DIVULGAÇÃO DE PESQUISAS ELEITORAIS E  DECISÃO DO ELEITOR

 Agenor Gasparetto

 

O texto DIVULGAÇÃO DE PESQUISAS ELEITORAIS E  DECISÃO DO ELEITOR  retoma artigo publicado na Revista IMES - Revista do Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano do Sul, São Caetano do Sul, SP, Ano XII - nº 33 - janeiro/abril de 1995, p. 16-30, sob o título Como as pesquisas influem no resultado das eleições.

 Gráficos em anexo

                                                                  

1.     Introdução

As eleições são o mecanismo pelo qual a sociedade distribui o poder político entre os seus cidadãos, conferindo legitimidade e legalidade aos governantes. Para Santos[1], “o processo eleitoral é um vasto mecanismo público de recrutamento político”. As eleições são um momento de crucial importância para a vida social e política das sociedades democráticas,  definindo-as,  porque não há democracia sem eleições, feitas por cidadãos livres, ainda que essa não se resuma ao voto. Santos[2] também afirma que, “em certo sentido, descobrir como e porque as pessoas decidem votar como votam é uma forma de violar o segredo do voto e antecipar prováveis resultados da soma de milhares, ou milhões, de escondidas decisões”. As pesquisas de intenções de voto revelam essas decisões. Ganharam importância tática e estratégica nos processos eleitorais. Nesses, contudo, uma questão sempre volta e suscita questionamentos e desconfianças: as pesquisas de intenções de voto. O objetivo deste estudo é explicitar a relação que há entre divulgação de pesquisas de intenções de voto e escolha do candidato pelo eleitor, tomando como referência o caso da eleição presidencial de 1994, que resultou na eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. 

 Neste estudo foram analisados aspectos concernentes à motivação ao votar, ao voto obrigatório e ao horário eleitoral gratuito, uma vez que essas variáveis se revela­ram associadas às razões da escolha do eleitor,  contribuindo para apreen­der o contexto e o alcance da divulgação de pesquisas de intenções de voto sobre a decisão  de segmentos de eleitores.  

A hipótese defendida é que a divulgação de pesquisas de intenções de voto exerce influência na decisão de parte do eleitorado, podendo essa ser suficiente, inclusive, para decidir os destinos de uma eleição em contexto de disputa acirrada[3]. Divulgadores dos resultados alegam que os eleitores têm  direito à informação. Sustenta-se, aqui, que, a rigor, trata-se mais  do direito de informar, por parte das empresas de comunicação, do que do direito à informação dos eleitores. No caso da televisão, por exemplo, a principal informação útil ao eleitor (do ponto de vista de uma tomada de decisão) e repassada sistematicamente ao mesmo, são esses resulta­dos. Essa divulgação, por sua vez, se constitui num fator de audiência e de venda de jornais, razão pela qual há, também, um fator mercantil.

 Em  defesa da hipótese acima referida foram evocadas as teorias relativas ao caráter desagregador  das altas taxas de inflação e da racionalidade humana. Visando testar à hipótese, foram tomados dados empíricos de pesquisas de opinião realizadas no curso da campanha presidencial de 1994, em Itabuna e em ou­tros municípios do Sul da Bahia,  tendo como um dos pontos de partida a expressão voto certo,[4] muito utilizada em campanhas eleitorais.

  

2. A questão da influência das pesquisas sobre o eleitor

 A propósito da influência da divulgação das pesquisas sobre o eleitor, parece haver uma relutância entre os pesquisadores em admiti-la, preferindo-se  posições ambíguas ou que buscam  sua atenuação. Rubens Figueiredo, no artigo Opinião Pública, Intencionalidade e Voto,  (1994),  enfatizando  o papel de relevo que assumiu a pesquisa nas disputas eleitorais afirma que  “não seria uma má definição para as eleições modernas: são aquelas onde o político tem um olho no eleitor e outro nos resultados da pesquisa” (p.73).  No entanto,  na página seguinte, esse mesmo autor afirma: “hoje, a pesquisa é uma fonte de  informação para o eleitor como qualquer outra e está demonstrado que a influência de sua divulgação sobre o eleitorado é muito relativa”. Aqui, parece estar havendo uma inconsistência entre a  original definição para as eleições acima afirmada e a assertiva de que a pesquisa é uma fonte de informação como qualquer outra.

 Os investimentos feitos em pesquisas e sua utilização pelos meios de comunicação e partidos políticos, bem como a experiência  mostram que a pesquisa não é exatamente uma informação como qualquer outra. Ao contrário, é uma informação especial. Trata-se da informação que, em última instância, sintetiza a força e o alcance de uma candidatura, soando como um pré-anúncio do veredicto das urnas. Nesse sentido, talvez seja a informação mais relevante na perspectiva do marketing e das estratégias pensadas e postas em ação pelas candidaturas. É como se ela se constituísse no pano de fundo e no calibrador de qualquer plano eleitoral.

 Da mesma forma, parece discutível que “está demonstrado que a influência de sua divulgação sobre o eleitorado é muito relativa”. Admitir, como se está admitindo, que numa eleição nenhum fato por si só é absoluto ou determinante, não pode nivelar pelo mínimo todos os fatores.  Evocar o argumento de que mesmo contra resultados de pesquisas desfavoráveis uma determinada candidatura apresenta desempenho superior ao revelado pela pesquisa não anula a hipótese, uma vez que dada a singularidade de cada processo,  nunca se saberá como teria sido se os resultados divulgados tivessem sido diferentes. A singularidade de cada processo eleitoral é um obstáculo intransponível, fazendo com que jamais se saiba o que teria acontecido se a divulgação dos resultados fosse outra.  O que se sustenta é o seu oposto, ou seja, uma divulgação subestimando posicionamento real tende a exercer influência no mesmo sentido, pois tenderia a induzir eleitores  ao voto útil ou ao voto ganhador.

