A Universidade Estadual de Santa Cruz, UESC, é parte componente da
comunidade regional. Nela se refletem todos os seus valores, interesses e contradições.
Todavia, seria muito pobre se apenas fosse reflexo de seu entorno mais próximo. Nesse
ponto parece residir o nó górdio do problema de sua inserção. A forma como o faz tem
poder de defini-la. O desafio consiste em conjugar dialeticamente sua dimensão reflexo
com a sua dimensão de força transformadora, derivada de seu fazer intrínseco e de sua
missão institucional: formação de quadros qualificados, na perspectiva da cidadania
e da ciência e da técnica, na perspectiva da criação e adequação e difusão de
cultura e conhecimentos. À universidade não basta refletir, nem mesmo refletir o
mundo científico ao qual está ancorada. Isso seria pouco, ainda que muito necessário.
Nesse sentido, quanto mais for capaz de ir além da condição de reflexo, mais
universidade será.
Isto posto, temos que hoje, internamente, a UESC passa por um processo de definição
de sua configuração institucional. As feições do que será a UESC dos próximos 20
anos começam a se definir com mais clareza enquanto Universidade, hoje credenciada. O
programa das professoras Renée-Margarida para o segundo mandato à frente dos destinos da
UESC sinaliza claramente para alguns desses contornos.
Nessa configuração é que se situa o curso de Medicina, por exemplo,
e se situam também os cursos em implementação ou já aprovados como em Rádio e
Televisão, em Informática, em Hotelaria, em Educação Física, em Educação Física e
em Ciências Contábeis, e se situarão também os cursos que responderão pela vertente
propriamente tecnológica, como Engenharias, lacuna a ser preenchida nessa Universidade e
no Sul da Bahia. E a partir dessa base, deverá a UESC fazer sua aposta mais ambiciosa,
que é a de se converter num grande centro de criação de cultura, ciência e
tecnologia do Sul da Bahia em algumas importantes áreas do conhecimento e da
atividade humana. Nesse sentido, a UESC encontra-se numa situação de grande
responsabilidade e os próximos anos a marcarão indelevelmente, superando definitivamente
sua condição de instituição centrada no ensino. A situação é, portanto, de
transição para uma instituição capaz de conjugar com competência ensino, pesquisa e
extensão, no cumprimento de sua missão.
Dada a amplitude, custos e complexidade exigidos pelo novo patamar,
desejado e acima acenado, a UESC vê-se diante de desafios inadiáveis, para não cair na
armadilha da pulverização dos seus recursos, em mil e uma frentes e perder-se na imensa
planície das generalidades. O novo patamar, dadas suas características e circunstâncias
do momento e do contexto, exige da UESC a definição de focos, e esses precisarão ser
dotados de relevância, ao mesmo tempo, regional e científica. No fundo, isso
representará o esforço da UESC em se constituir em uma instituição relevante, social e
regionalmente, sem perder de vista o mundo da ciência, que é seu grande balizador, em
última análise. Dentro da infinidade de focos possíveis, a probabilidade dela se
afirmar no exigente e revolucionário mundo da ciência será maior se conseguir antecipar
as tendências da economia e da sociedade e nelas construir seu lugar ao sol.
Definir focos significa escolher direções e renunciar a outras. Significa apostar
seletivamente, sem perder, todavia, o trem da história. Ao contrário, ser capaz
de embarcar nele.
Um olhar em direção ao futuro, da perspectiva da ciência e da
tecnologia, revela que são muito promissoras algumas vertentes. Essas poderiam ser
resumidas em algumas expressões, como "genoma" incluindo nessa palavra
também "biologia molecular", "biotecnologia", "saúde" e
termos associados), "internet" (incluindo também
"informática", "comunicações", "informação" e termos
associados), "energias renováveis", especialmente a solar em suas mais
variadas vertentes, sustentabilidade econômica, social e ambiental dos novos
padrões de desenvolvimento. Novos materiais, química fina e Informática
são linhas priorizadas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, inclusive com
incentivos e isenções fiscais, sendo o Pólo de Informática de Ilhéus decorrência
dessa política. Essas expressões interagem e têm interseções entre si. As áreas da química
fina e do genoma, por exemplo, acenam para a perspectiva de produção de
medicamentos personalizados, abrindo para um novo conceito de saúde. A UESC pode ter
pretensões pelo menos nas quatro primeiras expressões acima referidas. O século XXI
deverá aprofundar a revolução tecnológica que está emergindo com muita força neste
final de século. Tecnologicamente, o futuro passará e será perpassado por essas novas
fronteiras do conhecimento e da atividade humana, que se refletirão nos produtos e
serviços da economia do futuro.
