devemos colocar este texto no arquivo que trata da crise do cacau, com o titulo Documento-proposta do IESP.

 

A CRISE DA REGIÃO CACAUEIRA DA BAHIA. QUAL A SAÍDA?

DOCUMENTO–PROPOSTA DO IESP: elaborado pelos professores  Zilney Matos e Agenor Gasparetto, então professores da FESPI, hoje UESC. Este texto, aqui reproduzido, sem as notas, foi publicado em junho de 1991, pelo IESP, como documento-proposta deste Instituto.

 

INTRODUÇÃO

No intuito de não induzir a equívocos de interpretação, enfatiza-se que este documento-proposta não é um resumo do seminário “A Crise da Região Cacaueira. Qual a Saída?”, realizado nos dias 3 e 4 de maio último, coordenado pelo IESP.

Contudo, este teve no seminário importante fonte de referência. Neste sentido, não deve o prezado leitor buscar nele o que disse cada um dos participantes em particular.

Para este fim, a Equipe de Sistematização teve a preocupação de transcrever as falas de todos quanto participaram e o teor de contribuição de cada um pode ser lido nos Anais do Seminário.

Este documento-proposta teve a intenção de apreender a problemática das crises regional e perspectiva de sua superação, buscando elementos expostos e/ou discutidos no referido seminário, como também os existentes na extensa literatura técnica sobre a região e seus problemas.

Em razão disto, este é um produto que extrapola a contribuição de referido evento. Tente retratar a visão do IESP na conjuntura atual porque passa a região, fazendo, inclusive, algumas indicações, concretas e viáveis.

Ressalta-se que as propostas aqui esboçadas não constituem um produto acabado; Ao requerem uma contribuição crítica por parte dos interessados e envolvidos com a sociedade e economia.

Registra-se, ainda, que a região tem sido objeto de grande preocupação. Documentos e propostas foram elaboradas, visando contribuir no esforço de sua reativação econômica e institucional.

Dentre esses trabalhos, ressalta-se “Sugestões para um Programa de Desenvolvimento Agrícola e Agro-industrial para a Região Cacaueira da Bahia”, elaborado sob a coordenação do Economista José Alexandre de Souza Menezes, da CEPLAC ( Janeiro de 1991), em nome da CNPC. Destaca-se ainda o documento “O Sul da Bahia tem Solução”, do então Deputado Federal Waldeck Ornelas. Hoje Secretário de Planejamento do Estado da Bahia ( Fevereiro de 1990).

Destaca-se a importância desse momento de efervescência e de criatividade, decorrente, em parte, da própria crise que parece dar sinais de superação, a curto prazo, favorecendo a busca de solução não só a nível da cacauicultura. O reconhecimento de que a crise de hoje é a crise de sempre, portanto estrutural, é uma luz no final do túnel .

Finalmente, destaca-se a emergência da formação de uma consciência que extrapola a mentalidade estritamente cacaueira, estimulada pela crise e pelo surgimento da doença Vassoura de Bruxa.

Esta nova consciência, necessariamente mais solidária por uma imperativo de sobrevivência, constitui-se numa promessa e poderá contribui para que esta região supere a crise e supere-se enquanto espaço subdesenvolvido.


A REGIÃO CACAUEIRA DA BAHIA. QUAL A SAÍDA?

Na análise da crise porque passa a Região Cacaueira da Bahia e na análise das perspectivas de saída da mesma, faz-se necessário apontar, antes de tudo, alguns parâmetros norteadores e delimitadores desta Região e da própria crise.

Estes possibilitarão situar a contribuição de cada um dos participantes do evento e contribuições presentes na literatura técnica num conjunto coerente e não na superposição desarticulada de idéias. Obviamente, estes parâmetros são discutíveis; contudo, constituem-se na espinha-dorsal deste documento-proposta.


 

1.     A REGIÃO CACAUEIRA CENTRADA NOS PÓLOS ECONÔMICOS DE ILHÉUS E ITABUNA.

A região que produz cacau no estado da Bahia é, geograficamente, maior do que a região cacaueira centrada no seu pólo econômico principal, constituído por Itabuna e Ilhéus.

Neste sentido, fazer da presença do cacaueiro como elemento definidor de Região Cacaueira induz a equívocos graves, conduz a concepção fictícia e a interpretação que prejudicam uma adequada colocação dos problemas e de seu lúcido encaminhamento.

A propósito, nos últimos anos, uma série de trabalhos técnico-científicos foram desenvolvidos, boa parte destes gestados no Departamento de Geo-Ciências da UFBA, e apontam para a insustentabilidade de uma “Região Cacaueira de 2,5 ou 3 milhões de habitantes”, que abarcaria além do Extremo-Sul do Estado, também as regiões de Itapetinga, Vitoria da Conquista, Jequié e Valença, concepção herdada dos tempos do Diagnósticos Sócio-Econômico da Ceplac.

Esta aludida grande região, enquanto unidade regional e coerente consistente, não existe. Trata-se de um conceito difuso, nebuloso, de pouca utilidade na apreensão da realidade e no planejamento e intervenção na mesma.

Isto porque Vitória da Conquista em sua região de influência não vive, não respira nem suspira o cacau, tampouco gravita em torno de Ilhéus e Itabuna. Trata-se de uma região, sob este aspecto, não vinculada e nem dependente do que se passa em Itabuna e Ilhéus e, em graus de diversos o mesmo se aplica a Jequié, aos emergentes pólos urbanos do Extremo-Sul e suas regiões de influência. E mesmo a região de Valença sofre mais a influência de Salvador e de sua região metropolitana do que de Itabuna Ilhéus em quanto pólos hegemônicos.

Portanto, a “nossa região cacaueira”, para usar expressão cara a muitos participantes do seminário, abarca área mais restrita do que insinuada, é mais compacta, abrangendo talvez não mais do que 50 municípios2  e sua população está longe dos 2,5 ou 3 milhões ditos no seminário–referência desse texto.

A consciência desta fato contribui para que se pense realisticamente e sejam buscadas soluções razoáveis. E, mais de que isso, possibilita que as lideranças destas regiões e das regiões circunvizinhas “sentem-se a mesa”, em condições de igualdade enquanto representantes de determinados domínios espaciais, possam procurar soluções de que estas regiões, enquanto espaço social e regional mais amplo, necessitam, havendo uma vantagem mútua, caso isso venha a constituir-se em realidade. Isto porque estas compõem o espaço regional do sul da Bahia, como referiu-se Dr. Waldeck Ornelas em seu documento O Sul da Bahia Tem Solução, embora aqui se esteja incorporado, além do Extremo-Sul do então Deputado e agora secretário de Planejamento do Estado, também outros espaços sub-regionais circunvizinhos à Região Cacaueira centrada nos pólos urbanos de Ilhéus e de Itabuna, enquanto integrantes do cenário Sul-Sudoeste da Bahia.

