedade, tão diferenciada, com essa
distribuição de renda tão perversa.