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Retrospectiva do processo sucessório
em Itabuna
(ou o preço da vaidade e da autosuficiência?)
Este texto objetiva reconstruir, na perspectiva da
pesquisa de opinião, o processo sucessório de 1996, no município de Itabuna, que
reconduziu, pela terceira vez, o deputado federal Fernando Gomes à Prefeitura, derrotando
as forças situadas no campo das Esquerdas. Tenta, também, uma interpretação dos
fatos, em que destaca a erro capital do então prefeito Geraldo Simões, no início do
processo eleitoral e a obsessão da candidatura Davidson em ver a candidatura Renato
Costa, apoiada pelo prefeito, ser derrotada, a um custo que foi muito além do que supõe
um senso mínimo de razoabilidade. Assim, depois de intensa campanha, os resultados das
eleições para prefeito, 1996, foram os seguintes:
Tabela 1. Resultado oficial das eleições para prefeito em Itabuna,
1996
Nome do Candidato |
Número de votos |
Percentual |
Fernando Gomes de Oliveira |
34.352 |
40,8 |
Renato Borges da Costa |
31.850 |
37,8 |
Davidson de Magalhães Santos |
10.476 |
12,4 |
José Carlos Guilherme Santos |
825 |
1,0 |
Romilton Teles Santos |
516 |
0,6 |
Marilene Dantas |
406 |
0,5 |
José de Souza Santos |
350 |
0,4 |
Votos brancos |
1.320 |
1,6 |
Votos nulos |
4.123 |
4,9 |
Fonte: Justiça Eleitoral
Os partidos que compuseram a coligação O Povo
Quer Vencer, da candidatura Fernando Gomes, foram PPB, PTB, PSL, PSC, PL, PFL, PGT
e PSD. Os partidos que compuseram a coligação Honestidade e Competência; Itabuna
em boas mãos, da candidatura Renato Costa, foram PT, PMDB, PSN e PMN. Os partidos
que compuseram a Coligação Coragem Itabuna, da candidatura Davidson
Magalhães, foram PC do B, PDT, PSDB e PSB. A candidatura José Carlos Guilherme Santos
foi apoiada pelos partidos PST e PSDC. Marilene Duarte teve o apoio do PV e do PPS.
Romilton Teles, O Homem da Peneira, disputou pelo PRN. E José de Souza
Santos disputou pelo PAN.
O quadro que teve o desfecho acima, ao longo dos seis meses anteriores
à eleição, apresentou a seguinte evolução:
Tabela 2. Pesquisa estimulada para prefeito de Itabuna (BA), eleições
1996. (Percentuais)
| Candidatos |
Abril
|
Julho
|
Ago
|
Set15
|
Set22
|
Set30
|
Urnas
out03 |
Fernando Gomes |
38,6 |
40,4 |
30,9 |
36,4 |
34,1 |
37,0 |
40,8 |
Renato Costa |
18,1 |
27,9 |
30,3 |
28,3 |
32,2 |
33,8 |
37,8 |
Davidson Magalhães |
5,7 |
7,8 |
9,5 |
13,5 |
14,9 |
13,9 |
12,4 |
Outros* |
16,4 |
0,9 |
1,0 |
1,4 |
0,8 |
1,4 |
2,5 |
Não sabe |
16,1 |
15,6 |
22,8 |
16,7 |
14,6 |
12,4 |
-- |
Nulos/brancos |
5,0 |
7,4 |
5,5 |
3,4 |
3,4 |
1,5 |
6,3 |
Erro amostral |
4,5% |
2% |
4,5% |
3% |
3% |
2% |
|
Fonte: Sócio Estatística.
* Em Outros destacava-se a candidatura Ubaldo Dantas com
quase 15% das intenções de voto.
No final da campanha, a taxa de rejeição do candidato Fernando Gomes
chegou a 37,2% contra 22,8% de Renato Costa e 11% de Davidson Magalhães.
1. O quadro em Itabuna na semana da eleição
A Sócio Estatística, como na eleição
municipal de 1992, dado o quadro de instabilidade política, nos dias imediatamente
anteriores à eleição, realizou ampla pesquisa e os resultados desta também foram
tornados públicos a meios de comunicação, antes do encerramento da votação, no dia 3
de outubro último, 1996.
