A Sucessão Municipal no Sul da Bahia*

 

A Sucessão Municipal em Ilhéus

(Do ressurgimento do "velho" na política de Ilhéus, do "não" à continuidade político-administrativa e da oportunidade perdida pela esquerda)

A afirmação da candidatura Antonio Olímpio como um "não" ao continuísmo, sem ser, a rigor, um "não" a Jabes

O final de julho e início de agosto do ano em curso, 1992, marcou o último momento em que o deputado federal e ex-prefeito Jabes Ribeiro logrou vantagens sobre o ex-prefeito Antonio Olímpio nesta campanha sucessória. Marcou o início da reversão definitiva das expectativas no quadro sucessório em Ilhéus.

Em pesquisa realizada no final do mês de agosto, Antonio Olímpio já tinha frente de 12 pontos percentuais sobre Jabes: 40% contra 28%. Em meados de setembro, em outra pesquisa, o quadro era praticamente o mesmo: 41% contra 29%.

No dia da aprovado da abertura do processo de impedimento do presidente da República e no dia imediatamente anterior, 29 e 28 de setembro, respectivamente, Jabes Ribeiro logrou pequeno avanço, encurtando a distância entre ambos, sinalizando nova perspectiva de reversão do quadro.

No entanto, no dia 1º de outubro, em outra pesquisa, o que era uma esperança para a candidatura Jabes Ribeiro, desfez-se. A distância voltou a aumentar: 40% contra 31%. Faltando apenas um dia para a eleição, só um milagre poderia o reverter o quadro e este não aconteceu.

Isto posto, é objetivo aqui reproduzir como esse processo foi percebido ao longo da campanha eleitoral e expor uma interpretação do mesmo.

A dois meses da eleição

Em pesquisa realizada na virada do mês de julho, que captou fortes sinais de que Antonio Olímpio reverteria o quadro das tendências eleitorais, mesmo contra Jabes, escreveu-se:

"Os principais resultados políticos desta pesquisa são a liderança de Jabes Ribeiro e o avanço da candidatura Antonio Olímpio, confirmando quadro esboçado na pesquisa anterior, ainda com Joabes, quando foi detectado uma arrancada da candidatura Antonio Olímpio".*

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* No período imediatamente anterior à definição das candidaturas, em meados de maio, foram realizadas quatro pesquisas em Ilhéus. Três institutos apontavam uma situação de empate técnico próximo aos 30% entre Joabes, pré-candidato do grupo Jabes, e Antonio Olímpio. A Sócio Estatística captou uma queda expressiva de Joabes e a afirmação de Antonio Olímpio. Essa discrepância motivou questionamentos da pesquisa desta empresa.

Continuava aquele relatório: "Apesar da diferença encontrada extrapolar o erro amostral, convém não perder de vista que esta amostra, em função de seu objetivo principal, superestima o interior e os pequenos núcleos habitacionais e subestima as grandes unidades demográficas e a sede. Essas características da amostra tendem a favorecer Jabes Ribeiro. Acredita-se, contudo, que a vantagem pró-Jabes deverá se situar no limiar do erro amostral (2%). Isto sinaliza para a grande disputa que será travada nesta próxima eleição em Ilhéus."

"Essa polarização precoce, dada a exiguidade de tempo que separa esta pesquisa da eleição, praticamente sela a sorte de Ruy nesta eleição. Essa candidatura deverá ter muitas dificuldades para se afirmar, em função da referida polarização. Poderá, contudo, provavelmente, se constituir no "fiel da balança". No entanto, essa candidatura, salvo fatos e/ou desempenhos excepcionais, deverá colapsar; ou seja, o eleitor, salvo o ideologicamente mais convicto, tenderá a fazer valer o voto útil. Noutras palavras, a candidatura Ruy corre grande risco de ser tragada pelas avalanches Jabes Ribeiro e/ou Antonio Olímpio".

Em função da percepção de que essa pesquisa captou um momento crucial do processo sucessório em Ilhéus, decidiu-se, naquela oportunidade, realizar um esforço analítico maior. E isto, os fatos acabaram apenas por confirmar.

Nesse sentido, afirmou-se, naquele relatório, que "dado atual quadro na disputa pela sucessão de João Lírio, parece oportuno historiar o que está se dando na luta pelo quadro sucessório de Ilhéus, a partir das pesquisas realizadas por membros do grupo contratante desta, desde início de 1991. Essa retrospectiva, possivelmente, permitirá uma compreensão mais ampla do que está se passando e contribuirá para a reflexão de que urge imprescindível a tomadas de decisões acertadas, pois, do contrário, o quadro poderá se transformar irreversível no espaço que separa esta pesquisa da eleição".

