Neutralidade e pecado capital

 Hoje, 03/08, o primeiro jornal com que me deparei foi o jornal itabunense Diário do Sul, de Valdenor Ferreira. Dentre as matérias, capto, mais uma vez, a conversão do conceito regular, desta vez de uma pesquisa atribuída ao IBOPE, como avaliação positiva.

Todavia, o que mais me chamou a atenção foi uma frase do jornalista Eduardo Anunciação no artigo Fernando Gomes: vocação para o poder. Nesse artigo,  em tom categórico, sentencia o seguinte: “a neutralidade é um pecado capital. No jornalismo, na política, na vida. Lá no fundo, todo jornalismo é político... ” e o artigo faz a defesa dessa posição elevada ao mais alto grau de virtude.

Como em 11 anos respondendo pelo comando de uma empresa de pesquisas, a Sócio Estatística, exercitei o oposto, a frase de Eduardo Anunciação acompanhou-me o dia todo. Em Ilhéus, vejo-me frente a uma situação paradoxal: os candidatos Jabes Ribeiro e Roland Lavigne estão em cartazes de rua em companhia do senador ACM, do Governador César Borges e do também senador Paulo Souto. Jabes e Roland são os dois mais fortes candidatos a prefeito desse município e ambos têm o aval  das maiores personalidades da política situacionista baiana. E, vendo esses outdoors, relembrei a assertiva categórica de Eduardo Anunciação. Como os dois principais candidatos estão em companhia das mesmas personalidades, presume-se a sua neutralidade nesse processo. Sendo assim,  o jornalista manteria sua frase, sustentando que ACM estaria cometendo um pecado capital em terras ilheenses? Seguramente, o jornalista não estava pensando nesse caso, ainda que a vida e a política tenham sido situadas em cheio na sua afirmação.

Como responsável técnico pela Sócio Estatística afirmei a vitória de Antônio Olímpio e de Geraldo Simões, em Ilhéus e Itabuna, em 1992, e antes do primeiro voto ser contado. Apontei uma diferença de 3,2% de Fernando Gomes sobre Renato Costa em Itabuna (as urnas captaram 3%), em Itabuna, e a vitória de Jabes Ribeiro, em Ilhéus, em 1996, também antes do primeiro voto ser contado. No caso de Itabuna, em 1992, fui único a fazê-lo ancorado em dados objetivos e que podem ser lidos nesta página, Política & eleições/ Itabuna1992. E isso foi possível pela simples razão de que enquanto responsável pela empresa de pesquisas, independentemente de posições e  preferências pessoais, o princípio da neutralidade frente aos contendores foi integralmente respeitado. Nesse particular, na empresa e frente à comunidade, a neutralidade não é um pecado capital. Antes, muito pelo contrário.

Pensei também no caso de um juiz de futebol. Se esse falhar quanto à neutralidade frente aos times em campo, como poderá haver a distribuição da justiça nesse jogo? Vamos imaginar um juiz em seu tribunal, se esse não honrar esse princípio, como esperar que os indivíduos não queiram eles próprios e cada um a sua maneira, fazer a justiça? Nesses casos, o pecado original não parece se situar  na neutralidade, mas na sua falta.

Tenho a convicção de que, dependendo da posição em que se está na estrutura da sociedade, a neutralidade, antes de ser pecado ou virtude, é uma exigência para bem cumprir com a missão exigida por essa posição. 

No entanto, há situações em que a neutralidade, entendida como “um ficar em cima do muro”, ou mesmo um não engajamento pode ser um pecado e a própria Bíblia faz alusão a essa situação, interpretada como abominável, quando alude aos “mornos”.

Obviamente, na perspectiva de uma candidatura política, numa  campanha eleitoral, não faz sentido a neutralidade. O que se espera é engajamento mesmo. Espera-se militância determinada. Numa situação como essa, realmente, não faz sentido, a defesa da neutralidade. Todavia, esse é um caso específico, não pode ser a regra.

Quanto ao papel da imprensa, há controvérsias. Há quem defenda o posicionamento explícito ou implícito. Há, também, os que o condenam. Penso que quando o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta consome informação, é importante que ele tenha elementos para saber discernir entre o que há de  informação e o que há de propaganda sutilmente veiculada em cada caso. Em sendo claro esse posicionamento, parece-me defensável. Pessoalmente, contudo, prefiro uma mídia que consiga, ou pelo menos tente, tanto quanto possível,  se sobrepor aos interesses particulares, de partidos, de candidatos, de grupos econômicos. E isto para que seja reflexo do conjunto da comunidade e de seus interesses, que sempre tente captar todos os lados e todos os ângulos de uma questão ou de uma temática. No caso do pecado capital em pauta, a rigor, Eduardo Anunciação não está falando como jornalista, está falando antes como militante, ou melhor, está falando como jornalista engajado numa perspectiva política e publicamente reconhecida. E sendo essa pública, é um direito que lhe assiste, ainda que não seja necessário concordar. Portanto, numa situação como  essa,  a neutralidade pode se constituir num pecado e esse poderá ser capital nos resultados, se o engajamento e o convencimento do eleitor não for suficiente para conquistar mais votos do que o principal oponente. Nesse  caso, a palavra de ordem não poderia ser mesmo neutralidade. Mas esse é um caso específico, também.

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Agenor Gasparetto, Sociólogo.

Itabuna, 3 de agosto de 2000.