A chamada da conclusão do relatório dessa última pesquisa dizia o
seguinte:
"Em Itabuna, em pesquisa realizada na semana da eleição, a
partir de domingo, persiste situação de empate técnico entre Fernando Gomes e Renato
Costa, mas Fernando amplia vantagem para 3,2%, tornando difícil reversão, ainda que
tecnicamente possível. Davidson está fora desta disputa".
A seguir, está a íntegra da conclusão desse último relatório, por
retratar, com muita precisão, o quadro do momento que antecedeu o dia da eleição
propriamente dita:
"Em Itabuna, nesta pesquisa realizada na semana da eleição, a
partir de domingo, permanece situação de empate técnico, consolidando tendência de
polarização definitiva entre FERNANDO GOMES e RENATO COSTA, ainda que haja pequena
vantagem pró-FERNANDO GOMES.
"(A título de ilustração, na eleição de quatro anos atrás,
na última pesquisa realizada, por sinal semelhante a esta, UBALDO e ODUQUE estavam na
casa dos 25%, ambos em queda, e GERALDO SIMÕES na casa dos 21%, em forte processo de
subida. Quando se fez a projeção, utilizando taxa de crescimento ou de queda das
principais candidaturas, entre outros fatores, posição se invertia, aparecendo GERALDO
como provável vencedor. Hoje, apesar da diferença entre FERNANDO e RENATO ser menor, as
circuntâncias são outras, como se verá abaixo. Mesmo assim, tecnicamente, é plausível
se acreditar na reversão do atual quadro, ainda que isso seja bem mais difícil,
comparativamente falando).
"A diferença de 3,2% entre FERNANDO GOMES e RENATO COSTA, apesar
de ter aumentado, ainda situa-se dentro do erro amostral desta pesquisa.
"DAVIDSON está em terceiro, e, apesar do fenômeno GERALDO
SIMÕES de quatro anos atrás e ter pretendido repeti-lo, o mais provável era que não
passasse da intenção, contribuindo, desta forma e involuntariamente, com a candidatura
FERNANDO GOMES, que parece ter sua fração do eleitorado cativa.
"Dos poucos dias que separam esta pesquisa da eleição, além da
boca de urna, há três fatos que devem ser levados em conta para uma melhor compreensão
dos resultados da pesquisa e das urnas.
"o primeiro diz respeito à pesquisa. Esta, por ter sido
residencial e em dias de semana, capta melhor segmento passivo do eleitorado. Este fato
tende a favorecer a candidatura FERNANDO e desfavorecer a candidatura RENATO.
"O segundo diz respeito aos indecisos ou indiferentes. Este fato,
dado que esse eleitor tem pouco interesse pelas eleições e não tem muita convicção
sobre o que quer, tende a refletir o sentimento de quem vai ganhar, também favorecendo,
neste caso e por essa razão, a candidatura FERNANDO GOMES.
"O terceiro fato diz respeito ao eleitor de DAVIDSON, que tem
identidade maior com a candidatura RENATO. A partir do momento em que esse eleitor sentir
que DAVIDSON não tem chances reais, como efetivamente não tinha e não tem, dadas as
circuntâncias deste processo, tenderá a migrar e a direção predominante será RENATO.
Este é, a rigor, o único fato que efetivamente favorece a candidatura RENATO nesta
eleição e pode apontar nas urnas, em tese, resultado diferente do encontrado pela
pesquisa. Esta é uma possibilidade tecnicamente real, ainda que difícil. Não fosse isso
uma probabilidade, ninguém precisava falar em erro amostral e, em consequência, a
eleição seria desnecessária, porque os resultados já seriam conhecidos. Todos sabemos,
no entanto, que pesquisa alguma substitui a eleição.
"Posição das principais candidaturas nas três últimas
pesquisas (semanas, em percentagem ):
Candidaturas |
15/09 |
22/09 |
30/09* |
Fernando Gomes |
36,4 |
34,1 |
37,0 |
Renato Costa |
28,3 |
32,2 |
33,8 |
Davidson |
14,9 |
13,5 |
13,9 |
Fonte: Sócio Estatística
* Dia básico de referência
"Em resumo, o quadro hoje em ITABUNA ESTÁ
POLARIZADO ENTRE FERNANDO e RENATO, saindo dessas duas candidaturas o próximo prefeito de
Itabuna. As chances de FERNANDO são maiores do que as de RENATO, mas dado que diferença
encontrada situa-se dentro do erro amostral desta pesquisa e face aos fatos acima
apontados, a pesquisa não tem condições de ser definitiva. Tecnicamente, nesse quadro,
é possível reversão, sendo também reais as chances da candidatura RENATO. Num quadro
como esse, qualquer afirmação categórica não passará de um palpite, uma vez que a
pesquisa, tecnicamente, não permite fazê-la."
