Há quatro anos, em uma eleição muito acirrada e extremamente polarizada, Geraldo Simões venceu Fernando Gomes. Até abril maio daquele ano, Geraldo liderava. Em meados do ano, Fernando Gomes virou, mas perdendo no final.

 
Na época, a Tevê Santa Cruz divulgava pesquisa do IBOPE dando ampla vantagem para Fernando Gomes. A Sócio Estatística, no mês de setembro daquele ano, realizou três pesquisas, a última a dois dias da eleição. Uma semana antes da eleição, porém, objetivando explicitar sua posição enquanto empresa, divulgamos nota em nossa página, informando que em Itabuna, no mês da eleição, o quadro era de muito equilíbrio, configurando empate técnico, ainda que Fernando estivesse com pequena vantagem, no caso, dois pontos percentuais.
 
Logo após a eleição, divulgamos um artigo, colocado abaixo em primeiro plano embora tenha estado desde então em nossa página, explicitando o confronto entre Sócio Estatística e as urnas. O resultado final comprovou a pequena diferença entre a realidade das urnas, no caso já eletrônicas, e os resultados da Sócio Estatística. 
 
Como em todas as eleições em que acompanhamos, as urnas revelaram que a Sócio Estatística sempre esteve de bem com a realidade, com a qual possui o seu grande compromisso, porque esse é com a própria comunidade e assim continuará.Esses dois textos serão aqui reproduzidos.  
 
Agenor Gasparetto
Sociólogo
Itabuna, 20 de março de 2004.

 

 A eleição em Itabuna e o desempenho  da Sócio Estatística em Itabuna

 Cerca de 7 horas da manhã, vindo de ônibus ao escritório para escrever essas linhas de balanço preliminar do desempenho da Sócio Estatística nestas eleições, um senhor idoso, que não conheço, fez-me espontaneamente o seguinte comentário a propósito da campanha e eleição em Itabuna: “a campanha do Sarinha Alcântara(*) foi muito bonita, mas essa foi a melhor de todas”.  Disse-me que era Fernando até o dia 7 de setembro, quando esse destratou o povo e a bandeira brasileira.  Um outro senhor comentou: “o povo queria mudar. O poder é do povo. E o povo já sabe o quer”.

Ontem, de várias fontes, mesários e eleitores, durante o dia e após a apuração dos resultados, ouvi um comentário que resume o que foi esta campanha em que o prefeito Fernando Gomes perdeu a eleição, pela primeira vez: há eleitores entrando na cabine de votação estampando adesivos e botons 14 e votando 13, há bandeiras 14 sendo agitadas na boca de urna inconsistentes com o coração e o voto de seu portador. Um amigo que tem como praxe auscultar o povo comentou que sua pesquisa ouvindo anonimamente o povo nas ruas, ônibus e bares dava Geraldo. Disse-me que uma senhora humilde em um dos bairros lhe fez o seguinte comentário: “nessa rua há  ... bandeiras de Fernando, apenas ... de Geraldo, mas tem ... casas sem bandeira e esses não são Fernando”. Disse-lhe que a intuição sociológica dessa senhora foi muito apurada. E o slogan  da Coligação Levanta Itabuna, de Geraldo Simões e Ubaldo Dantas, era no início da campanha “pra fazer muito mais”,  tentando dar uma resposta forte ao discurso de Fernando assentado em obras físicas e no apoio do Governo do Estado, que acabou se constituindo no seu principal cabo eleitoral. No entanto, a agressividade, a pressão, o constrangimento sobre a liberdade do eleitor, sobretudo funcionários, professores,  taxistas e todos quantos tinham algum tipo de vínculo com a Prefeitura, foi tão grande e aberto que um novo slogan de campanha foi se impondo naturalmente e dominou a cena no final da campanha: “no meu voto mando eu – 13”. Essa expressão aparentemente inocente e neutra, dado o clima de campanha criado, passou a ocupar lugar central e, seguramente, isoladamente, selou a derrota de Fernando, uma vez que deslocou o foco das obras e da pareceria para o comportamento e o jeito de ser do prefeito. Neste ponto, a estratégia de Fernando começou a colapsar e sua mídia, agressiva, não fez senão agravar. Nesse sentido, o voto em Geraldo Simões e Ubaldo Dantas foi antes de tudo um voto contra a tentativa de dominação pelo medo, pela ameaça, pela força. Foi, em última instância, um grito pela liberdade de expressão. Nesse sentido, a vitória de Geraldo, pelo clima e pelo acirramento da disputa, representou um alívio, uma libertação. Esse foi o principal recado das urnas. A propósito, na pesquisa de 20 a 23 de setembro, os dados revelavam com muita clareza o seguinte: quanto mais idoso o eleitor, mais Fernando e quanto mais jovem, mais Geraldo. Até 35 anos, Geraldo. Depois dos 35 e crescentemente com a idade, mais Fernando. O jovem foi quem mais se sensibilizou com o a vontade de se sentir livre e senhor de seu voto e o mais idoso, como será mostrado oportunamente, foi quem mais se impressionou com os resultados de pesquisas divulgadas na televisão e rádio dando ampla vantagem para Fernando Gomes  e foi mais sensível ao discurso da parceria com o Governo do Estado e com as obras que viriam dessa. Esse foi  o quadro e o clima sobretudo da fase final desta campanha eleitoral.

