Ecologia e desenvolvimento

O  Programa de Desenvolvimento Sustentável das regiões Litoral  Sul e Extremo-Sul da Bahia, conservação da Mata Atlântica e Reflorestamento foi escrito no final de 1996 e as principais idéias do mesmo estão aqui recuperadas, a título de conservação da informação.  Os quadros foram simplificados, mantendo apenas os subprojetos e seus objetivos. As demais colunas não foram mantidas nesta recuperação de informações.

 Contextualização

O Litoral Sul da Bahia compreende vasto espaço do território do Estado da Bahia, agregando as sub-regiões conhecidas como Baixo-Sul (11 municípios), Sul (42 municípios) e Extremo-Sul (21 municípios) da Bahia,  e tem, como principais pólos urbanos, Ilhéus e Itabuna,  ao Centro; Gandu e Valença, ao Norte, e  Eunápolis, Itamaraju e Teixeira de Freitas, ao Sul. Ao todo, são 74 municípios, numa área de 55.838km2, correspondendo a 9% da área do Estado da Bahia e cerca de 16% de sua população.

A atividade agrícola dominante nesta região é ainda a lavoura cacaueira, em processo de agonia crescente, secundada pela pecuária, em expansão (em áreas antes cultivadas com cacau) e dominante, contudo, em regiões localizadas, como no Extremo-Sul.  Em regiões deste vasto espaço, há ainda ensaios na direção de uma diversificação: fruteiras e, mais recentemente, observa-se  um expressivo avanço da mono-floresta de eucaliptos para fins industriais, no Extremo-Sul. Essa  região precisa encontrar  os melhores caminhos para superar, a um só tempo, determinismos de ordem econômica  e ambiental e cumprir a única função que, em última análise,  legitima  qualquer empreendimento: a promoção do homem e do bem-estar das comunidades humanas onde este se insere. De uma economia agro-exportadora, assentada na lavoura cacaueira,  aos poucos,  o Sul da Bahia está diversificando-a e tornando-a complexa, ainda que seja muito forte a perspectiva de uma pecuarização, em caráter extensivo, desmatando resíduos remanescentes da  Mata Atlântica e substituindo a mata do cacau por capim.

As florestas naturais são praticamente residuais em toda a vasta extensão deste território, embora nos domínios da lavoura cacaueira, no denominado maciço cacaueiro, essas ainda  ocupem espaços mais amplos. E sombreando  o cultivo de cacau, espécimes de grande porte ainda sobrevivem, pelo menos enquanto não forem destinados, a preços vis, a uma das muitas serrarias que estão proliferando nesta região,  talvez insinuando que o maciço cacaueiro  não há de ter destino diverso do que teve as regiões Extremo-Sul e de Itapetinga e adjacências.

Aqui, não fosse a marca da lavoura cacaueira da Bahia ser sinônimo de concentração de terras e renda  em mãos de pessoas localizadas em meios urbanos, muitas vezes situados a mais de 500 quilômetros da unidade produtiva, deixando para as localidades em que se inserem um mercado gerado por uma economia rural de salário mínimo,  ter-se-ía  uma equação quase perfeita de produção agrícola, preservação florestal e desenvolvimento social e econômico de grandes contingentes da população.  No entanto,  o modelo agrário que vingou não apontou para essa direção.

Dado o processo agonizante da lavoura cacaueira, que não dá sinais de  reversão em curto e médio prazos,  está-se diante da iminência de uma intensificação da extração de madeira e de pecuarização de terras antes ocupadas pelo cultivo do cacaueiro.  Numa análise preliminar, trata-se de uma resposta  à necessidade de sobrevivência. Nesse sentido,  cada dia mais, a região do maciço cacaueiro vai  sendo palco real do drama da sobrevivência econômica de muitos, constituindo-se num grande laboratório social e agrícola. Acredita-se que esse processo, deixado a sua própria sorte, resultará na destruição do patrimônio natural ainda existente, com sérias implicações para os ecossistemas vizinhos, pecuarizados, e que já se ressentem da destruição da capa florestal original.