Isto se faz necessário porque há equipamentos e estruturas que, embora localizadas em áreas específicas, pertencem ao conjunto das regiões limítrofes da Região Cacaueira tradicional. Entre estes equipamentos estão o porto, as rodovias, o Centro de Pesquisa do Cacau entre outros. E a própria FESPI, que, enquanto centro universitário, ultrapassa os limites da região centrada em Ilhéus e Itabuna, aqui definida como cacaueira, e para ser mais preciso, cacaueira tradicional. A solução para estes problemas, portanto, não se circunscreve à área de influência de Ilhéus e Itabuna, de sua lideranças e representantes políticos.

Obviamente entre as regiões há espaços de transição que constituem em um problema de difícil superação. Contudo, trabalha-se com conceitos que são aproximações da realidade e enquanto não se dispor de recursos e técnicas que permitam melhores aproximações, toma-se como referência produção de conhecimento já existente. No caso do Estado da Bahia, na perspectiva da identificação das diferentes regiões, há vários trabalhos e estes são dotados de relevância teórica e prática.


2.     A CRISE REGIONAL

2.1 A CRISE DE SEMPRE E O FATOR DIFERENCIADOR DESTA

A região, que passou por inúmeras e graves crises, parece não ter aprendido delas, talvez por não ter apreendido que o seu problema é de natureza estrutural.

“A região tem futuro”. “A região tem potencial”. Participa-se  destas assertivas, muitas vezes repetidas no seminário-referência. Contudo, o cacau pode não a ser a única e talvez nem mesmo a principal razão deste ato de fé. Esta aposta no futuro desta região é, sob todos os sentidos, necessária, como vem enfatizando, com insistência, o atual Secretario de Planejamento do Estado da Bahia Dr. Waldeck Ornelas, sem cair, no entanto, numa concepção ingênua da realidade.

No que se refere á crise, convém distinguir entre os elementos que são constitutivos das crises de sempre daqueles que constituem fator novo, diferenciador.

Convém distinguir entre os elementos da crise provocados pelo próprio modelo econômico, primário-exportador, no depoimento de muito dos participante do seminário, e que fazem parte da própria dinâmica do capitalismo, daqueles que constituem novidade, como é o caso da  Vassoura de Bruxa, cujas conseqüências ainda não foram estimadas e que recomendam cautela nas explicações das soluções conjunturais para a cacauicultura e na projeção cenários futuros para o cacau. O que parece certo, por enquanto, é que esta doença implicará numa mudança da concepção de empreendimento cacaueiro, da relação do produtor com sua unidade de produção, por uma questão de sobrevivência enquanto produtor de cacau.

Convém distinguir, ainda, a crise da cacauicultura da crise regional, mas sem perder de vista o espaço de interseção entre ambas.

E, em função destas distinções, apontar as alternativas ao modelo agonizante, à cacauicultura e à região. A busca destas, sem dúvidas, foi um dos grandes objetivos do seminário, (e o Anais mostram que forma apontadas “soluções” em grande número), mas que parece tarefa por demais difícil aqui indicá-las, sem cair numa listagem de soluções–ações. Neste sentido, este documento-proposta visou discernir as questões mais básicas do encaminhamento dos problemas, tentou contribuir no discernimento do que é essencial e prioritário, do que é macro, daquilo que constitui detalhe, minúcia, varejo, paliativo.


2.2           A CRISE ESTRUTURAL

2.2.1 ESVAZIAMENTO REGIONAL COMO REFLEXO

Esta crise, na perspectiva econômico-social, é reflexo da própria lógica interna do modelo que se firmou na região e da situação ocupada por esta no circuito maior da economia nacional e internacional como assinalaram no seminário-referência, entre outros, os técnicos Adeum Hilário Sauer, Roberto Setúbal e José Alexandre de Souza Menezes.

E, neste sentido, as expressões muito repetidas no Seminário de que esta região estaria vivendo “dupla crise” ou “tripla crise”, incluindo aí uma suposta crise de lideranças, são reflexos da percepção empírica desta realidade, ainda que se situem no âmbito da manifestação do fenômeno e não explicitem a natureza própria do problema ou dos problemas que afetam sociedade ou economia regional.

No contexto de capitalismo, como foi muitas vezes e por muitos assinalado no seminário e fora dele, esta região é  periférica e, se não bastasse, duplamente periférica, uma vez que sofre dupla subordinação: a do mercado comprador de matérias primas, exterior ao país, e do mercado supridor de  bens e serviços elitizados, no país, mas exterior à região.

 Esta dupla abertura para o seu exterior a expõe frontalmente ao que se passa lá fora e a transforma em espectadora de um movimento de que não pode controlar. E, às vezes, dado que a realidade não é transparente, sequer compreender de forma clara e inequívoca.

Um dos aspectos desta forte abertura para o exterior, é função de ser a mesma produtora de uma matéria-prima agrícola e que se traduz, internamente, numa especialização, na monocultura do cacau. E esta, curiosamente, nas situações de crise é criticada e lamentada pelas mesma vozes que nas situações favoráveis fazem sua apologia!

O outro aspecto, dela ser importadora de produtos de consumo elitizado, é decorrência da não produção local de bens e serviços e o consumo elitizado é função da concentração de renda existente e esta, da centralização dos fatores de produção e dos empregos melhor remunerados.

Aqui, faz sentido dizer que o mercado de bens e serviços desta região tem o tamanho da elite aqui enraizada, ou seja, é pequeno, é restrito. Já o grande mercado dos excluídos, é numericamente grande mas tem o poder de compra que mal ultrapassa os limites das inúmeras feiras livres e centros públicos de abastecimento que se distribuem nas cidades, em seus principais bairros, desta região. Trata-se do domínio da mera sobrevivência física.

Na explicação dos porquês desta região não ter se constituído numa matriz industrial ou agroindustrial, como questionou o sociólogo Adeum Hilário Sauer no seminário, constitui-se numa importante questão no pensar de muitos, possivelmente este fator, diminuta amplitude do seu mercado interno, tenha contribuído substancialmente.

A raiz deste problema, reproduzindo pensamento deste sociólogo, consiste no fato de que enquanto não se equacionar o problema da incorporação das massas ao mercado, enquanto não se avançar na democracia econômica, enquanto não se estender os direitos de cidadania aos que habitam e trabalham nesta região, tomando de empréstimo expressão muito cara ao deputado federal Waldir Pires e ao senador Josaphat Marinho, as perspectivas de desenvolvimento social continuarão sombrias. E o problema-chave, aqui, é o da distribuição de renda. Nesse sentido, gerar emprego não é suficiente, faz-se necessário gerar empregos que possibilitem ao trabalhador se constituir num cidadão capaz de oportunizar a si e a seus filhos condições de vida, compatíveis com padrão de desenvolvimento atingido pela humanidade neste final de milênio, e perspectiva de futuro.

Retomando, esta dupla abertura (e dupla exposição às oscilações ) produz por diferentes mecanismos um mesmo processo, que se traduz em esvaziamento regional, sob todos os aspectos.