2. Os últimos lances do processo sucessório
Esse foi o quadro que a pesquisa captou e foi à luz do
mesmo que os últimos lances da campanha foram tentados, lembrando uma verdadeira guerra e
guerrilha eleitorais.
Na fase final da campanha, a Coligação que apoiava Renato Costa
divulgou pesquisa do IPESP, Pernambuco, que dava frente para essa candidatura.
A Coligação que apoiava Fernando Gomes, divulgou pesquisa do IBOPE
que dava frente superior a 10 pontos percentuais para Fernando Gomes. E, nos últimos
dias, passou a apresentar um dado de pesquisa também atribuída ao IBOPE, com expediente
já utilizado na campanha de 1992 pela coligação de Oduque. Esse dado divulgado dizia
respeito a quem iria ganhar e não a intenções de voto. Essa estratégia, além de ferir
a Lei Eleitoral, por induzir o eleitor a pensar que se tratava de intenções de voto,
traduz, a rigor, o volume de propaganda existente.
A propósito, na última pesquisa realizada pela Sócio Estatística,
quando era perguntado ao eleitor quem iria ganhar, 42,2% apontavam Fernando Gomes contra
25,5% que apontavam Renato Costa e 7% que apontavam Davidson como vencedor. Outros 24,6%
não tinham certeza quanto ao provável vencedor. Outros 0,6% apontavam outras
candidaturas. Os resultados divulgados pela Coligação O Povo Quer Vencer em seus
programas eleitorais eram próximos desse.
A candidatura Davidson Magalhães insistia no discurso da virada, tendo
como referência o fenômeno Geraldo Simões de quatro anos antes, e cuja administração
Davidson criticou ostensivamente durante a campanha eleitoral.
Na última segunda-feira antes da eleição, último dia de campanha,
as três candidaturas realizaram grandes passeatas, descendo pela Avenida Cinquentenário,
que é o grande cenário de praticamente todas as manifestações políticas da cidade ao
longo de sua história e sua principal via comercial, sendo a de Fernando Gomes pela
manhã e as de Renato e Davidson, pela tarde.
Entre o final do período de campanha propriamente dita e a eleição,
vários lances ou movimentos, no entanto, foram tentados e consumados.
Esses movimentos tinham em comum um mesmo objeto: o eleitor da
candidatura Davidson, pois no seu comportamento essa eleição seria decidida. Esses
movimentos refletem o que, em outro texto, foi denominado guerrilha político-eleitoral.
A esse propósito, o quadro político nas últimas três semanas antes
da eleição e que ganhou maior consistência na última, era o seguinte: "se no
final da campanha disputa estivesse entre Fernando Gomes e Renato Costa, 45,2% dos
eleitores escolheriam Renato Costa contra 42,2% de Fernando Gomes". Observa-se que
esses dados foram colhidos em pesquisa realizada há três semanas da eleição.
Nessa mesma pesquisa, de cada quatro eleitores que votariam
originalmente em Davidson, três votariam, nesse caso, em Renato Costa e um votaria em
Fernando Gomes. Ou seja, Davidson era o fiel da balança, estando nele, em última
instância, o destino desta eleição.
Davidson, apesar do assédio da Coligação que apoiava Renato Costa,
em especial do semanário A Região, que apoiou ostensivamente a candidatura Renato Costa,
continuou inabalável em sua posição, talvez mais anti-Renato e anti-prefeito Geraldo
Simões, que não o escolheu do elenco de postulantes de Esquerda, do que pró-Davidson
mesmo, já que as pesquisas não sinalizavam a possibilidade de a história se repetir,
sendo agora ele o seu personagem central. A propósito, as pesquisas locais disponíveis
não davam sustentabilidade à sua hipótese básica e ao seu propósito, ou seja, ao seu
discurso da virada. Talvez em razão disso, num lance que extrapola em muito o razoável,
sua militância distribuiu panfletos de uma pesquisa de fluxo, utilizando, pela segunda
vez nesta campanha, o IBOPE. Esse, tão logo acionado, mais uma vez desmentiu autoria da
pesquisa.
