NÃO AGREGAÇÃO DE VALOR E TRANSFERÊNCIA DE RENDA

O processo que resulta num progressivo esvaziamento regional se dá sobretudo através de duas vias complementares.

A primeira, por não agregar maior parte de valor embutido nessa matéria-prima. A segunda, por ainda transferir para o seu exterior o pouco que,  mesmo assim, foi e é capaz de acumular.

A não-agregação de valor decore do fato que a região exporta a matéria-prima in natura (sementes) ou semi-processada (manteiga, torta, pó, liquor). Em contrapartida, o mundo desenvolvido, consumidor do produto nobre desta, a industrializa, realizando o valor potencial existente na semente ou derivados, gerando empregos, receitas e outros negócios vinculados aos produtos finalizados a partir desta matéria-prima.

Observa-se, ainda, que é nas últimas fases do processo produtivo, e não nas primeiras, onde ocorrem as maiores margens de lucros, onde são gerados os melhores empregos, onde o controle sobre os ganhos são maiores e onde há efetivamente um efeito multiplicador na economia.

Isto, recoloca, concretamente, a questão da vocação natural desta região e das perspectivas reais de superar a esse ponto de estrangulamento da economia e do futuro da sociedade nela assentadas.

A transferência de renda via importação de produtos elitizados é mais complexa à medida que implica em variantes deste processo geral que é de esvaziamento regional, de empobrecimento, de periferização.

Uma primeira variante explicita-se na transferência de rendas via aquisição de bens móveis (carros, peças, máquinas e equipamentos), vestuário, calçados e até alimentos passíveis de serem produzidos em solo local, ou pelo menos baiano.

Uma segunda, explicita-se via aquisição dos insumos necessários ao processo produtivo agrícola, uma vez que as unidades produtoras destes situam-se fora do contexto regional.

Uma terceira variante, explicita-se na não-residência de produtores e sua famílias, que optaram por residir particularmente em Salvador ou outra grande cidade do país, fixando nelas seus interesses econômicos, pessoais e profissionais. Neste caso, a região tem muito pouco retorno já que a renda é consumida nestes grandes centros sobrando a mera sobrevivência física de trabalhadores assalariados. Recoloca-se, aqui, a necessidade de formação de um mercado interno com maior capacidade de consumo, que implica no aumento do poder aquisitivo das populações locais,  como assinalou o deputado Haroldo Lima no seminário-referência.

Uma subvariante deste processo manifesta-se no caso dos estudantes que em busca de seu futuro profissional são obrigados a buscar em outros contextos sociais a oportunidade educacional não oferecida pela FESPI.. E através deste expediente, esvai-se também parcela da renda regional.

Neste sentido ou fortalecimento da FESPI, incluindo a abertura de novos e demandados cursos,3 é fator de vitalização regional. Parte da solução passa, sem dúvidas, por uma FESPI ampliada, com abertura de cursos que correspondam às expectativas dos estudantes e com a incorporação das funções pesquisa e extensão, e fortalecida, em todos os sentido.

Aqui, a estadualização via resolução da pendência do patrimônio herdado, é um passo imprescindível, mas constitui apenas um passo no processo de transformar a FESPI numa Universidade de fato, sob todos os aspectos, “transformando-se num grande centro cultural da Bahia”, na desiderata do senador Josaphat Marinho e, certamente, de todos os participantes do Seminário.

Uma quarta variante é representada pelo setor financeiro instalado na região, que funciona como dreno dos recursos aqui poupados para outras praças, sem maiores compromissos com investimentos produtivos na mesma. Há uma desproporção muito grande entre sua função captadora da poupança regional e a função investimento no processo produtivo regional. É preciso repensar o papel das instituições financeiras instaladas neste espaço geográfico.

As decorrências desta dupla abertura se traduzem num elevado grau de “fragilidade”, nas palavras do Economista José Alexandre de Souza Menezes, de “vulnerabilidade”, como preferi o Agrônomo Roberto Setúbal, e de instabilidade permanente a que está exposta e não pode controlar, já que sofre tanto os efeitos das crises do sistema a nível de país como a nível externo.

Em conseqüência da posição que ocupa no contexto maior da economia, explicitados acima, faz com que a mesma experimente fortes oscilações e impactos quer seja em função de problemas climáticos, quer seja em função dos ciclos econômicos nacionais ou mundiais, como enfatizaram muitos dos participantes do referido seminário.

E as crises em outros contextos conectados a esta região, nesta se refletem e com mais intensidade e maior gravidade, já que a mesma, como se depreendem da análise para regiões análogas a esta do professor Francisco Carrion Jr., está desarticulada e não dispõe de mecanismos capazes de atenuar  os seus efeitos.