CONFIANÇA EM PESQUISAS ELEITORAIS EM  ITABUNA
 NA ÚLTIMA ELEIÇÃO PARA PREFEITO

                                                                       Por Agenor Gasparetto1

Argumentou-se, em texto publicado no último número da Revista da UESC Especiaria (nºs 3 e 4, pp. 209-234 que a questão chave concernente às pesquisas e sua divulgação situa-se no fato de que os eleitores tendem a internalizar uma pretensão de infalibilidade dos institutos, sendo essa reforçada pelos meios de comunicação.

Na prática, esse  problema consiste no fato de que eleitores tendem a assumir, em graus variados, o resultado da pesquisa como verdade imune ao erro.  Essa pretensão de infalibilidade decorre da necessidade dos institutos em  reforçarem sistematicamente sua credibilidade, sendo essa ancorada na exatidão dos resultados eleitorais, ou seja, faz parte, ainda que não intencionalmente, da lógica de propaganda e de marketing dos institutos. Aqui, quanto mais sérias parecerem as pesquisas e maior a pobreza cultural do eleitor, maior tende a ser a probabilidade de internalização pelo eleitor de sua pretensão de infalibilidade. Obviamente, essa pretensão é também endossada integralmente pelos meios de comunicação.  Também sinalizou-se que é preciso levar em conta o contexto em que as pesquisas são divulgadas.

Resumidamente, a posição defendida é que há influência da divulgação dos resultados de pesquisas de intenções de voto e que a divulgação após o encerramento da campanha, por se constituir numa continuação da campanha eleitoral por outros meios não deveria ser permitida pela Justiça Eleitoral.

Em Itabuna, na última eleição de 1º de outubro, ocorreram algumas circunstâncias que permitiram reavaliar essa questão de forma particular. Houve uma divulgação intensa e extensa das pesquisas do IBOPE a partir do início da  campanha propriamente dita. Os resultados divulgados por esse Instituto divergiam expressivamente de outros, ainda que não divulgados pela televisão, rádio e jornais, como pode ser visto no anexo2.  

O caso Itabuna, eleição 2000

As eleições em Itabuna, dadas as circunstâncias, possibilitaram a realização de uma análise privilegiada do papel desempenhado pelas pesquisas eleitorais divulgadas. Na prática, o resultado foi a possibilidade de uma análise em condições quase experimentais. Em razão disso, a Sócio Estatística realizou a dois e a um dia das eleições de 1º de outubro, uma ampla pesquisa de opinião, divulgada às 17 horas do dia da eleição. Foram ouvidos 2.618 eleitores com 16 anos ou mais, numa pesquisa por amostragem probabilística estratificada por sexo, idade e regiões da cidade.

As circunstâncias que criaram uma situação muito especial para a análise  prendem-se ao fato de que a televisão local, e também as rádios e jornais, a partir da segunda semana  de julho, passaram a divulgar, enquanto informação e enquanto propaganda, particularmente no Horário Eleitoral e nas suas inserções,  apenas as pesquisas realizadas pelo IBOPE, que davam larga frente para a candidatura situacionista de Fernando Gomes, prefeito tentando a reeleição.

Na pesquisa objeto desta análise, focou-se apenas a televisão, principal veículo de comunicação, em Itabuna, em que pese a força do rádio nesse cidade.

Faz-se necessário, aqui, um parêntese: as rádios e os jornais ligados à Coligação situacionista, Diário do Sul e Agora, também veicularam os resultados divulgados pela televisão. No caso das rádios4, na propaganda gratuita, uma inserção apresentava os resultados de uma pesquisa do IBOPE, datada de 3 a 5 de agosto, que dava 55% para Fernando Gomes e, segundo a mensagem “... e Geraldo Simões com amargos decrescentes 28%”.  Até o último dia de campanha eleitoral, essas mensagens foram divulgadas nas rádios, a título de inserções gratuitas. Apesar do IBOPE ter divulgado outras pesquisas, sendo as duas últimas realizadas no mês de setembro com diferença de nove pontos percentuais, nessas inserções nas  rádios permaneceu, contudo, a pesquisa com validade vencida de início de agosto. 