O objetivo dessa divulgação era de forjar uma imagem de viabilidade
eleitoral da candidatura Davidson. Se não foi atingido, pelo menos impediu que o voto
útil corroesse sua candidatura. Nesse ato que foge a qualquer lógica de bom senso,
difícil de ser compreendido ou encaixado em qualquer modelo dotado de um mínimo de
razoabilidade, a ética mais uma vez foi primariamente atropelada. O fato de se estar em
um tempo político-eleitoral e nesse, como está posto em outro texto, a ética é
bastante relativizada, mesmo assim, esse episódio permanece como um sinalizador, um marco
que precisa ser superado, sem, no entanto, ser negado.
O semanário Agora, que apoiou ostensivamente a candidatura Davidson,
na véspera da eleição, estampou em letras garrafais: Quem vence: FERNANDO OU DAVIDSON?.
Essa manchete coincide com a estratégia da candidatura apoiada, refletindo,
intencionalmente ou não, a referida pesquisa de fluxo, distribuida pela militância da
candidatura Davidson, como se disse acima, desmentida pelo IBOPE, que apresentava os
seguintes resultados: Fernando Gomes: 31,2%, Davidson Magalhães: 29,3%, e Renato Costa,
para ficar só nomes que aqui mais interessam, 25,1%. Obviamente, tratava-se de uma
manchete eleitoreira com objetivos bem delineados: sustentar candidatura Davidson,
evitando migração de eleitores dessa candidatura, via voto útil, para a de Renato
Costa. Com isso, impedir-se-ía a mudança no resultado dessas eleições, assegurando, em
última instância, a vitória de Fernado Gomes, que esse mesmo semanário combateu
ostensivamente na gestão anterior, quando apoiava as pretensões do ex-prefeito Ubaldo
Dantas e que, nesta eleição, também apoiou a candidatura Davidson.
A coligação que dava sustentação à candidatura Renato Costa, até
quase o final, acreditava ser possível convencer o jovem Davidson a abrir mão de sua
candidatura, assegurando vitória de Renato Costa e, desta forma, inviabilizando retorno,
pela terceira vez, de Fernando Gomes à prefeitura. Tentou à toa esse objetivo e de
negociação em negociação consumindo-se um tempo a cada dia mais escasso. Quando essa
via foi se mostrando improdutiva, passou a rebater críticas que há muito Davidson vinha
fazendo no Horário Eleitoral Gratuito.
Davidson parecia consciente de que suas chances passavam pelo colapso
de um dos prováveis polarizadores desta campanha. Fernando, desde muito, apresentava-se
como um dos pólos e tinha eleitorado cativo. Se Fernando era um dos pólos e esse parecia
inabalável, como os fatos acabaram confirmando, a estratégia consistia em ser o segundo
pólo. Contudo, no segundo pólo, como pode ser intuído pela lógica geral que comanda
processos eleitorais para cargos executivos, tratada em outro texto, também havia uma
candidatura, Renato Costa, apoiada pelo então prefeito, Geraldo Simões, com avaliação
junto à população tendendo ao positivo e com boas perspectivas de reeleição caso essa
já fosse possível. Dadas essas circunstâncias, as alternativas de Davidson, a rigor,
eram muito estreitas para suas pretensões. Seguramente, se Davidson tivesse composto com
Geraldo Simões, possivelmente o resultado destas eleições seria outro. Tendo sido
preterido, suas chances praticamente inexistiam, como de fato inexistiram.
Para Fernando Gomes, o embate entre forças ditas de Esquerda,
divididas, por razões que não importa aqui discutir, foi um grande presente que o
destino lhe reservou. Graças a esse fato, mesmo tendo uma taxa de rejeição explícita
próxima dos 40%, conseguiu se superar, vencendo também essas eleições.
