GOVERNO, OPOSIÇÃO E 
ENTIDADES DA SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA

Agenor Gasparetto*

A sociedade brasileira filia-se às sociedades democráticas do Ocidente.  O pensamento democrático, em oposição ao pensamento único de diversos matizes, ganhou crescentes dimensões a partir, sobretudo, das idéias iluministas do Século XVIII.  No fundo, trata-se de um movimento em direção à cidadania e de valorização do ser humano. No entanto, esse processo é doloroso para muitos, uma vez que os caminhos seguidos são tortuosos e, nem sempre, as políticas dos governantes e das agências internacionais de desenvolvimento apontam essa direção. Ao contrário, muitas vezes, a impressão é a oposta. Em função de interesses corporativos e de curto prazo, não raro, são sacrificados projetos de maior envergadura e de longo prazo. 

No caso brasileiro, a República teve lugar no final do século passado. (Hoje, no limiar de um novo século, essa palavra parece pouco significar e está em processo de franco desaparecimento do vocabulário corrente da população e, quando é utilizado, via de regra, faz referência a agrupamento de jovens estudantes em uma unidade habitacional).  Durante este século que finda, tivemos dois golpes ou rupturas do processo democrático, em 30 e em 64, em cada um deles houve momentos internos de radicalização e de abrandamento, destacando-se, 32, 37 e 46 no primeiro  e 67 e Governos Geisel e Figueiredo, no segundo. Tivemos um presidente impedido de continuar no poder no meio de seu mandato, Fernando Color de Melo, e hoje um presidente, em seu segundo mandato consecutivo, cada vez mais acuado por sinalizações de que a res publica não está tendo o adequado tratamento. Mesmo assim, trata-se de um governo eleito, assim como todos os governadores e prefeitos, muitos, hoje, numa desesperada busca da reeleição.

Num sistema republicano e democrático, aqui tomados como sinônimos, os poderes são autônomos e o poder está, como queriam os gregos da Atenas de alguns séculos antes de Cristo, no centro da roda, sem dono, em que a Lei fosse a referência maior a qual todos estariam subordinados, incondicionalmente.  Ora, num sistema com essas características, de longe, o melhor, ainda que seja aparentemente o mais frágil e delicado, Executivo, Legislativo e Judiciário constituem instâncias autônomas, convivendo em respeito mútuo e tendo como referencial a Lei maior. Nesse contexto, Governo e Oposição são duas dimensões de uma mesma realidade. O segundo exerce a função crítica ao primeiro, instando-o a andar, o máximo possível,  na linha.  O primeiro, ofuscado pelo fascínio do poder, não raro, perde de vista os limites do razoável, desviando-se do rumo. Aqui, o segundo existe para sinalizar esse rumo, e assim precisa ser. No fundo, a saúde do sistema democrático está na capacidade e na maturidade de os que compõem Governo e Oposição entenderem que são essenciais e que suas existências condicionam-se, e que a perspectiva de alternância no exercício do poder é real e não uma ficção, ainda que ninguém costume entregar poder, embora seus atos e as circunstâncias façam com que o perca. 

Esse sistema, todavia, precisa mais do que isso. Precisa que a imprensa seja livre. Precisa que os órgãos sindicais, de classe, empresariais e de profissionais sejam, não extensões do Governo ou da Oposição. Precisa que cada organismo vivo da sociedade civil organizada seja expressão de sua comunidade interna e de seus interesses específicos e não tenha, implícita ou explicitamente, uma postura de sujeição incondicional a qualquer Governo ou à sua Oposição, o que daria no mesmo. Na prática, isso é muito difícil,  porque a pressão externa e a tentação de alinhamento são muito grandes. No entanto, quanto mais esses organismos da sociedade civil sucumbirem ou se acomodarem a essa posição, mais perdem em legitimidade interna e externa e mais auto-esvaziam-se em sua perda de identidade e desfocalização, em relação à sua missão. A posição do alinhamento puro e simples é cômoda, mas vai progressivamente deslegitimando o organismo, enquanto componente vivo e pulsante da sociedade, enfraquecendo-o. No fundo, aqui reside um desafio para a vitalidade e longevidade dos organismos da sociedade civil organizada.

Alexis de Tocqueville, em suas andanças nas então recém independentizadas 13 Colônias da América, hoje Estados Unidos, ficou muito impressionado com o dinamismo da sociedade civil americana daquele período e apostou ser essa uma tendência da modernidade, marcada por um movimento em direção a uma maior igualdade entre as pessoas e de participação dessas na vida das comunidades e do país.