 Dentre os estudos que abordam o problema em pauta destaca-se   artigo de Márcia Cavallari Nunes, Örjan Olsén e Joseph Straubhaar  O uso de pesquisas eleitorais em decisões de voto (1993).  Nesse artigo, os autores afirmam, inicialmente: “não tentaremos afirmar ou negar a influência dos resultados  das pesquisas eleitorais sobre as intenções de voto, ou sobre a decisão final de votar em um ou outro candidato”.  Segundo esses autores, esta posição é tomada por duas razões, pela dificuldade em precisar “o puro efeito bruto da pesquisa”, dada a complexidade da realidade, que é um fato, e porque “em países nos quais há várias pesquisas eleitorais realizadas por órgãos independentes com um registro histórico de exatidão, os resultados das pesquisas podem ser considerados apenas como mais uma fonte competindo no “livre mercado da informação”, fundamental ou indicativo da existência da verdadeira democracia” (Webb, 1986) (p.63).  Na página seguinte, no entanto, os autores afirmam: “este artigo aceita como dado o fato de que o acesso à informação - seja através de pesquisas eleitorais, da mídia ou dos políticos - tem um impacto no processo de decisão eleitoral” (p.64)

 A pesquisa a que esse artigo faz referência explorou a existência de um tipo de eleitor que se pauta, para sua tomada de decisão, no candidato que deverá sair-se vencedor. Esse eleitor seria altamente influenciável pela divulgação de pesquisas de intenções de voto, fenômeno esse conhecido como  efeito bandwagon. Pelos cruzamentos, identificam, como em nosso estudo, que há  “uma alta concentração de elementos pouco instruídos entre aqueles inclinados em direção ao líder, seja por razões táticas ou simplesmente “para não perder o voto” (p.73)  Diagnosticaram, quantificando, que  15,7% dos eleitores entrevistados admitiram ter usado as pesquisas eleitorais em suas decisões de voto nesta eleição ou em eleições passadas (p.69).   Diagnosticaram, (conforme Tabela 12, p. 71),  que 5,3% dos eleitores afirmaram que “Votei no candidato que estava na frente”;  identificaram que 1,9% dos eleitores afirmaram que “Votei em quem estava na frente para não perder meu voto”;  que 4,7% disseram “Votei no candidato que tinha mais chance de vencer quem estava na frente”; que 2,6% disseram que “Votei no mais semelhante a meu candidato, que poderia vencer quem estava na frente”; que 2,6% disseram que “Não votei ou anulei meu voto, porque meu candidato não tinha chance”; além de outros 3,1% que apresentaram “outros tipos de decisão”.

 Os dados empíricos dessa pesquisa e as observações de seus autores revelam o quanto é relativa a afirmação de que “a pesquisa é uma fonte de  informação para o eleitor como qualquer outra e está demonstrado que a influência de sua divulgação sobre o eleitorado é muito relativa”. Os resultados parecem inequívocos quanto à influência direta e indireta da divulgação das pesquisas sobre segmentos de eleitores. Sabendo-se que algumas disputas são decididas por pequenas margens, esses resultados  parecem mais do que suficientes para um posicionamento mais categórico quanto à influência.  Para finalizar, no seu  final, os autores ainda fazem um questionamento relevante: “Poderiam as pesquisas eleitorais estabelecer uma inclinação inicial em direção ao candidato na liderança que, por sua vez, contribuiria para uma atenção seletiva e retenção das mensagens durante o resto da campanha? Se isso for verdade, mesmo o alto grau de competição das outras fontes de informação pode ter seu impacto potencial diminuído” (p.74).  

 Pensa-se, todavia, que há uma situação em que a divulgação de pesquisas, assim como a mídia unidirecional, teria efetivamente uma influência mínima: em situações em que   um clima de grande liberdade de expressão conjugado a um conhecimento pleno de todos os fatos e fatores relevantes acerca dos candidatos, ou seja, em climas-contextos marcados pela transparência e pleno conhecimento dos candidatos e dos fatos que fazem uma campanha política. Esse clima-contexto é possível, sobretudo em pequenas comunidades. E quanto maior for a opacidade de um contexto e quanto menos essas condições estiverem satisfeitas, maior será a probabilidade das pesquisas exercerem influência. O fato do voto-ganhador ou efeito bandwagon incidir sobretudo sobre os menos instruídos é revelador disso. 

 Fabian Echegaray,  no artigo “Voto Econômico ou Referendum Político? Os Determinantes das Eleições Presidenciais na América Latina - 1982-1994”,  de certa forma explorou a hipótese aqui defendida. No entanto, as perspectivas são diferentes: em primeiro lugar, porque não se participa da distinção entre voto econômico (desempenho da economia, medida por  indicadores macro-econômicos como crescimento do PIB, PIB per capita,  taxas de inflação, índices de desemprego, entre outros),  e  voto político ou popularidade  presidencial. O desempenho da economia tem no Presidente um ator de suma importância, mas não é o único responsável pelo mesmo, além do fato de que o mais razoável  numa possível relação entre economia e voto é que o nível que importa não parece ser tanto o do país, mas o do eleitor, de seu bolso. Caso a relação se desse nesse nível, os resultados seriam seguramente outros e, provavelmente, mais próximos da imagem ou popularidade presidencial, que sobressaiu no estudo desse pesquisador “como o único efeito significativo para determinar a quantidade de votos que o candidato oficial recebe”[5].  Em segundo lugar,  participa-se da perspectiva  de que compete ao presidente administrar não apenas a economia do país, mas também os anseios e esperanças do povo. Nesse sentido, a dimensão economia conjuga-se às demais dimensões da vida e do papel  de um presidente, governador ou prefeito.  