A Sócio Estatística, em sua página, também tornou públicas todas as suas pesquisas, incluindo as três realizadas no mês de setembro, a última, objeto desta análise, divulgada somente após o encerramento da votação, às 17 horas do dia 1º de outubro.

O jornal A Região, de oposição ao então prefeito,  divulgou em fins de junho pesquisa da Sócio Estatística de meados de maio, já com validade vencida, quando Geraldo Simões ainda tinha expressiva frente, mas já havia sinais de que o quadro estava mudando. A pesquisa concluída no início julho também foi mencionada pelos jornais situacionistas.

As outras pesquisas foram realizadas em setembro e revelavam uma situação de empate técnico, com frente, todavia, para Fernando Gomes, inclusive a última. O grupo oposicionista não divulgou as pesquisas da Sócio Estatística, já que a frente continuava sendo a de Fernando Gomes, ainda que numa situação de empate técnico, e, talvez, porque convinha manter o quadro eleitoral divulgado pelo grupo situacionista, como revelam os dados desta pesquisa, já então amplamente desacreditado, mesmo entre os eleitores de Fernando Gomes, sendo as manifestações públicas, particularmente as passeatas, um testemunho eloqüente desse fato ou da contradição entre o que era divulgado como pesquisa e o que era visto e sentido pelo eleitor.

A propósito, já no final da primeira semana de setembro Geraldo Simões lograva situação de equilíbrio quanto à expectativa de vitória, independentemente das pesquisas divulgadas e esse quadro manteve-se praticamente inalterado até o final.

Na prática, em Itabuna, estavam corroídas as bases para as pesquisas divulgadas exercerem um papel indutor de votos , o que era esperado e atribuído às mesmas pelos estrategistas do marketing político. 

As pesquisas perderam esse papel para as manifestações públicas, especialmente as passeatas, que se constituíram, em lugar das pesquisas, no balizador principal da força de cada uma das candidaturas nessa última disputa eleitoral, em Itabuna.

No intuito de contextualização, a eleição desse ano, em Itabuna, foi atípica, dado o grau de pressão ou constrangimento sobre o eleitor, sobretudo aquele com algum tipo de ligação com o Poder Municipal. A propósito, o slogan  da candidatura da principal Coligação de oposição, no final da campanha, passou a ser no meu voto mando eu em lugar do pra fazer muito mais, da primeira fase da campanha. Essa mudança de foco é um indicador do clima vivido na fase final dessa campanha. É como se o eleitor itabunense tivesse votado, resumindo, por liberdade e respeito, como se ouviu após a eleição de várias fontes. Tratava-se de um quadro instável, eleitoralmente falando. De um lado, agregou-se Poder Municipal, Governo do Estado, com várias vindas do staff superior, comando local da Política Militar,  juiz da Justiça Eleitoral e maior parte da mídia, além das  pesquisas divulgadas sistematicamente nos meios de comunicação. De outro lado, estava a principal candidatura de oposição, Geraldo Simões, que conseguiu agregar  praticamente todos os partidos de Centro-Esquerda, incluindo PMDB e PSDB, com o apoio da rádio Morena, mas sobretudo do jornal A Região, principal veículo de sustentação das críticas ao prefeito-candidato e das propostas da candidatura Geraldo Simões. A terceira candidatura, num quadro polarizado em alto grau, não tinha e não teve nenhuma chance, tendo perdido, no final, via voto útil, metade do pouco que chegou a ter nas intenções de voto. Tratava-se de uma disputa muito acirrada e em um quadro eleitoralmente não estabilizado. Tudo podia acontecer e, de fato, acabou acontecendo.

Na televisão, em noticiários e no Horário Eleitoral Gratuito, apenas as pesquisas do IBOPE foram divulgadas e o foram de forma sistemática durante o período de campanha.  Esse fato parece possibilitar uma avaliação mais confiável do grau de influência sobre o eleitor da divulgação de pesquisas de intenções de voto. Nesse sentido, na última pesquisa realizada pela Sócio Estatística, há dois dias e no dia anterior à eleição, foi perguntado a 2.618 eleitores o seguinte: “A televisão vem divulgando resultados de pesquisas de intenções de voto em Itabuna. Você confia nos resultados divulgados?”  As alternativas de respostas apresentadas foram “Sim”,  “Não”  e “Em parte” , mais “não sabe, não respondeu”.  