Em razão deste, a cada ano, a região se descobre um pouco mais pobre, um pouco mais desassistida, um pouco mais relegada ao um lugar de segunda  importância no próprio cenário estadual onde já teve muita importância econômica, embora não tenha logrado convertê-la em força política em seu próprio beneficio. E as palavras do Senador Jutahy Magalhães não fazem senão confirmar esta realidade: “não existe uma política para o cacau”, “o Governo Federal abandonou totalmente a lavoura do cacau”, ou ainda, “os ouvidos estão surdos para as reivindicação desta região”, fazendo lembrar, de certa forma, os profetas bíblicos e suas exortações pouco ouvidas e mal compreendidas.

Nesse sentido, equivocam-se aqueles que não entendem ser a crise das instituições da região, afora contribuição da atual política do Governo Federal no tocante ao setor publico deste país, também um reflexo do gradual, progressivo e preocupante processo de esvaziamento regional. Nesta perspectiva, faz sentido inserir também a incapacidade histórica desta região exercer o comando político do Poder Estadual, como logrou ter a oligarquia cacaueira do Equador antes do evento da Vassoura de Bruxa naquele então importante país produtor de cacau. Incapacidade que hoje se manifesta na sua sub-reprensentação política, como frisou o Deputado Geraldo Simões.

 

 

2.2.2 NÃO AGREGAÇÃO DE VALOR E TRANSFERÊNCIA DE RENDA

O processo que resulta num progressivo esvaziamento regional se dá sobretudo através de duas vias complementares.

A primeira, por não agregar maior parte de valor embutido nessa matéria-prima. A segunda, por ainda transferir para o seu exterior o pouco que,  mesmo assim, foi e é capaz de acumular.

A não-agregação de valor decore do fato que a região exporta a matéria-prima in natura (sementes) ou semi-processada (manteiga, torta, pó, liquor). Em contrapartida, o mundo desenvolvido, consumidor do produto nobre desta, a industrializa, realizando o valor potencial existente na semente ou derivados, gerando empregos, receitas e outros negócios vinculados aos produtos finalizados a partir desta matéria-prima.

Observa-se, ainda, que é nas últimas fases do processo produtivo, e não nas primeiras, onde ocorrem as maiores margens de lucros, onde são gerados os melhores empregos, onde o controle sobre os ganhos são maiores e onde há efetivamente um efeito multiplicador na economia.

Isto, recoloca, concretamente, a questão da vocação natural desta região e das perspectivas reais de superar a esse ponto de estrangulamento da economia e do futuro da sociedade nela assentadas.

A transferência de renda via importação de produtos elitizados é mais complexa à medida que implica em variantes deste processo geral que é de esvaziamento regional, de empobrecimento, de periferização.

Uma primeira variante explicita-se na transferência de rendas via aquisição de bens móveis (carros, peças, máquinas e equipamentos), vestuário, calçados e até alimentos passíveis de serem produzidos em solo local, ou pelo menos baiano.

Uma segunda, explicita-se via aquisição dos insumos necessários ao processo produtivo agrícola, uma vez que as unidades produtoras destes situam-se fora do contexto regional.

Uma terceira variante, explicita-se na não-residência de produtores e sua famílias, que optaram por residir particularmente em Salvador ou outra grande cidade do país, fixando nelas seus interesses econômicos, pessoais e profissionais. Neste caso, a região tem muito pouco retorno já que a renda é consumida nestes grandes centros sobrando a mera sobrevivência física de trabalhadores assalariados. Recoloca-se, aqui, a necessidade de formação de um mercado interno com maior capacidade de consumo, que implica no aumento do poder aquisitivo das populações locais,  como assinalou o deputado Haroldo Lima no seminário-referência.

Uma subvariante deste processo manifesta-se no caso dos estudantes que em busca de seu futuro profissional são obrigados a buscar em outros contextos sociais a oportunidade educacional não oferecida pela FESPI.. E através deste expediente, esvai-se também parcela da renda regional.

Neste sentido ou fortalecimento da FESPI, incluindo a abertura de novos e demandados cursos,3 é fator de vitalização regional. Parte da solução passa, sem dúvidas, por uma FESPI ampliada, com abertura de cursos que correspondam às expectativas dos estudantes e com a incorporação das funções pesquisa e extensão, e fortalecida, em todos os sentido.

Aqui, a estadualização via resolução da pendência do patrimônio herdado, é um passo imprescindível, mas constitui apenas um passo no processo de transformar a FESPI numa Universidade de fato, sob todos os aspectos, “transformando-se num grande centro cultural da Bahia”, na desiderata do senador Josaphat Marinho e, certamente, de todos os participantes do Seminário.

Uma quarta variante é representada pelo setor financeiro instalado na região, que funciona como dreno dos recursos aqui poupados para outras praças, sem maiores compromissos com investimentos produtivos na mesma. Há uma desproporção muito grande entre sua função captadora da poupança regional e a função investimento no processo produtivo regional. É preciso repensar o papel das instituições financeiras instaladas neste espaço geográfico.

As decorrências desta dupla abertura se traduzem num elevado grau de “fragilidade”, nas palavras do Economista José Alexandre de Souza Menezes, de “vulnerabilidade”, como preferi o Agrônomo Roberto Setúbal, e de instabilidade permanente a que está exposta e não pode controlar, já que sofre tanto os efeitos das crises do sistema a nível de país como a nível externo.

Em conseqüência da posição que ocupa no contexto maior da economia, explicitados acima, faz com que a mesma experimente fortes oscilações e impactos quer seja em função de problemas climáticos, quer seja em função dos ciclos econômicos nacionais ou mundiais, como enfatizaram muitos dos participantes do referido seminário.

E as crises em outros contextos conectados a esta região, nesta se refletem e com mais intensidade e maior gravidade, já que a mesma, como se depreendem da análise para regiões análogas a esta do professor Francisco Carrion Jr., está desarticulada e não dispõe de mecanismos capazes de atenuar  os seus efeitos.

 

2.2.3 O PREÇO DA INSTABILIDADE E DA DESARTICULAÇÃO

Este quadro se traduz numa crônica situação de instabilidade, que advém, fundamentalmente, da forte vinculação do processo produtivo a uma única matéria-prima.

A inconstância nos ritmos de crescimento, enfatizada pelo economista José Alexandre de Souza Menezes, evidencia, sem dúvidas, que a região não controla os mecanismos de crescimento econômico e desgasta-se em decorrência das flutuações, manifestas na dança dos milhões de dólares gerados pela economia cacaueira, que tendo já atingido a marca do bilhão, despencou para a metade e até um terço desta expressiva cifra no intervalo de poucos anos, como salientaram vários dos participantes do seminário-referência deste texto.

Estas oscilações, esta inconstância, longe de se constituírem em acidentes de percurso manifestam de forma transparente a própria natureza do modelo econômico-social desta região. Refletem a estrutura própria da mesma. Explicitam toda a fragilidade e toda a desarticulação a que esta região está exposta.

