Retrospectiva do Processo Sucessório 96 em Ilhéus
(Crônica de um resultado anunciado ou a força da lógica que comanda o processo sucessório)

O caso Ilhéus ilustra com muita transparência a lógica do processo sucessório municipal e que, acredita-se, também seja válida para outros cargos executivos, como para governos estaduais e para presidente. Está-se sustentando, aqui, que todo processo sucessório que depende da opinião pública, ou seja, de eleições livres e gerais, segue uma lógica. E que o principal elemento ou fator dessa lógica é a avaliação da população acerca do desempenho da administração em exercício. Este é o fator crucial, a chave do processo e, também, constitui-se no grande cenário onde tudo acontece. Isto porque toda eleição para cargos executivos tende a se converter, a ganhar feições de um plebiscito. A eleição coloca em julgamento a administração em exercício e parte expressiva dos eleitores, ao fazerem sua escolha, em boa parte, estão se posicionando frente ao desempenho do prefeito de seu município.

Isto posto, em Ilhéus, a administração Antonio Olímpio, desde o início, por várias razões, incorporou cunho negativo, ou seja, tendeu a apresentar percentuais mais altos, de ruim e péssima do que boa e ótima. Essa tendência não foi revertida ao longo dos quatro anos de administração; ao contrário, o quadro foi-se agravando e deteriorando. É como se Antonio Olímpio terminasse seu mandato sem praticamente controle algum. É como se tivesse perdido o rumo, nada mais havendo a fazer senão esperar o final de seu tempo à frente da prefeitura de Ilhéus.

No livro Política & Pesquisa, publicado há cerca de quatro anos atrás, final de 1992, após o processo sucessório municipal daquele ano, na abordagem sobre a sucessão em Ilhéus, em negrito, colocou-se a seguinte chamada, numa aposta lançada para o futuro e que esta eleição confirmou: a afirmação da candidatura Antonio Olímpio como um não ao continuísmo, sem ser, a rigor, um não a Jabes.

Na oportunidade, essa intuição baseou-se numa interpretação da realidade, como sendo o ressurgimento do velho (Antonio Olímpio) na política de Ilhéus e este como um não à continuidade administrativa (João Lírio). Jabes pagou, então, pelo desgaste da administração em curso, cujo titular saiu das mãos do próprio Jabes. Essa, apesar de avaliada como regular, foi insuficiente para respaldar uma pretensão de Jabes Ribeiro em voltar à prefeitura. Antonio Olímpio teve o mérito, a partir de fins de maio daquele ano, de capitalizar esse sentimento que, a rigor, poderia ter sido captado pela candidatura de esquerda, mas que não estava mobilizada e nem acreditou nessa possibilidade.

O sentimento captado na ocasião era de que o eleitor, em última instância, não estava rejeitando Jabes enquanto pessoa, mas Jabes enquanto candidato ligado a uma administração classificada como regular que, com a agudização política provocada pela campanha eleitoral, passou a ser, como costuma ocorrer nessas circunstâncias, negativa. Ou seja, não era propriamente a pessoa e o político Jabes que estava em julgamento, mas um quadro administrativo desgastado e desgastante ao qual, contudo, Jabes está fortemente ligado.

Hoje, o não à administração de Antonio Olímpio é total, é um não ao político, ao administrador, à administração, essa com avaliação fortemente negativa, em que mais de 90% do eleitorado não votaria no seu titular numa hipotética possibilidade de reeleição e quase 80% dos cidadãos ilheenses avaliando-a negativamente (conceitos ruim e péssimo).

O desempenho do atual prefeito, Antonio Olímpio, 1993-96, durante todo o mandato, foi aquém das expectativas do ilheense e, na segunda metade, o quadro se deteriorou ainda mais.

O quadro político-eleitoral em Ilhéus, tendo esse cenário como pano de fundo, nos últimos dois anos esteve relativamente estável, situando-se Jabes Ribeiro próximo da casa dos 50%. Em início de 1996, o ano das eleições, esse era o seu patamar. O deputado federal Roland Lavigne, que se constituiu no principal adversário, situava-se na faixa dos 15 aos 20%. Essa também foi a situação a encontrada, com poucas diferenças, no final do processo eleitoral.

