10 ANOS DA QUEDA DO MURO DE BERLIM, GLOBALIZAÇÃO
E REGRAS DO COMÉRCIO MUNDIAL

Publicado na Revista SBPM – Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado. Maio 2000. Ano III, nº 11, pp. 32-37.

Agenor Gasparetto1

Em 9 de novembro de 1989, há 10 anos, o governo da então Alemanha Oriental, comunista, decidia abrir suas fronteiras e destruir o Muro de Berlim, precipitando o colapso dos regimes do leste europeu. Para muitos, esse fato encerrou definitivamente a 2ª Guerra Mundial, já que esse Muro era parte da herança desse conflito, e da Guerra Fria entre as superpotências militares de então: Estados Unidos e a ex-URSS. Precipitadamente, o historiador norte-americano Francis Fukoyama viu nisso o "fim da história", com o domínio absoluto do mercado e do ideário neoliberal. Já o sociólogo alemão Robert Kurz2 via nesse fato não esse fim, mas o início do colapso do que ele chamou "sistema mundial de mercadorias", que teria tido no Leste Europeu a sua versão estatizante, mas que seria parte integrante do sistema maior, o capitalismo. Esse começou a entrar em colapso nessa região, como também entrara em outras regiões periféricas. De um lado, portanto, esse fato foi interpretado como o "fim das ideologias", já que restava apenas uma após a queda desse Muro. De outro, a interpretação de que o que ruiu não foi apenas um muro famigerado e o sistema comunista, mas uma fração do próprio sistema mundial e que esse processo acabará arrastando no curso do tempo todo o sistema.

Com o fim desse Muro e o colapso do sistema comunista do Leste Europeu, estatizado e de planejamento centralizado, começou a soprar mais forte o vento da globalização, sem barreiras, e esse, no âmbito dos fluxos financeiros mais livres do que nunca, ameaça converter-se em um furacão, situado num horizonte próximo, sendo que algumas de suas rajadas desestabilizantes já se fizeram sentir em vários quadrantes deste Globo, ao longo dos últimos anos. É como se sempre houvesse "uma bola da vez". Em vez do céu azul do "fim das ideologias", pairam nele grossas nuvens de incertezas, prenunciadoras de tempestades. O final de século revela um panorama de mudanças e muitas incertezas, ainda que a queda do referido Muro tenha sugerido um mar de águas tranqüilas. Nesse sentido, o historiador inglês Eric Hobsbawn3 afirma que "um dos riscos atuais é que o capitalismo tenha perdido seu sentimento de medo. Aceitam-se níveis de desigualdade antes não tolerados"4 .

O sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein5, criador, por exemplo, dos conceitos de Centro e Periferia, na sua tentativa de analisar o capitalismo como um todo, como um "sistema-mundo", vê um futuro pouco promissor para o mesmo. Em sua opinião, o capitalismo durará mais 50 anos e esses serão anos difíceis, traumáticos, violentos, em que os conflitos, coincidindo com a análise de Kurz, terão lugar também no coração do sistema, ou seja, nos países dominantes como Estados Unidos, Alemanha, Japão para citar os principais.

Para Wallerstein, há três fatores que estão impondo limites à acumulação incessante de capital, de um lado, e colapsando sua sustentabilidade política, de outro, essa que tem no Estado sua principal fonte de legitimação. A primeira razão ou primeiro fator seria o aumento contínuo dos patamares salariais e essa subida deve-se ao processo de urbanização crescente da população mundial. A segunda constitui-se na "crise ecológica", que acaba encarecendo a matéria-prima, com o fim da possibilidade de externalidades baratas dos custos. O terceiro fator responde pela "questão social" e decorre do aumento da pressão da população junto ao Estado por bens e serviços. A conjugação desses três fatores em escala mundial, segundo Wallerstein, "vem encolhendo as margens de lucro"6. Dois desses fatores correspondem ao que ONGs ambientalistas e países do Mundo Industrializado, no contexto das negociações da Organização Mundial do Comércio-OMC7, nominam como as cláusulas "social" e "ambiental", que serão retomadas adiante. O que parece subestimado na análise de Wallerstein, todavia, é o papel da tecnologia e seu incessante processo revolucionário na base técnica do sistema.

Concretamente, estamos sob os ventos cada vez mais fortes da globalização e às vésperas da 3ª Conferência Ministerial, da Organização Mundial do Comércio-OMC, em que poderá ser iniciada a Rodada do Milênio8, que envolve a cifra astronômica de US$ 6,5 trilhões por ano, que é o valor do comércio internacional do conjunto dos países signatários da entidade9. Lembra-se que a anterior, a Rodada do Uruguai, se arrastou de 1986 a 1993, o que dá uma idéia das dificuldades que estão à vista, uma vez que as decisões podem ser fonte de ganhos para uns ou perdas para outros. Esses dois temas serão analisados mais adiante.

