Ajustes
enquanto a reforma política tarda
A eleição de 6 de outubro último explicitou
a necessidade de se repensar a Lei Eleitoral, remetendo para a necessidade
de repensar a Reforma Política.
No entanto,
enquanto a Reforma Política não chega, incluindo, por exemplo, o voto
facultativo e o voto distrital misto, alguns ajustes poderiam ser feitos,
como nos pontos a seguir: mudança de partido e fidelidade partidária, voto
proporcional, suplência de senador e pesquisas após o término da campanha
política, que produziram, nos últimos tempos, situações constrangedoras.
Mudança de partido e fidelidade partidária
Penso que
todo político tem direito de mudar de partido sempre que entender oportuno
aos seus planos pessoais. E pode mudar tantas vezes quantas queira, também.
Afinal, são muitos os constrangimentos e problemas em se estar numa
coligação ou partido com o qual não há mais afinidade e sintonia. Não há
razão para esse casamento forçado se o mundo gira e posições podem mudar.
Contudo, ressalvando-se apenas o seguinte: ao mudar, muda apenas com os
votos recebidos nominalmente. E, na hipótese de sua votação não ser igual
ou superior ao quociente eleitoral, em seu lugar assume o candidato
imediatamente seguinte da coligação de que fez parte. Esse dispositivo será
bom para a coligação que perdeu um quadro pela simples razão de passar a
ter mais coesão interna e, quem sabe, será boa também para o deputado
migrante, já que estará mais livre com a mudança. E caso as posições de um
deputado sejam sistematicamente contra os princípios do seu partido, é
melhor que esse abandone o partido por vontade própria, levando apenas os
votos recebidos nominalmente, ou sofrer processo de expulsão. Partidos
precisam buscar sintonia fina, identidade e a fidelidade partidária poderia
contribuir para esse propósito.
Voto proporcional
No
plano local, esta eleição, assim como as anteriores, evidenciou situações
que são objeto de questionamentos. No caso de Itabuna, por exemplo, o
eleitor se deparou com o fato de que os seus dois deputados estaduais
eleitos, Capitão Fábio e Pedro Egídio, se elegeram com menos votos do que
Renato Costa e Fernando Gomes, sendo que esse último obteve mais do dobro de
votos do que os eleitos. Isso acontece quando há um puxador de votos, quando
há muitos votos na legenda ou quando muitos nomes somam votos ou a
combinação dessas situações. No caso desses dois deputados eleitos, o
candidato João Henrique e do PDT, seu partido, respondem em grande parte por
essas eleições. Capitão Fábio recebeu 21.433 votos e Pedro Egídio, 15.864
votos. O quociente eleitoral era de 93.627 votos.
Esse
fato, que em graus variados sempre esteve presente, teria ficado mais uma
vez relevado a um segundo plano não fosse o episódio Enéas, em São Paulo,
com seus mais de 1,5 milhões de votos, arrastando para a Câmara dos
Deputados outros candidatos que não se elegeriam, em função dos votos
recebidos, nem para vereador em uma pequena cidade.
A propósito,
ainda que haja associação direta entre ser vitorioso ou ser derrotado em
função de ter sido ou não eleito, esses episódios evidenciam que não há
necessariamente relação direta entre votos colhidos e eleição. Dadas as
regras eleitorais vigentes, a primazia da coligação e do partido sobre o
candidato produziu esses efeitos. O caso Enéas, em São Paulo, é o mais
eloqüente nesse sentido. Essas são as regras e as regras eram conhecidas
por todos. Considerando que uma democracia sólida pressupõe partidos fortes,
essa regra parece melhor do que a alternativa de eleger simplesmente os mais
votados.
A crítica a
esses casos aberrantes incide na representatividade dos eleitos. Alguém com
mais de 100 mil votos não ser eleito e outro com pouco mais de 200 votos,
estar eleito, explicita essa questão com grande contundência. Quem votou em
Enéas, seguramente, não estava pensando que também estaria elegendo
“nulidades”, para mencionar termo utilizado pela analista Dora Kramer, em
termos de representavidade política. Seguramente, quem votou em Enéas pensou
em eleger Enéas e não sabia que tantos pensavam como ele. Os outros que
acabaram sendo eleitos no rastro dessa votação, seguramente, não foram
desejados e, sendo isso verdadeiro, não têm representatividade.
Considerando
que a proporcionalidade, por valorizar os partidos e coligações, tem mais
pontos positivos do que negativos, pode ser oportuno introduzir mecanismos
de correção, para que distorções como essa, em uma próxima eleição, não
voltem a suscitar indignação de eleitores e de candidatos bem votados, que
acabam ficando excluídos em sua pretensão de representação política,
frustrando seus muitos eleitores.
Um mecanismo
que poderia corrigir essas distorções seria o estabelecimento de um
montante mínimo de votos para que alguém seja proclamado eleito (ponto de
corte). Por exemplo, o candidato que não atingisse pelo menos um quarto
(25%) ou um quinto (20%) dos votos necessários para compor o quociente
eleitoral estaria automaticamente não eleito, perdendo o lugar para os
candidatos que obtiveram maior votação e não foram eleitos pelo critério da
proporcionalidade, independentemente de partido.
