Uma interpretação da virada eleitoral na Bahia;
A força dos indecisos

 

Por Agenor Gasparetto, sociólogo

 Cada eleição é única, singular. Não há um padrão para eleições, como não há um padrão para a história de uma comunidade ou para a biografia de um indivíduo. Tudo é singular, único. A explicação que vale para o Rio Grande do Sul não vale para Minas e essa também não vale para a Bahia ou para o Ceará. Em cada caso, é preciso buscar os elementos e circunstâncias que, no contexto específico, tem maior poder explicativo.

 Nesta eleição de 2006, a Bahia parece que surpreendeu a muitos. Contudo, será que surpreendeu ao eleitor baiano?  Aqui, tentar-se-á apresentar uma hipótese que pretende tornar um pouco mais claro o que sucedeu nesta eleição para o governo da Bahia.

 A explicação tem como âncora principal um fato relevante e, ao mesmo tempo, estranho nesta eleição: o alto percentual de indecisos e/ou indiferentes, mesmo a pouco mais de uma semana da eleição, com exceção da eleição para Presidente. Para os demais cargos em disputa, a chave explicativa do que aconteceu parece estar  no alto contingente de indecisos. E eles decidiram. A propósito, ver tabelas em anexo. Em Itabuna e Ilhéus, por exemplo, a pouco mais de uma semana da eleição, o percentual situava-se próximo dos 20%. O esperado, naquele período da campanha eleitoral, é que o patamar estivesse em um dígito, como a eleição presidencial apresentava.

 Diante disso, a questão inquietante incidia na interpretação desse fato. Esse alto percentual tornava imprevisível qualquer prognóstico. Prenunciava potencial surpresa.  

Se o contingente de indecisos estava alto próximo da eleição o era muito mais semanas antes. Até o final de agosto, porém, mesmo com esse dado, não havia nenhum sinal de mudança do quadro eleitoral. Paulo Souto parecia imbatível. O que dava mais consistência a essa intuição é como o eleitor avaliava a sua administração. Em meu entendimento, esse é um marco estrutural em uma disputa eleitoral. Nesse quesito, o governo Paulo Souto estava com avaliação tendendo ao positivo. Esse fato parecia cimentar um quadro de estabilidade eleitoral, posicionando-o bem na disputa. Não que não tivessem sido observados, para prefeito municipal, por exemplo, casos de prefeitos com administração bem avaliada e mesmo assim derrotados. Ter uma boa avaliação é uma condição necessária, mas não suficiente para se reeleger. No entanto, na Bahia, não parecia ser esse o quadro até o final de agosto.

 Contudo, nos primeiros dias de setembro, ocorreu o primeiro sinal de que a situação começava a ganhar instabilidade, que o projeto da reeleição começava a dar sinais de que poderia ruir, como acabou ruindo efetivamente na reta de chegada, quando os indecisos migraram, em parte expressiva, para o candidato oposicionista. Como revelou eleição anterior para prefeito, o eleitor que vota governo se manifesta claramente. Quem não vota governista, seguramente por razões de estratégia pessoal, particularmente em eleições municipais, em que a sombra do poder parece pairar sobre a cabeça dos munícipes.

 O primeiro sinal de instabilidade eleitoral, que se traduziu na primeira captação da aderência Wagner/Lula, sinalizando a onda que mudou a história desta eleição,  deu-se em um município do Extremo-Sul da Bahia.  A menos de 15 dias da eleição, esse fenômeno foi observado em um segundo município, já na região polarizada por Ilhéus e Itabuna. Esse segundo caso sinalizava de que poderiam existir outros mais. Nesses dois municípios pesquisados, o quadro inverteu-se totalmente. Wagner com aproximadamente 42% e Paulo Souto, com pouco menos de 30%. Mesmo nesses dois municípios, com o quadro já invertido, continuava alto o percentual de indecisos, exceto para presidente. Nos demais municípios em que foi possível fazer aferição, a situação mantinha-se com Paulo Souto liderando, com aproximadamente 42% contra 31% de Wagner e isto se manteve até aproximadamente pouco mais de uma semana da eleição. Em praticamente todos eles, mantinha-se como uma nuvem carregada, no horizonte, o percentual relativamente alto de indecisos. E esse era o dado que conspirava silenciosamente contra Paulo Souto, atual governador. Esse dado era o enigma, portador da resposta das urnas.

 O percentual de indecisos estranhamente alto, dada a proximidade da eleição, suscitava inquietações, gerava insegurança na análise. Como decifrá-lo? O aprendizado da eleição anterior para prefeito foi de que quando isso acontece, é mau presságio para o detentor do poder. Desde o primeiro sinal de virada, portanto, a questão consistia em saber se se estava diante de casos isolados ou, na iminência de uma virada. Deu a virada, com a onda Lula/Wagner.