Como resultante deste processo, esta região que hoje enfrenta mais uma crise, embora esta tenha na Vassoura de Bruxa um elemento diferenciador e agravador; passou de região de fronteira para o capital e para os fluxos migratórios no final do século passado e primeiras décadas deste; transformou-se no esteio da economia e da arrecadação do estado da Bahia, para, nas últimas décadas, perder importância relativa no contexto estadual e, nos últimos anos, afundar-se em mais uma de suas muitas cises. E, a cada dia mais desacreditada, mais relegada a um segundo plano, no que se constitui num preço alto a pagar.


 

2.2.4 CACAU: REALIZAÇÕES E NÃO VIABILIZAÇÃO DE UMA MATRIZ INDUSTRIAL

O cacau, que fixou população, gerou um surto econômico e produziu cidades, enquanto sociedade e enquanto economia, na sua centenária trajetória, por diversas razões, não logrou transformar de forma significativa o espaço regional.

Este, apesar da aparência de grande viabilizador de acumulação de capitais, não viabilizou aqui uma matriz industrial, como assinalou o sociólogo Adeum Hilário Sauer.

E o parque moageiro de cacau instalado recentemente nesta região, é mais um aperfeiçoamento do modelo que a caracteriza e de em tempos em tempos a condena, do que propriamente um fator de transformação, uma vez que produz a desvinculação com o restante da economia. Não reduz a fragilidade e vulnerabilidade interna, porque não se constitui e nem gera  efeitos multiplicadores no interior do sistema. Trata-se, a rigor, de um ponto entre a produção e a exportação de sementes.

E o risco de uma Zona de Processamento de Exportações, ZPE, muito cara ao debatedor Isaac Albagli, a depender da forma concreta que vier a assumir, caso seja implantada, fortalecerá o atual modelo, já que parece ter na abertura no exterior sua principal característica. A diferença é que em vez de um único produto, talvez a região tenha vários e parece pouco provável que todos entrem em crise ao mesmo tempo.

As razões apontadas para esta sua não-transformação em matriz industrial podem ser resumidas, de um lado, apesar de toda a aparência em contrário, numa insuficiência de capital para esta transformação e, de um outro, na não conveniência, de uma ótica empresarial, em investir em um parque industrial ou agroindustrial local em função de um clima de insegurança social existente na região nas primeiras décadas do século, da atratividade maior em continuar expandindo a área cacaueira então e nas conjunturas mais favoráveis, da falta de infra-estrutura e de um inexpressivo mercado local consumidor de bens industriais, mais o fato de grandes proprietários, comerciantes e exportadores terem, via de regra, seu centro de interesses, a cidade de Salvador ou outra grande cidade do país, cabendo a esta região gerar excedentes que seriam investidos onde se situava o interesses destes agentes, os únicos que, de forma individual, poderiam investir na direção de um processo de industrialização.


 

2.3           AO ELEMENTOS CONJUNTURAIS DA CRISE

Fortes oscilações nos preços do cacau no mercado internacional foram uma constante na história do cacau.

A alternância de preços altos e baixos, como assinalaram vários dos participantes do seminário, faz parte da trajetória desta e de todas as matérias-primas agrícolas, produzidas nas regiões tropicais do Globo.

A evidência empírica destas oscilações chegou até a inspirar o professor Selem Rachid Asmar a elevar o algarismo “um” a condição de fator explicativo de uma série de crises que teriam ocorrido nos fatídicos anos “um” e que a mais grave de todas se daria, como previra e escrevera, neste ano de 1991(sic).

Os preços não passam de explicação de uma determinada conjuntura mundial no mercado do cacau, atribuída, segundo a maioria dos intérpretes, a uma superprodução induzida por altos preços alcançados pelo produto na segunda metade da década de 70, como muitos apontaram no seminário. E atribuída também à manipulação dos poucos, mais poderosos agentes de intermediação no mercado mundial desta matéria-prima, para outros, com posições, via de regra, mais contestadoras do “status quo”, como os representantes dos trabalhadores no mesmo e do deputado Haroldo Lima, que definiu esta situação como sendo “armadilha colonial”.

Contudo, a circunstância preços e mesmo manipulação parece relativa enquanto fator de estrangulamento dos segmentos produtores de cacau.

Isto porque se esta crise tivesse apenas neste elemento sua razão de ser, em questão de anos o problema teria solução, uma vez que a queda nos preços induziria os produtores a não implantar, a não replantar plantações envelhecidas, a colher menos vezes e com menor rigor, a reduzir a utilização de insumos produtivos. Isto acabaria por reduzir produção e produtividade; contudo, a duração desta conjuntura bem como o teto mínimo dos preços tem limites. E os agentes internacionais que operam com este mercado estão cientes deste fato e não se acredita que sejam capazes de destruir uma situação que parece lhes ser favorável, ultrapassando-os. Isto seria uma insensatez de uma perspectiva capitalista e, muito provavelmente, são os produtores que mais precisam encarar esta perspectiva, como insinuou Durval Olivieri, do CRA-BA.

Neste sentido, a situação conjuntural é aquela que, na ótica dos agentes acima referidos, é possível de ser suportada pelas regiões produtoras sem comprometer no médio e longo prazos a própria viabilidade deste segmento da economia internacional.

Possivelmente, a expansão da lavoura para o Sudeste Asiático seria parte de uma estratégia destes mesmos agentes, seja decorrência de uma previsão, de uma antecipação de um cenário. E enquanto conhecedores da realidade, projetaram e estão viabilizando uma nova zona produtora, capaz de neutralizar adversidades e contratempos nas zonas tradicionais, particularmente África Ocidental e Bahia.

Contudo o fato de ser conjuntural não significa que seja fácil de conviver ou suportar. Muitos, enquanto produtores, não sobreviverão. Neste sentido, revela-se como uma situação dramática para quase todos segmentos envolvidos, particularmente os que dispõem de menos recursos e menos mecanismos de neutralização de seus efeitos negativos.

Por fim, ressalta-se que é justamente nas crises conjunturais que a perversidade do modelo se manifesta, ou seja, a crise estrutural só se explicita como problema, só se revela em toda a sua complexidade e gravidade nas crises conjunturais. E estas últimas revelam a primeira, que desempenha papel agravante destas.

Noutras  palavras, a manifestação da crise conjuntural aponta para  a crise estrutural, explicita suas características e revela a fragilidade do sistema em que economia e sociedade regional estão assentadas. A percepção empírica deste fato é que, na segunda metade do anos 70, soaria como heresia explicitar a fragilidade da estrutura da economia regional, embora todos  os elementos já estivessem presentes e bastou uma mudança conjuntural do mercado para reverter por inteiro este quadro, como se está assistindo nos últimos anos.

Um aspecto relevante desta problemática se resume no fato de que a crise regional é, a rigor, crise da economia cacaueira e, mais precisamente, de sua lavoura. Esta realidade, por sua vez, remete à “fragilidade” da economia regional, porque assentada, praticamente, numa única matéria-prima, o cacau.

