Projeto 4.  Rios e bacias hidrográficas do Sul e Extremo Sul da Bahia: da agonia  à  recuperação

O itabunense, no ano de 1995,  tomou água salobra. Esse fato está presente na memória de todos.  Isso porque o rio Almada, que abastece Itabuna e as cidades  que se situam ao longo de seu curso, teve seu volume de água praticamente zerado. Foi, da perspectiva do abastecimento,  o ano mais dramático da história de Itabuna. 

O Rio Cachoeira, outrora navegável em vários trechos de seu baixo curso, visto hoje,  nem de longe sugere a possibilidade de ter sido isso verdade. Se, há pouco mais de dez anos atrás, ainda se caracterizava como um rio relativamente caudaloso, hoje não segura mais água e está permanentemente expondo suas pedras pretas e, em seu leito, a vegetação, incluindo árvores de grande porte, domina a paisagem em muitos pontos.

O Rio Cachoeira está agonizando. O Rio Almada segue-lhe os passos.  Se Tosta Filho já alertava,  nos  anos 50, para os riscos da destruição das florestas, então ainda existentes ao longo da hoje Rodovia que liga Ilhéus a Vitória da Conquista, que em grande parte margeia o rio Cachoeira,  hoje as pastagens dominam essa paisagem. Essa região de pecuária, a cada mini-estiagem que afeta o maciço cacaueiro, sente com muita severidade, pela destruição da capa florestal, esses efeitos, a Oeste desse maciço, que parecem se agravar, amplificando-se devido a sua destruição.

Os Rios Cachoeira e Almada, em sua agonia lenta, mas progressiva, são testemunhos eloqüentes de um processo de longo curso e estão alertando para esse risco, sobretudo, agora, com o quase-colapso da  cacauicultura, podendo ganhar grande velocidade,  via pecuarização e destruição dos remanescentes florestais ocupados pelo maciço  cacaueiro,  cujo core  principal os rios em pauta cortam.

É propósito deste subprojeto desencadear junto às comunidades pela bacia servidas e testemunhas da agonia desses rios, uma campanha educativa  e um processo de manejo de suas bacias hidrográficas, incluindo o reflorestamento de suas nascentes e de suas margens com espécies nativas da Mata Atlântica,  identificadas e produzidas pelo projeto Conservação da biodiversidade vegetal, buscando reter a água das chuvas para um escoamento mais lento, reflorestando as nascentes dos cursos principais e de seus afluentes e de todos os cursos d’água do Sul e do Extremo-Sul da Bahia.

Portanto, dada a complexidade  dessa temática, tanto do ponto de vista da abordagem quanto de uma atuação consistente,  cada bacia hidrográfica do Sul e Extremo-Sul da Bahia deverá ter um subprograma específico, iniciando pela proximidade e, para ganhar experiência, pela bacia hidrográfica do rio Cachoeira, talvez  a mais problemática.

A escolha da bacia hidrográfica como unidade de planejamento e de intervenção deve-se ao fato de ser ela uma regionalização natural, posto que segue as leis e a força da natureza, sendo, por essa razão, mais fácil planejar, recuperar , preservar e monitorar o seu ambiente.

Com o aprendizado no tratamento da bacia hidrográfica do rio Cachoeira, acredita-se que será possível atuar  em outras bacias do Sul e Extremo-Sul da Bahia, com mais objetividade e mais consistência.

 

Bacia Hidrográfica do Rio Cachoeira

Situada na área das bacias do leste, no litoral Sul da Bahia, a bacia hidrográfica do Rio Cachoeira localiza-se entre as coordenadas 14º42'/15º20' S e 30º01'/40º09' Wgn. Constitui-se em uma unidade ambiental de grande relevância para o Sul da Bahia, ocupando uma área de 4600 Km2.,  e possuindo uma população estimada de 520 mil habitantes, distribuídos nos seus municípios: Itororó, Fimino Alves, Santa Cruz da Vitória, Itaju do Colônia, Floresta Azul, Ibicaraí, Jussari, Itapé, Itabuna e Ilhéus. Apresenta como principais atividades econômicas a agropecuária, o comércio, o turismo e a indústria de transformação.