Nos primeiros dias de fevereiro de 1996, em pesquisa realizada no município de Ilhéus, com 1.106 entrevistas, o quadro recebeu os seguintes comentários, abaixo transcritos, literalmente:

"O objetivo principal desta pesquisa de opinião foi captar o quadro político no município de Ilhéus no atual momento, marcado por preocupações diversas das eleitorais. Parece oportuno lembrar que ainda não se está vivendo um momento eleitoral. Nesse sentido, essa pesquisa capta, por assim dizer, a baixa estação da política. A realização de cerca de 35% desta pesquisa na área comercial confere à mesma um grau de representatividade bom, sobretudo quando se levar em conta o erro amostral a que os resultados estão incorrendo: 3%.

"Dentre os resultados, destacam-se: a avaliação do atual administração tende fortemente ao negativo. É possível afirmar que o atual prefeito exercerá forte influência negativa nesta sucessão municipal. É praticamente impossível, em tão pouco tempo, reverter esse quadro. Em razão desse quadro, em Ilhéus, se a eleição fosse hoje, o ex-prefeito Jabes Ribeiro, candidato derrotado na última eleição municipal pelo atual prefeito, seria o prefeito eleito. Só um fato extraordinário ou uma sucessão muito grande de pequenos equívocos terão força para mudar este quadro até 3 de outubro próximo. É, hoje, grande a expectativa em relação a Jabes. A propósito, mesmo quando se associa um fictício apoio de Antonio Olímpio, cuja influência é fortemente negativa, Jabes aparece relativamente bem. Surpreendentemente, uma candidatura apoiada por Antonio Olímpio, mesmo contando com o apoio do Governador Paulo Souto e do Senador ACM, teria dificuldades de decolar, como mostram os resultados.

"A experiência como pesquisador permite afirmar que poucos quadros foram tão favoráveis a uma candidatura como na atual conjuntura o é para uma possível candidatura Jabes Ribeiro. Nesse sentido, a avaliação do atual prefeito, as intenções de voto na espontânea, na estimulada e na rejeição, mas sobretudo as razões do voto parecem dar consistência à mesma.

"A candidatura Roland Lavigne não está conseguindo reproduzir as intenções de voto obtidas para deputado federal, na última eleição. As outras candidaturas, salvo as de Rúbia, que consegue alguma expressão, ainda não decolaram. Em suma, Roland Lavigne está diante de um grande desafio, em um período de tempo aparentemente pequeno, para reverter um quadro hoje francamente desfavorável. Contudo, em política, o que hoje é impossível, amanhã não o é. Mesmo assim, enfatiza-se que o quadro parece extremamente difícil". (6 de fevereiro de 1996).

Em março, o quadro captado pela pesquisa (erro amostral de 3,5%) era o seguinte, como pode ser percebido pelo texto abaixo transcrito, também literalmente:

"Se a eleição fosse hoje, o ex-prefeito Jabes Ribeiro seria eleito novamente prefeito de Ilhéus. Roland Lavigne e Rúbia estão tecnicamente empatados em segundo lugar.

"Essas frases resumem a presente pesquisa. Não que não possam haver surpresas ao longo da campanha; contudo, a nossa experiência aponta ser esse um caso difícil de ser revertido, caso sejam os nomes postos nesta pesquisa os nomes que efetivamente disputarão este pleito.

"Observa-se que essa análise não leva em conta nem a história e nem as possíveis alianças dessa campanha em Ilhéus. Nesse sentido, o contratante reúne melhores condições de precisar melhor essa análise, agregando conhecimento local aos dados desta pesquisa. Aqui, serão indicadas, portanto, as grandes linhas, as tendências, devendo esses resultados serem ajustados a partir do conhecimento da história e da conjuntura política local.

"Inicialmente, salienta-se que a imagem da atual administração tende fortemente ao negativo. Isto significa que o atual prefeito exercerá influência, e negativa, nesta eleição. Portanto, ter o apoio do prefeito, numa situação como esta, não parece ser um bom negócio, pelo menos na atual conjuntura.

"É possível aqui se afirmar que a administração do atual prefeito contribuiu muito para fortalecer a imagem do ex-prefeito Jabes Ribeiro. Parece estar ocorrendo aqui, ao nível local, o que aconteceu ao nível estadual em algumas eleições passadas: o ressurgimento de ACM face à avaliação do então Governador Waldir Pires, à frente do executivo estadual. Nesta eleição, em Ilhéus, Jabes Ribeiro está capitalizando o fracasso da atual gestão, devendo, seguramente, a população estar comparando os dois desempenhos.

"Já a imagem da administração Paulo Souto tende ao positivo.