Afora a boca de urna, que surpreenderia pelo volume a qualquer
militância de Esquerda mais mobilizada, a candidatura Fernando Gomes contou com apoios
expressivos, destacando-se os meios de comunicação, como as duas tevês locais, Record e
Santa Cruz. Essa última, na fase final da campanha, abriu mão de sua tradicional postura
de reserva ou de não interferência explícita, e passou a adotar postura de
favorecimento da candidatura Fernando Gomes, sem nenhuma sutileza, via noticiosos, sem dar
nenhuma oportunidade de o outro lado expor sua versão dos fatos. Essa oposição a
Geraldo Simões e sua gestão à frente da Prefeitura Municipal de Itabuna continuou mesmo
após a eleição. Contudo, papel de peso também desempenhou a Rádio Difusora AM, do
próprio candidato Fernando Gomes, que pode ser definido como de militância explícita ou
rádio engajada, sem medo de ser feliz, sem constrangimentos. Essa estação de rádio,
líder de audiência no segmento AM, segmentos mais populares, não vacilou em fazer a
promoção ostensiva da candidatura Fernando Gomes.
Na véspera da eleição, quando a sua definição praticamente tinha
apenas um fator com potencial de mudança, no caso, o comportamento que iria tomar o
eleitor de Davidson, dada a sua inviabilidade eleitoral nesta disputa, a Rádio Difusora
noticiou que Renato teria renunciado em favor de Davidson (sic).
Por fim, seguindo lógica desse final de campanha, a estratégia do
semanário A Região, de intensificar polarização, explicitando inviabilidade eleitoral
da candidatura Davidson Magalhães, tentando atrair voto útil, foi neutralizada pela
Justiça Eleitoral, atendendo com muita presteza a ação da Coligação Coragem Itabuna,
do próprio Davidson, que impediu distribuição de edição do jornal.
Nesta eleição e no caso de Itabuna, a Justiça Eleitoral mostrou ser
seletiva no julgamento dos processos: em uns com velocidade e em outros, esses contra as
pretensões da candidatura Renato Costa, e, em casos, sequer dando-se ao trabalho de
julgar processos, atropelados pela própria eleição.
3. A seis meses da eleição
Fernando Gomes, todos sabiam, seria candidato e seria
muito difícil de ser vencido. Parecia também haver um consenso de que só seria
possível derrotá-lo nas urnas se as oposições a essa candidatura fossem capazes de se
unir. Nesse sentido, o resultado das eleições confirmaram o acerto dessa intuição ou
desse sentimento. Contudo, o entendimento acabou não acontecendo. (Em certo sentido, é
um pouco o que parece ocorrer com relação às pretensões de Fernando Henrique se
reeleger. Há um quase consenso de que só uma frente ampla e única poderia ter chances
reais impedir a reeleição do atual presidente).
Em março e abril, os quatro principais pólos de oposição a Fernando
tentaram ensaiar uma união, uma frente única contra Fernando Gomes. Esses pólos eram
Geraldo Simões, do PT, então prefeito; Renato Costa, do PMDB, deputado estadual; Ubaldo
Dantas, ex-prefeito, do PSDB, opositor histórico de Fernando Gomes; e Davidson
Magalhães, do PC do B, vereador.
Geraldo Simões abriu mão de a cabeça de chapa ser do PT, mas exigiu
o nome de Eduardo Barcellos, desse partido, para a posição de vice. A cabeça de chapa
incidiu no nome do deputado Renato Costa, que na eleição anterior, de 1992, foi apoiado
por Davidson contra o próprio Geraldo Simões.
Essa escolha, também atribuída ao prefeito Geraldo Simões,
preterindo os nomes de Ubaldo Dantas e Davidson Magalhães, ou de alguns dos seus
seguidores, não agradou esses dois grupos. Sendo assim, dado que essa combinação não
atendeu às expectativas desses dois importantes grupos políticos, esses se uniram e
formaram uma terceira chapa, tendo como cabeça o próprio Davidson, sendo seu vice
empresário no ramo de autopeças, Adolfo Gomes, mais conhecido pela alcunha de Marreco.
Se se quiser apontar um fato singular para explicar uma derrota, esse
fato reveste-se de crucial importância, pois dele decorrerá o ânimo que presidiu essas
eleições no quadrante tido como de Esquerda, marcado por uma aposta surda entre Geraldo
Simões, de um lado, e Ubaldo Dantas e Davidson Magalhães, de outro. Observa-se, no
entanto, que nenhuma derrota, via de regra, tem sua explicação assentada em um único
fato ou ato. Contudo, pelos desdobramentos, esse fato foi de grande envergadura e
revelador do espírito que movimentou importantes atores políticos e de suas
personalidades.