E como salientou o sociólogo Adeum Hilário Sauer, referindo-se a solicitação de recursos financeiros pelo representante da CNPC, Ronaldo Monteiro, recursos não resolvem o problema da região, embora possam constituir-se em uma saída emergencial, sob pena de se reforçar modelo que agora tanto se critica.

E como tem acontecido nas crises anteriores, ao primeiro sinal de superação, ninguém parece interessado no problema estrutural, desperdiçando-se, desta forma, o potencial de transformação aberto pela situação da crise. E tudo volta a ser como antes. Não fosse a doença Vassoura de Bruxa que obriga a uma reordenação da atividade cacaueira em seu conjunto, muito provavelmente não seria desta vez muito diferente.

Enquanto soluções para o problema da região e soluções definitivas para o cacau no médio e longo prazos, nas palavras do senador Jutahy Magalhães, “o custeio, só, não resolve o problema, tampouco a prorrogação das dívidas”. Contudo não se pode ignorar um quadro de dificuldade econômicas que afeta os produtores.

Nesse sentido, não se pode ignorar que ao Governo federal não faltaram recursos aos usineiros de açúcar, muito lembrados no Seminário, e o mesmo pode ser dito ao Governo do Estado, uma vez que a locação de recursos é, primeira e principalmente, uma questão de prioridade.

Acredita-se que qualquer solução emergencial, que parece necessária, precisa considerar a variável doença Vassoura de Bruxa e em função desta, fazer a maior alocação dos recursos, para que não se ouça, como se ouviu no seminário, que a liberação de crédito coincide com aumento das  vendas de carros novos nas concessionárias de veículos da região. É preciso “fiscalizar”, no dizer do senador Josaphat Marinho, para não privilegiar aqueles que procedem de forma incorreta. E quanto às soluções emergenciais, é preciso, repetindo o senador Jutahy Magalhães, “saber o que pedir, saber o que reivindicar”. E saber isto implica em se ter maior lucidez sobre o alcance do solicitado. Implica mais discussão e mais reflexão.


 

3.                SUBPRODUTOS  SOCIAIS DO MODELO ECONÔMICO REGIONAL

O modelo econômico-social implantado na região, tendo no cacau seu produto viabilizador, solidificou uma estrutura social rígida, com forte concentração da renda e dos fatores de produção. E a cada crise, nova onda de desemprego, crescimento do subemprego e migração do meio rural para a cidade e para fora da região, como salientou o representante da  CNPC, Ronaldo Monteiro e vários sindicalistas no seminário-referência, embora por razões diferentes.

Da perspectiva social, a região não logrou superar sua condição de região subdesenvolvida sob todos os aspectos e sem exceção.

Há, portanto, um consenso de que a proliferação da pobreza na região está associada com o modelo primário-exportador assentado numa monocultura.

Esse quadro de pobreza, salientado particularmente pelos sindicalistas e reconhecido por todos que diagnosticaram o quadro social da região, resulta num possesso de urbanização deformado, com a expansão das favelas nas periferias das cidades, sobretudo em Itabuna e Ilhéus, que são carentes da infra-estrutura básica (saúde, água e saneamento básico, transportes, educação etc).

No tocante meio rural, os problemas são ainda mais graves e as populações não têm acessos aos bens e serviços considerados elementares. A distribuição de renda é muito desigual e a renda dos que habitam e vivem no meio rural, incluindo os pequenos produtores, é baixíssima.

No intuito de ilustrar o quadro social, serão explicitados dados relativos a alguns indicadores.

O índice de mortalidade infantil no meio rural dos municípios  Itabuna e Ilhéus em 1984, era de 137,3 crianças em cada 1000 nascidas vivas.

O índice de natimortalidade, dos municípios de Itabuna e Ilhéus, em 1980, era de 9,9 em cada 100 nascimentos.

A taxa de alfabetização urbana em Itabuna e Ilhéus, em 1980, era de 57,6%, enquanto que esta taxa, no meio rural, era de 29,8%.

O percentual de domicílios particulares permanentes com iluminação elétrica nos município de Itabuna e Ilhéus era de 69%, na Microrregião Homogênea Cacaueira, da Fundação IBGE, 48,1%.

O percentual de domicílios particulares permanentes com água encanada nos municípios de Ilhéus e Itabuna, em 1980, era de 57,2%, enquanto na Microrregião Homogênea Cacaueira, 38,9%.

Sem dúvidas, a realização neste ano de mais um Censo Demográfico, permitirá que se avalie os passos que foram dados no equacionamento da questão social nos últimos 11 anos. Contudo, indicadores preliminares apontam para uma deterioração da qualidade de vida dos brasileiros e, em particular, dos habitantes da região do cacau.

A problemática social do país, presente nas entrelinhas de muitos dos participantes do seminário, explicita o quanto o país e a região precisam caminhar em direção  ao “estado de bem-estar social”, para onde deve convergir o processo democrático. E na “dívida social”  está em jogo, em última analise, a “paz social”, referida pelo senador Josaphat Marinho, remete à indagação básica do deputado Waldir Pires: “o que é que queremos que seja a nossa sociedade?”, explicita o caráter “selvagem e suicida” deste capitalismo, no dizer do deputado Jabes Ribeiro.


 

4. AS ALTERNATIVAS

As alternativas de desenvolvimento podem dar-se através de duas grandes vias.

A primeira, através de uma forte vinculação com o exterior, nos moldes malasianos, na vertente agro-exportadora, cara ao palestrante José Alexandre de Souza Menezes, ou com o concurso de uma ZPE, na vertente industrial, cara ao debatedor Isac Albagli, para apontar apenas dois exemplos típicos.

A segunda, através das formas de articulação interna, mediante projetos integradores, com intensificação das trocas no interior do sistema, fortalecendo o mercado interno, como salientou o deputado Haroldo Lima.

A propósito, uma intensa articulação interna caracteriza as economias desenvolvidas, sendo as relações externas, nestas, resultantes de uma busca complementariedade.

Contrariamente, esta região, como todas as que se lhe assemelham, caracteriza-se por laços de vinculação externa mais fortes e mais intensos do que os laços de vinculação articuladora interna. O risco de desagregação, neste caso, é alto e, hoje, a região está pagando o preço desta realidade.

A propósito do fortalecimento da articulação interna, convém não desperdiçar nenhuma oportunidade, ainda que pareça pequena, pois estão em jogo a geração de empregos e a retenção de renda regional.

O objetivo deste documento-proposta, como já foi dito, não foi o de detalhar as inúmeras saídas. Nesse sentido, o seminário propiciou a explicitação de muitas. Os Anais estão aí para que qualquer um possa elencá-las. Contudo, assim como o senador Josaphat Marinho, acredita-se que “não há soluções mágicas”, fazendo-se necessário a discussão e o confronto de idéias.