Na tentativa de dar maior consistência à explicação da influência da divulgação de pesquisas de intenções de voto,  a via perseguida não se situa no eixo argumentativo de possíveis manipulações de dados ou de falhas técnicas, em algum momento do processo de pesquisa, ou de sua divulgação, possíveis, todavia.  A questão é de ordem ética e política. O questionamento da isenção metodológica dos institutos é possível. Mesmo assim, toda pesquisa é uma tentativa de aproximação da realidade, daí a margem de erro com que todas trabalham. Nesse sentido, todas as pesquisas revestem-se de fragilidade. A esse propósito, quase todos os institutos comparam seus prognósticos com o resultado das urnas. Para tal, no entanto, não costumam utilizar a pesquisa do dia anterior ou de dois dias antes, mas a pesquisa de boca de urna, em que são ouvidos eleitores depois do exercício do voto.[6]  

 O eixo argumentativo deste estudo situa-se na diversidade e complexidade das manifestações do comportamento humano, na sua racionalidade nem sempre muito compreensível. Outro elemento desse eixo são os efeitos provocados pelas altas taxas de inflação na psique das pessoas.  Aqui, a necessidade de segurança,  sobretudo das pessoas mais indefesas e mais expostas ao poder corrosivo das altas taxas de inflação, contribui  para explicar o processo sucessório, 1994, bem como o anterior, quando Collor se elegeu presidente do país, em 1989.

 Sobre o poder desagregador das altas taxas de inflação,  o pensador Elias Canetti, em sua obra Massa e Poder, expressou com muita propriedade os efeitos devastadores das mesmas sobre a psique humana e na própria sociedade, que podem ser resumidas numa forte tendência à desagregação e à desorientação, em todos os sentidos, induzindo as pessoas, sobretudo as mais pobres e menos instruídas, a tentarem se agarrar a alguma tábua salvadora. Num contexto de incertezas, de instabilidade, a ansiedade por soluções, às vezes mágicas ou ilusórias, por parte dos mais necessitados é uma realidade. (Talvez isto contribua para explicar o surto de seitas religiosas e seu avanço no período recente da história do país). E isto explica, em grande parte, porque Collor, presidente afastado, em 1989, logrou vencer as eleições presidenciais daquele ano. Recorda-se que, naquele preciso momento, a população ansiava profundamente pela estabilidade que Collor prometia (e tentando passar a imagem de eficácia e força, como obra de um único tiro!), e segmentos importantes da sociedade, com destaque para a Rede Globo, avalizaram esse anseio popular convertido em promessa de campanha e essa espertamente capturada por Collor. O efeito social e benéfico da estabilidade econômica ocorre em todos os segmentos da vida social. A estabilidade econômica era extremamente desejada pela  população. A poucos dias das eleições presidenciais de 1994, para ilustrar, o Plano Real tinha mais de 70% de conceitos 'bom' ou 'muito bom'  contra menos de 10% de conceitos 'ruim' e 'muito ruim', em Itabuna, cidade administrada pelo PT, coligado com o PSB, e cuja administração, na época,  possuía  cerca de 60% de conceitos 'bom' e 'muito bom', contra menos de 10% de 'ruim' e 'muito ruim'.

 No livro Pesquisa & Política, a sua última unidade traz como título O papel da pesquisa e o mote da próxima eleição, no caso, a de 1994. O papel da pesquisa está sendo revisto neste estudo e o mote a que se estava fazendo referência era a ansiedade do eleitor por um "salvador".[7] Nesse sentido, até a implementação do Plano Real e da nova moeda, num contexto de altas taxas de inflação, Lula capitalizava essa condição e esse sentimento, profundamente enraizado na população. Com a estabilidade representada pelo Plano Real,  esse se converteu no salvador e Fernando Henrique Cardoso, pela sua vinculação, passou a capitalizar eleitoralmente os seus efeitos. Mendes e Venturi[8], analisando os resultados da sucessão de Itamar Franco, apontaram claramente o seu fator explicativo maior. Após elencarem todos os fatos que marcaram aquele processo eleitoral, não titubearam em afirmar que  “do ponto de vista do eleitorado a alteração radical do quadro sucessório foi regida por um único movimento: a implementação da segunda etapa do Plano Real, com a troca da moeda e a queda abrupta da inflação. Todos os demais acontecimentos ou passaram ao largo das considerações do eleitorado ou, quando muito, apenas amplificaram o efeito do Real no processo eleitoral”.  Esta análise, baseada numa série de pesquisas do Datafolha, traçando um paralelo entre a avaliação do Plano Real (que em grandes linhas coincidia com a avaliação da própria administração federal) e intenções de voto, atesta de forma cristalina a hipótese de que eleições para cargos executivos tendem a assumir feições plebiscitárias.  Sendo assim, o Plano Real, na medida em que mudou o cenário desse processo sucessório, subverteu o quadro anterior. É como se Lula, de uma hora para outra, se visse num palco mudado, sem tempo e condições de se adequar ao mesmo.

    Nessa eleição presidencial, com o Plano, adveio uma polarização precocemente posta e não houve sinais de uma onda eleitoral, tão forte foi seu impacto, exceto o crescimento de Enéas, talvez por se constituir na única opção efetivamente assumida de "direita" nessa campanha e, em parte, pelo seu aspecto físico, seu estilo e suas idéias. Afora isso, nada. Aliás, o que ocorreu foi, inclusive, o refluxo, no período final, dos percentuais de Brizola. No curso do horário eleitoral gratuito, por exemplo, Amim, Quércia e Brizola pareciam falar a ouvidos surdos e os seus argumentos e suas realizações.  Isso explica-se, em grande parte, pelo caráter plebiscitário que tendem a assumir eleições para cargos executivos e, em parte, pelo marketing das diferentes candidaturas, destacando-se o papel das pesquisas de intenções de voto e sua divulgação.  Na eleição de 1989, Aureliano Chaves e Ulisses Guimarães talvez tenham sido os nomes que mais evocaram o quadro da eleição de 1994, em que candidaturas pareciam  natimortas, independentemen­te do discurso, da biografia, do partido  e do tempo que dispunham no horário eleitoral gratuito.