Nesse breve histórico, afirmou-se: "Isto posto, a primeira pesquisa data de fevereiro (dia 25) de 91. Um dado que chamava atenção era a presença de antigos nomes entre os citados para prefeito de Ilhéus, como Herval Soledade e Henrique Cardoso (ex-prefeitos), afora nomes mais presentes no cenário político, como Antonio Olímpio, Ariston Cardoso e outros."

"Em julho (de 26 a 28), numa nova pesquisa, chegou-se a escrever mais ou menos nestes termos: "é como se o velho estivesse ressurgindo, ganhando força em Ilhéus". A partir de então, esse mesmo quadro passou a se repetir em quase todas as cidades e passou-se a falar em "tendência conservadora do voto nesta eleição", ou melhor, que o eleitor estava fazendo a opção por quem já tinha sido testado numa administração pública. Desde então, isto foi interpretado como sendo reflexo da forte frustração provocada pelo Governo Collor, a nível de país, e de Waldir Pires, a nível de Bahia. O "novo", o "moderno", passou a ser olhado com desconfiança. As esquerdas que simbolizam na consciência das pessoas esse "novo", parece que estão pagando por isso. O discurso do "novo" e do "moderno" de Collor, hoje, parece estar significando na consciência dessas pessoas "aventura" e o eleitor parece não querer aventurar de novo."

"Em algumas ocasiões chegou-se a afirmar que essa reversão só ocorreria com um eventual colapso do Governo Collor, quando este, na tentativa de sobreviver politicamente, se acercou de pessoas já "velhas" em governos. Contudo, estranhamente, a CPI de PC Farias, em tese, teria tudo para ser esse fato; mas, por alguma razão, não está se traduzindo em um desgaste para o "velho", pelo menos proporcional ao desgaste do Governo Collor."

"Em seguida, uma pesquisa da esquerda (6 a 8 de setembro de 1991), que vazou para todos os grupos políticos de Ilhéus (e por esta razão é aqui mencionada), teve como principal resultado a afirmação do nome de Joabes como aquele que reunia melhores condições para fazer frente a Antonio Olímpio, dentre os postulantes do grupo Jabes, já que Antonio Olímpio lograra se afirmar como o nome mais forte dentro de seu grupo e que seria um dos pólos de uma provável polarização em Ilhéus."

"Nas pesquisas realizadas pelo IESP, pouco antes do meio do ano, com exceção da última, Joabes, na estimulada, logrou obter uma vantagem sobre Antonio Olímpio. Contudo, essa vantagem desaparecia quando era simulado um confronto direto entre os dois, próximo aos 34%. Esse empate também acontecia quando eram agrupadas as intenções de voto dos nomes que pertenciam ao grupo de Antonio Olímpio. Observa-se, ainda, que as análises de migração das intenções de voto mostravam que havia um grande contingente de eleitores de Antonio Olímpio que seriam originalmente de Jabes, que estavam declinando suas intenções de voto em Antonio Olímpio, estando Joabes na disputa".

Na última pesquisa daquela série, (em maio/92), Joabes perdia espaço expressivo e Antonio Olímpio se afirmava em 29%.

Até então, a liderança de Jabes era inquestionável. Mesmo nessa pesquisa, num confronto simulado com Antonio Olímpio, mantinha boa frente: 45,3% contra 30,4%. Essa diferença extrapolava o erro amostral. Refletia uma vantagem de fato. Contudo, haviam sinais, embrionários ainda, mas reais, de que mesmo com Jabes a disputa seria difícil. Afirmou-se, então, que essas eleições "serão difíceis mesmo para Jabes".

"Afirmou-se, ainda, (através de análises de migrações de intenções de voto), que o "potencial de Antonio Olímpio, mas risco para Jabes, estava no fato de que esse nome transitava, em grande parte, na mesma faixa de eleitores de Jabes, "classes mais pobres". Ponderou-se, a propósito, que caso lograsse "maior penetração nessas e dado o fato de que o voto é decidido em alto grau de emocionalidade, caso crescesse sentimento anti-Jabes, que teria na administração João Lírio um possível detonador, isso poderia criar dificuldades à candidatura Jabes".