Por estas razões, apresenta-se aqui os grandes encaminhamentos dos problemas com maior potencial de transformação da economia e da sociedade regional e, mesmo assim, sob a forma de grupo de trabalho. Estes desempenharão a tarefa de contribuir, de forma consistente e amadurecida, na elucidação dos problemas e no encaminhamento das possíveis soluções.

 

4.1 A NECESSIDADE DE UM ACORDO POLÍTICO PARA SUPERAR A CRISE REGIONAL

A implicação prática e política e imediata do reconhecimento dos limites desta região, que se convencionou denominar vagamente como cacaueira, mais a evidência que os problemas extrapolam o espaço restrito desta enquanto região de fato, é que se faz necessário viabilizar discussões de habito inter-regional.

Estas regiões, através de suas lideranças políticas, empresariais e sindicais, objetivariam encontrar pontos de convergência e de interação. Este esforço de aproximação assumiria a forma de um compromisso, de um acordo, constituindo-se no embrião de um novo relacionamento inter-regional, cujo objetivo seria de reunir forças e formas para enfrentar os problemas de estrutura desta e de todas as regiões limítrofes, através de mecanismos que estimulem a articulação entre essas regiões e dentro de cada uma dessas e que pode ter um ponto de partida efetivo na aproximação das lideranças e no intercâmbio de idéias, que precisará encontrar canais próprios e terá que se constituir num fluxo permanente, inclusive como estratégia de pressão política.


 

4.2 A NECESSIDADE DO ESTADO DESCENTRALIZAR A ADMINISTRAÇÃO E O PLANEJAMENTO

O reconhecimento de que o estado da Bahia constitui-se de inúmeras regiões relativamente autônomas, pouco articuladas, dotadas de suficiente infra-estrutura e dotados de peculiaridades, sugere que a intervenção do Estado respeite e considere as especificidades de cada uma e promova uma ação que maximize os potenciais de todas.

Isto supõe a existência  de um planejamento, como enfatizou o deputado Manoel Castro e outros. Acredita-se que uma administração descentralizada, que oportunize a cada uma das diferentes regiões explicitar suas necessidades, constitui-se numa estratégia inteligente, oportuna e por isso merecer a atenção do  governador, Antônio Carlos Magalhães, e particularmente do Secretário Planejamento deste Governo, Waldeck Ornelas.

Nesse sentido, torna-se oportuno que o poder público ausculte os anseios de cada uma dessas regiões e promova uma descentralização que ultrapasse o plano das intenções das tentativas anteriores, parece constitui-se numa das formas privilegiadas de realizar esta comunicação e de promover o desenvolvimento das mesmas. Aos núcleos da administração e planejamento descentralizados competirá traçar um esboço do plano de desenvolvimento regional e manter um diálogo permanente com o centro de poder político do Estado. Este planejamento, convém não perder de vista, nas palavras do senador Josapht Marinho, garante a continuidade do progresso.

Esta perspectiva ganha relevância e urgência quando se considera a extensão territorial do estado da Bahia e a distância demasiadamente grande que há entre a capital, Salvador, e os recantos de cada uma das regiões, para a maior parte dos cidadãos. Trata-se não apenas de distancia física, mas sobretudo de acesso, para poder manifestar e reivindicar em prol das comunidades.


 

4.3 O ESTADO COMO INSTRUMENTO VIABILIZADOR DA FORMAÇÃO DE CAPITAL

O capitalismo brasileiro historicamente desenvolveu-se atrelado ao Estado. A implantação de BNDE, hoje BNDES, em 1954, surgiu com a finalidade de financiar projetos industriais, localizados inicialmente no eixo dinâmico do capitalismo brasileiro: São Paulo, Rio Janeiro, Belo Horizonte. Além do BNDES, outros exemplos podem ser citados a nível regional, como é o caso da SUDENE, que foi criada para fomentar a industrialização no Nordestes, em que pese desvios de seus objetivos originais.

Hoje, a Região Cacaueira não dispões do capital necessário para promover um rearranjo na sua estrutura econômica, sem dúvidas, necessário e urgente.

Em razão disto, o Estado deverá executar um papel crucial enquanto viabilizador do processo de transformação, da arrancada à superação do atual quadro sócio-econômico.

Portanto, é vital a importância da presença do Estado como fomentador de formação de capital. Sem a intervenção do Estado não há como alavancar o desenvolvimento de áreas atrasadas ou subdesenvolvidas como é o caso da Região Cacaueira. O professor Henrique Rattner assinala três aspectos principais na formação de capital, através de concurso do Estado, em áreas com esta:

a)      Investimentos públicos diretos em equipamentos sociais básicos; objetivamente, no caso da Região Cacaueira, FESPI, Porto e outros.

b)      Estado como catalizador e parceiro de empresas privadas, de investimento nos projetos industriais e agrícolas; e

c)      Adoção e estabelecimento de incentivos monetários e fiscais para implantação de projetos novos.

Neste sentido, parecem relevantes as idéias do  Fundo a que faz referência o documento O Sul da Bahia te Solução do atual Secretário de Planejamento do Estado, Waldeck Ornelas, e outras formas de indução da atividade produtiva.

Neste esforço, a classe empresarial já instalada nesta região tem um papel muito importante a  desempenhar, formando associações de capital e investimento, atraindo novos investidores, exercendo um papel de liderança no processo de transformação da realidade, ou seja, no papel de co-viabilizadora do potencial econômico regional em renda e em empregos.

 

4.4 PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL NO PLANEJAMENTO E SUA EXECUÇÃO

É necessário que o planejamento e sua execução sejam democráticos que contemplem, nos diferentes momentos da gestação, aprovação e execução dos planejamentos, a participação dos diferentes segmentos da sociedade, que possuem interesses diferenciados e, às vezes, conflitantes. Sem esta participação, é duvidoso que a pluralidade de interesses dos grupos sociais seja considerada no planos de desenvolvimento.

A representação desses interesses pode ser buscada junto às organizações da Sociedade Civil organizada, quais sejam os sindicatos, Igreja, OAB, Associações de Imprensa, de Alunos, de Professores, de Funcionários Públicos, Grupos de Ação Comunitária e outros.

A força motriz do desenvolvimento social, econômico e político encontra-se na Sociedade Civil. É neste locus que se deve buscar as idéias  e é também para esses locus que estas devem ser levadas.

A democracia não se consolida sem a consolidação da organização dos interesses sociais, na Sociedade Civil. São, portanto, as organizações desta que devem controlar o Estado e não o inverso, como freqüentemente tem ocorrido. Para isso, faz-se necessário o fortalecimento das instituições que a compõem, que são portadoras e organizadoras dos diferentes interesses da sociedade.


 

4.5 DA “COMPANHIA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO DO SUL DA BAHIA” E VARIANTE

No documento da CNPC “Sugestões para um Programa de Desenvolvimento Agrícola e Agroindustrial para a Região Cacaueira da Bahia”, consta a proposta da criação de uma “Campanhia de Desenvolvimento”, que traz à lembrança um ICB ampliado em suas funções. Recentemente, o deputado Geraldo Simões propôs iniciativa semelhante. Esta Companhia, no entanto, parece ser de necessidade discutível.

