Uma onda Garotinho? (Ou o efeito rebanho?)

 

Creio que quando Roseana Sarney brilhava como candidata a Presidente,  na cidade de Itabuna, em uma pesquisa havia a seguinte singularidade: cerca de metade dos eleitores que explicitavam a sua intenção de voto em Roseana, naquela oportunidade, também manifestavam sua rejeição explícita a Lula. É como se Roseana estivesse capitalizando um sentimento difuso anti-PT, presente nessa cidade. Esse contingente, que dizia que votaria em Roseana também rejeitava Lula, era de aproximadamente 15% dos eleitores. Em contrapartida, o eleitor que dizia votar em Lula raramente dizia rejeitar Roseana.

Depois veio o episódio Lunnus e o colapso dessa candidatura, ação essa associada ao Governo e ao grupo de apoio à José Serra, que até hoje deixou amargos ressentimentos em alguns políticos influentes.

Num segundo momento, anterior ao Horário Eleitoral Gratuito no rádio e na televisão, emergiu com muita força  a candidatura Ciro Gomes, deixando em terceiro lugar José Serra, praticamente empatado com a candidatura Garotinho, que tem oscilado próximo dos 10 a 11% há um bom tempo, nem subindo, nem se esvaindo. Aqui, é como se o eleitorado, aqueles 15% anti-Lula de Roseana, tivesse encontrado um novo abrigo e a ele acorrera, como ovelhas desgarradas acorrem ao seu pastor, diante da insegurança provocada pela presença de um lobo ou outro predador. E Ciro, assim como Roseana, também chegou ao patamar dos 25% em Itabuna (e no país). 

Então, veio o Horário Eleitoral Gratuito e esse, na sua primeira semana, aplica um duro golpe na imagem de Ciro Gomes, que caiu preciosos pontos  e Serra, subiu alguns, credenciando-se ao segundo lugar, ainda que, naquele momento, ainda estivesse em terceiro, embora tecnicamente empatado em várias pesquisas divulgadas (Datafolha, IBOPE, Vox Populi), exceto em uma (CNT/Census), em que a queda de Ciro não teria sido tão grande, assim como a subida de Serra também não teria sido tão expressiva.   

     Quando da primeira pesquisa realizada após o início do Horário Político, comentei com o assessor político do deputado Renato Costa, João Carlos Oliveira, acerca dos eleitores que nutrem um sentimento anti-Lula e que se abrigaram, inicialmente, sob o manto da maranhense Roseana, depois sob a proteção do obstinado Ciro e, agora, caso se consolidasse um colapso de Ciro, estariam de novo desprotegidos e estariam procurando por novo abrigo. O problema é que em relação a Lula, talvez hoje mais ao PT que ao próprio Lula, apesar da mudança de tom e da postura com que vem se apresentado, o que contribui a serenidade de seu vice, José Alencar,  persiste teimosamente uma relutância nessa adesão. Em relação à candidatura José Serra, que seria aparentemente o abrigo natural, há ressentimentos por ela ser vista como  a responsável pela derrocada de Roseana e agora pela de Ciro, onde as agressões de parte a parte são veiculadas sistematicamente no Horário Eleitoral.

Isto posto, em sendo verdadeiro a existência desse rebanho eleitoral  e esse, como rebanho de ovelhas desgarradas, tender a acorrer para um abrigo e não ficar perdida e atordoada no meio do caminho, é possível que surja a grande oportunidade para Garotinho ter a sua onda e como essa vai chegar mais próxima ao dia das eleições, tem alguma chance de chegar ao segundo lugar, em lugar dos hoje beligerantes Ciro e Serra. Caso sejam mesmo 15% os desgarrados mas teleguiáveis, mais os dez por cento que Garotinho vem mantendo apesar de todas as adversidades, internas e externas, o sonho do Segundo Turno passa a ser uma possibilidade real também para Garotinho. Sendo assim, a distância entre o segundo e o quarto lugar é bem menor do que se poderia inicialmente imaginar.

Acredita-se, no entanto, que para Garotinho ter também a sua onda e essa chegaria em um momento importante, decorrência do afluxo à sua candidatura do rebanho teleguiado, é preciso que o embate entre Ciro e Serra resulte em mais prejuízos de lado a lado. Hoje, seguramente, Ciro sofreu um duro golpe, mas não está nocauteado, posto que ainda está pelejando duramente.  E Serra poderá estar muito combalido quando tiver definitivamente se livrado de Ciro e poderá não ter forças para impedir uma hipotética ascensão de Garotinho, que corre por fora, leve, fazendo graças, como quem nada mais tem a perder. De concreto, neste momento de instabilidade do quadro eleitoral, não parece haver nada. Se Garotinho ainda pode sonhar com a sua onda, também não está fora de cogitação que Lula seja vitorioso ainda no Primeiro Turno. Nada, abosolutamente nada, está garantido, ainda, quando falta menos de um mês para a eleição..

 

Agenor Gasparetto
Sociólogo,

Itabuna, 9 de setembro de 2002.