"Esta última pesquisa (final de julho) encontrou esse cenário mais próximo, sinalizando para grandes difículdades para a candidatura Jabes. O quadro que na pesquisa anterior (maio) mostrava-se embrionário, parece estar revelando-se como uma tendência."

"Hoje (fins de julho), olhando retrospectivamente esses resultados, percebe-se claramente que a não escolha de Joabes não se tratava, a rigor, de um "não" a Joabes, mas refletia um sentimento que ganhou proporções maiores no correr das semanas contra o grupo Jabes e, para ser mais preciso, contra a atual administração de Ilhéus. Essa administração, via de regra avaliada como "regular", como detectou forma alternativa de avaliação em pesquisa anterior e como já explicita esta última, tende ao negativo e como tal constitui-se no pivô de um processo de corrosão da candidatura Jabes, ora em curso. A propósito, parte expressiva da pesquisa foi feita antes do comício do qual participou o governador ACM (29 de julho)."

"Este fato elucida uma avaliação que fazía-se de administrações avaliadas como "regulares". Tinha-se a suspeita de que por trás desse "regular" devia-se ler "ruim" e foi por esta razão que ao pé das tabelas pertinentes à administração sempre se fez uma nota de como deveriam ser agrupadas as categorias, afirmando-se categoricamente que a junção do "regular" com "bom/muito bom" era incorrer numa análise tendenciosa. Essa nota estava aí como contestação a uma prática comum de fazer essa junção."

"Diante disso, o grupo Jabes encontra-se numa situação, num momento crucial de seu projeto político a nível municipal e o pequeno espaço de tempo que separa esta pesquisa da eleição não permite estratégias equivocadas."

"O primeiro problema deste momento será neutralizar o "efeito administração João Lírio" e a tendência deste efeito, se deixada livre, será aumentar com a agudização do embate político-eleitoral. Esse "efeito" é o que parece estar produzindo o que já se definiu como "um cansaço emocional do eleitor com o grupo Jabes", induzindo a população a um sentimento "anti-Jabes". Esse sentimento, hoje, já não tão embrionário, se não adequadamente neutralizado e controlado, pode produzir maiores prejuízos, talvez, não tanto à imagem de Jabes, mas à sua candidatura."

"Observa-se que, a rigor, esse sentimento ora capitalizado por Antonio Olímpio, poderia ter sido e ainda poderá vir a ser, embora hoje com chances muito remotas, pela candidatura da "esquerda". Foi por esta razão que se afirmou, por exemplo, que "a eleição de Ilhéus pelo menos sem Jabes, naquela oportunidade, era totalmente imprevisível, embora a tendência estivesse apontando Antonio Olímpio". E de fato a "esquerda", dadas aquelas condições, passava a também ter alguma chance real de conquistar a prefeitura. Hoje, muito provavelmente, deverá desempenhar papel mais modesto, podendo atuar como o "fiel da balança". No entanto, dada a probabilidade do "voto útil", é possível que o eleitor desse grupo faça a escolha por seus dirigentes, sacrificando a candidatura ideológica, do coração, para contribuir, talvez, na não-eleição de um dos dois candidatos polarizadores."

"Um dos pressupostos desse conjunto de assertivas da pesquisa anterior e que hoje parece oportuno trazê-los ao presente, prendia-se a algumas circunstâncias, como a de que a rejeição a Antonio Olímpio era pelo menos razoável e que, a uma certa altura, o eleitor parecia dar sinais de cansaço também a este nome. Contudo, o quadro evoluiu e hoje sinaliza para o segundo pressuposto dessas assertivas, então uma possibilidade muito remota. Esse pressuposto é de que o "efeito atual administração" simplesmente detonaria a candidatura associada ao mesmo, no caso, a de Jabes Ribeiro."