No caso do documento da CNPC, por exemplo, são relevantes os objetivos da “Companhia” de “elevar a renda regional” via diversificação da economia e “aumentar o nível de emprego”, bem como suas funções de “elaborar projetos em todas as áreas”, “captação de recursos”, de “fomento da atividade produtiva” e de “modernizar e ampliar a infra-estrutura regional”. Parece necessário, inclusive, a existência de um “núcleo pensante” e da “formação de um banco de dados”.

A discordância não está neste nível, mas no diagnóstico de que isto pressupõe um novo órgão, “Companhia” ou “Agência” ou outra denominação que possa vir a ter. A região não precisa de mais estruturas que acabam servindo a outros interesses e consumindo parte expressiva dos recursos no âmbito administrativo-burocrático das mesma.

Parece mais razoável realizar estas funções, sem dúvida, relevantes, através das instituições públicas e privadas já existentes. Em particular da FESPI, que precisa, além de ser estadualizada, ser transformada, como se referiu o senador Josaphat Marinho no ”grande centro cultural desta região”. A FESPI precisa realizar o seu papel, sua vocação histórica. E uma forma de fortalecê-la, afora criar cursos que interessem aos estudantes, é dar-lhe condições para que possa desempenhar parte dessas funções, buscando as associações que se fizeram necessárias, quer seja com o CEPEC ou EMBRAPA quando o problema é de ordem agronômica, quer com empresas privadas e assim por diante. Estas funções dizem respeito à Universidade e a ela devem ser confiadas.


 

4.6 DO PORTO  E DO POLIDUTO

Atualmente, o Porto de Ilhéus e a construção do Poliduto da Petrobrás têm causado acirrada discussão entre aquele que defendem este último, via de regra prefeitos cujos municípios seriam supostamente beneficiados, particularmente Jequié e Itabuna,  e aqueles que questionam a oportunidade desta construção, neste momento em que este importante equipamento social do Sul da Bahia enfrenta sérias dificuldades de sobrevivência.

Inicialmente, analisando a viabilidade da construção do Poliduto em relação à necessidade de ampliação do cais múltiplo no Porto Internacional de Ilhéus, observa-se que o projeto do Poliduto não atende critérios que deveriam ser norteados para o investimento desta envergadura (pelo menos não estão explicitados).

Dentre os pontos criticáveis deste, destaca-se o custo financeiro da obra (empréstimos do exterior) em comparação com os benefícios esperados, ou seja, tal investimento não trará a curto e médio prazos a economia de transportes alegada pelos que defendem  esta construção.

O Porto Internacional de Ilhéus constitui-se numa das grandes conquistas das gerações passadas, como lembrou o Deputado Federal Waldir Pires; constitui-se num dos grandes equipamentos de que a Região Cacaueira e as outras regiões do Sul-Sudoeste do estado da Bahia possuem. É um instrumento de grande importância no processo de desenvolvimento de uma região ou de um país. Um escoadoro marítimo desempenha papel estratégico no contexto do transporte no mundo inteiro. (Temos o caso de Mina Gerais tentando uma saída para o mar, no Extremo-Sul da Bahia, e a partir dele tem uma importante abertura para o mundo. Temos a Bolívia a um século tentando resgatar uma saída para o mar).

Lembra-se que a construção do Poliduto representará a perda de mais de 50% da receita atual do porto e que vem apresentando dificuldades de manutenção dado o pequeno volume e o caráter sazonal de sua carga (cacau e derivados). Noutras palavras, está em jogo  a própria viabilidade econômica do Porto.

Diante deste quadro, parece o contra-senso, parece um irresponsabilidade comprometer a viabilidade do Porto de Ilhéus através da construção de um Poliduto, “ligando o mar com o mar”, às portas do próprio Porto de Ilhéus. E tendo por trás de tudo empresas interessadas nos recursos públicos e prefeitos sem visão de longo prazo, sem o sentido da história, sem a perspectiva de batalhadores de gerações anteriores que muito investiram na construção do mesmo.

Neste sentido, o Porto de Ilhéus não pode ser comprometido pela construção do Poliduto que a Petrobrás vem defendendo, ligando Madre de Deus, Salvador, a Itabuna, via Jequié, ou seja, ligando o mar com o mar, embora mais ou Sul, a pouco mais de 30 Km do atual Porto de Ilhéus! Importa salientar que esse Porto representa o interesse maior da Região e os interesse da Petrobrás e de outras empresas interessadas no Poliduto devem se submeter a este interesse.

Esta situação é, a um só tempo, curiosa e problemática, pois enquanto se lê o documento de Waldeck Ornelas, O Sul da Bahia Tem Solução, que se pretende ampliar o porto de Ilhéus, reativar o de Caravelas e dinamizar o de Campinhos, a região se depara com um golpe contra viabilidade do único porto que efetivamente tem e está em condições de desempenhar um papel econômico importante. Nesta conjuntura de crise, o primeiro e principal desafio será de manter os equipamentos existentes, desde que necessários ao desenvolvimento e o Porto se inclui como imprescindível nesse desafio. Nesse sentido, os portos de caravelas, no Extremo Sul, e de Campinhos, na porção Norte da Região, são projetos para o médio e longo prazos, quando a economia desta e das regiões circunvizinhas, mais o Oeste da Bahia, Norte de Minas, Goiás e Tocantins tiveram condições concretas de escoar suas produções através dos mesmos.


 

5 PROPOSTAS E SUGESTÕES

5.1 criar a nível do Governo do Estado preferencialmente na Secretaria de Planejamento, uma sub-comissão de planejamento regional. Essa sub-comissão teria a finalidade de estudar e apontar diretrizes no sentido de revitalizar a economia regional, suas instituições e ampliar e modernizar sua infra-estrutura. A subcomissão, para desenvolver seus trabalhos, interagiria de forma sincronizada e com o concurso da capacidade pensante já existente na região. Essa subcomissão não teria estrutura física própria. As instituições aqui localizadas, particularmente a FESPI, seria sua base física, já que esta é uma das formas da mesma realizar sua vocação histórica enquanto Universidade de fato. A subcomissão local seria a parte da estratégia de descentralização administrativa do Estado e se constituiria num de seus “núcleos pensantes”, num de seus núcleos de planejamento, que subsidiariam a Secretária de Planejamento e o próprio Governo.

5.2 Criar condições para formação de banco de dados regional, com sugere o documento da CNPC, com vistas, entre outra funções, a implantação de uma conta regional, que se constitui num instrumento necessário ao planejamento regional, uma vez que quantifica os fluxos de insumos e valores agregados intersetorialmente e interregionalmente.

