Da informação à propaganda e a regra da integridade dos resultados de pesquisas

 

Por Agenor Gasparetto*

 

Em 1.997, a  Sócio Estatística criou e vem mantendo em Itabuna um sistema de pesquisa aberta. Por esse sistema, todas as pesquisas políticas, eleitorais ou não, são de caráter público, pertencem à empresa e estão disponíveis a todos os interessados, sem exceção. E é pretensão da empresa manter esse sistema. E isto como forma de exercer melhor sua independência enquanto empresa de pesquisas à serviço de sua comunidade.

 Desde sua fundação, há quase 11 anos,  em Itabuna e em Ilhéus, a Sócio Estatística foi à público na defesa de sua posição, várias vezes. No momento, volta mais uma vez a  exercer o seu direito de zelar pela sua informação, já que essa foi  convertida, de forma primária,  em instrumento de propaganda.

 Primeiro foi o  Jornal AGORA, na última edição,(nº 874), que publicou nota de capa e uma matéria publicitária com o título “Pesquisa mostra que população aprova a administração municipal em Itabuna” (p.5) . Ontem, dia 29, o DIÁRIO DO SUL  reproduziu essa matéria, com quase o mesmo título.

 No entanto, a matéria não separa o que é publicidade e o que é posição da Sócio Estatística. Em razão disso, a empresa fez uma nota pública de esclarecimento, contra o uso indevido do nome deu nome, de seu responsável técnico e da informação gerada por sua pesquisa e que esse jornal, como era de se esperar, publicou sem titubear.

 Ë bom frisar que  o direito de publicar resultados de avaliações  tem que ser respeitado. Não há nada contra o exercício desse direito. Não está esse direito em questão. O que está em questão é o interessado em uma divulgação desses resultados, sonegar informações, reconstruir estatísticas e publicá-las como se fossem da empresa que  realizou a pesquisa.

 A Sócio Estatística está preocupada tão somente com a informação e não com a propaganda. E essa última, quando feita, tem que ser feita separando o que a empresa de fato apresentou e o que foi reconstruído segundo outros interesses.

 Aqui, a regra para saber se o que está sendo dito é autêntico ou se é reconstrução sob medida, mas  extra-empresas de pesquisa, é muito simples. Em princípio, toda vez que os resultados não contém a marca da sua  integridade, há problemas, por melhores que sejam as intenções comunicativas de seus autores. Aqui, a boa pesquisa e a boa divulgação, já que focadas na informação e não na propaganda,  não precisam de intérpretes.

 A regra da integridade  significa simplesmente apresentar a informação completa, sem supressões, sem acréscimos, sem agregações, informando ainda todos os elementos técnicos essenciais para uma direta e adequada interpretação pelo leitor, ouvinte ou telespectador.

 Esses elementos técnicos, mínimos e essenciais, recomendados por todos os códigos de ética que embasam as pesquisas e os seus institutos, ABIPEME, ANEP, ESOMAR, por exemplo,  são os seguintes: período de realização da pesquisa de campo, erro amostral, tipo de amostragem, número de pessoas entrevistadas, empresa que realizou a pesquisa, os resultados completos do ponto divulgado, para que o leitor faça ele mesmo as interpretações sem as lentes de terceiros, bem como informações relevantes, que independeram da vontade do instituto,  que uma pesquisa pode ter e que podem ter influenciado nos resultados. Por exemplo, no dia da pesquisa, carros de som veiculando mensagem de alguma candidatura. Esse fato pode influenciar, criando uma “ bolha”, inflando nome evidenciado por esse carro de som. Em havendo fatos, é dever do instituto e dos veículos de comunicação torná-lo público. A   preocupação com o respeito à integridade da pesquisa, em suma, é dos institutos de pesquisa, mas tem que ser também dos veículos de comunicação. Do contrário, não passariam de instrumento de outros interesses.

 O respeito a esses elementos, aqui denominados, integridade dos resultados de uma pesquisa, é que separa a informação da propaganda. Portanto, num ano eleitoral como esse, a observância a essa  regra poderá ser muito útil na necessária e sempre oportuna separação entre informação e propaganda, que teimam, com obstinada vontade,  em andar juntas, como se fossem uma só coisa .

 No episódio da divulgação pela Prefeitura Municipal de Itabuna dos resultados da avaliação da administração municipal e dos seus serviços, dentre todos os elementos acima referidos,  o único que foi efetivamente respeitado foi o nome da empresa e de seu responsável técnico.

 Mesmo nesse caso, a forma de agregar estatísticas foi contra posições defendidas publicamente pelo mesmo. Isto porque a Sócio Estatística nunca considerou e nem considera o conceito regular como conceito positivo. Em estudo publicado no próprio jornal Agora, edição de 16 a 22 de outubro de 1999 (nº 855), afirma precisamente o contrário, ou melhor, que o regular é um conceito ambíguo e que a experiência vem mostrando que, em horas de decisão, tende a virar conceito negativo.  Esse artigo pode também ser lido na página da Sócio Estatística na Internet, (www.socio-estatistica.com.br), bem como no último número da Revista SBPM–Sociedade Brasileira de Pesquisas de Mercado (dez., 1999, nº10, 32-36). No caso da divulgação em pauta,  fez-se exatamente o oposto do que vem afirmando.

 Dos outros elementos, o período de realização das pesquisas não foi respeitado, uma vez que foi mencionada a semana passada e os resultados eram de outra, outubro passado. O número de entrevistados, o erro amostral também não foram mencionados. Por fim, no intuito de inflacionar os percentuais, foi sonegado que os itabunenses que não opinaram foram excluídos dos percentuais recalculados à luz dos interesses em jogo.

 O resultado dessa nova reconstrução estatística foi um quadro muito simpático à administração, que, seguramente, não precisaria  disso para se afirmar. É verdade que esse fato não acontece apenas em Itabuna. E é verdade também que há quem inverta, agregando o regular à avaliação negativa (conceitos péssimo e ruim).

 Todavia, a Sócio Estatística sabe que isso a prejudica e não lhe resta alternativa senão zelar pela informação que gera, pois dessa forma estará zelando pelo seu próprio nome e sobrevivência.  Aos que querem fazer da informação propaganda, que o façam, mas respeitando a integridade dos resultados acima referidos. E, em sendo necessárias interpretações, agregações, essas podem ser feitas, desde que assumidas por eles mesmos, assegurado o direito do leitor de ter a informação completa e não apenas o que é conveniente divulgar.

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Sociólogo, responsável técnico pela Sócio Estatística.

 

Itabuna 29 de fevereiro de 2000