O programa Desenvolvimento Sustentável das regiões Litoral Sul e Extremo-Sul da Bahia, conservação da Mata Atlântica e Reflorestamento, aqui apresentado em suas grandes linhas e principais características,  visa a contribuir para equacionar o binômio progresso econômico e preservação ambiental, tendo em vista a necessidade de também assegurar condições satisfatórias de sobrevivência para as gerações  futuras. Numa expressão, visa a contribuir para um desenvolvimento sustentável, com ampliação substancial da oferta de empregos, geração de renda e realização de negócios, pois, como observou José Ignácio Tosta Filho, mentor do extinto Instituto de Cacau da Bahia-ICB, nos anos 30,  e da CEPLAC, nos anos 50, a prosperidade não pode se constituir em privilégio, precisa estar ao alcance de todos os cidadãos.

Por essa razão,  os diferentes projetos que compõem este programa têm, em última análise, profunda conexão com as temáticas economia e ambiente, alguns com ênfase maior na economia, como Desenvolvimento da agroindústria, Produção de energia e desenvolvimento de um pólo de óleo-química a partir da biomassa* e Sistemas agroflorestais em áreas cacaueiras decadentes e em áreas litorâneas. Outros projetos apresentam ênfase maior  no meio ambiente, como Conservação da diversidade vegetal e animal da Mata Atlântica,  Mata Atlântica, plantas ornamentais e paisagismo urbano e Saúde Humana e recursos vegetais e terapêuticos.  Em outros, meio ambiente e economia constituem uma construção harmoniosa, como Rios e bacias hidrográficas do Sul e Extremo-Sul da Bahia: da agonia à recuperação, Turismo, reflorestamento e Mata Atlântica. E, um último, Bairro Universitário, ou Eixo tecnopolitano de Ilhéus e Itabuna, pretende ser global. Em todos os projetos, imediata ou mediatamente, está presente, permeando o social, o homem e a qualidade de vida, presente e futura.  A insistência na Mata Atlântica  reflete a pretensão da Universidade Estadual de Santa Cruz de fazer dela um objeto prioritário de estudos e de ações, uma vez que essa Universidade se situa em seu centro.

Por sua vez, cada projeto está composto por um ou mais sub-projetos. Cada subprojeto tem sua lógica e características específicas: uns são mais teóricos, outros, mais práticos; uns centram-se na pesquisa e outros, na extensão e educação;  uns são mais ambientais, outros tentam responder a imperativos de ordem social e econômica, como geração de postos de trabalho e geração de receitas e de renda;  uns são mais acadêmicos, outros, comunitários e outros, ainda, governamentais. Em todos, porém, está implícita uma aposta na participação social e na construção de uma consciência mais cidadã. Cada projeto, de diferentes autorias, conta com uma coordenação e uma equipe técnica e esta, sempre que possível, com participação das comunidades. Por fim, há uma coordenação geral, com o propósito de promover a necessária interação e integração entre os projetos e subprojetos.

Não se trata de um programa completo e definitivo. Antes, trata-se de um programa, compreendendo múltiplas instituições e profissionais, aberto a sugestões e críticas, sensível a ponderações. Os projetos e seus subprojetos, delineados no corpo deste programa, também são passíveis de contribuições e críticas, uma vez que ainda estão em processo de construção, apesar de muitos estarem concluídos enquanto projetos. Outros, à medida em que pressupõem forte e permanente participação das pessoas e das comunidades, terão feição final no próprio processo de atuação.  

Este programa  apresenta um horizonte de tempo de cinco anos, não sendo todas as ações concomitantes, tampouco todas durem esse período. Todavia, todas as ações pretendem estar intrinsecamente interligadas, constituindo um conjunto coerente e consistente. Os projetos e o próprio programa não se encerram após o 5º ano; ao contrário, são de caráter permanente,  com duração continuada no tempo, porque a sustentabilidade é necessariamente um processo sem fim. 

O  programa entendido como um conjunto é o que há de mais importante. Esse tem primazia sobre seus projetos constituintes. No entanto, dada a grave crise que assola a economia cacaueira, têm urgência os projetos com potencial de geração de emprego, renda e realização de negócios, respeitando o paradigma da sustentabilidade ambiental. Concomitantemente, deverão merecer especial atenção os projetos de longo alcance, por serem básicos à construção de um modelo de desenvolvimento auto-sustentável, como os que visam a formar recursos humanos qualificados, de conservação da biodiversidade e de valorização da qualidade de vida.