5.3 Traçar estratégias para capacitação dos recursos humanos na região. Entende-se que o processo de desenvolvimento deve estar atrelado à formação de mão-de-obra. Esta passa necessária e particularmente pela Universidade enquanto locus  privilegiado de formação de quadros qualificados para o mercado de trabalho, mas passa também pela sociedade como um todo, destacando-se as outras Instituições Públicas, empresas e entidades da Sociedade Civil que t6Em uma quota de responsabilidade indelegável neste processo.

5.4 Viabilizar, através da vinculação do ICMS recolhido na região, o Fundo de investimentos públicos e o Fundo de diversificações econômica, no moldes sugeridos pelo Dr. Wladeck Ornelas, em seu documento O Sul da Bahia tem Solução.

5.5 Estudar medidas para a recuperação da liquidez financeira do cacau a nível de rede bancária e empresas privadas, como coloca documento da CNPC; contudo, faz-se necessário estabelecer condições e critérios para que não se desperdice recursos, via desvios, como tem acontecido neste país e na região nas últimas décadas, e não discrimine os empreendedores, aqueles que efetivamente e competentemente investem no processo produtivo, premiando aqueles que não agem como empresários engajados com sua atividade agrícola. Isto porque a Vassoura de Bruxa implica necessariamente numa mudança da concepção da atividade agrícola cacaueira e um rearranjo na forma de produzir e os produtores que não encarnarem essa perspectiva terão sérias dificuldades em se manterem enquanto produtores.

5.6 Criação de Grupo de Trabalho – GT a nível regional com capacidade de gerar projetos sócio-econômicos. Esse grupos estão estreitamente associados e subordinados a sub-comissão de planejamento regional e se encarregarão de estudar a viabilidade dos diversos aspectos do processo regional, desde a reativação dos setores econômicos das instituições estatais e da infra-estrutura física e social. Neste sentido propõe-se a criação do seguintes grupos de trabalho – GT:

5.6.1 De fomento às atividades produtivas geradoras de emprego e renda, priorizando aquelas com maiores perspectivas, através de incentivos fiscais, como redução das alíquotas de ICMS, ISS e outros até a maturação dos empreendimentos, e monetários, como linhas especiais de financiamento, provenientes dos Fundos sugeridos no documento do atual Secretário de Planejamento do Estado da Bahia Dr. Waldeck Ornelas, e outra fontes.

5.6.2 de ampliação e modernização da infra-estrutura física e social da região, que tem nas sugestões do documento do Dr. Waldeck Ornelas um bom ponto de partida. Contudo, dado que os recursos são limitados, é preciso estabelecer prioridades e um cronograma de execução das mesmas.

5.6.3 de análise do modelo institucional  mais adequado para a região, definindo os papéis e funções de cada uma das instituições. Nisto está implícito a forma de intervenção das instâncias de governo através dos seus órgãos. Salienta-se o papel que a FESPI deverá desempenhar enquanto centro universitário catalizador das grandes discussões, gestadora das grandes idéias que dinamizarão economia e sociedade regional .

5.6.4 de estudos com vistas a diversificação e a viabilização da cacauicultura. Dadas as especificidades da região em foco, faz-se necessário um estudo aprofundado para o aproveitamento do potencial agronômico e pastoril. Neste sentido, a CEPLAC, aliada a Universidade, tem importante papel a desempenhar.

5.6.5 com vistas a firmar um pacto político interregional, que pode ter como ponto de partida a formação de uma mesa-redonda e constituída por políticos e técnicos das regiões que compõem o cenário macrorregional do Sul e Sudoeste da Bahia.


 

BIBLIOGRAFIA

 

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       gre, Mercado Aberto, 1981.

2.      DINIZ, J.F. e DUARTE, A.C. A região Cacaueira da Bahia.  Difel, São Paulo, SP. 1984.

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4.      IESP. Anais do Seminário “A crise da Região Cacaueira da Bahia. Qual a saída?”, 3 e 4 de maio de 1991. Ilhéus, Bahia, 1991.

5.      MATOS, Z. et alii. Elementos de reflexão para busca de modelos alternativos de desenvolvimento regional. Apresentado no 4º Seminário Político de Ilhéus, junho de 1987.

6.      MENEZES, J.A.S. Sugestões para um programa de desenvolvimento agrícola e agroindustrial para a Região Cacaueira da Bahia. CNPC. Itabuna, Ba, 1991.

7.      ORNELAS, W. O Sul da Bahia tem solução. Câmara dos Deputados, Brasília, DF, 1990.

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10. ROCHA, G.de A. Avaliação dos projetos de (a)implementação do cais múltiplo (propano-petroleiro) no Porto Internacional de Ilhéus e (b)implantação do poliduto – ligando Terminal Madre de deus/Jequié/Itabuna. Ilhéus, ba. Maio de 1991 (Relatório).

11. SILVA, B-C. N. S. A organização espacial do estado da Bahia através do modelo potencial. In: Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, 52(2):83-88, abr./jun. 1990.

12. SILVA, S.B.de M. et alii. O subsistema urbano-regional de Ilhéus-Itabuna, Recife, SUDENE, 1987.

13. SÓCIO ESTATÍSTICA. Pesquisa DCE/APRUNI. O que pensam estudantes e professores da FESPI? Itabuna, 1991 (Relatório de pesquisa).

 


 

DOCUMENTO – PROPOSTA DO IESP

A REGIÃO CACAUEIRA DA BAHIA. QUAL A SAÍDA?

INTRODUÇÃO

1. A REGIÃO CACAUEIRA CENTRADA NOS PÓLOS ECONÔMICOS DE ILHÉUS E ITABUNA.

2. A CRISE REGIONAL

2.1 A CRISE DE SEMPRE E O FATOR DIFERENCIADOR DESTA

A CRISE ESTRUTURAL

2.2.1 ESVAZIAMENTO REGIONAL COMO REFLEXO

2.2.2 NÃO AGREGAÇÃO DE VALOR E TRANSFERÊNCIA DE RENDA

2.2.3 O PREÇO DA INSTABILIDADE E DA DESARTICULAÇÃO

2.2.4 CACAU: REALIZAÇÕES E NÃO VIABILIZAÇÃO DE UMA MATRIZ INDUSTRIAL

2.2.5 AO ELEMENTOS CONJUNTURAIS DA CRISE

2.2.6 SUBPRODUTOS  SOCIAIS DO MODELO ECONÔMICO REGIONAL

4. AS ALTERNATIVAS

4.1 A NECESSIDADE DE UM ACORDO POLÍTICO PARA SUPERAR A CRISE REGIONAL

4.2 A NECESSIDADE DO ESTADO DECENTRALIZAR A ADMINISTRAÇÃO E O PLANEJAMENTO

4.3 O ESTADO COMO INSTRUMENTO VIABILIZADOR DA FORMAÇÃO DE CAPITAL

 4.4 PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL NO PLANEJAMENTO E SUA EXECUÇÃO

 4.5 DA “COMPANHIA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO DO SUL DA BAHIA” E VARIANTE

 4.6 DO PORTO  E DO POLIDUTO

 5 PROPOSTAS E SUGESTÕES