Os resultados parecem inequívocos, como pode ser visto na tabela abaixo:

Veja gráficos sobre o grau de confiança nas pesquisas divulgadas pela televisão dos eleitores de Fernando Gomes, Geraldo Simões, Duda do Polyrodas, indecisos e dos que votariam nulo ou branco .

Aqui, cerca de 56% dos eleitores itabunenses afirmaram não confiar nos resultados divulgados, todos amplamente favoráveis à candidatura situacionista, de Fernando Gomes, candidato à reeleição. Os que confiavam somavam 17% e os que confiavam em parte, outros 26%.

Confiar em parte parece significar que a pesquisa divulgada seria merecedora de algum crédito, ainda que com restrições.  Na prática, isso parece significar falta de confiança. No entanto, será mantida como categoria específica, tendo como característica principal a ambigüidade.

Para os propósitos desta análise, no intuito de visualizar melhor o alcance da influência dos resultados divulgados sobre o eleitor, os itabunenses que responderam que confiavam em parte serão classificados como sujeitos pouco ou não suscetíveis à influência das pesquisas divulgadas. Isto posto, havia aproximadamente 17%  de eleitores itabunenses que há dois e um dia antes das eleições acreditavam nas pesquisas divulgadas pela televisão local. Seu perfil parece-nos relevante explicitar.

Utilizando o teste  Qui-quadrado (Coeficiente de Pearson), a variável “confiança nos resultados de pesquisas de intenções de voto em Itabuna” revelou-se altamente  associada (1% de significância) com as variáveis região, faixas de idade, sexo, faixas de renda familiar mensal, nível de escolaridade, intenções de voto para prefeito, expectativa de vitória nos candidatos, rejeição aos candidatos e avaliação da administração municipal. O teste não se revelou significativo, todavia, com religião, ou seja, a confiança nos resultados divulgados não variou em função da religião do eleitor.

Por cada uma das oito regiões da cidade de Itabuna, o percentual dos que confiavam nas pesquisas divulgadas pela televisão oscilaram de um mínimo de 15,1% a um máximo de 25,2%. Esse último percentual de eleitores situavam-se na região Nova Itabuna, que inclui o pequeno povoado de Itamaracá, seguida pela região Santa Inês, com 20,9%, que inclui o também pequeno povoado de Mutuns. Essas duas regiões estão, seguramente,  entre as áreas mais pobres do município e no caso de Nova Itabuna, também a mais afastada da área central.

Por cada uma das cinco faixas de idade, a confiança é maior na faixa dos 50 anos ou mais de idade, 24,3%, contra uma média de 17,4%. O eleitor dessa faixa de idade parece particularmente suscetível à influência das pesquisas.

Por  sexo, o homem parece menos crítico do que a mulher em relação às pesquisas de intenções de voto divulgadas.  

Por faixa de renda familiar mensal, os eleitores com renda  de até 151 reais são os que mais confiam nas pesquisas eleitorais, 22,1%, seguidos pelos que estão na faixa de maior renda, mais de 1000 reais, 20,9%.

Por nível de escolaridade, os eleitores que apresentam maior grau de confiança nos resultados divulgados pela televisão foram os que tinham até a 4ª série incompleta, 23,4%, seguidos, surpreendentemente, pelos que tinham curso  superior completo, 20%. Os dados de renda e de instrução revelam que a candidatura situacionista contava com parte da elite itabunense.

Os que declinavam sua intenção de voto em Fernando Gomes eram os que mais confiavam nas pesquisas divulgadas: 26,6% contra 8,9% dos que diziam votar em Geraldo Simões e 10,9% dos que votariam em Duda Polyrodas, conforme pode ser visto na tabela abaixo.

Os eleitores de Fernando Gomes eram os que mais confiavam nos resultados das pesquisas de intenções de voto em Itabuna. Mesmo assim, apenas 26,6% confiavam nos resultados divulgados.  É possível que o eleitor de Fernando Gomes quisesse acreditar nas pesquisas e o de Geraldo, por estar em desvantagem e essa ser muito grande, não. 

