O VALOR (CADA VEZ MENOR) DO SEU VOTO

Hoje, inicia o Horário Eleitoral Gratuito na rádio e na televisão. No entanto, ontem foi um dia singular para a vida política do país. O presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu, um a um, os quatro principais candidatos ao cargo de Presidente da República: Lula, Ciro, Serra e Garotinho. A intenção declarada foi a de acalmar o  irriquieto mercado financeiro. Esse gesto singular, que pode ser interpretado como um  sinal de maturidade da democracia brasileira, pretende lograr uma trégua  e, com ela, as eleições acontecerem e o atual presidente descer a rampa do Palácio do Planalto com um máximo de altivez, dado que é grande seu desgaste após quase oito anos de poder.
 Em última análise, esse gesto, de alguma forma, sela um compromisso dos principais candidatos  com a política que vem sendo defendida e conduzida no país por Pedro Malan e Armínio Fraga, respaldadas e exigidas pelo FMI e outras organizações financeiras de âmbito mundial. Essas políticas, conhecidas como neoliberais, podem ser resumidas nos seguintes propósitos: estabilização de preços e das contas nacionais; privatização das empresas estatais; liberalização do comércio e do fluxo de capitais; austeridade fiscal e restrições aos gastos públicos; flexibilização das leis e potencialização do desenvolvimento das empresas privadas.
Na presente campanha eleitoral, talvez como nunca antes, é freqüente o pronunciamento de autoridades externas, ligadas ao mundo financeiro,  com implicações sobre as eleições presidenciais no país. Essa, por assim dizer, interferência nos assuntos internos, é um revelador da nossa condição enquanto país. Até há poucos dias atrás, era comum se ouvir racionalizações do tipo: o dólar e o risco-brasil sobem porque Lula lidera nas pesquisas. Lula caiu e o dólar, no entanto, continuou a sua escalada. A equipe econômica celebrou um grande acordo com o FMI, (30 bilhões de dólares) para calçar a economia, mas, surpreendentemente, o dólar e o risco-brasil não voltaram aos patamares anteriores e, após um pequeno recuo, parecem  que retomaram sua escalada. Ciro desbanca Serra da segunda posição, distanciando-se expressivamente, polarizando com Lula essas eleições, que tendem a plebiscitização, antecipando para o primeiro turno o que seria função do segundo, e, mesmo assim, o dólar e o risco-brasil continuam suas marchas inexoráveis em períodos mais longos, embora com avanços e recuos de um dia para o outro.
O fato é que independentemente dos resultados das pesquisas eleitorais e do que elas revelam, as coisas seguem seu curso, implacáveis, ainda que com avanços e recuos pontuais, mas que no final apontam para o dólar cada vez mais valorizado e o risco-brasil em patamares capazes de causar vertigens em qualquer autoridade econômica.
Nesse macro-ambiente,  Fernando Henrique Cardoso parece estar condenado a terminar seu segundo e turbulento mandato, impotente e perplexo face aos caprichos da outrora denominada “exuberância irracional” e, mais recentemente, “infeção gananciosa”, que assim como no período pré e pós-eleição, em que se reelegeu, foi característica marcante e tem se manifestado com maior intensidade e maior voracidade em finais de mandato e/ou coincidentemente em períodos eleitorais.
O problema real, no sentido exato da palavra, parece se situar no grau de endividamento e de dependência do país, que chegaram a níveis tais que o tornam  extremamente vulnerável às ventanias do mercado globalizado. Provavelmente, serão essas que deverão fechar as portas desse final de Governo, já classificado por um dos candidatos, como “melancólico”, e seu candidato ser comparado, por um senador ressentido com o atual governo, a uma “cerca velha”.
A situação do país, extremamente endividado e dependente, nesse contexto de globalização,  reduz muito o poder  dos governantes eleitos de definir políticas nacionais e locais. O comando e as decisões parecem se dar cada vez mais em outros centros e tomadas por outros personagens, que não o nosso atual presidente. Nem o que vier a ser eleito em outubro próximo, sem cair num pessimismo exagerado, terá tamanha força, já que, de alguma forma, parecem reféns desse estado de vulnerabilidade.