 Naquela conjuntura, dois fatos recomendavam cautela na interpretação dos sinais de instabilização do quadro eleitoral, pelo menos no meu caso particular: não dispor de pesquisas mais amplas, estaduais. As evidências poderiam ser casos isolados. As pesquisas realizadas situavam-se próximas de Itabuna e Ilhéus. O segundo fator deveu-se a que, até então, a avaliação do governo Paulo Souto tendia ao positivo. Isto sugeria que o desfecho poderia ser diferente ao que sucedeu aos prefeitos que, às vésperas da eleição, se depararam com o enigma representado por um alto percentual de indecisos ou indiferentes. Na eleição para prefeito, na reta de chegada, os eleitores não se distribuíram proporcionalmente à cota que cada postulante possuía, mas migraram em massa para a candidatura que melhor encarnava ama alternativa ao prefeito. No presente caso, Paulo Souto conseguiria reter ou retardar ao máximo uma onda iminente que poderia não apenas levar ao Segundo Turno, mas decidir contra ele já no Primeiro, uma vez que só havia duas candidaturas viáveis na disputa?

 Nesse contexto específico, a imagem de vencedor, com ampla vantagem, revelada por pesquisas, pela mídia e pela propaganda eleitoral, mostrando-a exaustivamente poderia contribuir para sustentar uma situação que estava sendo corroída rápida e silenciosamente. Os resultados, porém, mostraram que a onda foi avassaladora. Wagner conseguiu aderir à sua candidatura à imagem de Lula e venceu já no Primeiro Turno.

 No entanto, havia uma outra possibilidade teórica. O desfecho não foi uma necessidade lógica do efeito Lula e a referida aderência a ele de Wagner. O desfecho resultou de um conjunto de circunstâncias. Essa outra perspectiva de desfecho reforça a intuição do papel estratégico representado pela administração, que é, seguramente, o pano de fundo da discussão do problema da reeleição de governantes.

 Em municípios em que os prefeitos, governistas, apresentavam um bom desempenho, a situação não foi afetada pela onda Lula. Wagner e João Durval, vitoriosos na Bahia e em grande parte dos seus 417 municípios, não conseguiram se impor nesses municípios, como Itajuípe e Firmino Alves, por exemplo. Contudo, onde a avaliação da administração local tendia ao negativo, a onda Lula/Wagner foi arrasadora. Infere-se que somente municípios com administrações locais com avaliação tendendo fortemente ao positivo não foram surpreendidos pela mudança dos ventos eleitorais. A mudança precisou de terreno fértil e não há melhor terreno do que eleitores que percebem que seus prefeitos amam mais a si mesmos e aos seus do que ao bem comum e ao conjunto da comunidade de que são parte. Em municípios em que há uma boa sintonia entre governantes e população, os candidatos a deputado, mesmo estranhos à terra, colheram generosamente e colheu também com fartura o candidato a senador apoiado por esses prefeitos. As tabelas abaixo ilustram esse fato.  Portanto, olhando bem de perto os dados, a decisão passa sempre pelo filtro local.  E ainda não consegui encontrar melhor interpretação para a perda do poder do que aquela que Aléxis de Tocqueville deu, no distante ano de 1848, analisando os meandros do poder e seu exercício na sua França revolucionária da primeira metade do Século XIX e final do anterior.

 A seguir, como anexo, tabelas com dados de avaliações de governos e de desempenho nas urnas.

 Avaliações de administrações pelo itabunense, 15 a 18 de setembro de 2006. 1384 eleitores ouvidos.

Avaliações de administrações

Avaliação Positiva

Avaliação Negativa

Governo Lula

44,4

24,6

Governo Paulo Souto

41,1

13,4

Governo Fernando Gomes

28,7

36,1

 Por avaliação positiva entende-se o somatório dos conceitos “ótimo” e “bom”. Por avaliação negativa, conceitos “ruim” e “péssimo”. O conceito “regular” é um conceito ambíguo. Pretendendo-se agregá-lo a um dos dois pólos, deve ser agregado, sem titubeios, ao negativo. 

 Indecisos ou indiferentes em Itabuna, 15 a 18 de setembro de 2006. 1384 eleitores ouvidos.

Cargos em disputa

Indecisos/indiferentes
pesquisa espontânea

Indecisos/indiferentes
pesquisa estimulada

Presidente

44,2

8,7

Governador

62,4

17,3

Senador

76,1

27,8

Deputado federal

70,1

25,3

Deputado estadual

70,3

27,9

 Observa-se que, também em Itabuna, a pouco menos de duas semanas da eleição, exceção da eleição para Presidente, o percentual de indecisos é relativamente alto.

 Avaliações de administrações pelo ilheense, 21 a 23 de setembro de 2006. 1181 eleitores ouvidos.