Trata-se, em resumo, de uma situação de baixa credibilidade na pesquisa divulgada e, portanto, de pequena influência dessa sobre o eleitor. Todavia, essa pequena influência é relativamente grande se comparada com a diferença de votos válidos revelada nas urnas, já que se tratava de  uma situação de disputa acirrada. Geraldo Simões venceu com 50,56%  contra 48,55% de Fernando Gomes e 0,89% de Duda Polyrodas. 

Situação semelhante foi observada quanto à expectativa de vitória nos candidatos. Aqui, também, predominou a não confiança nos resultados eleitorais divulgados. Todavia, os que acreditavam na vitória de Fernando Gomes apresentavam um percentual mais de três vezes maior do que aqueles que votavam em Geraldo Simões.

Entre os eleitores que rejeitavam os candidatos, o quadro de confiança nos resultados de pesquisa de intenções de voto divulgados pela televisão agravava-se ainda mais, sendo que 8,6% dos que rejeitavam Fernando Gomes confiavam nas pesquisas contra 28,2% dos que rejeitavam Geraldo Simões.

A associação entre confiança nos resultados de pesquisa divulgados pela televisão e avaliação da administração municipal revela que quanto melhor a avaliação, maior a confiança  e quanto pior, menor. Obviamente, a avaliação da administração municipal está intimamente associada com o quadro de intenções de voto.

Dentre as associações, parece muito reveladora  a  variável  faixas de idade do eleitor.  Associando-se faixa de idade, em quem votou para prefeito e confiança nos resultados das pesquisas de intenções de voto divulgados pela televisão, a associação revelou alta significância  em todas as faixas. 

A confiança na pesquisa aumenta sobretudo na faixa dos 50 anos ou mais, atingindo 24,3% contra uma média de cerca de 17,3% no conjunto da pesquisa. O percentual dos que acreditam na pesquisa entre os eleitores de Geraldo Simões, que em todas as faixas oscila próximo dos 8%,  nessa faixa sobe para 13,8%.  Esse, dentre os eleitores de Fernando Gomes, passa de cerca de 23% para 32,9%. Todavia, na faixa anterior, 36 a 49 anos, também subiu, atingindo 29%. Portanto, é sobre o contingente de eleitores mais idosos que a pesquisa divulgada pela televisão parece exercer maior influência. Nessa eleição, quanto mais jovem o eleitor, maior a tendência de votar em Geraldo Simões e quanto mais velho,  em Fernando Gomes.

A associação entre faixas de idade, confiança nos resultados eleitorais divulgados pela televisão e expectativa de vitória nos candidatos apresenta uma situação muito semelhante com a associação acima, uma vez que há forte associação entre em quem votaria para prefeito e quem acredita que seria o ganhador na disputa.

Associando faixa de idade, sexo e confiança nas pesquisas eleitorais divulgadas, o homem que mais confia nessas pesquisas é o que tem 36 anos ou mais, mas sobretudo aquele que tem 50 anos ou mais. A mulher com 50 anos ou mais também tem maior grau de confiança nessas pesquisas, mas em patamar inferior. 

A associação entre níveis de escolaridade, intenções de voto para prefeito e confiança nos resultados eleitorais divulgados pela televisão apresenta um quadro coerente, exceto num ponto. Era esperável que quanto menor o nível de instrução do eleitor maior a confiança nos resultados eleitorais divulgados pela televisão. Isto revelou-se verdadeiro e as associações altamente significativas. Todavia, essa expectativa foi quebrada entre os que têm nível superior e nesse, entre os que votariam em Fernando Gomes para prefeito. A  elite intelectual fernandista é quem mais acreditava nesses resultados.  Foi a única categoria em que os que confiavam nos resultados divulgados pela televisão superou os que não confiavam, chegando esses a 38%.

Quadro semelhante foi observado com a associação entre faixa de renda familiar mensal, em quem votaria e confiança nas pesquisas divulgadas pela televisão local. Aqui, também, aparece uma fração da elite econômica acreditando e votando em Fernando Gomes, remetendo à escolaridade superior anteriormente referida.