A situação presente explicita os limites da democracia representativa, construída desde o Século XVIII, afirmada contra o poder absolutista dos reis e consolidada ao longo dos séculos seguintes, atingindo o seu clímax, pelo menos nos países desenvolvidos, com o “estado de bem-estar social”, que nas últimas décadas começou a dar sinais de esgotamento.  
Hoje, elegemos prefeitos, governadores e presidentes; contudo, as possibilidades dos eleitos em assegurar a vigências dos direitos conquistados pela civilização ocidental ao longo de séculos de afirmação dos Estados-Nacionais parecem cada vez menores por conta da situação que vive a maior parte dos países não desenvolvidos, incluindo o Brasil.
As políticas  neoliberais parecem apontar para uma maior subordinação do Estado aos interesses do capital, globalizado, de uma decrescente capacidade desse mesmo Estado atender às demandas da sociedade e dos cidadãos. Os postulantes à Presidência são induzidos pela conjuntura a aderirem compulsoriamente a um conjunto de obrigações que tem reduzido as possibilidades de futuros governos e que poderão desgastá-los politicamente e até inviabilizá-los em sua governabilidade, além de induzir à instabilidade social a la Argentina, Indonésia e outros países.
Os cidadãos e a sociedade brasileira sinalizam nas pesquisas para postulantes que trazem a marca da mudança e, paradoxalmente, o mercado está a exigir-lhes um compromissamento com a situação vigente, que aponta para a insustentabilidade desse modelo. Tal endividamento não fará a não ser fazer subir com a atual, (mas já de muito longas datas), a situação de altas taxas de juros. Essa é hoje a verdadeira “saúva” do país. Metaforizando, ou se é capaz de neutralizá-la, ou essa acabará por devorar o país.
Hoje, face aos acordos financeiros existentes, o Estado-Nação, pelo menos no tocante às suas políticas sociais, está fragilizado e  tentando dramaticamente não ser sufocado pelos efeitos do endividamento e dependência. As portas que poderiam amenizar esse problema, contribuindo para que os compromissos assumidos sejam religiosamente honrados, como as exportações, por exemplo, são fechadas por políticas protecionistas dos mesmos países que, de um lado, exigem abertura comercial para suas empresas, produtos e serviços, e, de outro, pressionam pelo pagamento. Além disso, relutando com quaisquer acenos desses encargos, para dar ao próximo governo um fôlego, vai se confirmando o previsto; já que sem desenvolvimento interno e sem  incremento das exportações a situação não melhorará.
Frente a esse quadro, portanto, parece cada vez mais difícil ao Estado assegurar o direito à educação, à saúde, à segurança social e ao bem-estar  individual  e coletivo ao conjunto de seus cidadãos, bem como os direito à qualidade de vida, a um meio ambiente saudável, e, ainda, ao reconhecimento da diferença e da subjetividade.
A violência e a insegurança tendem, por sua vez, a impor restrições aos direitos às liberdades de locomoção, de pensamento e de propriedade. E à medida em que a capacidade de intervenção do Estado e dos governantes eleitos diminuir, o  voto do eleitor, o nosso voto, vem perdendo o seu valor. Vota-se num presidente cujas mãos estarão amarradas pelo endividamento e pela dependência externa que, a curto prazo, tem limitadas possibilidades de afrouxar essas amarras, aumentando, assim, suas condições de governabilidade. Esse será, provavelmente, o maior ônus da reeleição do atual presidente e sua herança mais dolorosa e duradoura para a sociedade brasileira.
O gesto de  ontem, em Brasília, expõe com inigualável transparência nossa situação de vulnerabilidade enquanto país.  Infelizmente, a boa vontade e a firme disposição dos postulantes à presidência bem como do atual presidente e de sua equipe econômica, mesmo acrescido com o estonteante volume de 30 bilhões de dólares acenados pelo FMI e mais outros bilhões de outras fontes, poderão ser insuficientes para saciar a fome de  um mercado com vocação à insaciabilidade. Pelo menos, depois do gesto de ontem, as subidas ou descidas dos candidatos nas pesquisas não mais terão o poder de explicar a subida do dólar e do risco-brasil. Outras explicações terão que ser buscadas.

Agenor Gasparetto
Sociólogo

20 de agosto de 2002.