São metas de médio e longo prazos deste programa a transformação da matriz cultural e econômica das regiões do Sul da Bahia, empobrecidas não apenas pela monocultura agrícola, mas, sobretudo, pela falta de criatividade, de iniciativa, de capacidade de empreendimento, em grande parte reflexo dessa mesma monocultura, indutora de mentalidades próximas ao rentismo e ao extrativismo. O desafio de tranformar  mentes, o êthos cultural, talvez seja mais difícil e mais complexo do que mudar a base econômica, mas uma e outra precisam mudar, conjunta e concomitantemente. Parecem sem futuro mudanças na matriz econômica divorciadas da matriz cultural, pois será essa que dará o tom, a coerência e a consistência do processo de desenvolvimento assentado num paradigma de sustentabilidade.

Por essas razões,  o presente Programa de desenvolvimento sustentável do Sul da Bahia,  com raízes   na ciência básica e nos pressupostos filosóficos  que têm no homem sua razão-de-ser  por excelência,  por intermédio de várias estratégias convergentes, representadas aqui pelos projetos e subprojetos que seguem,  objetiva contribuir para superar o desafio de harmonizar homem e natureza; saúde humana, equilíbrio  ambiental e  empreendimentos economicamente viáveis;  comunidades locais, reflorestamento, outras atividades agrícolas e não-agrícolas no ambiente rural  e florestas naturais; e, mais,  o urbano e o rural.

A concepção deste Programa  tem a pretensão, no sentido da filosofia de Habermas,  de construir  modelos válidos de convivência que otimizem a atividade econômica e a preservação ambiental,  incluindo o homem e sua comunidade.  E, como sublinha a Carta-Consulta da Universidade, visando a emancipação do homem regional, que é a razão de ser da própria Instituição, é essa utopia, e embora,   já um tanto tardia no Sul da Bahia e para grandes  parcelas da população deste país, ainda possível de realização, pelo menos para as próximas gerações, já que para a atual, provavelmente, o futuro passará batido.

Em síntese,  esse Programa pretende validar modelos de desenvolvimento sustentável para o Sul da Bahia,   sem abrir mão  das oportunidades econômicas, como o turismo, o florestamento, a agroindústria alimentar e outras, o cacau e outras alternativas agrícolas, bem como as diferentes criações  e a pecuária em suas versões tradicionais,  corte e leite. O Sul da Bahia precisa  encontrar alternativas econômicas e estas, coerentes com os imperativos de longo prazo ou da sustentabilidade.

Num desafio como este, seguramente, não haverá de faltar incompreensões, contradições, conflitos. No entanto, dado que não se trata de uma ação estanque, mas de um processo permanente, sob certos aspectos  utópico, centrado numa ética de valorização da vida e do homem, a educação ambiental não se constitui, a rigor, num projeto específico, pois sua promoção será o pano de fundo de todos os projetos e subprojetos enquanto conjunto. Isso porque, em última análise,  o ser humano e o que a sociedade for dele capaz de fazer, é que constitui o verdadeiro diferencial e a maior garantia de sustentabilidade para qualquer processo e projeto de desenvolvimento. 

 Projeto1. Conservação da biodiversidade da Mata Atlântica 

Projeto 2. Mata Atlântica, plantas ornamentais e paisagismo urbano 

Projeto 3. Saúde Humana e recursos vegetais e terapêuticos

Projeto 4.  Rios e bacias hidrográficas do Sul e Extremo Sul da Bahia: da agonia  à  recuperação

Projeto 5.  Turismo, Reflorestamento e Mata Atlântica

Projeto 6. Sistemas agroflorestais em áreas de cacau decadente e em áreas litorâneas 

Projeto 7.  Monitoramento da qualidade ambiental

Projeto 8.  Produção de energia e desenvolvimento de um pólo de óleo-química a partir da biomassa

Projeto 9. Desenvolvimento da agroindústria  

Projeto 10.  Bairro Universitário (Tecnópole Ilhéus-Itabuna)