PESQUISAS,
RASTREAMENTOS E ENQUETES ELEITORAIS
Hoje, as pesquisas eleitorais de âmbito nacional ouvem dois a três mil
eleitores em cerca de 125 a 202 cidades, variando de instituto para
instituto. O Brasil possui mais de 5.000 municípios e só no estado da Bahia
há 417 municípios. Com a proximidade das eleições, todavia, há uma tendência
dos institutos em ampliar o tamanho das amostras, diminuindo o erro amostral
se mantido o intervalo de confiança de 95%, e o número de cidades
amostradas. Nessas cidades hoje amostradas, por razões de praticidade e de
representatividade, são excluídos os eleitores da zona rural e das pequenas
cidades do país. As pesquisas concentram-se, via de regra, nas cidades
grandes e médias. O pressuposto é que a opinião dessas cidades, pesquisadas,
é representativa do conjunto. Mesmo considerando que há uma tendência da,
digamos, periferia eleitoral refletir o centro, essa não é obrigatória, nem
necessária. Há, aqui, portanto, um pulo, um ato de fé. A realidade pode não
corroborar esse ato de fé.
Tabela 1. Número de eleitores, de cidades amostrados, erro amostral e
intervalo de confiança nas últimas pesquisas divulgadas pelos institutos de
cobertura nacional.
|
Instituto |
Nº de eleitores |
Nº de cidades |
Erro amostral |
|
Datafolha |
2.581 |
148 |
2,0 |
|
Ibope |
3.000 |
202 |
1,8 |
|
Vox Populi |
2.459 |
125 |
2,0 |
|
CNT/Census |
2.000 |
195 |
2,0-3,0 |
Essas considerações e os erros ocorridos em outras eleições parecem
suficientes para explicitar as limitações de todas as pesquisas de opinião,
por mais cuidadoso que tenha sido o seu planejamento e execução. Não se pode
perder de vista, ainda, o grau de dinamicidade do quadro eleitoral. Nesta
eleição presidencial, as mudanças que já ocorreram parecem suficientemente
claras quanto à natureza de instabilidade do mesmo.
Candidatos
tendem a minimizar pesquisas eleitorais quando não estão bem posicionados
nelas. E como pesquisas captam intenções de voto e os votos são encontráveis
nas urnas, é plausível essa minimização. No entanto, há quem em vez dessa
contestação, solicita que sejam feitas (e divulgadas) enquetes em ambientes
em que sabidamente ele está bem posicionado, podendo ser em escolas e
universidades, em hospitais, em igrejas, em portas de fábricas. O propósito
dessas enquetes é produzir um fato político positivo para a candidatura.
Essas enquetes, quando feitas para divulgação, não passam de sondagens
realizadas com finalidade de propaganda.
Com o advento da Internet, começaram a
surgir enquetes nas páginas dessa grande Rede. O seu pecado é também a
falta de representatividade e a impossibilidade de inferência a partir dos
seus resultados. Não passam de curiosidade estatística.
Nas últimas eleições, ganharam evidência as
pesquisas por telefone, “rastreamento eleitoral”, segundo o que lê no jornal
e na homepage UOL, de 9 de setembro. Esses levantamentos captam a intenção
de voto dos que têm telefone fixo nas suas residências. Como cerca de 54%
das residências do país têm telefone fixo nas casas, esse “rastreamento” têm
um grau de confiabilidade maior. Mesmo assim, continua sendo uma versão
versão melhorada e mais confiável das “enquetes”, uma vez que também peca
pelo problema de representatividade e pela impossibilidade de inferência.
O argumento
utilizado pelo Datafolha para a sua realização é que esse “representa,
uma parcela da população com mais renda e escolaridade do que a média
nacional e mais concentrada no Sudeste.” E, ainda segundo o Datafolha,
“uma das principais utilidades do rastreamento é antecipar possíveis
tendências causadas pela influência do horário eleitoral gratuito na
corrida sucessória.”
O que não é informado
pelos realizadores é que sua divulgação tende a favorecer os candidatos
com melhor desempenho entre os eleitores mais escolarizados e com melhor
situação econômica e os que têm maior eleitorado nas cidades que apresentam
essas características, além de se constituírem em matéria-prima para a
propaganda eleitoral das candidaturas beneficiadas, agora com a assinatura
do jornal Folha de São Paulo e do instituto de pesquisas Datafolha, em minha
opinião, desde as últimas eleições como o melhor do país. Obviamente, a
alegação de que o leitor e o internauta têm o direito à informação ou que a
divulgação é neutra podem ser apontadas. No entanto, enquanto o telefone
residencial fixo não for mais generalizado, estando presente na maioria das
residências e de todas as regiões do país, essas divulgações têm a marca da
tendenciosidade.
Acredita-se que dada a velocidade e a
escassez de tempo dos nossos dias, da expressão “possíveis tendências”,
que contribui para colocar as coisas no seu devido lugar, poucos estarão
suficientemente atentos para se dar conta do “possíveis”, devendo a
maior parte, seguramente, reter e ficar com as “tendências” o que não
parecer mau negócio para quem é beneficiado por essa divulgação.
Tabela 2. Percentuais de
intenções de voto na pesquisa com eleitores que possuem telefone fixo nas
residências.
|
Candidaturas à
Presidente |
Percentuais |
|
Lula (PT) |
35 |
|
Serra (PSDB) |
24 |
|
Ciro (PPS) |
18 |
|
Garotinho (PSB) |
11 |
Fonte: Datafolha,
publicado no jornal Folha de São Paulo e na página UOL de 9 de setembro de
2002.
Agenor Gasparetto
Sociólogo,
Itabuna, 9 de setembro de
2002