"Ainda sem dados mais consistentes, já que se trata de uma intuição com sinais de alguma plausibilidade, é possível afirmar que a aceleração do avanço de Antonio Olímpio e um concomitante processo de corrosão da candidatura Jabes teve seu fato-momento detonador na denúncia feita por José Victor contra gestão de recursos por ocasião da administração de Antonio Olímpio. Essa denúncia, tendo partido de um vereador do seio da atual administração, parece ter criado ou dado aos eleitores uma razão para se posicionarem favoravelmente a Antonio Olímpio. E, mais recentemente, o discurso de ACM no comício organizado pelo grupo que o apoia, em 29 de julho, teve o efeito de enfatizar e estigmatizar negativamente a atual administração. Nesse sentido, ACM deverá ter ainda reforçado contexto de favorabilidade à candidatura Antonio Olímpio, fazendo uso político-eleitoral da ZPE e tudo o que essa significa de promessas de emprego reais ou fictícios. Afirmativas como a de que o Governo Estadual só apoiaria a implantação da ZPE em Ilhéus se Antonio Olímpio fosse o novo prefeito, e isso numa conjuntura que se caracteriza por uma população com parcos rendimentos, parte desempregada, parte subempregada, em que a fome se constitui numa realidade, pode ter alcance profundo. Contudo, esse tipo de estratégia, assim como a da denúncia contra Antonio Olímpio em época e por razões eleitorais, pode se constituir num passo em falso. Evidentemente, o outro lado, no caso Jabes Ribeiro, também pensa e atua, contra-argumentando e produzindo efeitos. Noutras palavras, o processo eleitoral é sempre dialógico, no sentido de não haver monólogo, mas embate, enfrentamentos permanentes de toda ordem. E a opinião pública é sempre produto desse embate, desses enfrentamentos."

"O segundo problema de Jabes será o de re-inserir-se positivamente no tecido social, re-conquistar o espaço junto às classes mais pobres, que parecem ser as que mais decidem por razões inteiramente emocionais. (As classes superiores parecem subordinar a emocionalidade aos interesses). O que aqui se quer dizer é que parece haver nas massas uma lógica estranha, que funda toda sorte de sacrifícios já praticados para "agradar aos deuses" desde os tempos imemoriais, que vão desde um "jogar um Jonas ao mar" até a barbárie inqualificável de assassinar uma criança" (nessa época estouraram na imprensa do país os casos de bruxaria no Paraná em que crianças teriam sido sacrificadas). "Ou seja, está se afirmando que também parece ocorrer na política, num nível simbólico, (e o que importa mesmo é o simbólico, não o real), a necessidade das massas de "sacrificar" alguém como forma mágica de libertação ou de redenção. Caso processos atuais se intensifiquem, não é implausível que Jabes venha a ser, neste momento, o eleitoralmente sacrificado."

"Isto posto, observa-se que o número de indecisos é relativamente alto para o nível de polarização que a campanha atingiu. Isto pode estar sinalizando para uma parada tática do eleitor que, diante da conjuntura atual, prefere esperar um pouco mais para ver os próximos fatos e só decidir quando o quadro apontar mais nitidamente para uma direção".

Essa transcrição literal tentou resgatar esse momento do processo sucessório e, a partir do mesmo, reconstruir o processo de escolha do eleitor.*

Afirmou-se nesse relatório, ainda, que "a administração do prefeito João Lírio, que até recentemente se caracterizava como majoritariamente "regular", com o acirramento da disputa, tende a ser avaliada negativamente", ou seja, o prognóstico feito anteriormente estava se confirmando.

Essa pesquisa também detectou que Jabes retinha apenas cerca da metade dos eleitores que nele votaram para deputado federal, sendo que um quarto desses migraram para Antonio Olímpio.

Notou-se, ainda, através da análise de migração de intenções de voto, que 43,1% dos eleitores de Jabes simpatizavam com Antonio Olímpio e que 31,9% dos que revelaram intenção de votar em Antonio Olímpio eram simpatizantes de Jabes. Noutras palavras, havia um canal aberto de migração entre essas duas candidaturas, ou melhor, Antonio Olímpio transitava fortemente entre o eleitorado de Jabes. Já o eleitor de Ruy simpatizava um pouco mais por Antonio Olímpio, mas a diferença, nessa época, ainda era pequena.

A propósito das perspectivas abertas por esta pesquisa, parecem relevantes as seguintes observações, tomando como parâmetro o resultado final desse processo:

1. a candidatura Ruy não logrou efetivar-se como o "fiel da balança" na eleição em Ilhéus, já que a vantagem de Antonio Olímpio foi relativamente grande. Afora isso, à medida em que o dia da eleição se aproximava, o eleitor de Ruy tendia a se posicionar favoravelmente à candidatura Antonio Olímpio.

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* A percepção da possibilidade real do colapso da candidatura Jabes despertou para a realização deste trabalho.