"Observa-se que a melhor análise é a que leva em conta o conjunto das informações: espontânea, estimulada, segundo nome, rejeição, apoio do atual prefeito, outros apoios, história, possíveis alianças, enfim, o conjunto, e esse ninguém melhor do que o contratante desta pesquisa para agregar a esses resultados outros, possibilitando uma análise realista. No entanto, hoje, os dados, a menos de sete meses da eleição, parecem favoráveis à candidatura Jabes Ribeiro.

"Mesmo com os dados apenas desta pesquisa, que nem sempre permitem uma análise muito segura, pode-se afirmar que são difíceis as perspectivas das candidaturas Gumercindo e Vitória, devendo a eleição de Ilhéus ficar centrada em dois ou três nomes, no máximo. Seria um grande feito para qualquer um dos nomes postos reverter atual quadro. Sem dúvida, ainda parece ser cedo para conclusões definitivas, mas trata-se de uma situação difícil, muito embora nunca impossível".

"Como se afirmou acima, Roland e Rúbia prometem forte disputa para saber quem será o principal polarizador contra Jabes. Hoje estão tecnicamente empatados. Roland leva pequena frente na estimulada. Contudo, quando é analisado o conjunto, a situação parece se inverter, tendo Rúbia uma rejeição menor que Roland e como segundo nome ela também está melhor. Em suma, haverá forte disputa entre essas duas candidaturas.

"Caso Rúbia desistisse, suas intenções de voto iriam para Jabes numa proporção de 80%; se Roland desistisse, Jabes captaria 81% das mesmas; caso Jabes renunciasse, Roland levaria a melhor, com cerca de 58% contra 33% de Rúbia. Ou seja, quem está escolhendo Roland ou Rúbia como primeira opção, como segunda escolheria Jabes.

"Jabes vai melhor entre os mais jovens e no Norte, Rúbia vence Roland entre os que possuem curso superior e residem na área central (ver análises de associação para mais detalhes).

"O apoio do atual prefeito não ajudará positivamente nem Rúbia, nem qualquer dos candidatos, pelo mesmo eventualmente apoiados.

"O apoio do Governador Paulo Souto e do Senador ACM terão maiores chances de pesar nesta eleição, embora fatores locais tendam a ser mais fortes que fatores mais distantes". 14 de março de 1996).

Em meados de abril, o quadro político no município de Ilhéus continuava praticamente o mesmo.

O tempo foi passando, mas em Ilhéus o quadro captado no início de fevereiro permanecia praticamente inalterado em suas grandes linhas. Em fins de maio, antes da renúncia das candidaturas de Rúbia e de Gumercindo, esse era o quadro (pesquisa com erro amostral da ordem de 5%).

"Se a eleição fosse hoje, o ex-prefeito Jabes Ribeiro seria eleito novamente prefeito de Ilhéus. Roland Lavigne e Rúbia estão tecnicamente empatados em segundo lugar. Gumercindo teve significativo incremento percentual, embora tenha partido de base muito pequena. Vitória, nesta eleição, parece não ter chance".

Esse quadro foi se arrastando até a eleição. O único fato novo capaz de produzir algum efeito no mesmo foi a intensificação do apoio do Governo Estadual, anunciando e iniciando obras no Sul da cidade de Ilhéus, mas já na reta final da campanha.

Há pouco mais de uma semana da eleição, com presença do Governo Estadual e com intensificação de obras públicas do mesmo na região Sul de Ilhéus e em outras, Roland reagiu, chegando à casa dos 26,7% e caiu para pouco mais de 50% das intenções de voto em Jabes Ribeiro.

No entanto, na reta final da campanha, Jabes recuperou terreno, ampliando essa frente, como se, no momento do voto, os quatro anos de administração avaliada negativamente impusessem sua força devastadora e o eleitor preferiu ser-lhe fiel, votando contra. Votar contra significava, nesse caso, votar em Jabes.

Efetivamente, em Ilhéus, na perspectiva da candidatura Jabes Ribeiro, a probabilidade de surpresas era praticamente nula, situação inversa de quatro anos antes, em que nem mesmo o julgamento de Collor foi capaz de reverter o quadro para o então candidato e deputado federal Jabes Ribeiro.

Ao longo de todo o ano de 1996, o quadro se manteve relativamente estável. Em momento algum, qualquer candidatura chegou a se constituir em uma ameaça às pretensões de Jabes Ribeiro de voltar à Prefeitura.