A globalização, utilizando palavras do já referido sociólogo Wallerstein10, é um termo que é, em grande parte, um slogan, um produto de marketing, uma mistificação, não se tratando de uma realidade nova. Trata-se, segundo Immanuel Wallerstein da liberdade de movimento dos fatores de produção, especialmente dos fluxos de capital, versus protecionismo dos Estados Nacionais, que marca o sistema mundial nos últimos 500 anos. Trata-se da idéia liberal do livre-comércio sendo convertida em "a" grande saída. Nos últimos cinco séculos, essa ideologia avançou e regrediu, num movimento cíclico contínuo. Não há novidade no discurso de que países precisam ser competitivos, diz esse sociólogo, e que devem buscar suas vantagens competitivas (ontem, comparativas).

Numa versão radicalizada, globalização significa, então, escancaramento total ao capital externo, abertura irrestrita da economia, o fim das barreiras comerciais, o livre acesso de bens e serviços ao mercado interno. A opção do Governo de Fernando Henrique Cardoso, em suas duas edições, tende a essa versão, à medida em que expôs à concorrência, de forma abrupta, as empresas do país, e vem promovendo, de forma a deixar rubro de perplexidade quem se coloca na perspectiva do interesse nacional, a desnacionalização de sua economia, via privatizações, na prática, preferenciais ao capital estrangeiro, independentemente deste ser privado ou mesmo estatal, ainda que com financiamento parcial de seu banco de desenvolvimento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social-BNDES11.

O problema da abertura econômica (sem avaliação mais criteriosa das conseqüências), como enfatiza Wallerstein em sua entrevista à Folha de São Paulo, de 17 de outubro passado, leva a uma ampliação do custo social, ao colapso de situações políticas e de suas lideranças, deslegitimando-as. Leva a situações de caos social, de violência e de incertezas. O aumento da pobreza e da exclusão social são produtos, ainda que não necessariamente pensados e desejados, de uma política de abertura abrupta e ampla. Até o Banco Mundial, a UNCTAD e o Fundo Monetário Internacional acabaram reconhecendo esse fato, recentemente. E isto porque o "sistema-mundo" tem uma lógica inerente de polarização, é hierárquico, de desenvolvimento desigual. Isto não significa, obviamente, estagnação e condenação perpétuas. Como bem observou Wallerstein, esse sistema permite rotações. No Século XV e XVI, por exemplo, Portugal e Espanha, e esse era o período das grandes navegações, eram potências. Depois Holanda, França e Inglaterra ocuparam posições de primeira grandeza. Hoje, Estados Unidos, a Comunidade Européia enquanto conjunto e o Japão ocupam as primeiras posições, ainda que no topo do sistema a posição dos Estados Unidos seja inconteste. Amanhã, poderá ser a Ásia Oriental, a bacia do Oceano Pacífico como alguns sugerem. Aqui, importa salientar que o tamanho faz diferença e isto significa alguma chance para o Brasil. Todavia, ocupar o topo significa estar credenciado à posição e não se chega nela por concessão, mas por conquista.

Todavia, nesses tempos em que a credencial principal é o conhecimento, em que ciência e tecnologia estão convertidas em força produtiva estratégica, a priorização efetivamente dada, neste país, à promoção global do patamar de instrução escolar da sociedade e de formação de quadros capazes de gerar ciência e tecnologia próprias é desencorajadora. É como se o país esperasse atalhar o caminho doloroso que leva ao Primeiro Mundo acreditando ser suficiente seguir as orientações liberalizantes do FMI e de outros organismos, privatizando sua infra-estrutura e seus serviços e internacionalizando sua economia. Como resultado prático dessa política, como que buscando a simpatia do capital externo e, em razão disso, também política explícita de renúncia a um projeto de país e de sociedade, em favor da capitulação crescente ao capital internacional, mostrou, desde o início do Governo Fernando Henrique Cardoso, outros resultados: mais endividamento, aumento espetacular da remessa de lucros, de pouco mais de 2 para cerca de 7 bilhões nos últimos anos, aumentos da desigualdade e da exclusão social.