 Afora o caráter plebiscitário acima referido, no que tange à influência das pesquisas eleitorais, está a expressão voto certo. Na tentativa de elucidar o sentido dessa expressão muito utilizada em eleições, abre-se, também, a perspectiva de descortinar a influência da divulgação de pesqui­sas de intenções de voto numa sucessão eleitoral. A função da expressão é, aqui, apenas o de abrir caminho para aclarar a questão dessa influência. A pergunta que intriga é: "o que se passa na mente do eleitor quando alguém (pessoa, político, anúncio publicitário etc.) lhe pede para votar certo?".

 

3. 'Votar certo' e razões do voto  

 O bom senso aponta que votar certo, ética e politicamente falando, significa escolher o candidato melhor ca­pacitado para exercer o mandato, supondo serem as virtudes da integridade moral e visão de estadista as fundamentais. Há, contudo, quem vote pensando no bolso. Apesar de ser relativamente comum a troca de favores (mercantilização do voto) e isto em todos os segmentos sociais (uns trocando votos por miçangas - "safra de pobre" - e outros, por cargos ou outras vantagens), o senso comum também dava conta de, pelo menos, uma terceira categoria:  eleitores que se orgulhavam em ostentar o acerto no voto, ou seja, a coincidência entre os candidatos votados  e os candidatos vitoriosos nas urnas.

 Sendo assim, foi formulada questão tentando captar esses três principais conjuntos de eleitores,  segundo a motivação principal ao votar, radicalizando-a: eleitores que votam esco­lhendo aquele que seria o melhor, tendo em vista o interesse do conjunto da socie­dade; eleitores que votam pensando na perspectiva de ganhos pes­soais, que mercantilizam, de alguma forma, o seu voto, podendo essa ser passada (retribuição), presente(troca) ou futura (promessa); e eleito­res que apostam pura e simplesmente no ganhador, cuja escolha não se prende a razões de ordem ideológica e que passam a ostentar o ganhei!; em resumo, respectivamente, tem-se o eleitor que vota-consciência, o que vota-mercantilmente e o que vota ganhador, como será doravante denominado esse último e que, neste estudo, será o foco da análise. Obviamente, na realidade, teremos a combinação em graus variados dessas modalidades, sendo essa simplificação um recurso metodológico. 

A pergunta formulada em Itabuna, em meados do mês de setembro de 1994, foi a seguinte: “Na sua opinião, quando alguém diz que vai votar certo, o que ele está querendo dizer?” As alternativas de resposta oportunizadas foram: (a)“votar no melhor para ele mesmo”;  (b)“votar no melhor para a sociedade”; (c)“votar naquele que vai ganhar” e, uma variante dessa última; (d)“votar ganhador para não perder o voto”, além das alternativas “não sabe” e “não respondeu”. Os resultados estão na Tabela 1, a seguir: 

Tabela 1. “Na sua opinião, quando alguém diz que vai votar certo, o que ele está querendo dizer?” Itabuna, Ba, 1994.

Alternativas de resposta

casos

%

Não sabe/não respondeu

102

 13,0

Votar no melhor para si mesmo

149

 19,0

Votar no melhor p/ a sociedade

314

 40,1

Votar no que vai ganhar

 52

  6,6

Votar no ganhador p/ não perder o voto

167

 21,3

Total

874

100,0

Fonte: Sócio Estatística, setembro de 1994.

 

O total de intenções de voto no que vai ganhar e/ou voto-ganhador é de 27,9%. Contudo, quando se passa da forma impessoal para uma forma  direta, os resultados mudam, como pode ser observado na Tabela 2, resultante de uma outra pesquisa:

 

Tabela 2. “Para você, o que significa votar certo?”  Itabuna, Ba. 1994.

Alternativas de resposta

casos

%

Não sabe/não respondeu

37

5,3

Votar no melhor para si mesmo

69

9,8

Votar no melhor p/ a sociedade

536

76,4

Votar no ganhador p/ não perder o voto

60

8,5

Total

702

100,0

Fonte: Sócio Estatística, setembro de 1994.

 

O total de intenções de voto no que vai ganhar e/ou voto-ganhador cai para apenas 8,5% dos eleitores amostrados, quando a forma de pergunta é personalizada. Há uma tendência do eleitor em projetar nos outros tanto a prática do voto-mercantil quanto do voto-ganhador. Estes dados revelam que pode estar havendo algum fator de constrangimento nesses dois tipos de voto.   

 Essa questão, na forma personalizada, foi também formulada em outros dois pequenos municípios: Itapebi e Uruçuca, ambos localizados no Sul da Bahia, sendo que em Itape­bi os dados se referem a duas amostras, todas colhidas em setem­bro de 1994. Os resultados nesses dois municípios estão na Tabela 3, a seguir: 

 

Tabela 3. “Para você, o que significa dizer  votar certo?” em Uruçuca e Itapebi, Ba.1994.

Alternativas de resposta

Uruçuca (%)

Itapebi (%)

Não sabe/não respondeu

18,6

23,8

Melhor para si mesmo

8,4

7,8

Melhor p/ a sociedade

57,5

50,1

Ganhador-p/ não perder o voto

15,5

18,3

Eleitores pesquisados (Nº)

415

411

Fonte: Sócio Estatística, setembro de 1994.

 

O somatório de eleitores que afirmaram votar no ganhador os­cila entre 15,5% em Itapebi e 18,3% em Uruçuca. Observa-se, ainda, que a avaliação das administrações nos municípios de Itabuna, Itapebi e Uruçuca tendem ao positivo.  A influência da divulgação das pesquisas de intenções de voto sobre o eleitor incide direta e precisamente sobre esse contingente do eleitorado que tem como critério defi­nidor de seu voto a perspectiva eleitoral das diferentes candidaturas. A rigor, caso se pense num contingente entre 5% e 20% do eleitorado que possui esse viés eleitoral num contexto social como o Sudeste da Bahia parece ser grande o campo da influência da divulgação de pesquisas de intenções de voto.  

