Redução do número de vereadores: equívoco em duas dimensões

 Agenor Gasparetto*

             É quase Natal outra vez. É é quase Ano Novo. E estamos próximos da posse dos prefeitos eleitos e reeleitos, bem como dos vereadores. Enquanto o tempo dessas posses se aproxima, faço algumas reflexões que inquietam.

 O Supremo Tribunal Federal, com base no Artigo 26 da Constituição Federal, reduziu em mais de cinco mil as vagas de vereadores nas câmaras municipais de todo o país. A última eleição, outubro de 2004, confirmou essa redução. O principal argumento para esse corte parece ter sido o da economia de recursos.

         Essa redução é uma questão polêmica, foi contestada, sobretudo pelos vereadores, mas aconteceu. Ao meu ver, por razões não necessariamente coincidentes com a dos vereadores, essa decisão se constitui em um equívoco em pelo menos duas dimensões: na perspectiva da economia e na perspectiva da democracia. Penso que não haverá economia e contribui para empobrecer o caráter democrático de nossas comunidades. Nesse sentido, foi uma decisão triste.

         Da perspectiva econômica, quem conhece a voracidade de políticos por recursos, para se eleger e para manter suas bases eleitorais, não tardará em descobrir que é pouco provável que haja economia de recursos. E se o repasse às câmaras municipais diminuir, não necessariamente estará assegurado uma melhor utilização dos mesmos por parte dos gestores. No entanto, o mais provável é que não haja essa redução do repasse, mas uma redistribuição desses recursos entre os que foram eleitos. Isto significa  que seu passe enquanto vereador está agora mais valorizado e terão mais poder de barganha junto aos prefeitos. As negociações vão custar provavelmente mais. Com a redução do número de vereadores, portanto, houve uma valorização de seu poder individual de barganha. O vereador que assumirá em janeiro terá muito mais poder e, seguramente, saberá utilizar esse poder nas aprovações de projetos do executivo e do próprio legislativo. Sendo assim, os municípios e suas comunidades terão pouco a festejar desse episódio. Não será surpresa se, num futuro não distante, estudos mostrem a deseconomia dessa redução ainda que, em seu nascedouro, estivesse ancorada em uma intenção de economia.   

Da perspectiva da democracia, a redução parece uma decisão pouco feliz. O grande problema de hoje, politicamente, é oportunizar canais viáveis de representação política, já que a participação direta, nos molde da democracia ateniense, ou da utopia assembleísta de Rousseau, por exemplo, estão cada vez mais distantes do cidadão comum, sobretudo nas grandes cidades. É por essa razão que o Orçamento Participativo, por exemplo, quando consegue ultrapassar a dimensão de farsa, se constitui em uma grande esperança para as comunidades. As decisões precisam aproximar o cidadão das decisões políticas que lhe afetam a vida e dos que decidem.  E o que aconteceu com a redução do número de vereadores? Afastou-se ainda mais o povo, o eleitor, o cidadão, dos eleitos. A representação política, que já era frágil (a começar por episódios de mudanças impunes de posições mesmo antes de assumir mandatos, no mais deslavado desrespeito ao voto recebido, à inteligência e à dignidade), ficou ainda mais frágil. Sendo assim, da perspectiva do fortalecimento da democracia e da sociedade, o razoável seria uma decisão em sentido inverso, ou seja, um aumento do número de vereadores. Portanto, também nessa dimensão parecem escassas as razões para comemorar.

             A questão ou dilema que se coloca é como ampliar e aprofundar a democracia sem onerar os cofres públicos. No plano municipal, a equação não passa pela redução do número de vereadores pelas razões acima expostas: ineficácia do ponto de vista de uma economia de recursos e, sobretudo, pela fragilização e empobrecimento da democracia representativa.  

A solução para esse dilema parece ser livrar o mandato de vereador do caráter cada vez mais mercantil que vem ganhando, o que a redução do número de vereadores aponta em sentido contrário e o reforça ainda mais. A forma de fazer isso é desvincular o exercício de vereador de salários, tornando gratuita essa participação, como já o foi em outros tempos. A propósito, a qualidade dos ocupantes das câmaras não melhorou com a remuneração, ao contrário, afastou cidadãos que podem e querem contribuir com sua comunidade, mas não suportam a idéia (e muito menos a prática) de conquistar uma vaga em condições cada vez mais mercantis, em que o eleitor, utilizando expressão de político regional, “faz do voto sua peixeira” contra o pretendente político e trata de obter vantagens ou compensações, sob a forma de bens, de recursos ou de promessas de cargos entre outras, dependendo do seu nível sócio-econômico.    

Trata-se de uma solução muito simples, ainda que de difícil aplicação, em função da mercantilização da prática política, agora também reforçada. Afirmar que a gratuidade excluiria os mais pobres, os que não podem viver sem uma fonte de renda, não procede. Esse argumento é, em grande medida, falacioso uma vez que o acesso, por exigir cada vez mais recursos financeiros e materiais, faz muito tempo excluiu esse pobre. Sociologicamente, nem de longe os eleitos são uma média da população, assim como não o são os componentes das assembléias estaduais e da Câmara e do Senado Federais.  

Obviamente, como já ocorreu na democracia ateniense, é preciso encontrar uma solução para assegurar condições de participação mínima de representantes pobres eleitos, mediante uma ajuda simbólica. Isto porque, exceto em cidades de porte médio e grande, ninguém precisa abrir mão de sua vida e ocupações para participar de uma ou mais sessões, quase sempre à noite, nas câmaras municipais. Essa ajuda para assegurar essa participação, comparado ao que custam hoje, seria simbólica. Para as cidades de porte médio e grande, parece oportuno encontrar soluções intermediárias, particularmente as cidades que possibilitam um 2º turno.  

Assegurado o caráter de gratuidade do exercício de vereador, resolvendo desta forma  o problema da economia, a questão passa a ser o número de vereadores.  Dado que democracia é participação, número é importante.Nesse sentido, o numero atual pode e deve ser multiplicado várias vezes, assegurando, por exemplo, que cada unidade geográfica ou cada distrito eleitoral municipal (bairro, agregação de bairros, povoados ou distritos rurais, por exemplo), tenham um representante a cada conjunto de eleitores, devendo variar esse montante em função do tamanho populacional de cada município. A lei poderia estabelecer limites mínimos e máximos segundo categorias de grandeza populacional de cada município e cada comunidade decidiria sobre sua representação política. Com isso, sem comprometer o princípio da economia de recursos financeiros, estaríamos solidificando e alargando as bases da nossa democracia.  Do contrário, apesar das boas intenções,colheremos os frutos amargos da elitização e da mercantilização e seremos testemunhas do paradoxo de situações de população pobre e ocupantes de cargos políticos com trajetórias econômicas ofuscantes. A remuneração do cargo de vereador não é uma necessidade lógica da democracia, é resultante de uma decisão política que pode ser mudada.  A julgar pelos efeitos da mercantilização crescente do voto sobre os que pretendem disputar uma vaga e sobre os que votam, tornar gratuito o mandato para vereador, eliminando o pagamento de salários,  não será um retrocesso, mas o descarte oportuno de um entulho. 

* Sociólogo, editor  da Via Litterarum

 Itabuna, 21 de dezembro de 2004.