2. o colapso do Governo Collor efetivamente aconteceu, mas não se traduziu num fato capaz de reverter quadro em Ilhéus, que continuou optando pelo "ressurgimento do velho", em que pese também Jabes já ter sido administrador desse município. (Escreveu-se "ressurgimento do velho" porque a candidatura do ex-prefeito Antonio Olímpio representava o retorno do quadro político derrotado por Jabes Ribeiro 10 anos antes e pelo seu candidato, o ex-deputado estadual João Lírio, na eleição imediatamente anterior à atual, a quatro anos).

3. quanto ao referido "sacrifício", parece que o eleitor optou por fazê-lo, não votando no retorno de Jabes à prefeitura.

 

A pouco mais de um mês da eleição

O quadro embrionário à época da pesquisa acima mencionada, de 27 a 30 de agosto, decorrido um mês explicitou-se.

Afirmou-se simplesmente, então, que "o principal resultado político desta pesquisa é a liderança de Antonio Olímpio a pouco mais de um mês da eleição.

"Antonio Olímpio está melhor na espontânea, na estimulada e na pesquisa de rejeição por múltipla escolha."

"Jabes Ribeiro está em segundo. Ruy, em terceiro. É difícil, contudo, avaliar em que momento da curva se encontram essas candidaturas. Evidentemente, se a eleição fosse hoje, Antonio Olímpio seria o próximo prefeito de Ilhéus. Contudo, esse quadro ainda não está estabilizado".

Em meados de setembro, entre os dias 10 e 15, em nova pesquisa, o quadro mostrou-se praticamente inalterado, sinalizando que a reversão seria muito difícil.

Nessa oportunidade, foram feitas as seguintes considerações:

"O principal resultado político desta pesquisa é a continuidade da liderança de Antonio Olímpio a menos de um mês da eleição. Esta pesquisa, contudo, aponta para alguns fatos que merecem reflexão e que sugerem que nada está decidido ainda:

- primeiro, a estratégia da candidatura Jabes de reverter quadro favorável a Antonio Olímpio parece estar não surtindo efeito. É como se o eleitor estivesse surdo e cego ao que se passa no cenário maior dessa eleição municipal, o processo de afastamento do presidente, preferindo dar maior peso ao ambiente e aos fatores locais. Noutras palavras, a candidatura Jabes está encontrando fortes dificuldades para se re-inserir no tecido social de Ilhéus. É como se no balanço local versus nacional, o local estivesse tendo mais força."

- segundo, a sinalização de um processo ainda embrionário de crescimento da candidatura Ruy parece estar indicando que o eleitor, se não puder votar em Antonio Olímpio em função da reversão das expectativas que um afastamento do presidente Collor provocaria, estaria se mostrando mais propenso em apostar nessa última candidatura, sacrificando eleitoralmente Jabes. Nesse sentido, se a questão fosse apenas derrotar Antonio Olímpio, isso seria mais fácil, hoje, com Ruy do que com o próprio Jabes, sobretudo se a candidatura Ruy viesse a ter o apoio pessoal, particular, do deputado Jabes."

- terceiro, é bem possível que os fatos do cenário nacional estejam revertendo tendência conservadora do voto, que elegeu governadores e até bem pouco tempo apontava os ex-prefeitos como virtuais favoritos nessas eleições municipais e essa mudança de cenário parece estar se acelerando. Caso isso se concretize, o novo passaria a ter reais chances ainda nesta sucessão não apenas em Ilhéus, mas sobretudo nas principais cidades."

"Como segunda opção do eleitor, Ruy revela um forte crescimento e esse é o principal sinal de uma possível decolagem dessa candidatura e ela se dará nas áreas em que Antonio Olímpio é hoje mais forte".

Nessa altura, a rejeição a Jabes situava-se num patamar alto, enquanto a de Ruy e Antonio Olímpio situavam-se num patamar médio. Acrescentou-se, ainda, que a administração do atual prefeito de Ilhéus tende ao negativo.

E previa-se que, em Ilhéus, o quadro ainda poderia sofrer modificações, devendo haver muita disputa.

Um dado relevante é que a rejeição a Jabes em toda porção Sul de Ilhéus e área central ultrapassava a casa dos 50%, ou seja, o espaço de manobra dessa candidatura estava ficando muito restrito nessas áreas.