 Quando esse eleitor toma conhecimento da situação eleito­ral das candidaturas, em face de seu critério de escolha,  os discursos caem no vazio, uma vez  que a decisão já foi tomada e o que interessa a esse eleitor já foi informado e seguidamente vem sendo alimentado pelos meios de comunicação. Observa-se que, mesmo no dia e noite anteriores à eleição presidencial de 1994, essa preciosa informação lhe foi re­passada em tom de fato consumado. Nesse contingente de e­leitores, graças à pesquisa divulgada, não há espaço para a reflexão e a decisão é precocemente tomada de empréstimo da pesquisa e de quem a divulgou.

 Esse voto certo não se confunde, apesar de ter interseção, com o voto útil, pressupondo que neste o eleitor faz a escolha não pelo coração, mas dentre os eleitoralmente viáveis. No entanto, mesmo aqui, no voto útil, faz-se sentir a presença forte do efeito indutor das pesquisas, que acabam tirando o pouco dos que pouco têm, fazendo valer o preceito bíblico conhecido como efeito Mateus,  de que será tirado dos que pouco têm, ao passo  que aos que mais têm ser-lhes-á dado mais.  

 Nessa busca de respostas para a questão da influência da divulgação das pesquisas de intenções de voto sobre a decisão do eleitor, outros fatos que compõem o contexto eleitoral ganham significação, como a estagnação de algumas candidaturas. Nesse sentido, assim como na eleição presidencial de 1989, também na de 1994, suscitou interrogações o fato de certas candidaturas não decolarem. Aqui, o problema não se radica e não se encerra, seguramente, no discurso, nos argumentos. E por mais que o candidato argumente, nesse contingente de eleitores em pauta,  não há ouvidos, não há repercussão. Só o benefício de um fato de excepcional importância, como o Plano Real, por exemplo, poderia fazê-los postulantes efetivos do cargo em disputa. Esses travam uma luta inglória, sem futuro e, por ironia, do pouco que possuem, as pesquisas acabam lhes tirando parte, quer seja através do voto certo en­tre os que poderiam conquistar, quer seja através do voto útil dos que sacrificam a opção do coração pela do pragmatismo eleitoral.   

4. Traços do eleitor que vota-ganhador 

 No intuito de compreender a natureza das intenções de vo­to, decidiu-se pela realização de teste de associação de variáveis. O teste utilizado foi o Qui-quadrado. Esse teste compara o valor encontrado na pesquisa de campo com valor teoricamente esperado, supondo nenhuma influência da variável em questão na decisão do eleitor.  As razões da intenção de voto foram associadas com as va­riáveis classes sociais, sexo, níveis de instrução, faixas etárias, intenções de voto, quem vai ganhar, obrigatoriedade do voto e audiência ao horário eleitoral gratui­to. E por razões do voto  estão sendo entendidas, aqui, as três motivações de voto anteriormente citadas, o voto-mercantil, o voto-cidadania e o voto-ganhador, se a motivação principal do mesmo tiver sido retribuição/expectativas de ganhos pessoais, o melhor para a sociedade na opinião do próprio eleitor ou o orgulho de seu voto ser para o candidato vitorioso, res­pectivamente. 

 

Razões do voto e classes sociais

 As classes sociais, via de regra, constituem-se em fator de explicação das intenções e das razões do voto. Noutras palavras, é pressuposto que a razão da intenção de voto de um eleitor tenha relação com o fato do mesmo pertencer a uma ou outra classe social. As classes sociais são, aqui, agrupamentos de eleitores em função de sua situação econômica. No intuito de não pulverizar a informação, foram agrupados os eleitores em apenas três grandes grupos: o primeiro, englobando as classes sociais A, B e C, o segundo e terceiro, compreendendo as classes D e E,  englobando os estratos sociais mais pobres, respectivamente. Aqui, observou-se  forte associação entre classes sociais e razões da intenção de voto (associação significativa a 1%). A direção dessa associação se dá no seguinte sentido: os que afirmam votar pensando no melhor para a sociedade tendem a pertencer às classes A, B e C; entre os perten­centes à classe social mais pobre, E, observa-se tendência opos­ta. A opção pelo voto ganhador é uma tendência das classes menos favorecidas, D, mas, sobre­tudo, da E, ocorrendo o inverso com as classes A, B e C.[1] Observa-se, também, que não há associação entre classes sociais e voto-mercantil, ou seja, barganhar com o voto não é uma exclusividade dos mais pobres.

 

Razões do voto e faixas etárias

 Aqui, também, no intuito de não pulverizar, os eleitores foram agrupados em três gran­des grupos: até 30 anos, mais jovens,  de 31 a 50 anos e mais de 50 anos, mais idosos. A associação entre faixas etárias e razões do voto, no entanto, revelou-se fraca, sendo significativa apenas a 8%. Ob­serva-se que há, aqui, leve tendência dos mais jovens pensarem no melhor para a sociedade e para si mesmos, e os mais idosos vota­rem mais ganhador.

 

Razões do voto e sexo                        

Observa-se que as mulheres tendem a votar pensando no me­lhor para si mesmas, enquanto que os homens tendem a votar pen­sando no melhor para a sociedade. Há, ainda, leve tendência da mulher votar mais ganhador do que o homem (teste significativo a 2%). No entanto,  esse comportamento se deve  a outras variáveis, como classes sociais, níveis de instrução, por exemplo. A esse respeito,  entre os homens, há tendência do eleitor que vota-ganhador pertencer as classes mais pobres, D e E (teste significativo a 5%). Tendência observada entre os homens também ocorre entre as mulheres, porém mais forte, ou seja, as mulheres mais pobres tendem a votar mais ganhador, não se  observando o mesmo com as mulheres das classes mais abastadas.