Social e culturalmente, apesar de soprar fortes ventos uniformizantes e
homogeneizantes da globalização, deverão ganhar força valores e formas de convivência
microcomunitárias, em que cada comunidade deverá fazer valer sua identidade e sua
singularidade, resgatando sua trajetória histórica, sem perder-se nos seus problemas mal
resolvidos, nos seus ódios e rancores imemoriais. O universal deverá ganhar expressões
próprias em cada comunidade. Essa será a grande riqueza cultural e social do futuro.
Da perspectiva da economia, os serviços que poderão marcar os novos
tempos, situam-se, sobretudo, nas áreas da educação, da informação e da atualização
permanentes, da saúde e do cultivo da forma física, do lazer e do turismo, das
manifestações culturais, esportivas e artísticas. Naturalmente, a magnitude dessa nova
economia dependerá, em boa parte, do alargamento do mercado interno ou do poder de compra
da população local, que tem na melhoria geral do nível de instrução formal uma forma
privilegiada de fazê-lo. O turismo, para citar um exemplo, ainda precisa andar bastante
para fugir da vulnerabilidade representada pelos caprichos do tempo. Aqui, o surgimento de
indústrias e o Pólo de Informática, mais a Universidade e seus novos cursos e
estudantes vindos das mais variadas regiões do estado, são, seguramente, a melhor
esperança para o turismo e tudo o que com ele está relacionado, por contribuir para sua
densificação durante todo o ano, por razões de estudo ou de negócio.
A UESC assegurará seu lugar no futuro na medida em que for capaz de
bem sintonizar com essas tendências. Nesse sentido, terá mais e melhores chances de
afirmação se for capaz de fazer uma aposta estratégica. Fazê-la significa correr
riscos. Todavia, focalizar corretamente fará a grande diferença entre as instituições.
Hoje, está a UESC a caminhar para a definição de suas feições e seus focos, enfim, de
seu desenvolvimento institucional, tendo diante de si dois grandes desafios,
inseparáveis.
| | - um direcionado ao mundo da ciência e da tecnologia; |
| |
- outro desafio é realizarmos a expectativa de todos quantos nesta região olham para
a nossa universidade e a vêem com esperança, como promessa. Em resumo, temos a dupla
missão de realizar simultaneamente os desafios da contemporaneidade e da comunidade
regional. |
Enquanto instituição pretendente a se converter num grande centro
de criação de cultura, ciência e tecnologia do Sul da Bahia, em importantes áreas
do conhecimento e da atividade humana, a UESC precisa definir com clareza e objetividade
seus focos.
Dentre os focos, a título de sugestão, destacam-se:
a área da Saúde, em suas três dimensões: humana, animal e vegetal.
Nesse foco, por exemplo, a UESC deverá fazer convergir importantes linhas de sua
pós-graduação stricto sensu (mestrados e doutorados) e da pesquisa biológica,
agronômica, veterinária, biotecnológica, química, física, social. O Centro de
Excelência em Epidemiologia Animal, em parceria com o Instituto Interamericano de
Ciências Agrárias, Costa Rica e o Ministério da Agricultura, é mais um sinalizador
desse direcionamento. Aqui, a área de fitotecnia, agregando-se à experiência e ao
conhecimento acumulado pela Comissão Executiva da Lavoura Cacaueira, CEPLAC, é uma outra
que precisa ser conjuntamente construída, para que nada se perca e os esforços sejam
conjugados em prol da comunidade regional e da ciência. A UESC precisa criar uma cultura
simultaneamente integrada ao mundo da economia e da sociedade e ao mundo da ciência e da
técnica. O foco na saúde, como fulcro agregador de muitos projetos e de várias áreas,
pode fazer convergir essa integração ou conjugação de perspectivas. E isto é
importante porque somos muito pobres para apenas produzir papers para o
enriquecimento gratuito da ciência e dos que estão melhor preparados para convertê-los
em produtos e serviços, enfim, riquezas. Essa cultura deverá permear todos os focos que
vierem a ser definidos.
Outro foco deverá ser a educação face às novas tecnologias, aos novos
conhecimentos e às novas metodologias. A educação aqui está sendo valorizada em si
mesma e como etapa necessária para as conquistas da nova economia. Essas passam
necessariamente não apenas pela melhoria geral do patamar médio de educação de toda a
população, sendo esse um imperativo econômico e também humano, mas também deve
instaurar uma cultura favorável ao empreendedorismo, enquanto ethos impulsionador
da criatividade e da postura crítica, mesmo sendo empregado, já que esse também precisa
mudar e contribuir para a mudança em seu ambiente de trabalho, e buscar a inovação
tecnológica, enquanto condição necessária para a conquista e a consolidação de
vantagens competitivas. Seria muito cômodo e insuficiente pensar que esse novo ethos
bastasse apenas ao empregador. É preciso que o conjunto respire nesse ambiente. Esse é o
desafio da educação, que, em não sendo superado, pode comprometer o conjunto do projeto
e o próprio processo de desenvolvimento regional que a Universidade tem pretensões de
liderar ou, pelo menos, de elucidar e iluminar.