Em pesquisa realizada em abril, o quadro de intenções de voto era o
seguinte: Fernando liderava com quase 39%. Renato, já tendo apoio implícito de Geraldo
Simões, vinha em segundo com 18%. Ubaldo Dantas, mesmo bastante afastado do cenário
político local, tinha cerca de 14% das intenções de voto. Em quarto, com pouco menos de
6% das intenções, estava Davidson.
Em suma, a manutenção da candidatura Davidson Magalhães até as
últimas consequências foi importante para a estratégia e a vitória da candidatura
Fernando Gomes, sendo possível se afirmar, inclusive, que esse fato foi decisivo. Noutras
palavras, a divisão ou desunião da Esquerda itabunense, se é que faz sentido usar essa
palavra aqui, foi o fator crucial desta eleição.
Diante das circunstâncias desta eleição, é possível resumir-se
esse processo eleitoral através do seguinte quadro figurativo: Fernando Gomes venceu e
comemorou a sua vitória; Renato Costa e o prefeito Geraldo Simões foram os únicos que
efetivamente perderam e nada puderam fazer senão maldizer a postura de Davidson (e
Ubaldo), fazendo eco com o comentarista Samuel Celestino, do jornal A Tarde, de Salvador,
que chegou a propor que o novo prefeito construísse uma estátua em homenagem a Davidson
e os serviços por ele prestados à candidatura Fernando. Davidson, para ser exato, na
realidade, não perdeu, pois só faz sentido aplicar-se esse termo para quem, em algum
momento, reuniu reais credenciais de vencer e isso não chegou a se consumar. Sendo assim,
dado o caráter pessoal das divergências entre Davidson e o prefeito Geraldo Simões, a
lógica dos fatos parece sugerir que Davidson, mesmo contra o respaldo da maior parte de
seus eleitores, tenha comemorado a derrota de Renato e de seu padrinho, o prefeito Geraldo
Simões.
Esse quadro figurativo e hipotético, permite resumir o clima que
dominou e predominou no período imediatamente após a eleição e a vitória de Fernando
Gomes. O clima político ficou bastante pesado para Davidson, que teve oportunidade, no
entanto, de fazer sua defesa pelo menos na TV Santa Cruz e no semanário Agora.
Afora alguns episódios, como o da pesquisa de fluxo, vergonhosamente
falsa, a crítica a Davidson parece desmedida. Enquanto político e cidadão, Davidson
tinha o legítimo direito de ser o candidato que foi e ir até o fim como de fato foi. A
pretensão da candidatura Renato Costa de que abrisse mão de suas pretensões em seu
favor é, no mínimo, discutível. O argumento de que não iria vencer, mesmo verdadeiro,
como se tratava no caso, é um argumento de grandeza menor e não pode ser levado em
conta. Só havia um argumento suficientemente forte para ser argüido: a de que Davidson,
sabedor que era de suas limitações nesta disputa (a ponto de apelar para a referida
pesquisa de fluxo), efetivamente acreditasse que uma administração Renato Costa para o
conjunto da sociedade fosse melhor do que uma administração Fernando Gomes. Nesse caso,
o razoável seria que pensasse no que seu discernimento de cidadão livre lhe apontasse
como sendo o melhor para Itabuna. E aqui, o único capaz de dar uma resposta consistente e
contundente acerca desse discernimento era o próprio Davidson e esse, na prática, a deu.
As outras respostas, como de que em seu posicionamento de candidato pesaram mais questões
de ordem pessoal (mágoa contra Geraldo Simões por não ter sido o candidato escolhido)
do que os anseios da comunidade itabunense, ou que teria havido desonestidade de
propósitos são hipóteses, insinuações, e o tempo deverá elucidá-las. O importante,
aqui, é não se perder de vista de que posta ao público sua candidatura, era um direito
seu ir até o fim.
As razões reais para esse ir até o fim, a qualquer custo,
seguramente, deverão merecer explicações, pois o seu futuro político talvez delas
venha precisar, assim como nessa eleição a candidatura Renato Costa precisou de seu
apoio, recusado, no entanto.