No entanto, muitos fatos ocorreram ao longo desse processo, mas que, em resumo, não afetaram o cenário, ao contrário. Dentre esses fatos destacam-se:

1º) A candidatura Rúbia Carvalho. Rúbia ultrapassou, em meados de março, os 10%, tendo chegado próximo aos 15% e estava numa situação de empate técnico com a candidatura Roland. Quando, dadas as circuntâncias restritivas às suas pretensões de candidata impostas por seu partido, decidiu renunciar, aderindo à candidatura Jabes Ribeiro, tomou essa decisão em um momento em que seu nome parecia ter futuro como candidata independente. Transitava numa faixa do eleitorado mais conservador do que perfil de Jabes, por exemplo, tendo pretendido, inclusive, ter o aval do Governador e do Senador Antonio Carlos Magalhães, o que não ocorreu. Possuía, então, o eleitorado mais determinado, ainda que pequeno. Ao aderir à candidatura Jabes, esta cresceu e praticamente nada aconteceu com o eleitorado de Roland.

2º) Gumercindo, que tinha cerca de 5% das intenções de voto quando também deixou de ser candidato, em meados do ano, também praticamente nada agregou à candidatura Roland, apesar de disputar a mesma faixa do eleitorado.

3º) Roland Lavigne, que acabou se constituindo na candidatura apoiada pelos governos estadual e local (ainda que tentasse desvincular-se publicamente desta última), não logrou se beneficiar das candidaturas que não se confirmaram, Rúbia e Gumercindo, em que pese transitarem em faixas semelhantes do eleitorado e não teve o apoio desses pré-candidatos, já que Rúbia aderiu à candidatura Jabes e Gumercindo manteve-se neutro na disputa.

Após a polarização contra Roland, por sinal bastante precoce, o trabalho de Jabes foi administrar a grande vantagem que possuía e esperar pela eleição, em 3 de outubro que, a rigor, era o que já vinha fazendo.

Até quase final da campanha, Jabes detinha quase 60% das intenções de voto contra menos de 20% de Roland. No entanto, já no último mês, em setembro, com a intensificação dos investimentos do Governo Estadual em Ilhéus, na região Sul da cidade, Roland experimentou pequeno crescimento, chegando a pouco mais de um quarto das intenções de voto e Jabes, caindo para pouco mais da metade. No entanto, na hora da decisão, a diferença pró-Jabes voltou a se alargar, obtendo frente de mais de 21 mil votos sobre o segundo colocado, Roland Lavigne. As demais candidaturas não apresentavam praticamente nenhuma visibilidade ou densidade eleitoral.

Em resumo, Jabes voltou à prefeitura em razão de seu carisma pessoal, mas, como pano de fundo, foi muito beneficiado pela administração em curso, que nem de longe correspondeu às expectativas da população que o elegeu quatro anos antes, 1992, contra esse mesmo Jabes.

Nesse sentido, em Ilhéus, as eleições de 3 de outubro confirmaram a lógica de forma muito clara e a votação em Jabes pode ser interpretada como um desabafo do eleitor contra quatro anos de desilusão e desencanto. Jabes já foi prefeito, logrando fazer sucessor, foi deputado federal, é um político carismático. Por essas credenciais, seria seguramente um forte candidato em qualquer conjuntura. No entanto, seu retorno contou com a contribuição involuntária do atual prefeito, que não foi capaz, como se afirmou, de corresponder às expectativas da população ilheense.

E é nesse ponto que reside um risco ao futuro político de Jabes. A população espera muito de seu novo prefeito eleito. Não bastará a Jabes fazer uma administração melhor do que a do prefeito atual. Jabes terá que fazer uma boa administração. Caberá ao ainda jovem prefeito também administrar as esperanças e os anseios de seu povo, resgatando a confiança na honestidade de propósitos de seus governantes, hoje abalada, à flor da pele. Caberá a ele dar um Norte definitivo a Ilhéus, viabilizando sua vocação, realizando seu destino de um grande pólo de desenvolvimento no interior da Bahia.

Essas eleições, sem dúvida, também confirmaram que prefeito avaliado negativamente dificilmente faz sucessor (e teria muito mais dificuldade ainda em se reeleger, caso ousasse candidatar-se sendo a reeleição possível).

Confirmaram, também, uma outra hipótese: numa eleição municipal, o que pesa mesmo são os atores e os fatores locais. Atores e fatores de outros âmbitos são bons como formadores de um cenário, de um quadro de fundo, podem até condicionar, mas muito raramente são decisivos no sentido de determinantes.