Avaliações de administrações

Avaliação Positiva

Avaliação Negativa

Governo Lula

50,9

16,8

Governo Paulo Souto

34,1

16,9

Governo Valderico Reis

12,9

62,1

 Indecisos ou indiferentes em Ilhéus, 21 a 23 de setembro de 2006. 1181 eleitores ouvidos.

Cargos em disputa

Indecisos/indiferentes
pesquisa espontânea

Indecisos/indiferentes
pesquisa estimulada

Presidente

37,8

9,8

Governador

67,7

21,6

Senador

84,6

33,2

Deputado federal

79,3

26,3

Deputado estadual

65,9

18,0

 

Observa-se que, em Ilhéus, a pouco mais de uma semana da eleição, com exceção da eleição para Presidente, o percentual de indecisos é relativamente alto.

 Votos válidos dados aos candidatos apoiados pelo prefeito Valderico Reis, Ilhéus. 1º de outubro de 2006.

Votos válidos dados aos candidatos apoiados

% dos apoiados

% dos principais opositores

Presidência

Alckmin: 24,86

Lula: 63,55

Governo do Estado

Paulo Souto: 35,69

Wagner: 58,93

Senado Federal

Tourinho: 30,57

João Durval: 46,97

Deputado federal

ACM Neto: 8,24

Veloso: 19,49
Cacá Colchões: 19,90

Deputado estadual

 Luciana Reis: 11,90

Ângela: 18,22

Dr. Ruy: 16,31
Jabes Ribeiro: 16,49

Fonte: TSE

 

Luciana Reis, filha do prefeito, nesta campanha eleitoral, fez dobradinha com ACM Neto.

 Votos válidos dados ao candidato apoiado pelo prefeito Fernando Gomes,  Itabuna. 1º de outubro de 2006.

Votos válidos dados aos candidatos apoiados

% dos apoiados

% dos principais opositores

Presidência

Alckmin: 44,61

Lula: 47,16

Governo do Estado

Paulo Souto: 49,34

Wagner: 47,38

Senado Federal

Tourinho: 39,43

João Durval: 41,45

Deputado federal

Paulo Magalhães: 2,97

Félix Mendonça: 7,33

ACM Neto: 9,52 (não apoiado diretamente)

Geraldo Simões: 34,03

Edson Dantas: 9,24

Deputado estadual

 Marcos Gomes: 11,78

 

Capitão Fábio: 14,20

Renato Costa: 9,04

Luís sena: 10,71

 

Marcos Gomes, filho do prefeito, nesta campanha, fez dobradinha com Paulo Magalhães e Félix Mendonça. ACM Neto, aparentemente, não teve apoio de liderança política. Seguramente, em seu percentual contribuiu o prestígio local de seu avô.

 Votos válidos dados ao candidato apoiado pelo prefeito Marcos Dantas, de Itajuípe. 1º de outubro de 2006.

Votos válidos 

% dos apoiados

Presidência*

Alckmin: 37,82

Governo do Estado

Paulo Souto: 60,15

Senado Federal

Tourinho: 61,20

Deputado federal

Cláudio Cajado: 49,72

Deputado estadual

Heraldo Rocha: 37,56

*Lula: 55,89%; Jacques Wagner: 37,47%.

Fonte: TSE

 

Voto válidos dados ao candidato apoiado pelo prefeito Padre Agnaldo, de Firmino Alves. 1º de outubro de 2006.

Votos válidos 

% dos apoiados

Presidência*

Alckmin: 67,63

Governo do Estado

Paulo Souto: 86,54

Senado Federal

Tourinho: 87,53

Deputado federal

ACM Neto: 56,22

Deputado estadual

José Nunes: 58,40

*Lula: 67,63%. Jacques Wagner: 18%.

Fonte: TSE

 

Nesses dois municípios, por exemplo, a onda Lula/Wagner potencial seria imensa. Contudo, não se realizou. A principal explicação reside na tabela abaixo.

 Avaliações de administrações pelo itajuipense (16 e 17 de setembro, 426 eleitores ouvidos)  e firminoalvense (16 de setembro, 408 eleitores ouvidos). 2006. 

Avaliações de administrações

Itajuípe

Av. Positiva

Itajuípe

Av. Negativa

Firmino Alves

Av. Positiva

Firmino Alves

Av. Negativa

Governo Lula

57,8

14,8

65,4

4,2

Governo Paulo Souto

51,2

8,7

61,2

3,2

Governo Marcos Dantas / Pe. Agnaldo (Firmino Alves)

79,7

6,1

88,4

2,4

 Os cidadãos/eleitores desses dois pequenos municípios estão de bem com seus prefeitos. O olhar para o passado também os tem ajudado, além do desempenho e do padrão de integridade moral que vem apresentando no trato da coisa pública.

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Itabuna, 4 de outubro de 2006.