No caso da
eleição para deputado estadual da Bahia deste ano, perderiam a vaga de
deputados eleitos os que não teriam atingido pelo menos 18.725 votos ou
23.406 votos se o patamar de corte fosse, respectivamente, 20% ou 25% do
quociente eleitoral. Supondo que quem votou em Enéas não tenha querido com
seu voto eleger outras “nulidades” em representação política, esse
mecanismo expurgaria essas anomalias. E, em geral, asseguraria lugar para
aqueles que atingiram expressiva votação e não foram eleitos pela regra hoje
vigente. Esse ponto de corte seria uma tentativa de estabelecer um
equilíbrio entre a primazia da coligação e partido e a representatividade
dos candidatos enquanto políticos.
O ponto de
corte em 20% ou em 25% do quociente eleitoral parece ser um patamar
razoável. Poucos seriam os deputados que perderiam suas vagas para outros
com maior representatividade. No caso, as vagas não preenchidas pelo ponto
de corte ao critério de proporcionalidade seriam redistribuídas
automaticamente para os candidatos mais votados independentemente de
coligação ou partido. No fundo, esse mecanismo de correção da
proporcionalidade, definido pelo ponto de corte acima referido, tentaria
recompor um equilíbrio entre a necessidade de preservar a primazia da
coligação ou partido e, no entanto, preservar a representatividade de
candidatos bem votados enquanto políticos.
O voto
proporcional ainda suscita uma questão de outra ordem e que também está
ligada à representatividade. Nos casos em que uma coligação é constituída de
partidos com ideologias bastante diferentes, por razões de ordem eleitoral,
são geradas situações, no mínimo, embaraçosas. Nesta eleição, por exemplo,
os deputados estaduais eleitos por Itabuna, que se elegeram com 16,9% e
22,9% do quociente eleitoral, autofiliam-se à constelação governista, sendo
que o principal puxador de votos e seu partido fazem parte da constelação
oposicionista. Nesse sentido, são vozes situacionista cujos eleitores, em
parte expressiva, votaram em um candidato e em um partido oposicionista. No
mínimo, os partidos devem buscar coerência na formação das coligações para
que situações como essa não aconteçam.
Suplentes de senador
Na
legislatura que está encerrando, há o caso de um senador por Roraima que se
tornou senador por um capricho do destino. Na época das inscrições,
trabalhava como pedreiro na casa do candidato que foi eleito como titular.
Esse, alguns meses depois, veio a falecer, ficando o até então pedreiro e
suplente pelas circunstâncias senador há quase 8 anos. Esse, sem dúvida,
teve estrela.
No episódio
que levou a renúncia os senadores ACM e Jader Barbalho, o país descobriu que
seus primeiros suplentes eram o filho de um e o pai de outro. E se o
levantamento fosse exaustivo, possivelmente, situações semelhantes viriam a
público. A suplência faz senadores nomes desconhecidos e não votados. E,
sendo assim, estamos novamente de volta ao problema da representatividade.
Afinal, qual a representatividade de alguém desconhecido e não votado? O
argumento de que suplência faz parte do jogo, tomando como analogia o vice,
faz pouco sentido. Aqui, o mais razoável seria que quando o eleito está
impossibilitado de continuar no exercício do mandato, ou assumisse o
imediatamente seguinte na ordem de votação, ou nova eleição fosse realizada
para suprir a vaga. Creio, pessoalmente, que a segunda opção é a melhor.
Nesse caso, a democracia estaria proporcionando aos eleitores uma nova
oportunidade de exercício da cidadania. Voto e cidadania fazem muito bem à
democracia.
Pesquisas após o término das campanhas eleitorais
Afirmou-se em outro texto, publicado pela
Revista da SBPM e reproduzido na página da Sócio Estatística (www.socio-estatistica.com.br),
que a publicação de resultados de pesquisas eleitorais após o término das
campanhas políticas eram “a continuação da campanha por outros meios”.
Creio que isto continua sendo verdadeiro.
Afirmou-se, também, por diversas vezes, que
as pesquisas são mais frágeis do que os institutos gostaríamos que fossem,
que as pesquisas de boca de urna teriam a função de legitimar a atuação dos
institutos. Nesse ano, o Datafolha não a realizou e os resultados da boca
de urna do Ibope ficaram aquém das expectativas.
Volto a sustentar que para a
sociedade, para a democracia e para os próprios institutos é melhor que não
haja divulgação de pesquisas após o término da campanha eleitoral, ou seja,
nas 48 horas antes do dia da eleição. No mínimo, a necessidade de explicar
as discrepâncias entre os resultados publicados e os resultados das urnas
seriam menores e haveria uma compreensão maior da natureza e do significado
das pesquisas eleitorais.
Agenor Gasparetto
Sociólogo
Itabuna, 13 de outubro de 2002