Nos últimos anos, proliferaram, e muito, as organizações e associações civis das mais diversas ordens e finalidades, genericamente denominadas de ONGs.  Observa-se que essas se multiplicaram e estão se afirmando num ambiente já povoado de instituições da sociedade civil organizada. Esse é um fenômeno que extrapola as fronteiras nacionais e, em graus variados, tem âmbito mundial.

Uma primeira leitura possível e plausível desse fenômeno é que, nos tempos de hoje, novos problemas ganharam relevo e suscitaram o surgimento de novos organismos sociais. Todavia, esse fenômeno pode ser interpretado como uma sinalização da incapacidade dos Governos e das organizações existentes, como sindicatos, associações empresariais, profissionais, sociais e comunitárias, ou seja, esses e essas não estão conseguindo sensibilizar e motivar a participação de novos sujeitos sociais, ou não estão respondendo de forma adequada aos novos problemas. E, diante desse quadro marcado por uma insuficiente  capacidade para preencher os anseios e as expectativas, esses novos sujeitos criam organismos sociais alternativos. Nesse sentido, a multiplicação de novos organismos civis na sociedade é uma característica desejada e previsível em uma sociedade democrática e plural e, ao mesmo tempo, testemunham contra a incapacidade prática  dos organismos tradicionais em responder às demandas. Esses, seguramente, precisam se redefinir, buscando seu espaço no universo das instituições  de suas comunidades.

Uma possível explicação para essa situação é que, via de regra, falta aos organismos sociais  tradicionais suficiente autonomia  ou falta um suficiente distanciamento e posicionamento crítico frente aos poderes constituídos, tendo como parâmetro a sua missão institucional.  Sendo frágil essa dimensão, acaba prevalecendo a posição de adesismo e apoio incondicional, ainda que nem sempre buscado. E, não passando para a sociedade englobante  a condição de organismos autônomos, esses têm sua legitimidade corroída e suscitam desmotivação e descrença.

Isso não significa que passem à condição de oposição sistemática, o que seria repetir o mesmo erro, mas no outro extremo. Trata-se, apenas, de  fazer prevalecer a posição de autonomia e de liberdade, para publicamente apoiar e publicamente criticar medidas que favoreçam ou prejudiquem os interesses da comunidade interna, de que são expressão e cujos interesses representam. Isso significa, obviamente, que haverá conflitos e contradições, pois é da natureza de uma sociedade democrática a sua existência. Será preciso, contudo, em cada situação, discernir e decidir,  buscando o equilíbrio entre o interesse específico que cada organismo representa e o interesse do conjunto da sociedade.

O ponto de partida para a superação dessas situações será a missão de cada organismo e a definição dos seus valores e princípios. Dentre esses, parece ser crucial a preservação da capacidade crítica e da autonomia frente a quaisquer outras instâncias de poder existentes, governamentais ou não. Um outro parece ser  a busca por uma sociedade com maior igualdade entre as pessoas da comunidade. Nesse ponto, foi de grande lucidez a frase do discurso do empresário Mauro Knijnik  na cerimônia de posse do novo presidente da Federação das Associações Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul) e da Associação Comercial de Porto Alegre (ACPA), há poucos dias: “crescimento que não aumente o nível de igualdade entre indivíduos é burla que só agrava os problemas, em vez de resolvê-los” (Panorama Político, A. Burd, http://www.correiodopovo.com.br 26/07/00). Esse posicionamento sendo de um empresário de uma importante organização empresarial parece muito reveladora e promissora.  Nessa mesma linha política, seu sucessor, Humberto Ruga, na mesma oportunidade disse, retomando frase do escritor francês Vitor Hugo, que “uma sociedade de carneiros acaba por gerar um governo de lobos” (Observador, Affonso Ritter, http://www.jornaldocomércio.com.br 26/07/00).

Para que tenhamos uma sociedade de cidadãos e não de lobos e carneiros, é crucial que a sociedade civil organizada viva e construa sua identidade com autonomia e cumpra sua missão institucional, levando em conta os anseios e as expectativas também dos que não têm futuro, mas que compõem nossa comunidade. Nesse sentido, as lideranças empresariais têm uma enorme responsabilidade social, contribuindo, inclusive, para que os governos honrem seus compromissos com o futuro e este passa necessariamente pela promoção cultural, via educação, não apenas de alguns, mas de toda a sociedade, pois não há solução pela metade ou excludente. Usando a imagem de que estamos numa mesma nave ou num mesmo barco, todos estamos juntos, ainda que pela posição relativa em que neles possamos nos situar, possamos nos iludir, imaginando que a sorte dos que estão nas cabines não será a mesma dos que estão nos porões.

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*Sociólogo

27 de julho de 2000.