O caso Ilhéus ilustra com muita
transparência a lógica do processo sucessório municipal e que, acredita-se, também
seja válida para outros cargos executivos, como para governos estaduais e para
presidente. Está-se sustentando, aqui, que todo processo sucessório que depende da
opinião pública, ou seja, de eleições livres e gerais, segue uma lógica. E que o
principal elemento ou fator dessa lógica é a avaliação da população acerca do
desempenho da administração em exercício. Este é o fator crucial, a chave do processo
e, também, constitui-se no grande cenário onde tudo acontece. Isto porque toda eleição
para cargos executivos tende a se converter, a ganhar feições de um plebiscito. A
eleição coloca em julgamento a administração em exercício e parte expressiva dos
eleitores, ao fazerem sua escolha, em boa parte, estão se posicionando frente ao
desempenho do prefeito de seu município.
Isto posto, em Ilhéus, a administração Antonio Olímpio, desde o
início, por várias razões, incorporou cunho negativo, ou seja, tendeu a apresentar
percentuais mais altos, de ruim e péssima do que boa e ótima. Essa tendência não foi
revertida ao longo dos quatro anos de administração; ao contrário, o quadro foi-se
agravando e deteriorando. É como se Antonio Olímpio terminasse seu mandato sem
praticamente controle algum. É como se tivesse perdido o rumo, nada mais havendo a fazer
senão esperar o final de seu tempo à frente da prefeitura de Ilhéus.
No livro Política & Pesquisa, publicado há cerca de quatro anos
atrás, final de 1992, após o processo sucessório municipal daquele ano, na abordagem
sobre a sucessão em Ilhéus, em negrito, colocou-se a seguinte chamada, numa aposta
lançada para o futuro e que esta eleição confirmou: a afirmação da candidatura
Antonio Olímpio como um não ao continuísmo, sem ser, a rigor, um não a Jabes.
Na oportunidade, essa intuição baseou-se numa interpretação da
realidade, como sendo o ressurgimento do velho (Antonio Olímpio) na política de Ilhéus
e este como um não à continuidade administrativa (João Lírio). Jabes pagou, então,
pelo desgaste da administração em curso, cujo titular saiu das mãos do próprio Jabes.
Essa, apesar de avaliada como regular, foi insuficiente para respaldar uma pretensão de
Jabes Ribeiro em voltar à prefeitura. Antonio Olímpio teve o mérito, a partir de fins
de maio daquele ano, de capitalizar esse sentimento que, a rigor, poderia ter sido captado
pela candidatura de esquerda, mas que não estava mobilizada e nem acreditou nessa
possibilidade.
O sentimento captado na ocasião era de que o eleitor, em última
instância, não estava rejeitando Jabes enquanto pessoa, mas Jabes enquanto candidato
ligado a uma administração classificada como regular que, com a agudização política
provocada pela campanha eleitoral, passou a ser, como costuma ocorrer nessas
circunstâncias, negativa. Ou seja, não era propriamente a pessoa e o político Jabes que
estava em julgamento, mas um quadro administrativo desgastado e desgastante ao qual,
contudo, Jabes está fortemente ligado.
Hoje, o não à administração de Antonio Olímpio é total, é um
não ao político, ao administrador, à administração, essa com avaliação fortemente
negativa, em que mais de 90% do eleitorado não votaria no seu titular numa hipotética
possibilidade de reeleição e quase 80% dos cidadãos ilheenses avaliando-a negativamente
(conceitos ruim e péssimo).
O desempenho do atual prefeito, Antonio Olímpio, 1993-96, durante todo
o mandato, foi aquém das expectativas do ilheense e, na segunda metade, o quadro se
deteriorou ainda mais.
O quadro político-eleitoral em Ilhéus, tendo esse cenário como pano
de fundo, nos últimos dois anos esteve relativamente estável, situando-se Jabes Ribeiro
próximo da casa dos 50%. Em início de 1996, o ano das eleições, esse era o seu
patamar. O deputado federal Roland Lavigne, que se constituiu no principal adversário,
situava-se na faixa dos 15 aos 20%. Essa também foi a situação a encontrada, com poucas
diferenças, no final do processo eleitoral.