Detectou-se, ainda, que 27,4% dos eleitores que votariam em Jabes avaliavam a administração João Lírio como boa ou muito boa, contra 11,5% dos que votariam em Antonio Olímpio e 7,5% dos que votariam em Ruy. Já os que avaliavam negativamente a administração municipal, 13,5% votariam em Jabes, contra 56,3% que votariam em Antonio Olímpio e 40% dos que votariam em Ruy. E a avaliação do atual prefeito tendendo ao negativo, sinalizava fortemente para a inviabilidade da candidatura Jabes obter os votos necessários para superar Antonio Olímpio.

Já no momento que antecedeu a aprovação do processo de impedimento do presidente Collor, 28 e 29 de setembro, como já foi afirmado, a distância entre as duas candidaturas sinalizava para uma diminuição. O quadro sinalizava para mudanças, estava se modificando, mas lentamente, sugerindo dificuldades de sua reversão.

E observou-se que, apesar do impedimento do presidente Collor, do voto de Jabes a favor desse processo, por um lado, e a condição de Antonio Olímpio ter apoiado Collor na campanha presidencial e o fato do governador Antonio Carlos Magalhães, aparentemente, sair-se perdedor nesse episódio, tendo Antonio Olímpio o apoio do mesmo, por outro lado, por alguma razão, Jabes não estava conseguindo se livrar de uma rejeição que, pessoalmente, não lhe dissesse diretamente respeito. O preço de tudo isso poderá ser, afirmou-se, a perda da prefeitura municipal, a menos que num esforço final o quadro seja revertido.

E o tempo, se é que essa questão fosse dessa ordem, revelou-se pequeno demais para surtir os efeitos pretendidos pela candidatura Jabes.

A hipótese mais plausível para explicar o processo em Ilhéus é a de que, efetivamente, o eleitor quis mudar; disse um "não" ao continuísmo político-administrativo; não se tratou, a rigor, de um "não" ao deputado Jabes Ribeiro. Em suma, essa candidatura pagou o preço da administração João Lírio. Nesse sentido, o voto dado a Antonio Olímpio foi um voto, por assim dizer, de conveniência. Noutras palavras, foi o voto de quem quis romper com o continuísmo, porque isso, segundo essa perspectiva, parecia ser o melhor para Ilhéus.

A esquerda não capitalizou esse sentimento contra o continuísmo porque, na reta de chegada, seguramente, não estava acreditando nessa possibilidade. A candidatura Ruy, mesmo assim, tinha trânsito fácil entre os dois eleitorados. Contudo, faltou acreditar na possibilidade de transformar simpatizante em eleitor; é como se tivesse se conformado com a condição de espectadora. Contudo, afora essa possibilidade de última hora, a esquerda, como será mostrado adiante, perdeu uma grande oportunidade, pelo menos na intuição deste que escreve.

 

O processo de seleção dos nomes

(Da lenta mas gradual emergência de Antonio Olímpio, a falta de um nome competitivo no grupo Jabes, a promessa Joabes e a candidatura de Jabes como resultante da falta de opções.)

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* Um dado relevante é que o percentual de Jabes na vers_o espontânea das pesquisas de intenções de voto foi caindo sistematicamente ao longo do processo; em meados do ano seguinte, pouco antes de se lançar candidato, o percentual era inferior a 5%. Acredita-se que o eleitor internalizou o discurso de que não seria candidato.

Em Ilhéus, o acompanhamento do processo sucessório pela Sócio Estatística foi iniciado com pesquisa realizada em 25 de fevereiro de 1991. Era parte de um esforço de mapeamento dos nomes que reuniam melhores condições à disputa municipal.

Nessa pesquisa, para 90% dos eleitores entrevistados, Jabes Ribeiro tinha chances muito boas para vencer a eleição de 1992; Antonio Olímpio tinha boas chances para 36%; e Nélson Simões, para 29%. Essa pesquisa era de múltipla escolha.

Na pesquisa espontânea, Jabes Ribeiro aparecia com 19%. Os demais alcançavam taxas inexpressivas*.

A administração de João Lírio era vista como "razoável" com ligeira tendência para ruim. Comentou-se, então, que seria interessante entender o que efetivamente a população entende por esse conceito.

Na pesquisa de 26 a 28 de junho de 1991, nenhum dos postulantes do grupo Jabes logrou boa posição na pesquisa. Comentou-se, naquele relatório, que "o fato novo na política ilheense é o ressurgimento de Antonio Olímpio como forte postulante ao cargo de prefeito de Ilhéus, com 19,9% das intenções de voto, seguido por Nélson Simões com 10,8%, Jasiel Martins com 8,4%, um indício de reabilitação de Henrique Cardoso com 6,4% e Ruy Carvalho com 5,1%".

