Deputado Federal Waldir Pires

 

Inicialmente, disse o deputado, é fundamental que num momento de crise surja a indagação: "o que é que queremos que o nosso pais seja? O que é que queremos que seja a nossa sociedade? Como devemos agir em função das nossas idéias e dos nossos compromissos? ". E que isso deve ser uma indagação dos políticos, dos empresários, dos trabalhadores, das donas de casa, dos pobres, etc.

Quanto a crise regional, disse que ele está acontecendo no momento em que o pais também vive uma crise séria, disse não saber de nenhum tempo na nossa história em que a população estivesse com tanta perplexidade, com tanta desesperança.

Disse que as desigualdades do pais não são coisas recentes, não é que as relações sociais não tenham sido perversas anteriormente, mas é que, contudo, havia um sopro de esperança no sentido de que a nação estava predestinada a um grande destino.

Lembrou o deputado do tempo da ditadura, quando vários democratas se encontravam no exterior e que exilados de outras nações da América Latina estavam divididos quanto aos projetos de seus países, o que não acontecia com os brasileiros, que imaginavam um grande futuro para o pais, independentemente das suas posições ideológicas.

Hoje, no entanto, se observa, disse, um grau de desencanto entre todas as camadas da população, de desesperança, de ceticismo, de descrença da nossa força e da nossa energia, que precisamos vencer, porque aí está a alavanca, o alicate das transformações que seremos capazes ou não de realizarmos. Reiterou que, nós, os brasileiros, precisamos readquirir a esperança para realizarmos uma sociedade mais justa, decente e digna, isso, segundo o deputado é a preliminar.

Disse que, em 1964, houve um corte sério no processo das transformações que estavam em curso, mesmo levando-se em consideração os problemas que existiram e os equívocos. Disse que a partir daí, estabeleceu-se um processo de "apartheid" que está nos separando.

Teceu comentário a respeito do grau de miséria e de pobreza que está cada vez mais aumentando no pais com o passar das décadas.

Aqui, na região do cacau e no Nordeste, disse o deputado, os índices são terríveis, são dos mais graves que existem na terra. Indagou o deputado se somos ou não capazes de realizarmos as questões mais elementares da existência humana.

Disse, o deputado, que o corte que houve a partir de 1964 inviabilizou o processo político de participação dos segmentos dos trabalhadores e em seu lugar tomou corpo a concepção de Brasil potência.

Realmente, disse, chegamos a condição de 8ª potência econômica do mundo, com um PIB da ordem de 350 bilhões de dólares, mas com índices sociais mais acabrunhadores da vida da população.

Para o deputado, boa parte das realizações materiais, a partir de 64, foram dirigidas para a corrupção, para o enriquecimento ilícito, para o tráfico de influência, enquanto isso, disse, as coisas mais elementares da vida não são respeitadas.

Disse que a sociedade só é digna quando todos os seres humanos podem comer, coisa que não está acontecendo no Brasil.

E, disse, surge a fantasia de que o problema do pais é a inflação, como se a inflação não fosse um sintoma, como se ela não fosse o resultado de uma política, como se ela não fosse fruto de uma espoliação interna e externa.

Disse, o deputado, que a monocultura do cacau foi um dos pilares da economia baiana e que hoje este produto está profundamente aviltado nos seus preços, pela espoliação gigantesca que se estabeleceu no mercado mundial, fazendo com que sofra o Brasil e os países do 3º mundo, fato que classificou como uma das piratarias mais totais que conhece a história do homem. Disse que com mil dólares por tonelada de cacau, hoje, o produtor é obrigado a reduzir os salários e a promover o desemprego maciço.

Segundo o deputado, o desemprego, o baixo salário e a má distribuição da renda na região, coloca a classe trabalhadora em situação de miséria, o que faz com que se acumulem os problemas nas cidades da região, situação que classificou de dramática (educação, habitação, saúde, etc).

Disse ainda o deputado, que o grande mérito acerca dos debates do Seminário é o de congregar políticos de vários matizes, o que demonstra que já ultrapassamos a fase mais difícil da intolerância política; no entanto, no entendimento do deputado, perdemos a grande chance de realizarmos a transição com um estadista, transição essa que visava garantir a transformação do quadro brasileiro e que a mesma passaria prioritariamente pela alteração das relações capital/trabalho. Disse que, por exemplo, nos EUA a participação dos salários na riqueza é de 76%, na Escandinávia chega a 78% e 79%, no Brasil temos que para os ganhos de trabalho são destinados apenas 31% e 32%. Nessa situação, indagou o deputado: "Como é possível comer? Como é possível vestir-se? Como é possível educar-se? Como é possível desenvolver-se?"

Com relação a educação e no tocante a FESPI, o deputado assinalou que lutou muito pela federalização, o que não foi possível no governo Sarney e que a estadualização foi a única saída encontrada e que praticou durante o seu governo todos os atos neste sentido; disse, ainda, que o seu governo assumiu todas as responsabilidades financeiras da FESPI, o que não ocorria anteriormente, pois a entidade vivia de doações da CEPLAC e do pagamento das mensalidades pelos alunos. A gratuidade, portanto, disse, foi instaurada no seu período de gestão frente ao Governo do Estado, mas a politicagem impediu que se concretizasse plenamente a estadualização, pelo problema da passagem do patrimônio da entidade privada para a entidade pública.

De modo que, afirmou, a Universidade, o cacau (relacionado com preços e a Vassoura de Bruxa), a pesquisa que deve ser feita, o Porto, que foi uma coisa conquistada pelas gerações anteriores, como é o caso de Demóstenes Berbert de Castro, Eugênio Lavigne, esta conquista que pertence a região não pode ser privatizado; o que o Porto precisa, disse, é de administração séria, decente e que todas essas atividades são viáveis, desde que haja união de todos.