Nos primeiros dias de fevereiro de 1996, em pesquisa realizada no
município de Ilhéus, com 1.106 entrevistas, o quadro recebeu os seguintes comentários,
abaixo transcritos, literalmente:
"O objetivo principal desta pesquisa de opinião foi captar o
quadro político no município de Ilhéus no atual momento, marcado por preocupações
diversas das eleitorais. Parece oportuno lembrar que ainda não se está vivendo um
momento eleitoral. Nesse sentido, essa pesquisa capta, por assim dizer, a baixa estação
da política. A realização de cerca de 35% desta pesquisa na área comercial confere à
mesma um grau de representatividade bom, sobretudo quando se levar em conta o erro
amostral a que os resultados estão incorrendo: 3%.
"Dentre os resultados, destacam-se: a avaliação do atual
administração tende fortemente ao negativo. É possível afirmar que o atual prefeito
exercerá forte influência negativa nesta sucessão municipal. É praticamente
impossível, em tão pouco tempo, reverter esse quadro. Em razão desse quadro, em
Ilhéus, se a eleição fosse hoje, o ex-prefeito Jabes Ribeiro, candidato derrotado na
última eleição municipal pelo atual prefeito, seria o prefeito eleito. Só um fato
extraordinário ou uma sucessão muito grande de pequenos equívocos terão força para
mudar este quadro até 3 de outubro próximo. É, hoje, grande a expectativa em relação
a Jabes. A propósito, mesmo quando se associa um fictício apoio de Antonio Olímpio,
cuja influência é fortemente negativa, Jabes aparece relativamente bem.
Surpreendentemente, uma candidatura apoiada por Antonio Olímpio, mesmo contando com o
apoio do Governador Paulo Souto e do Senador ACM, teria dificuldades de decolar, como
mostram os resultados.
"A experiência como pesquisador permite afirmar que poucos
quadros foram tão favoráveis a uma candidatura como na atual conjuntura o é para uma
possível candidatura Jabes Ribeiro. Nesse sentido, a avaliação do atual prefeito, as
intenções de voto na espontânea, na estimulada e na rejeição, mas sobretudo as
razões do voto parecem dar consistência à mesma.
"A candidatura Roland Lavigne não está conseguindo reproduzir as
intenções de voto obtidas para deputado federal, na última eleição. As outras
candidaturas, salvo as de Rúbia, que consegue alguma expressão, ainda não decolaram. Em
suma, Roland Lavigne está diante de um grande desafio, em um período de tempo
aparentemente pequeno, para reverter um quadro hoje francamente desfavorável. Contudo, em
política, o que hoje é impossível, amanhã não o é. Mesmo assim, enfatiza-se que o
quadro parece extremamente difícil". (6 de fevereiro de 1996).
Em março, o quadro captado pela pesquisa (erro amostral de 3,5%) era o
seguinte, como pode ser percebido pelo texto abaixo transcrito, também literalmente:
"Se a eleição fosse hoje, o ex-prefeito Jabes Ribeiro seria
eleito novamente prefeito de Ilhéus. Roland Lavigne e Rúbia estão tecnicamente
empatados em segundo lugar.
"Essas frases resumem a presente pesquisa. Não que não possam
haver surpresas ao longo da campanha; contudo, a nossa experiência aponta ser esse um
caso difícil de ser revertido, caso sejam os nomes postos nesta pesquisa os nomes que
efetivamente disputarão este pleito.
"Observa-se que essa análise não leva em conta nem a história e
nem as possíveis alianças dessa campanha em Ilhéus. Nesse sentido, o contratante reúne
melhores condições de precisar melhor essa análise, agregando conhecimento local aos
dados desta pesquisa. Aqui, serão indicadas, portanto, as grandes linhas, as tendências,
devendo esses resultados serem ajustados a partir do conhecimento da história e da
conjuntura política local.
"Inicialmente, salienta-se que a imagem da atual administração
tende fortemente ao negativo. Isto significa que o atual prefeito exercerá influência, e
negativa, nesta eleição. Portanto, ter o apoio do prefeito, numa situação como esta,
não parece ser um bom negócio, pelo menos na atual conjuntura.
"É possível aqui se afirmar que a administração do atual
prefeito contribuiu muito para fortalecer a imagem do ex-prefeito Jabes Ribeiro. Parece
estar ocorrendo aqui, ao nível local, o que aconteceu ao nível estadual em algumas
eleições passadas: o ressurgimento de ACM face à avaliação do então Governador
Waldir Pires, à frente do executivo estadual. Nesta eleição, em Ilhéus, Jabes Ribeiro
está capitalizando o fracasso da atual gestão, devendo, seguramente, a população estar
comparando os dois desempenhos.
"Já a imagem da administração Paulo Souto tende ao positivo.