Na pesquisa seguinte, além de confirmar o favoritismo de Jabes, caso o mesmo tivesse intenções de entrar na disputa pela sucessão, permanecia o quadro de falta de nomes competitivos em seu grupo. Contudo, Joabes, irmão do deputado, então ocupando a secretaria do Interior, emergia como sendo o único com um mínimo de viabilidade eleitoral e com alguma chances de fazer frente à Antonio Olímpio.

E na última pesquisa daquele ano, 23 a 26 de novembro, o quadro anterior se manteve. Alertou-se que era conveniente "não se perder de vista que num final de campanha a disputa tende a uma polarização, sendo o nome de Antonio Olímpio um dos pólos.... Há em Ilhéus", comentou-se, "um processo lento mas de contínuo fortalecimento e mesmo de ressurgimento de velhos nomes da política ilheense tidos como sem nenhuma chance. Afora Antonio Olímpio, que está conquistando espaços, há também o nome de Henrique Cardoso".

Reafirmou-se, ainda, que "Joabes parece ser quem reúne, entre os nomes do grupo Jabes, melhores perspectivas, hoje, para fazer frente a Antonio Olímpio na próxima eleição. Contudo, aparentemente, terá muitas dificuldades, inclusive com o apoio de Jabes, uma vez que é expressivo o contingente dos que emprestam a Jabes um apoio crítico, condicional".

Concluiu-se aquele relatório com a seguinte afirmativa: "A depender destes resultados, hoje, a situação política em Ilhéus, sem Jabes, tende fortemente para o ex-prefeito Antonio Olímpio. Nesse sentido, cada vez mais, Jabes parece ser a única alternativa capaz de fazer frente e de forma relativamente cômoda, ao lento mas gradual avanço de Antonio Olímpio. Sem dúvida, o leque de alternativas que restam a Jabes parece ficar a cada dia mais reduzido".

Essa pesquisa foi a última realizada em Ilhéus em 1991.

Em pesquisa realizada no final de março do ano em curso, dias 27 a 30, o quadro em Ilhéus mantinha-se. Joabes logrou pequena vantagem sobre Antonio Olímpio. Contudo, nessa pesquisa, Euler Ázaro entrou no páreo, dizendo estar tendo o apoio do governador Antonio Carlos Magalhães. Quando eram subtraídas as intenções de voto dadas a Euler Ázaro, já que esse nome disputava com Antonio Olímpio o mesmo espaço político, a diferença percentual desaparecia.

Até o final do período da definição das candidaturas, outras pesquisas foram realizadas, todas mostrando pequena vantagem de Joabes sobre Antonio Olímpio, mas que desaparecia quando se somavam as intenções de voto dadas aos candidatos que disputavam com Antonio Olímpio a vaga, no caso Euler Ázaro e Jasiel Martins. Quando era simulado um confronto final entre Joabes e Antonio Olímpio, os dois situavam-se na casa dos 34%.

Na última semana antes da definição das candidaturas, a Sócio Estatística detectou princípio de colapso da candidatura Joabes e a consolidação de Antonio Olímpio. Nessa mesma semana, foram realizadas quatro pesquisas em Ilhéus, apenas a deste instituto detectou o novo quadro, que as pesquisas seguintes apenas fizeram confirmar. As demais encontraram quadro de igualdade dos meses anteriores. Esse fato motivou necessidade de explicações, já que as pesquisas apresentavam diferenças e essas eram significativas.

Nesse momento, Jabes ainda dispunha de cerca de 40% das intenções de voto, mas Antonio Olímpio já estava na casa dos 30% e daí só fez subir, invertendo as posições, em que pese o esforço empreendido por Jabes para reverter essa tendência, que acabou por se revelar infrutífero.

A partir desse momento, pelo que se depreende de uma visão retrospectiva, em função dos resultados das urnas, Antonio Olímpio apenas manteve trabalho, torcendo para que o dia da eleição chegasse e quanto menos precisasse esperar, melhor.