 

Razões do voto e níveis de instrução 

Os eleitores foram classificados segundo a última série e nível de ensino freqüentado, denominados níveis de instrução.  Os níveis de instrução formal expressam, via de regra, conhecimentos úteis à sobrevivência no mercado e na sociedade, mas não necessariamente, ao contrário do que pressupunha, por exemplo, o discurso do candidato Enéas, quando absolutizava o aspecto meramente formal da instrução,  como se estivesse querendo  desacreditar a candidatura Lula, no que, embora de forma mais sutil e elegante, coincidia com estratégias da propaganda eleitoral de Fernando Henrique e, inclusive, com campanha nos meios de comunicação  em favor da Educação da UNICEF e da Fundação Emílio Odebrecht, veiculada no período imediatamente anterior à eleição. Há, aqui, associação altamente significativa (1%) entre níveis de instrução e razões das intenções de voto. Quanto maior o nível de instrução, menor é a probabilidade de ocorrência do voto-ga­nhador e  quanto menor o nível, maior. Os eleitores com segundo grau e superior, bem como os que possuem de 5ª a 8ª sé­ries, tendem a votar mais pensando no melhor para a sociedade.  Quando se faz a associação entre razões do voto, níveis de instrução e sexo, observa-se o seguinte: há forte associação en­tre nível de instrução e voto-ganhador entre as mulheres, sendo que esse é um comportamento mais freqüente entre as que não sabem ler ou tem ape­nas até a 4ª série. Entre as que possuem 2º grau ou curso superi­or, essa motivação de voto é pouco observada.  Isto significa que em uma sociedade em que o padrão de instrução escolar for elevado, o problema foco dessa pesquisa deve ficar reduzido a um nível residual.  O voto-ganhador tende a ser uma função da ignorância. Por essa razão, é preciso contextualizar social e culturalmente essa discussão para não incorrer no equívoco analítico de concluir para o conjunto a partir de uma realidade específica desse.

 

Razões do voto, voto obrigatório e assistência e/ou audiência ao horário eleitoral gratuito

 A lógica de modelo explicativo das intenções voto, para manter coerência e ganhar consistência, deveria também estar associ­ada com as variáveis obrigatoriedade do voto e assistência e/ou audiência aos programas do horário eleitoral gratuito. Decorre desse modelo que o eleitor que se pauta, para tomar sua decisão, na perspectiva eleitoral das diferentes candidaturas, o que vota ganhador, possui reduzido grau de consci­ência política.,  trazendo à lembrança o conceito de analfabeto polí­tico,  aludido por Bertold Brecht. Esse eleitor, de­sinteressado, relativamente indiferente à política do ponto de vista ideológico, vota porque é pressionado pela Lei. Caso o voto fosse não obrigatório, seria aquele que com maior probabilidade deixaria de comparecer à sua seção eleitoral. Sendo assim, esse eleitor, o do voto ganhador, também deveria possuir pouco inte­resse pelo horário eleitoral gratuito pelas razões expostas até aqui e porque a informação de que se vale para tomar sua decisão é dada de forma sistemática, até na noite véspera da eleição, livremente, pela televisão. No intuito de reforçar o grau de plausibilidade da hipótese que está norteando este estudo, portanto, também se aplicou teste de associação para as variáveis voto obrigatório e assistência e/ou audiência ao horário eleitoral gratuito no rádio e/ou televisão.

 Em Itabuna, a poucos dias da eleição de 3 de outubro de 1994, os eleitores que votariam mesmo que o voto não fosse obrigatório representavam 50,7% do eleitorado; os que poderiam vir a votar somariam  4,7%; e  os que deixariam de votar somariam o restante do eleitorado, 44,7%. No teste de  associação, visando assegurar maior consistência, à categoria 'sim' também foi agregada a alternativa 'talvez'. Os eleitores que responderam  não votar, sendo livre opção do cidadão a decisão entre  exercer ou não  esse direito, tendem a votar mais mercantilmente e ganhador. Já os que votariam mesmo que o voto não fosse obrigatório  votariam menos ganhador e menos mercantilmente. Obviamente, em contextos em que a mercantilização do voto se constituir numa prática comum, o comparecimento poderia ser motivado ou condicionado por esse fator.

 A associação entre razões do voto e assistência e/ou audi­ência ao horário eleitoral gratuito revelou-se altamente significativa (a 1%). Os eleitores que não assistem e/ou não ouvem o horário elei­toral gratuito tendem a votar-ganhador e a votar mercantilmente.  Para completar essa análise, também foi  testada a  associação entre obrigatoriedade do voto e audiência e/ou assistência ao horário eleitoral gratuito, bem como obrigatoriedade do voto com  intenções de voto para presidente, como ilustração.

 

Horário Eleitoral Gratuito e obrigatoriedade do voto

 Ensejou-se saber, aqui, qual a relação existente entre horário eleitoral gratuito e obrigatoriedade do voto. Os eleitores que não assistem e/ou não ouvem o horário e­leitoral gratuito tendem a pertencer mais ao estrato dos que vo­tam porque são obrigados a esse dever por força da Lei e que tenderiam a não votar, se lhes fosse facultado decidir entre votar ou não votar. E os eleitores que assistem e/ou ouvem o horário eleitoral gratuito tendem a pertencer mais ao estrato dos que votam mesmo sem a  obrigatoriedade (Teste significativo a 1%). Partindo-se do pressuposto de que a concepção do exercício do voto, enquanto direito, e não como obrigação, é expressão do grau de alfabetização política ou de consciência cívica de um povo, pode-se inferir que o horário eleitoral gratuito, apesar das tentativas de desacreditá-lo, constitui-se numa fonte importante de esclarecimento dos eleito­res, sendo salutar sua manutenção.  

