Deputado Federal Haroldo Lima

 

Inicialmente, o deputado saudou a iniciativa de realização do Seminário pelo Instituto de Estudos Sócio-Políticos da Região Cacaueira.

Disse, o deputado, que é pela realização de debates de idéias que se pode agregar forças em direção a objetivos estabelecidos e encontrar saídas para a crise do cacau.

Disse, o deputado, que através dos séculos, iniciou-se nos países subdesenvolvidos uma "metodologia de desenvolvimento", criou-se um chamado modelo de desenvolvimento, que passou à história com o nome de modelo colonial, que não foi o mesmo em todos os países e que se processou na África, na América Latina e na Ásia, principalmente.

Disse que o modelo colonial foi baseado na produção em áreas específicas para se extrair produtos de alto valor comercial destinados aos países mais avançados (países metropolitanos), para onde eram exportados e isso aconteceu através de séculos e que os países que embarcaram nesse rumo, de se desenvolverem através da exportação de seus produtos, começaram, com o passar dos tempos, a descobrir que, longe de estarem diminuindo as diferenças entre eles e as metrópoles, o fosso cada vez mais se aprofundava.

Na verdade, segundo o deputado, havia um desenvolvimento do subdesenvolvimento, ou seja, quanto mais exportavam, mais atrasados ficavam esses países coloniais, mais dependentes se tornavam, o que formou, no dizer do deputado, uma sociedade de dependência, uma dependência cultural, financeira, artística, intelectual, ideológica e etc. Essa é a história básica do nosso país chamado Brasil.

Até hoje, disse o deputado, estamos envolvidos nessa história de produzir para os outros, para a exportação, foi assim a história dos ciclos econômicos (ouro, açúcar, algodão, café), e que com isso os outros se enriqueciam, pagando o que queriam pelos nossos produtos valiosos e quando o produto já não valia muita coisa, ou quando se descobriu outras coisas que superavam aqueles produtos, apenas abandonavam as áreas produtivas, que ficavam a mercê da miséria e da destruição.

Segundo o deputado, com o cacau ocorreu coisa semelhante, com seu processo específico entremeado de injunções próprias.

Mas, segundo o deputado, esse processo, que ocorreu no pais como um todo, tem que ser visto de região para região, pois algumas regiões que sobreviveram produzindo um só produto, hoje são regiões economicamente desenvolvidas, como são os casos de Londrina, Ribeirão Preto e várias outras regiões que eram centros de monocultura.

No caso específico de Londrina, era uma área de monocultura de café para exportar, à semelhança, disse o deputado, com Itabuna e Ilhéus. Mas, com o passar do tempo, gente de Londrina, as classes dirigentes, perceberam que não era possível continuar persistindo na produção de café somente e revitalizaram a economia através de investimentos em diversos outros ramos, inclusive da educação, na cultura, na organização social, no crescimento de um mercado regional forte através do aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores, que passaram a consumir mais e, consequentemente, começou a circular mais produção na região e, disse, de repente, Londrina deixou de ser área de monocultura de café, embora ainda produza, mas, não está sujeita as vicissitudes de um mercado que não é controlado por brasileiros e sim por estrangeiros.

Outro exemplo elucidativo é o caso de Ribeirão Preto, um exemplo bonito, de uma área tradicionalmente, desde a colonização, produtora de açúcar, transformou-se em uma economia pujante pelo mesmo motivo ocorrido com Londrina, ou seja, pela mobilização de toda a comunidade que envolveu classes dirigentes, os políticos (prefeitos da região), o Governador do Estado de São Paulo.

O resultado, disse o deputado, foi a transformação completa do quadro regional de Ribeirão Preto, que hoje apresenta os maiores índices sociais de todo o país, inclusive de São Paulo.

Afirmou, o deputado, que as regiões que conseguiram saídas desta forma conseguiram sair da armadilha do modelo colonial, as que não conseguiram, ainda estão nessa armadilha, como é o caso da Região Cacaueira. Daí a pergunta, qual a saída?. Disse o deputado, que a saída não é difícil tecnicamente, basta consultar os documentos sobre a região e os "experts" no assunto.

Afirmou que, inicialmente, a saída estaria na diversificação econômica com preservação do meio ambiente. Mas, perguntou o deputado, porque a região não sai dessa situação?. Respondendo, afirmou que falta vontade política pelo fato de que a elite dirigente sempre foi conservadora e atrasada e que não teve visão histórica de seus próprios interesses, não percebeu o que o pessoal de Londrina e Ribeirão Preto percebeu, a despeito de o Governo Federal e de governos de muitos estados não terem percebido.

Disse o deputado, que o que é fundamental é romper com esse tipo de economia que cria riqueza enganosa, temporária e fictícia, que não representa o verdadeiro papel do capital produtivo. As regiões que não encontram saídas, estão nas mãos dos seus adversários, que são os capitalistas estrangeiros e que não vêm para nenhuma região para ajudar o desenvolvimento, mas sim, como afirmou Waldir Pires, disse o deputado, para promoverem uma verdadeira "pirataria".

Disse ainda que os nossos algozes internacionais estão a nos arrancar sempre e o melhor, como exemplo citou que durante a posse do Presidente da OAB, em Brasília, este declarara solenemente que nos últimos 15 anos o Brasil enviou a título de pagamento de juros da dívida externa o valor de 122 bilhões de dólares e continuamos devendo ainda 130 bilhões de dólares, afirmou que o economista pode dar a isso o nome que quiser, mas no seu entender isso em linguagem popular chama-se "assalto".

No entendimento do deputado, o primeiro passo para se sair da crise é a criação de uma consciência regional sólida, que é o que esse Seminário está fazendo, disse, ao trazer pessoas de diversas vertentes do pensamento para despertar a consciência dos problemas e soluções da região do cacau.

Disse, o deputado, que as elites precisam se conscientizar de que não há região forte sem mercado interno, sem poder aquisitivo dos nossos assalariados que aqui trabalham.

Disse ainda o deputado, que as classes dirigentes, os políticos, precisam entender que a diversificação é uma das saídas e que a outra seria a própria revitalização da produção e do comércio do cacau, voltado para o consumo interno do pais. Dados demonstram que o consumo "per capita" de chocolate no país é baixíssimo, basta verificarmos o consumo nos países desenvolvidos. Na Suiça, por exemplo, de 1984 a 1989 o índice foi de mais de 4kg por habitante/ano. Na Alemanha, o índice gira em torno de 3,22 kg, hoje. Na Europa Ocidental e nos EUA o índice está em torno de 2 kg/hab/ano. O Brasil que é um dos maiores produtores de cacau no mundo, este índice representa hoje apenas algo em torno de 0,3kg/hab/ano.

Há, no entender do deputado, uma profunda falta de estímulo ao consumo interno do chocolate, como exemplo citou o próprio Congresso Nacional que consome diariamente milhares de cafezinhos, malgrado as tentativas de alguns congressistas de se instituir o hábito do consumo do chocolate. E que este hábito atinge inclusive a Bahia e a própria Região Cacaueira.

Segundo o deputado, os produtores de cacau são mal articulados no que diz respeito a comercialização interna do produto, o que não acontece com os cafeicultores.

No dizer do deputado, criou-se uma mentalidade de que a conquista do mercado interno, que está em nossas mãos, é uma coisa inacessível, um problema quase cultural.

Para finalizar, o deputado assinalou os seguintes dos problemas da Região Cacaueira, que considerou de maior urgência:

a) conquista de novos mercados (inclusive o interno ) para escoar os derivados do cacau, e

b) completa estadualização da FESPI.