DESENVOLVIMENTO E O PARADOXO CANAVIEIRAS

Estamos em um novo período político eleitoral. Novos prefeitos e novos vereadores vão ser eleitos ou reeleitos em 1º de outubro próximo.  Esse é um período rico em promessas, com muitas informações transformadas em propaganda,  sacrificando a complexidade da realidade  no altar das conveniências do momento.

É um tempo em que palavras como “empregos”, “obras”, “progresso”, “soluções” e  “desenvolvimento” fluem fácil nos discursos, de praticamente todos os matizes ideológicos.  E  esse é um tempo que se repete ciclicamente, a cada novo processo eleitoral. E a realidade teima em se mostrar resistente, parecendo arredia a esse novo mundo, a esse futuro melhor. E as pessoas vão envelhecendo e se desiludindo. As gerações vão se sucedendo. E o bendito desse “desenvolvimento” continua no horizonte, distante, embora seu brilho ofusque. E a cada nova eleição experimentam a sensação de que fazem parte do contingente dos que precisam esperar o ano seguinte, a eleição seguinte, num infinito processo de postergação para o futuro a fruição dos seus frutos, tão próximos e, ao mesmo tempo, tão inalcançáveis.

Essa situação trouxe-me à mente um desabafo de um cidadão de Canavieiras, oportuna neste momento em que muitos candidatos a prefeito se apresentam como portadores do futuro.

Antes de prosseguir, todavia, faz-se necessário um parênteses. Canavieiras é uma bela e histórica cidade litorânea do Sul da Bahia, tendo como referenciais urbanos principais Ilhéus,  ao Norte, e Porto Seguro,  ao Sul. Situa-se na foz de um grande rio, o Pardo, que vem de longe, do interior de Minas Gerais. Canavieiras como vila, inicialmente Poxim, surgiu nas primeiras décadas do Século XVIII. Deve o seu nome à cana-de-açúcar cultivada em suas terras férteis no início de seu povoamento, nas primeiras décadas dos anos setecentos deste milênio. No entanto, não logrou grande desenvolvimento. Foi passagem para a corrida aos tesouros da Chapada Diamantina no passado. Já fez parte de Porto Seguro e de Ilhéus. No limiar deste século que está findando, se constituía num dos principais centros urbanos do Sul da Bahia, rivalizando com Ilhéus, Belmonte, Valença e outros. Conta-se que em seu chão foi plantado o primeiro cacaueiro da Bahia. É relevante lembrar que a  esse cultivo se deve o povoamento efetivo do interior dessa vasta região do Sul da Bahia, que até há pouco mais de cem anos, exceto alguns núcleos litorâneos, ainda era domínio de povos indígenas e a Mata Atlântica, com toda sua riqueza e beleza, continuava intacta. Canavieiras nessa discussão, no entanto,  podia ter outros nomes. É apenas uma referência geográfica para ilustrar uma visão.

Isto posto, podemos retomar o depoimento do nosso cidadão. Disse-me ele: “Olha, um dia disseram que Canavieiras iria deslanchar economicamente e sua população conheceria o desenvolvimento. Bastaria abrir uma estrada asfáltica, ligando-a a Ilhéus e ao país via rodoviária. No passado, o porto e o transporte marítimo e fluvial não realizaram  essa promessa.  A estrada foi aberta. E, todavia, Canavieiras não conheceu a mudança esperada”.

“Depois disseram que era necessário um aeroporto e uma conexão com a BR 101. O aeroporto foi feito e Canavieiras passou a contar com a conexão com a BR. Todavia, continuou sem conhecer as promessas do desenvolvimento”.

Esse cidadão completou, em tom entre o irônico e a perplexidade: “hoje, descobriu-se que o que falta é a conexão asfáltica com Porto Seguro. Isto feito, Canavieiras situaria-se entre dois pólos turísticos importantes: Porto Seguro e Ilhéus. Aí sim é que deslanchará!” 

 Esse pequeno episódio parece ilustrativo. No entanto, é tentador ligá-lo a outro,  atribuído ao grande Michelângelo da escultura e da pintura da Renascença italiana. Conta-se que Michelângelo após concluir Moisés, de tão perfeita que lhe pareceu a estátua, teria exclamado: “parla!”. E esse mesmo artista, perguntado como conseguia tirar do bloco de mármore tanta perfeição, sabedor de sua grandeza, limitou-se a dizer que Moisés já estava na pedra e que o que fez foi apenas tirar o entulho para que o Moisés que já estava nela pudesse ser apreciado em sua perfeição e beleza.

E, com isso, voltamos ao problema do “desenvolvimento”. Esse pressupõe capacidade de cada cidadão ser capaz de ver um Moisés na pedra bruta  e a arte e a técnica de  libertá-lo do  “entulho”. Um povo é tanto mais desenvolvido quanto mais for capaz  de ver um Moisés em todas as áreas e em todas as atividades humanas e mais for capaz de tirá-lo da pedra bruta. E há um Moisés em todo lugar esperando por um Michelângelo e há muitos Michelângelos que ignoram ou não desenvolveram o talento que têm. “Desenvolvimento” é, portanto, ver num bloco de mármore um Moisés ou uma Pietá e saber tirar-lhe o “entulho” e ver nesse, uma outra matéria-prima para uma outra realização.

A propósito, Paulo R. Haddad, refletindo sobre regiões economicamente deprimidas afirma: “não conseguiremos retirá-las do profundo estado de subdesenvolvimento simplesmente colocando ali mais fluxos de dinheiro ou apenas mais infra-estrutura econômica. Suas potencialidades econômicas somente serão mobilizadas em benefício de sua população se houver algum progresso significativo em termos de capital humano e capital organizacional... O que falta nas áreas deprimidas é, de um lado, capacidade de organização social para estimular a geração e a captura de sinergias empresariais e, de outro lado, conhecimento e habilidades para criar valor econômico em suas múltiplas dimensões. Infra-estrutura econômica, além de incentivos fiscais e financeiros, pode se constituir em fatores permissivos para a promoção do desenvolvimento de nossas áreas deprimidas, mas nunca em condições suficientes” (Gazeta Mercantil, 22/10/99, A-3). 

Nesse mesmo artigo, Haddad lembra que, via de regra, em áreas subdesenvolvidas, “as sociedades tendem a ser muito resistentes às mudanças e muito propensas a tolerar a própria existência de problemas econômicos e sociais, com eles mantendo uma atitude de complacência”.  Com isso, mergulham num processo interminável em que o amanhã repete o ontem, ano após ano, geração após geração.  Esse circulo vicioso somente poderá ser rompido através de uma força e uma energia muito grandes. A elevação do nível médio de instrução de toda  a população (não apenas de parte), em minha opinião, é condição básica e indispensável para esse rompimento com o passado. É essa a obra que a nossa bela Canavieiras, e todas as Canavieiras Brasil a dentro,  mais precisa e lhe abrirá definitivamente às portas do futuro e às promessas do desenvolvimento. Mesmo o capital organizacional de que fala Haddad a exige, assim como todos os empreendimentos no âmbito da infra-estrutura econômica. Falhando nesse ponto, a obra não resistirá ao tempo e estrada estará mais para um bloco de mármore em estado bruto do que para um Moisés de Michelângelo.

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Agenor Gasparetto

22 de agosto de 2000.