 

Obrigatoriedade do voto e intenção de voto para presidente

 

Por fim, testou-se a associação entre obrigato­riedade do voto e intenção de voto para presidente, na eleição de 1994. Os eleitores que vo­tariam mesmo sem a obrigatoriedade do voto tendem a votar mais em Lula e Fernando Henrique e menos em branco, nulo ou a estar in­decisos. (Esses, via de regra, devem ser interpretados como indi­ferentes). Entre os que não votariam, caso votar não fosse obriga­tório, a  tendência é votarem mais nulo, branco ou  ficarem como indecisos. (Teste significativo a 1%).  Há, também, uma tendência entre os que escolheram outros candi­datos, em não votarem, caso não houvesse a obrigatoriedade, ou seja, há neles uma maior apatia ou maior desinteresse.  Interpreta-se essa diferença em relação aos eleitores de Lula e Fernando Henrique Cardoso, ao fato da situação dessas outras candidaturas está espelhando, a rigor, a desilusão de cunho pessoal do eleitor, dada à ineficácia do seu voto, já que seus candidatos  não apresentavam viabilidade e­leitoral nessa eleição. Não se trata, necessariamente, de uma descrença na instituição voto, mas de uma apatia induzida pela divulgação das pesquisas eleitorais.  

  

5. Reflexões finais

 O fenômeno do voto-ganhador  explicita um problema ético para os meios de comunicação e para os institutos  de pesquisa, uma vez que, além das lógicas  mercantil e/ou político-partidária de quem encomenda, produz e/ou divulga pesquisas,  há outros valores em questão.

 O principal resultado deste estudo aponta para o caráter de interferência sobre a decisão de parte do eleitorado, exercido pela divulgação das pesquisas eleitorais. A neutralidade pressuposta na sua divulgação corresponde a uma pretensão.  A indução da divulgação das pesquisas de intenção de voto produz vários efeitos que não parecem desejáveis:

 Primeiramente, porque fornece a um contingente do eleitorado a informação que esse precisa para sua decisão de votar no candidato que possui maiores perspectivas elei­torais, independentemente de qualquer outra razão. Sobre esse eleitor, a influência da pesquisa é grande. Não está fora de cogitação, sobretudo em eleições municipais, a possibilidade desse eleitor chegar a concluir sobre quem vai ganhar sem o concurso das pesquisas, mas por outros meios, como comícios, carreatas, por exemplo. Nesse caso, pouco comum, continua valendo a lógica do voto ganhador, ainda que a fonte dessa convicção não tenha sido necessariamente derivada das pesquisas divulgadas.  

 Em segundo lugar, porque a candidatura com melhores perspectivas acaba sendo abrigo a toda sorte de oportunistas políti­cos, prejudicando a formação de um governo internamente coeso, consistente, coerente com seus princípios progra­máticos.

 Em terceiro lugar, porque induz ao descrédito as  candida­turas pior situadas no ranking das pesquisas, que parecem condenadas a morrer um pouco após cada divulgação. A decorrência natural desse processo é a condição de candidaturas natimortas.  Noutras palavras, as pesquisas contribuem para tirar um pouco aos que pouco já têm, dando-o aos que mais têm. Esse processo se dá pela via do voto útil, antecipado já  do 2º  para o 1º turno das eleições.

 Em quarto lugar, produz no eleitor que tende a escolher uma alternativa do coração, uma apatia,  uma descrença no seu voto, como evidenciou associação entre voto obrigató­rio e intenção de voto para presidente. Como há uma tendência cultural a se associar primeiro com maior e/ou melhor, é possível que eleitores, de tanto os meios de comunicação apresentarem um candidato como o primeiro, com o tempo, com a massificação, acabem concluindo que se trata efetivamente do melhor.

 O efeito da divulgação das pesquisas de intenção de voto sobre o eleitor é proporcional à sua credibilidade. Nesse sentido, nos locais e nos eleitores em que a credibilidade das pesqui­sas, em face de antecedentes e conhecimentos, estiver posta em dúvida, o seu efeito tende a ser menor ou nulo. E este fato aponta soluções para conciliar os interesses, de um lado, de  quem realiza pesquisa e de quem as divulga e, de outro,  os interesses das candidaturas que não ocupam as primeiras posições nas pesquisas e os interesses da própria sociedade,  que é o de assegurar a todas as candidaturas um máximo de igualdade de condições na disputa.

 As pesquisas, portanto, estão longe da neutralidade e não  é suficiente fazer de conta que as questões pertinentes às pesqui­sas se circunscrevem a questões de ordem metodológica. Hoje, todavia, é pouco provável que a sociedade deixe de ter nas pesquisas um referencial. No entanto, acima de corporativismos e de interesses particulares, deve-se situar o interesse maior da sociedade. Nesse sentido, parece  razoável a adoção de medidas que possam neutralizar a tendência de ver as pesquisas, pelo eleitor, e de apresentá-las, pelos institutos e pelos meios de comunicação, como infalíveis, como instrumentos que sempre acertam, como se fosse a função das urnas ratificar o seu acerto (via de regra, por sinal, bom).  Neste ponto está, seguramente, o aspecto que mais interfere e prejudica candidaturas e o livre curso das eleições. É também, por outro lado, o fator que confere maior credibilidade aos institutos e também aos meios de comunicação, já que esses não tendem a divulgar qualquer pesquisa, mas divulgar as que julgam atender a pré-requisitos mínimos de seriedade, logo, sendo  co-responsáveis pela divulgação, avalizando-a.

 A questão passa a ser, portanto, a de como conciliar a necessidade dos institutos continuarem merecendo credibilidade pública, condição essa diretamente associada ao seu desempenho, de um lado, e, de outro, a necessidade de preservar a sociedade de influências não desejadas e não convenientes à construção de uma sociedade  democrática. Recorrer ao direito de informar como defesa incondicional da divulgação das pesquisas parece ser  insuficiente, pois atende  apenas a um dos pólos da questão. Não se trata, portanto, de proibir a realização e a divulgação de pesquisas eleitorais, mas de definir-lhe limites, de torná-las mais transparentes, neutralizando seu poder de influência.