A TÍTULO DE CONCLUSÃO

Em Itabuna, em 2000, tomando como referência a eleição para prefeito, que culminou com a vitória por pequena frente de Geraldo Simões sobre o atual prefeito, Fernando Gomes, e buscando analisar o papel desempenhado pela pesquisa sobre o eleitor, é possível inferir que a pesquisa divulgada teve sua credibilidade fortemente corroída pela realidade. 

Foi pequena a influência das pesquisas divulgadas pela televisão sobre o eleitor. Isto porque apenas 17% tinham confiança nos resultados divulgados pela televisão local. Cerca de 56% declararam não confiar nos mesmos e os demais disseram confiar em parte, que, em última análise, pode ser interpretado como uma modalidade de não confiança ou, pelo menos, de dúvida ou suspeição. 

Em suma, a situação em Itabuna, nesta eleição, no tocante às pesquisas divulgadas, foi a de um quadro de confiança corroído pelo processo de campanha. As duas últimas pesquisas divulgadas pelo IBOPE, no mês de setembro, dando frente de nove pontos para Fernando Gomes sobre Geraldo Simões,  na perspectiva do eleitor itabunense, mesmo para parte expressiva dos fernandistas, parecia estar sem suficiente sustentação empírica. Nesse sentido,  a realidade não confirmou um quadro eleitoral muito favorável a Fernando Gomes  e a pesquisa divulgada pela televisão e outros meios não teve o poder  de induzir o voto dos que apostavam ganhador ou votavam para não perder o voto, frustrando estratégia de marketing político. A partir da segunda semana de setembro e até a eleição, já não havia segurança quanto a esse ganhador. E Duda Polyrodas, que detinha cerca de 2% nas pesquisas, colheu menos de 1% nas urnas, perdendo parte expressiva de seu pequeno  eleitorado, provavelmente para Geraldo Simões.

No entanto, uma fração do eleitorado teve fé nas pesquisas, particularmente os mais pobres, menos instruídos, fazendo exceção, aqui, aos de curso superior completo eleitores de Fernando Gomes, mas sobretudo os eleitores mais idosos, 50 anos ou mais de idade e dentre esses, particularmente os homens. E, obviamente, sobretudo entre os eleitores de Fernando Gomes, entre os que acreditavam na sua vitória e entre os que avaliavam a atual administração municipal como positiva. Para esses, a pesquisa, seguramente, contribuiu para fortalecer a convicção da intenção de voto, além da vitória nas urnas para o candidato escolhido e apontado pela pesquisa.

Nesta eleição em Itabuna, sem dúvida, era muito baixo o percentual dos que confiavam nos resultados de pesquisas de intenções de voto divulgados pela televisão local, embora não apenas por esse meio. Todavia, numa situação de disputa acirrada, em que o vencedor teve menos de 2% a mais do que seu principal adversário, esse contingente ainda parece expressivo.

É sempre difícil precisar o efeito ou a contribuição de uma pesquisa sobre a decisão dos eleitores. Certamente, confiar nos resultados eleitorais divulgados pela pesquisa não significa necessariamente votar segundo o prognóstico da mesma, assim como não confiar não significa necessariamente não votar na direção e, sobretudo, na magnitude apontada por essa. Havia  muitos eleitores de Fernando que não confiavam nos resultados divulgados e, mesmo assim, revelavam sua intenção de votar nele. Da mesma forma, os quase 9% de eleitores de Geraldo Simões que acreditavam na pesquisa divulgada, provavelmente, nem por isso mudaram sua intenção de voto. No entanto, havia uma fração de eleitores indecisos ou indiferentes (9,1% na véspera da  eleição) e outros que escolhiam com pouca convicção. Para esses, a pesquisa divulgada pode ter tido influência, enquanto componente de uma estratégia de marketing que objetivava criar um clima de favorabilidade e de indução do voto útil, mas sobretudo dos que pretendiam não perder o voto! Em Itabuna e em muitos outros municípios, essa cultura ainda sobrevive, particularmente entre os mais pobres, menos instruídos, mais idosos, coincidentemente, os que mais confiavam nas pesquisas eleitorais divulgadas localmente pela televisão, nesse último processo eleitoral.  Havendo a cultura, há a influência, ainda que pareça haver relutância entre os pesquisadores em admiti-la, preferindo  posições ambíguas ou que buscam  sua atenuação.