 

A oportunidade perdida da esquerda

Algumas pesquisas, em função do momento em que são realizadas, por lograrem captar uma situação ainda embrionária, são de uma riqueza extraordinária. Contudo, o fato de serem portadoras de uma potencialidade, não significa necessariamente que sejam assim percebidas, tampouco pressupõe que seja aceita e explorada essa potencialidade. Sem dúvida, quem melhor pode analisar esta situação são os profissionais da área de marketing político, que vivem, por assim dizer, à caça desses momentos e desses sinais.

A situação que se pretende explicitar foi intuída e expressa da seguinte forma: "o principal resultado político desta pesquisa (23-24 de maio/92) é a indefinição na sucessão de Ilhéus."

"Aparentemente, esta pesquisa capta um momento que pode ser decisivo na sucessão em Ilhéus. Joabes e Antonio Olímpio estão empatados, não conseguindo um sobrepujar o outro expressivamente."

"Em relação à pesquisa da Frente de setembro passado, Ruy parece ter crescido. Verdade também é que a pesquisa encontrou a cidade com "out-doors" do mesmo espalhados em diversos pontos. De qualquer forma, está tecnicamente empatado com Nélson Simões."

"O segundo nome na preferência do eleitor pode estar revelando que há um certo cansaço com os nomes aí postos como candidatos, primeiro porque apresentam altas taxas de rejeição e estas estão em crescimento; segundo, porque os nomes têm dificuldades em se afirmar; terceiro, porque na segunda opção do eleitor o quadro chega a ser ainda pior. Acredita-se que seja necessário olhar com mais atenção esses resultados."

"A intenção de votar num nome da Frente de partidos de esquerda chega a motivar um terço dos eleitores, ou seja, 32%. Já o nome mais cotado é Nélson Simões, com 17%, seguido de Ruy Carvalho com 12%, ou seja, situam-se dentro da margem de erro."

"Quanto à disposição de votar numa mulher, e essa parece ser a grande novidade dessa pesquisa, 68,2% dos eleitores admitiram essa possibilidade. Outros 17,3% disseram: "depende" e apenas 11,5% disseram não votar numa mulher para prefeito".

Esse relatório de pesquisa conteve ainda um perfil das intenções de voto por variáveis sociológicas básicas (classe social, sexo, idade, níveis de instrução, situação no e frente ao mercado de trabalho, níveis de renda e bairro). Conteve perfil dos que disseram "sim" ao voto para uma mulher, "depende" e "não" a esse questionamento.

A título de ilustração, por classes sociais, o quadro foi o que segue:

Eleição para prefeito em 1992. Município de Ilhéus. Intenções de voto para uma mulher, por classes sociais. 23-24/05/92. 330 eleitores. Erro 6%

 

Classes A e B

Classe C

Classe D

Classe E

Sim

85,2

73,2

63,4

65,8

Não

0,0

11,3

13,4

12,5

Depende

7,4

12,7

19,6

20,0

Não sabe/não respondeu

7,4

2,8

3,6

1,7

Fonte: Sócio Estatística

Apesar da perspectiva aberta por essa questão, a frente de partidos de esquerda optou pelos nomes já postos antes da pesquisa. A escolha recaiu em Ruy Carvalho que, nessa pesquisa, logrou pequena frente sobre Nélson Simões, ainda que sem configurar uma diferença estatisticamente significativa.

A partir desse momento, a frente de esquerda, a rigor, só teve alguma chance na reta final da campanha, mas não por forças endógenas. Essa perspectiva delineou-se diante da dificuldade de Jabes Ribeiro em reverter o quadro nesse município. Em razão disso, uma das opções que essa candidatura dispunha, se a questão fosse apenas derrotar Antonio Olímpio, era renunciar e, pessoalmente, desvinculado do grupo e da administração João Lírio, apoiar ostensivamente Ruy Carvalho. A candidatura Ruy, caso isto acontecesse efetivamente, já que transitava fácil tanto entre os eleitores de Jabes como de Antonio Olímpio, poderia decolar e, possivelmente, por outras razões e outros caminhos, assemelha-se ao fenômeno Geraldo Simões, no vizinho município de Itabuna. No entanto, Jabes insistiu numa possível reversão, contando com a aprovação da admissibilidade de instauração pela Câmara Federal do processo de impedimento do presidente Collor. Aparentemente, enquanto deputado e ator deste capítulo da história do país, a reversão era uma possibilidade.

* Texto extraído do livro Política & Pesquisas; a sucessão municipal no Sul da Bahia. Edição do Autor (Agenor Gasparetto), Itabuna, Bahia, 1993.