A Sócio Estatística realizou três pesquisas no mês de setembro, todas com resultados praticamente iguais: empate técnico, com frente de dois pontos para Fernando e na terceira, três pontos, mas sempre dentro da margem de erro das mesmas. A última pesquisa, realizada a dois e um dia da eleição, foi a maior já realizada pela empresa em Itabuna, tendo sido ouvidos 2.618 eleitores. Foi também a pesquisa que consumiu maior tempo de planejamento. O propósito era captar efetivamente a diferença se essa realmente existia, já que o quadro revelava uma situação de empate técnico. Mais do que isso, uma situação de empate dando frente para Fernando e uma percepção de rua, nas passeatas, apontando para Geraldo Simões. No entanto, a pesquisa não conseguia captar um quadro que não fosse empate técnico, com frente para Fernando Gomes, inclusive na última e maior pesquisa. Os resultados continuavam mostrando uma inconsistência intuída pela observação direta, na rua, e os números que a pesquisa captou. Mesmo assim, o desempenho foi bom, como pode ser visto no quadro abaixo.

Como explicar que tanto empenho não conseguiu captar ainda  melhor o quadro das ruas. Tenho, hoje, uma hipótese, que parece muito plausível e é coerente com  o processo eleitoral em sua globalidade:  eleitores tiveram receio em abrir o jogo e declararam Fernando ou indeciso quando eram Geraldo. Mesmo assim, o desempenho parece ter sido bom, como pode ser aferido na tabela abaixo. 

 Pesquisa de intenções de voto em Itabuna e votos válidos, supondo que o voto dos indecisos se distribua proporcionalmente entre os três candidatos, de acordo com suas intenções de voto e os resultados das urnas.

Candidatos

Intenções de voto %

Votos válidos %

Votos válidos
nas urnas %

Urnas versus Sócio em %

Fernando Gomes

45,5

50,81

48,5%

2,31%

Geraldo Simões

42,2

47,18

50,5%

3,32%

Duda do Polirodas

1,8

2,01

0,9%

1,11%

Nulos e brancos

1,4

-

-

-

Não apontou

9,1

-

-

-

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: Sócio Estatística, 29 e 30 de setembro de 2000.

 

O resumo do quadro pela Sócio Estatística tornado público antes da contagem dos votos era o seguinte:  “Fernando Gomes amplia frente sobre Geraldo Simões, mas a diferença ainda se situa dentro da margem de erro e indecisos somavam ainda 9,1%”. Afirmou-se que na pesquisa de 29 e 30 de setembro, “a Sócio Estatística voltou a encontrar uma situação de empate técnico técnico entre Geraldo Simões e Fernando Gomes, com frente para Fernando Gomes, dentro da margem de erro, situando-se a diferença ainda dentro da margem de erro e com um relativamente alto  percentual de indecisos”.    

A primeira conclusão é que intenção de voto, que é o que as pesquisas tentam captar, não é necessariamente voto (Veja Pesquisa Eleitoral e Sonegação de Informação, nesta página). Assim como nem todo eleitor que entrou na cabine de votação com 14 significa que tenha votado no 14. Um fator que pode ter prejudicado o desempenho da pesquisa, dado o clima de constrangimento, deve-se o fato de que nesta eleição foram realizadas muitas pesquisas, por institutos e mesmo pessoas físicas, incluindo da própria prefeitura municipal. Como nessas últimas, pesquisas, de casa em casa, anotava-se além de opiniões também dados pessoais, incluindo endereço, é possível que alguns eleitores diante de mais uma pesquisa, tenham se sentido inibidos e na dúvida, optaram por utilizar mecanismos de defesa, dizendo o que achavam que o entrevistador e o presumível encomendante queriam ouvir  ou dizendo que não sabiam ainda em quem votar.

A Sócio Estatística acredita que fez o melhor.  Foi um bom desempenho, ainda que os números, pela hipótese acima exposta, possam não ter captado a realidade da forma como era pretensão. Mesmo assim, quem acompanhou nossos textos em nossa  página (e todos  continuam nela para consulta), tem o sentimento de que captaram melhor o quadro que os números da pesquisa propriamente dita. E isto por uma razão muito simples. Na interpretação, também está presente a intuição e o feeling pessoal.

Oportunamente, será tornado público o desempenho da Sócio Estatística nos outros municípios por onde atuou. Por ora, as vitórias confirmadas nas urnas confirmam a pesquisa da Sócio, como em Itapé, Coaraci, Itajuípe, Buerarema, Ibicaraí, Uruçuca, Ilhéus, Porto Seguro, Itagimirim, Eunápolis, Lomanto Jr., Ubatã, Jequié, Itapetinga, Pau-Brasil, Itapebi, Medeiros Neto. Em todos os municípios em que os resultados já são conhecidos, sem exceção, o trabalho da Sócio Estatística está sendo confirmado. Aqui, só posso agradecer o trabalho da nossa equipe de trabalho, em especial dos nossos entrevistadores, muito bom o trabalho e ótimos eles e elas, em sua grande maioria estudantes da UESC. E agradecer a confiança da comunidade para quem trabalhamos para continuar merecendo o direito de existir enquanto empresa.

Agenor Gasparetto
Sociólogo

Itabuna, 02 de outubro de 2000

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* Sarinha Alcântara foi prefeito populista em Itabuna. Seu nome era José de Almeida Alcântara. Sarinha foi sua mulher, falecida a poucas semanas.