O caso Itabuna, nesta eleição do ano 2000, aponta claramente para a perda de confiança do eleitor nos resultados de pesquisas de intenções de voto divulgados pela televisão local, em que a dinâmica da realidade corroeu  grande parte da sua credibilidade. E isto, seguramente, por ter prevalecido a perspectiva da pesquisa como propaganda sobre a pesquisa como informação. Mesmo assim, com a sua instrumentalização pelo marketing político, houve influência, embora pequena, dessa sobre contingentes específicos de eleitores, devendo esse  caso  ser visto mais como exceção à regra.  E essa reduzida influência em razão ao descrédito pela excessiva instrumentalização. As passeatas, ponto alto das manifestações públicas em Itabuna, já que os comícios saíram da cena principal, tiveram muito maior força de persuasão e impuseram-se mais do que as pesquisas, divulgadas pela televisão e rádio, como critério de referência para uma tomada de decisão pelo eleitor indeciso, indiferente ou propenso a votar ganhador. Os debates não aconteceram. 

(Maiores detalhes poderão ser encontrados em artigo encaminhado para publicação).

 

1 Sociólogo, Sócio Estatística/UESC.

2 O IBOPE, em Itabuna, tornou públicas quatro pesquisas de intenções de voto e uma quinta, convertida em manchetes pelos jornais Agora e Diário do Sul no mês de julho,  se existente, não foi possível acesso aos resultados completos.   Os resultados estão na tabela abaixo (em percentuais):

Candidatos/Período

03-05/08/00

29/08/00

11/09/00

20/09/00

Sem candidato

17%

16%

9%

14%

Fernando Gomes

53%

55%

49%

47%

Geraldo Simões

28%

27%

40%

38%

Duda Polyrodas

2%

2%

3%

2%

Fonte: IBOPE

Erro amostral: 5%

 

Rejeição dos candidatos a prefeito de Itabuna em duas pesquisas do IBOPE. Eleição 2000.

Candidatos/Período

29/08/00

11/09/00

Não sabe/não resp.

8%

4%

Não rejeita nenhum

4%

3%

Fernando Gomes

20%

25%

Geraldo Simões

27%

30%

Duda Polyrodas

56%

53%

Fonte: IBOPE

Erro amostral: 5%

 

A partir de julho, a Sócio Estatística, em Itabuna, realizou e tornou públicas, em sua página na Internet, quatro pesquisas de intenções de voto, sendo a última às 17 horas do dia da eleição. Os resultados estão abaixo.

Intenções de voto para prefeito de Itabuna. Pesquisa estimulada. Eleições 2000.

Candidatos

02/Jul/00*

08/set/00*

23/set002*

30/set003**

Não apontou

16,1

15,8

11,1

9,1

Geraldo Simões

35,5

39,3

41,4

42,2

Fernando Gomes

39,8

41,3

43,5

45,5

Duda do Polyrodas

3,2

1,9

2

1,8

Nulo/branco

5,5

1,6

2

1,4

Fonte: Sócio Estatística.

* Erro amostral: 2,6% Pouco mais de 1.500 eleitores ouvidos.;

 ** Erro amostral: 2,0% Ouvidos 2.618 eleitores.

 

Percentuais de rejeição aos candidatos a prefeito de Itabuna. Eleições 2000.

Candidatos

02/jul/00

08/set/00

23/set002

30/set003

Fernando Gomes

26,7

26,9

30,8

31,4

Geraldo Simões

20,0

20,2

24,8

25,6

Duda do Polyrodas           31,2

35,2

35,1

31,4

Fonte: Sócio Estatística.

* Erro amostral: 2,6%; ** Erro amostral: 2,0%

 

4  Na propaganda gratuita, foram três as inserções veiculadas: uma com o depoimento do senador Antônio Carlos Magalhães, outra com o depoimento do governador César Borges, ambos recomendando o voto em Fernando Gomes, e a terceira, apresentando pesquisa de início de agosto, dando ampla frente para Fernando Gomes, mantida até o último dia de propaganda.