"Observa-se que a melhor análise é a que leva em conta o
conjunto das informações: espontânea, estimulada, segundo nome, rejeição, apoio do
atual prefeito, outros apoios, história, possíveis alianças, enfim, o conjunto, e esse
ninguém melhor do que o contratante desta pesquisa para agregar a esses resultados
outros, possibilitando uma análise realista. No entanto, hoje, os dados, a menos de sete
meses da eleição, parecem favoráveis à candidatura Jabes Ribeiro.
"Mesmo com os dados apenas desta pesquisa, que nem sempre permitem
uma análise muito segura, pode-se afirmar que são difíceis as perspectivas das
candidaturas Gumercindo e Vitória, devendo a eleição de Ilhéus ficar centrada em dois
ou três nomes, no máximo. Seria um grande feito para qualquer um dos nomes postos
reverter atual quadro. Sem dúvida, ainda parece ser cedo para conclusões definitivas,
mas trata-se de uma situação difícil, muito embora nunca impossível".
"Como se afirmou acima, Roland e Rúbia prometem forte disputa
para saber quem será o principal polarizador contra Jabes. Hoje estão tecnicamente
empatados. Roland leva pequena frente na estimulada. Contudo, quando é analisado o
conjunto, a situação parece se inverter, tendo Rúbia uma rejeição menor que Roland e
como segundo nome ela também está melhor. Em suma, haverá forte disputa entre essas
duas candidaturas.
"Caso Rúbia desistisse, suas intenções de voto iriam para Jabes
numa proporção de 80%; se Roland desistisse, Jabes captaria 81% das mesmas; caso Jabes
renunciasse, Roland levaria a melhor, com cerca de 58% contra 33% de Rúbia. Ou seja, quem
está escolhendo Roland ou Rúbia como primeira opção, como segunda escolheria Jabes.
"Jabes vai melhor entre os mais jovens e no Norte, Rúbia vence
Roland entre os que possuem curso superior e residem na área central (ver análises de
associação para mais detalhes).
"O apoio do atual prefeito não ajudará positivamente nem Rúbia,
nem qualquer dos candidatos, pelo mesmo eventualmente apoiados.
"O apoio do Governador Paulo Souto e do Senador ACM terão maiores
chances de pesar nesta eleição, embora fatores locais tendam a ser mais fortes que
fatores mais distantes". 14 de março de 1996).
Em meados de abril, o quadro político no município de Ilhéus
continuava praticamente o mesmo.
O tempo foi passando, mas em Ilhéus o quadro captado no início de
fevereiro permanecia praticamente inalterado em suas grandes linhas. Em fins de maio,
antes da renúncia das candidaturas de Rúbia e de Gumercindo, esse era o quadro (pesquisa
com erro amostral da ordem de 5%).
"Se a eleição fosse hoje, o ex-prefeito Jabes Ribeiro seria
eleito novamente prefeito de Ilhéus. Roland Lavigne e Rúbia estão tecnicamente
empatados em segundo lugar. Gumercindo teve significativo incremento percentual, embora
tenha partido de base muito pequena. Vitória, nesta eleição, parece não ter
chance".
Esse quadro foi se arrastando até a eleição. O único fato novo
capaz de produzir algum efeito no mesmo foi a intensificação do apoio do Governo
Estadual, anunciando e iniciando obras no Sul da cidade de Ilhéus, mas já na reta final
da campanha.
Há pouco mais de uma semana da eleição, com presença do Governo
Estadual e com intensificação de obras públicas do mesmo na região Sul de Ilhéus e em
outras, Roland reagiu, chegando à casa dos 26,7% e caiu para pouco mais de 50% das
intenções de voto em Jabes Ribeiro.
No entanto, na reta final da campanha, Jabes recuperou terreno,
ampliando essa frente, como se, no momento do voto, os quatro anos de administração
avaliada negativamente impusessem sua força devastadora e o eleitor preferiu ser-lhe
fiel, votando contra. Votar contra significava, nesse caso, votar em Jabes.
Efetivamente, em Ilhéus, na perspectiva da candidatura Jabes Ribeiro,
a probabilidade de surpresas era praticamente nula, situação inversa de quatro anos
antes, em que nem mesmo o julgamento de Collor foi capaz de reverter o quadro para o
então candidato e deputado federal Jabes Ribeiro.
Ao longo de todo o ano de 1996, o quadro se manteve relativamente
estável. Em momento algum, qualquer candidatura chegou a se constituir em uma ameaça às
pretensões de Jabes Ribeiro de voltar à Prefeitura.