 Por fim, a propósito do voto ganhador ou do voto certo, observa-se que há uma cultura favorável ao mesmo. Por exemplo, no progra­ma de notícias TJ Brasil do SBT, do dia 4 de outubro de 1994, Boris Casoy anunciava o segmento seguinte daquele programa jornalístico com uma expressão que poderia ser traduzida no seguinte: Lula minimiza fracasso valorizando aumento das bancadas.  E, na reporta­gem, a repórter, por várias vezes, falou em  clima de fracasso e imagem de derrota, mesmo tendo um Lula, a sua frente,  insistindo em dizer o contrá­rio. Observa-se que com semelhante  forma de apreender e inter­pretar os resultados de uma eleição, não soa assim tão  estranho que eleitores, sobretudo das classes mais pobres e menos instruí­dos, apostem no ganhador e através desse acerto elevem sua auto-esti­ma.

 Em suma, na base do problema do voto-ganhador sobrevive uma realidade complexa e de difícil superação, particularmente quando o principal meio de comunicação, a televisão, simplifica em demasia, reduzindo os resultados de uma eleição em termos de vencedor e fracassados, como se o processo político se encerrasse na apuração de uma eleição; como se a oposição não fosse de grande relevân­cia para a estabilidade e saúde da própria democracia, para não falar do Governo. Portanto, na base da cultura do voto-ganhador há uma cultura que simplifica e descaracteriza demasi­adamente os papéis reservados aos diferentes atores no processo político, que têm, obviamente, na eleição, uma instância divisora de águas.

 Outras inferências oportunizadas por este trabalho apontam para a oportunidade do voto livre, não obrigatório, à medida em que a obrigatoriedade tende a  favorecer mais  o voto-ganhador e o voto-mercantil. O voto livre, portanto, é desejável, defensável, porque contribui para uma consciência cívica maior. Essas inferências apontam, também, para a importância, considerando a perspectiva da informação ao eleitor mais interessado nos destinos políticos do país, a manutenção do horário eleitoral gratuito, conquista que deve ser preservada.

 O eleitor que vota ganhador no Sudeste da Bahia, está fortemente associado com classes sociais e níveis de instrução. O aprofundamento dessa análise e a realização de outros estudos, em outras regiões, permitirá estimar o grau de generalização deste fenômeno e o efetivo alcance da divulgação das pesquisas em  uma eleição. 

 


[1] Conforme Santos, Wanderley Guilherme dos,  Eleição, Representação, Política Substantiva in Dados. IUPERJ, RJ, nº 8, 1971, pp7-25, p.20.  

[2] Santos, op. cit., p. 7.

[3]  Uma outra forma de abordar essa problemática pode ser apreendida a partir da seguinte questão: qual o princípio que comanda a seleção das notícias e fatos e suas manchetes nos meios de comunicação?   Participa-se da opinião de que o princípio que comanda a seleção dos fatos e notícias é sintonizar com o interesse do leitor, telespectador ou ouvinte e, talvez, uma inconfessada intencionalidade de influenciá-lo.  Nesse sentido, informações insossas e inúteis não costumam virar manchetes.  

[4] No processo sucessório municipal de 1992, o mote das campanhas dos candidatos José Oduque Teixeira, em Itabuna, e Antônio Olímpio, em Ilhéus, ambos ligados ao Governo de Antônio Carlos Magalhães, na época, foi "vote certo".

  [5] p.67, artigo Voto Econômico ou Referendum Político? Os Determinantes das Eleições Presidenciais na América Latina - 1982-1994, Opinião Pública, Vol. III, nº 2, CESOP/UNICAMP, pp. 61-74.

[6] O jornal Folha de São Paulo, 16/10/94, 1-16, apresenta quadro contrastando dados da pesquisa de boca-de-urna do Datafolha, IBOPE e Gallup com resultados do TSE. O título da manchete da página foi "Dados confirmam pesquisas Datafolha". Na defesa do instituto, o Datafolha utiliza dois critérios de apresentação dos resultados: para presidente e governador os votos válidos e para senador, inclui votos brancos e nulos e omite, por exemplo, os casos do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal.

  [7] Na eleição que fez Antônio Carlos Magalhães Governador da Bahia, 1989, o mote da sua  campanha foi "Para salvar a Bahia".

[8] Antonio Manuel Teixeira Mendes e Gustavo Venturi, Diretores do Instituto de Pesquisas Datafolha, no artigo Eleição Presidencial: o Plano Real na Sucessão de Itamar Franco, publicado pelo CESOP, UNICAMP, na revista Opinião Pública, Ano II, dez./94, Vol. II, nº 2, pp. 39-48, p. 39.

[9] O critério de classe social utilizado nestas pesquisas não é o utilizado pelas associações de pesquisa ABIPEME e ANEP, mas um critério simplificado,  combinando as variáveis padrão econômico, situação no mercado de trabalho, ní­vel de instrução e valorização do bairro de residência do eleitor, a rigor, um critério de classificação dos eleitores pela sua situação econômica.

 

7. Bibliografia

CANETTI, Elias. Massa e Poder. Tradução de Rodolfo Krestan. São   Paulo: Melhoramentos; Brasília: UnB. 1983. 531p.

 ECHEGARAY, Fabian.Voto Econômico ou Referendum Político?

    Os Determinantes das Eleições Presidenciais na América Latina - 1982-1994.

FIGUEIREDO, Rubens. Opinião Pública, Intencionalidade e Voto in: Opinião Pública. CESOP, UNICAMP, Campinas, SP, Ano II, nº 2, dez./94. pp.73-82.

GASPARETTO, Agenor. Política & Pesquisa; a sucessão municipal no  Sul da Bahia. Ed. do autor. Itabuna, Ba. 1993. 103p.

NUNES, Márcia C., OLSÉN, Örjan, STRAUBHAAR, Joseph. O uso de pesquisas eleitorais em decisões de voto. Opinião Pública, CESOP, UNICAMP, Campinas, SP, Ano I, dez./93, Vol.1, nº 2, pp. 63-75.  

SANTOS, Wanderley Guilherme dos.   Eleição, Representação Política Substantiva. Dados. IUPERJ, RJ, nº 8, 1971, pp. 7-25.