Um outro foco deverá ser a área ambiental e no nosso caso, a Mata Atlântica e
o mar, que podem ser bem mais do que o lazer nos fins de semana e nas férias, para os
habitantes locais e os turistas. Todavia, a expressão "área ambiental"
em si mesma é bastante genérica e pode não apontar objetivamente para lugar nenhum. É
preciso dotar essa expressão genérica de direção e de conteúdo e isso significa
assumir publicamente posições que podem e devem confrontar com interesses estabelecidos
localmente. Significa termos uma idéia clara de desenvolvimento e de projeto para sua
realização. As bacias hidrográficas, como a do Rio Cachoeira, e o Centro de
Biotecnologia da Mata Atlântica podem ser bons pontos de partida e grandes referenciais.
Um quarto e promissor foco decorre naturalmente do eixo central do curso de
Comunicação Social em Rádio e Televisão: produção cultural. A realização
desse fará desta UESC e desta região um centro de produção de cultura, assentado nos
suporte som e imagem. Esse foco tem condições de fazer convergir várias áreas, como
Letras, Ciências da Computação e os cursos da área tecnológica a serem implantados.
Tem também condições de fazer uma ponte consistente entre o mundo da economia e da
sociedade regional e o da ciência, que neste país tem dificuldades de se aproximarem
construtivamente. Pessoalmente, levando em conta importantes aspectos da cultura regional,
creio que pode se constituir na grande e boa surpresa que emergirá da UESC para a
economia e para a sociedade regional a médio prazo. Vejo nesta direção um potencial
privilegiado, capaz de transformar expressivamente o cenário regional, sem agregar
problemas ambientais, além de possibilitar a incorporação de muitos projetos e muitas
áreas de conhecimento e de ação. Essa direção tem tudo a ver com uma vocação
ambiental e turística que é almejada por e para esta região.
O plano estratégico de desenvolvimento institucional da UESC deverá
contemplar, complementar e completar essas áreas focos, tendo em vista as nossas
vantagens competitivas e nossos recursos regionais. É importante reenfatizar as
características culturais que devem acompanhar essa definições, como a superação do
academicismo, sem decair no mero pragmatismo, e a incorporação de uma mentalidade que
poderíamos definir como de abertura à inovação e ao empreendedorismo.
A UESC que passa, hoje, por um decisivo processo de expansão e de
consolidação de sua configuração enquanto Universidade, está, a rigor, abrindo-se
para um segundo e crucial patamar de afirmação institucional e o desafio que esse
representa amplia-se porque se encontra num contexto social, econômico e cultural marcado
por grandes carências, grandes pressões pela superação dos problemas que afetam esta
região e que se arrastam ao longo do tempo.
A propósito, o cenário regional dos últimos 15 anos, marcado por
baixos preços do cacau, foi agravado pela Vassoura de Bruxa. Isso colocou em risco a
viabilidade econômica regional e hoje vivemos num momento de transição, em que as novas
alternativas começam a surgir e entre elas o próprio cacau, mas ainda sem a
consistência e magnitude necessitadas pela comunidade regional.
A situação social exige respostas e presença por parte da UESC, da
CEPLAC e das outras instituições e empresas presentes nesse espaço geográfico. A
verdade é que as carências, os problemas e os apelos são muitos e é preciso não
perder de vista a missão e o papel da UESC.
A propósito dessa necessária e oportuna inserção da UESC em sua
comunidade e em sua economia, podemos afirmar que a melhor forma de contribuir e de se
inserir em sua região, da perspectiva de sua missão, ainda é formar bons profissionais
e cidadãos conscientes, portadores de uma cultura aberta à inovação, à criatividade,
à iniciativa, ao espírito crítico, como empregadores ou como empregados. Essa cultura
é desejável independentemente das posições ocupadas na estrutura social e econômica.
Por essa razão, o caminho da UESC é o da educação transformadora, para a saúde, para
o desenvolvimento de competência gerencial e capacidade empreendedora, para o
desenvolvimento do seu potencial, para a formação de quadros qualificados capazes de
transformar a cultura e a economia e de produzir conhecimentos relevantes e oportunos.
- Sociólogos, Professores da UESC
Publicado no Jornal Agora/Sócio Estatística, 27
de novembro de 1999, Itabuna, Bahia