No entanto, muitos fatos ocorreram ao longo desse processo, mas que, em
resumo, não afetaram o cenário, ao contrário. Dentre esses fatos destacam-se:
1º) A candidatura Rúbia Carvalho. Rúbia ultrapassou, em meados de
março, os 10%, tendo chegado próximo aos 15% e estava numa situação de empate técnico
com a candidatura Roland. Quando, dadas as circuntâncias restritivas às suas pretensões
de candidata impostas por seu partido, decidiu renunciar, aderindo à candidatura Jabes
Ribeiro, tomou essa decisão em um momento em que seu nome parecia ter futuro como
candidata independente. Transitava numa faixa do eleitorado mais conservador do que perfil
de Jabes, por exemplo, tendo pretendido, inclusive, ter o aval do Governador e do Senador
Antonio Carlos Magalhães, o que não ocorreu. Possuía, então, o eleitorado mais
determinado, ainda que pequeno. Ao aderir à candidatura Jabes, esta cresceu e
praticamente nada aconteceu com o eleitorado de Roland.
2º) Gumercindo, que tinha cerca de 5% das intenções de voto quando
também deixou de ser candidato, em meados do ano, também praticamente nada agregou à
candidatura Roland, apesar de disputar a mesma faixa do eleitorado.
3º) Roland Lavigne, que acabou se constituindo na candidatura apoiada
pelos governos estadual e local (ainda que tentasse desvincular-se publicamente desta
última), não logrou se beneficiar das candidaturas que não se confirmaram, Rúbia e
Gumercindo, em que pese transitarem em faixas semelhantes do eleitorado e não teve o
apoio desses pré-candidatos, já que Rúbia aderiu à candidatura Jabes e Gumercindo
manteve-se neutro na disputa.
Após a polarização contra Roland, por sinal bastante precoce, o
trabalho de Jabes foi administrar a grande vantagem que possuía e esperar pela eleição,
em 3 de outubro que, a rigor, era o que já vinha fazendo.
Até quase final da campanha, Jabes detinha quase 60% das intenções
de voto contra menos de 20% de Roland. No entanto, já no último mês, em setembro, com a
intensificação dos investimentos do Governo Estadual em Ilhéus, na região Sul da
cidade, Roland experimentou pequeno crescimento, chegando a pouco mais de um quarto das
intenções de voto e Jabes, caindo para pouco mais da metade. No entanto, na hora da
decisão, a diferença pró-Jabes voltou a se alargar, obtendo frente de mais de 21 mil
votos sobre o segundo colocado, Roland Lavigne. As demais candidaturas não apresentavam
praticamente nenhuma visibilidade ou densidade eleitoral.
Em resumo, Jabes voltou à prefeitura em razão de seu carisma pessoal,
mas, como pano de fundo, foi muito beneficiado pela administração em curso, que nem de
longe correspondeu às expectativas da população que o elegeu quatro anos antes, 1992,
contra esse mesmo Jabes.
Nesse sentido, em Ilhéus, as eleições de 3 de outubro confirmaram a
lógica de forma muito clara e a votação em Jabes pode ser interpretada como um desabafo
do eleitor contra quatro anos de desilusão e desencanto. Jabes já foi prefeito, logrando
fazer sucessor, foi deputado federal, é um político carismático. Por essas credenciais,
seria seguramente um forte candidato em qualquer conjuntura. No entanto, seu retorno
contou com a contribuição involuntária do atual prefeito, que não foi capaz, como se
afirmou, de corresponder às expectativas da população ilheense.
E é nesse ponto que reside um risco ao futuro político de Jabes. A
população espera muito de seu novo prefeito eleito. Não bastará a Jabes fazer uma
administração melhor do que a do prefeito atual. Jabes terá que fazer uma boa
administração. Caberá ao ainda jovem prefeito também administrar as esperanças e os
anseios de seu povo, resgatando a confiança na honestidade de propósitos de seus
governantes, hoje abalada, à flor da pele. Caberá a ele dar um Norte definitivo a
Ilhéus, viabilizando sua vocação, realizando seu destino de um grande pólo de
desenvolvimento no interior da Bahia.
Essas eleições, sem dúvida, também confirmaram que prefeito
avaliado negativamente dificilmente faz sucessor (e teria muito mais dificuldade ainda em
se reeleger, caso ousasse candidatar-se sendo a reeleição possível).
Confirmaram, também, uma outra hipótese: numa eleição municipal, o
que pesa mesmo são os atores e os fatores locais. Atores e fatores de outros âmbitos
são bons como formadores de um cenário, de um quadro de fundo, podem até condicionar,
mas muito raramente são decisivos no sentido de determinantes.