Dentre as razões, é possível que Davidson não seja tão unicamente
responsável pelo desfecho da eleição, como fez supor o clima que se instaurou após
contagem dos votos. Há, por exemplo, a hipótese de que Davidson tenha sido instrumento
de quem lhe deu amplo espaço no Horário Eleitoral Gratuito, o PSDB e seu principal
líder, o ex-prefeito Ubaldo Dantas, que teria se sentido, por exemplo, duplamente
preterido por Geraldo Simões, primeiro como cabeça de chapa, e, depois, como vice ou com
o poder, ao menos, de indicá-lo. Observa-se que Geraldo Simões consentiu que o PT
abrisse mão da cabeça de chapa, mas indicou o deputado Renato Costa, do PMDB, e também
indicou Eduardo Barcellos, do PT, seu Secretário de Infraestrutura (obras), para vice.
Mesmo assim, a obstinação inabalável de Davidson em ir até o fim a qualquer custo,
levando-se em conta a sua biografia anterior, é difícil de compreender e, ao mesmo
tempo, surpreendente. Isto porque mais forte do que o impulso de vencer parecia ser a
vontade de não deixar que Renato Costa vencesse, ou melhor, que Geraldo Simões fizesse
sucessor. Nessa queda de braço, Davidson não estava só. Para a estratégia de Davidson,
o tempo do PSDB era e foi de crucial importância. Foi esse tempo que permitiu a Davidson
desempenhar o papel que logrou desempenhar. Sem esse tempo, sobretudo se esse precioso
tempo tivesse sido agregado à candidatura Renato Costa, o resultado seria outro e
Davidson mal passaria, se candidato ainda, do limiar de diferenciação dos que poderiam
ser definidos como microcandidatos. Nesse sentido, o PSDB, em especial Ubaldo Dantas, tem
expressiva contribuição nos resultados.
Esse quadro se completa na análise dos posicionamentos do prefeito
Geraldo Simões. É possível que o prefeito tenha pecado por autosuficiência em demasia.
Quando Geraldo Simões abriu mão do PT como cabeça de chapa, indicando Renato Costa, do
PMDB, mas impondo, numa estratégia politicamente difícil de ser sustentada, dado a
força de quem se pretendia vencer, também o vice e este do PT, consolidou uma ruptura
nas forças de Esquerda, permitindo, das entranhas dessa grande frente, a emergência de
uma terceira chapa, na qual, Davidson, talvez, não tenha passado de instrumento. Hoje,
retrospectivamente, esse equívoco político resultou desastroso para as pretensões de
fazer sucessor. Na época, a propósito, parecia ser consenso de que só seria possível
derrotar Fernando Gomes se todos cerrassem fileira contra ele e que uma divisão, dadas as
circunstâncias, poderia ser fatal. A pergunta a ser feita, então, é a seguinte: como,
num contexto como esse, Geraldo Simões, tendo o carismático Fernando Gomes, agora com o
apoio explícito do Governo Estadual, disposto a tudo contra suas pretensões, não intuiu
que seu jogo, permitindo uma terceira chapa, era de alto risco? A resposta mais plausível
é que, de um lado, ter-lhe-ía sobrado autoconfiança e, do outro, faltou-lhe uma
avaliação mais realista do poder de fogo das forças dissidentes e de seu principal
opositor. As decisões de Geraldo Simões, na definição dos nomes, se foram uma aposta,
os fatos, em razão da determinação dos atores, mostraram que essa foi perdida.
Dada a conjugação dos fatos e dos fatores, Fernando Gomes intuiu que
o futuro lhe seria risonho, mais uma vez. E, desta vez, ancorado no Governo Estadual e em
nome desse falava do amanhã, de muitos empregos, realizações e bem-estar para todos.
Fernando Gomes, no entanto, está diante de um desafio: não repetir os
desempenhos de Pedral Sampaio, em Vitória da Conquista, ao Oeste de Itabuna, e de Antonio
Olímpio, em Ilhéus, ao Leste. Onde o sol se levanta e se põe, esses dois prefeitos, que
encerraram seus mandatos no final de 1996, apresentaram desempenhos medíocres, não
fizeram sucessor, apesar de terem tido o apoio do Governo Estadual e a ele, assim como
Fernando Gomes nessa eleição, também se lançaram, com grande avidez e muita
esperança. A pergunta é: Fernando Gomes amanhã será Pedral Sampaio ou Antonio Olímpio
hoje? O tempo revelará qual será a sorte de Fernando Gomes. É certo que se não souber
interpretar os sinais, decifrando-os e antecipando-se, também será devorado por essa
esfinge dos tempos modernos.
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