Belas e tristes fazendas de cacau do Sul da Bahia[1]

  
As matas sob as quais vingou o cacau no Sul da Bahia são de uma rara beleza. A Mata Atlântica apresenta nestas terras férteis, quentes e úmidas uma exuberância e um colorido difíceis de encontrar em outros lugares. As fazendas de cacau são belas e a natureza foi generosa e caprichosa neste pedaço de chão. Todavia, são belas e tristes. Os seus donos moram na cidade. Se grandes, numa grande cidade, talvez na capital. Os trabalhadores, que têm visgo nos pés,  teimam em olhar para suas luzes da rua1 e em ouvir seu murmúrio, por menor que seja, e, havendo possibilidade, não hesitam em colocar mulher e filhos em uma de suas ruelas, mesmo nas últimas, e ficam embrenhados nas matas de cacau a semana inteira, à sombra das árvores, da solidão e do abandono.

 A casa-sede,  com suas  barcaças e secador contrasta com as casas dos trabalhadores dispostas em avenida. Hoje,  há sinais de abandono por todos os cantos e muitas casas de trabalhadores estão vazias, há anos. A ida do dono, de sua mulher, de seus filhos à fazenda escasseia e fica cada vez mais apressada e mais solitária. Mulher e filhos comparecem pouco nos finais de semana e o fazem cada vez menos. As noites parecem belas, mas a idéia de dormir assombra. Na varanda os ganchos sinalizam para a rede.  Não fosse o medo, seria possível ouvir estrelas. Varanda, rede, na rede da varanda. E pensar que era tão poético!  Não fosse essa síndrome das cavernas, das grades, em tempos de virtualidade! A lavoura espelha a casa-sede e seu conjunto.  Correr a fazenda1  perdeu o encanto.  Alguns a visitam de mês em mês e há quem o faça de ano em ano como se estivesse a correr dela.

 Hoje,  um sentimento de profunda melancolia perpassa os corações. Bons tempos em que a burara2 rendia, a mesa era farta e a vida, pródiga e mais segura. E com os anos também se esvai a esperança. O retorno aos bons tempos parece cada vez mais distante e, para muitos, acabou, simplesmente. Não bastassem os preços baixos, teimosos, aí está a bruxa com sua vassoura3 a varrer para longe as melhores esperanças.  Os clones ou enxertia com variedades resistentes parecem manter essa bruxa sob controle, parecem promissores, mas é preciso cacau ou crédito para implementá-los. O primeiro de tão pouco e insuficiente parece nem existir, e o outro é de engenharia cartorial tão complexa, que o seu caminho das pedras parece  reservado apenas aos iniciados.  

  Belas e tristes fazendas de cacau. Dizem que tristes sempre foram. Falta-lhes a presença do dono, de sua mulher, de seus filhos, dos seus amigos, grandes e pequenos, colorindo e avivando a vida no dia a dia, a semana inteira. Falta-lhes calor humano, alegria. Hoje, contudo, estão mais tristes. Os que nela estão, aprisionados pelo visgo, parecem  também  querer estar em outro lugar, mas o visgo é muito poderoso e o ar que sabem respirar é apenas o deste lugar.

 Belas e tristes fazendas de cacau. É possível que quando olhar de novo sejam apenas lembranças tristes, trocadas por palmos de capim ralo, por pés de café, por terra lavada, levada  para rios agonizantes, por nada. 

 


[1] Agenor Gasparetto, novembro de 2000.

1 Rua, na linguagem popular no Sul da Bahia significa cidade. Pode significar, também, comércio. Nesse sentido, ir à rua é ir à cidade ou ao seu comércio.



1 Correr a fazenda eqüivale a ver a fazenda, a pé ou a cavalo, consumindo nessa tarefa um ou dois dias.

2 Nome dado às fazendas de cacau, sobretudo as menores.

3 Vassoura de bruxa, nome popular da principal doença do cacaueiro no Sul da Bahia