Prioridades de Atuação

As comunidades da bacia hidrográfica do Cachoeira, sob a coordenação da Universidade Estadual[RB1]  de Santa Cruz - UESC, e conjuntamente com diversas Instituições (CEPLAC, CRA, SRH, SEPLANTEC, CADCT, DIRES, DIREC, SAEE, EMASA, EMBASA, IBAMA, Prefeituras, ONGs, Clubes de Serviço, Associações Comerciais, Sindicatos, Escolas e outros), vêm participando de um processo crescente de organização com vistas ao manejo sócio-ambiental da Bacia Hidrográfica do Cachoeira, com o objetivo maior de alcançar  o desenvolvimento sustentável desse espaço territorial e, consequentemente, a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes.

Essas comunidades e instituições  têm discutido sobre a realidade da bacia, levantando-se os problemas e priorizando as áreas de atuação para busca de soluções. Alguns problemas levantados são exemplificados: desmatamento, queimadas, degradação das nascentes, extração de areia, ocupação indevida das margens dos rios,  lixo, despejos de esgotos domiciliares e industriais. Para atuação, foram identificadas as seguintes áreas temáticas:

1 - educação, participação e informação

2 - político-institucionais

3 - sócio-econômicas e ambientais e

4 - infra-estrutura e saneamento básico

O processo de organização e planejamento possibilitará a efetivação de um programa multidisciplinar e inter-institucional, em prol das condições sócio-econômicas e ambientais das comunidades da bacia hidrográfica do Cachoeira.

Rios e bacias hidrográficas do Sul e Extremo Sul da Bahia: da agonia à recuperação

Subprojetos

Objetivos principais

Educação ambiental com as comunidades da Bacia Hidrográfica do rio Cachoeira

- Iniciar uma campanha sistemática de educação ambiental

- Elaborar um programa de formação de agentes multiplicadores/lideranças professores, membros dos comitês municipais

- Inserir a temática ambiental nas atividades escolares

- Criar  um banco de dados na área de educação/informação\participação

Formação de Comitês Municipais e Intermunicipais da Bacia Hidrográfica do Cachoeira

 - Diagnosticar e discutir a organização das comunidades da BH do Cachoeira

- Participar da implementação dos Comitês Municipais de Meio Ambiente

- Participar da elaboração de documentos de normatização dos Comitês Municipais de Meio Ambiente

Elaboração do Plano Diretor de saneamento básico dos municípios da Bacia Hidrográfica do Cachoeira

 - Diagnosticar as condições ambientais  e de saneamento básico dos municípios da BH

- Elaborar uma proposta de plano de gestão para o meio ambiente dos municípios da BH

Monitoramento e enquadramento das águas da Bacia Hidrográfica do Cachoeira

- Realizar o acompanhamento sistemático da qualidade e quantidade de cursos d'água da BH

- Elaborar o estudo de enquadramento das águas da BH

Avaliação das características e potencialidades de espécies de peixes e crustáceos em áreas da Bacia Hidrográfica do Cachoeira

- Avaliar o estado sanitário e a produtividade de espécies de peixes e pitus em coleções d'água da BH

Levantamento  sócio-cultural das populações da Bacia Hidrográfica do Cachoeira.

 

- Diagnóstico das condições de organização e sócio-economia das comunidades da BH

- Avaliação das atividades econômicas das comunidades/atividades de: pescadores de pitu, lavadeiras, areeiros, curtume etc.

Avaliação do risco de erosão de área da Bacia Hidrográfica do Cachoeira, com aplicação de Sistemas de Informações Geográficas

- Determinar o grau de risco de erosão de áreas agrícolas de municípios da BH

- Elaborar mapas e documentos que orientem os produtores rurais quanto às práticas de uso e proteção das áreas

(Obs. Este estudo será desenvolvido em três municípios/áreas prioritárias, no mínimo, ou seja, gerando três sub-projetos).

Propriedades do solo sob diferentes sistemas de manejo da pastagem.

- Avaliar as condições do solo, principalmente quanto aos aspectos físicos, em decorrência de diferentes formas de manejo da pastagem

  - Propor recomendações de manejo racional para áreas de pecuária

Avaliação de sistemas agrossilvipastoris em microbacias hidrográficas

- Analisar o desempenho de sistemas silvipastoris em área de pastagem em processo de degradação

- Avaliar alternativas agroflorestais com potencial econômico e conservacionista

Recuperação das principais bacias hidrográficas do Sul e Extremo-Sul da Bahia.

Reproduzir, a partir da experiência acumulada no trabalho da Bacia do Rio Cachoeira,  processo de conscientização, mobilização e atuação nas principais bacias hidrográficas do Sul e Extremo-Sul da Bahia