Os ventos da globalização entoam em alto volume a música do mercado. Esse, visto como "instância suprema de coordenação das atividades econômicas" não resolveu todos os problemas e revela os seus limites. O problema é que o mercado só responde a estímulos portadores de cifrão. Para Hobsbawm, "a situação do capitalismo "globalizante" e do mercado livre e sem controles chegou a um ponto crítico. Estamos no final de uma era, mas ainda não enxergamos seu rumo"12. A sociedade, contudo, é muito mais que mercado. A lógica de mercado tem limites para resolver problemas como os da pobreza, da miséria, da distribuição de renda, da educação das futuras gerações.

A globalização tem na Internet sua grande rede, que tem, uma face mercantil a pretensão de ligar todos os mercados, e outra face, de gratuidade, exposição livre. Pois bem, para além do livre fluxo de capitais e de informações, há um detalhe nessa Rede: ela tem um centro de convergência. Nos Estados Unidos, os domínios da Internet não precisam de um último ponto e duas letras designadoras do país. Todos os domínios terminam em ".com" em ".org" e assim por diante. E isto sinaliza uma diferença entre os atores do cenário mundial. No "sistema-mundo" de Wallerstein os atores não são iguais. E essa é uma variável das mais importantes.

As palavras do ex-secretário de Estado do Governo Nixon, Henri Kissinger, em sua palestra em Dublin, Irlanda, referidas por Rubens Ricupero13, são de uma franqueza estonteante. Diz ele: "O desafio básico é que o que se chama de globalização é na verdade outro nome para a posição dominante dos Estados Unidos", ou ainda, "O sistema econômico global favorece, acima de tudo, os países desenvolvidos; os países em desenvolvimento ficam para trás e não somente por causa de políticas inadequadas da parte deles"14. Como resultado, os índices de desemprego estão baixíssimos nos Estados Unidos e as taxas de homicídio são as mais baixas dos últimos 30 anos, sendo uma das razões apontadas para isso a boa situação econômica por que passa o país.

Henri Kissinger, nas palavras de Rubens Ricupero, secretário-geral da UNCTAD15, aponta como saídas para superar o dilema, o seguinte:

"1º) alguma reconciliação entre o mercado e o que é social e politicamente suportável;

"2º) algum acordo sobre a relação entre a eqüidade e o capital especulativo;

"3º) algum meio de resolver as crises mitigando a austeridade;

"4º) políticas comerciais que levem em conta as preocupações dos países em desenvolvimento com seus problemas especiais;

"5º) o reconhecimento pelos Estados Unidos de que suas políticas fiscais e monetárias afetam não só seu interesse nacional, mas o sistema global" 16

E isto nos remete ao terceiro ponto, que são as regras do comércio mundial, que são traduções concretas do conflito entre os ventos liberalizantes da globalização e do protecionismo dos Estados Nacionais, referidos acima por Wallerstein.

Aqui, é reveladora a pergunta do professor Stiglitz, economista-chefe do Banco Mundial, citada por Kissinger em sua palestra: "Que valor devem os países em desenvolvimento atribuir à retórica em favor da liberalização rápida quando países ricos com pleno emprego e sólidas redes de segurança alegam precisar impor medidas de proteção para ajudar seus próprios cidadãos negativamente afetados pela globalização?"17

Essa pergunta é oportuna às vésperas de mais uma rodada de negociações das regras do comércio mundial18 e é necessário que os brasileiros a façam, ainda que tomando-a de empréstimo ao economista-chefe do Banco Mundial. Já foi dito pelo presidente de um importante país que entre países não há amizade, mas interesses. A expressão já proverbial de que "amigos, amigos; negócios, à parte" é a correspondente dessa afirmação ao nível dos indivíduos. É ilusão acreditar, portanto, que não seja o interesse a fonte inspiradora e balizadora das discussões e decisões que terão lugar na mesa de negociações da referida Rodada do Milênio, caso haja em torno dela suficiente acordo para sua realização. Na prática, trata-se da disputa entre posições favoráveis ao livre comércio - globalização - e posições favoráveis ao protecionismo.

Como lógica geral, há uma tendência dos países se posicionarem pelo livre comércio nas áreas em que são fortes, em que detêm vantagens competitivas. Nas áreas em que são frágeis ou podem sofrer forte impacto da concorrência externa, há uma tendência ao protecionismo. Portanto, dependendo dos interesses que estão em jogo, um país é mais liberalizante ou mais protecionista. Isso cria uma situação bastante complexa em que as posições dos atores mudam segundo o foco das discussões. As posições dos atores no cenário mundial não são aleatórias, mas expressam interesses específicos.

No caso da agricultura, por exemplo, os países relativamente fortes ou competitivos tendem a ter posicionamentos liberais, advogando o fim das barreiras e dos subsídios. O Brasil, por ter um economia com forte base agrícola e muitas terras aptas ao cultivo e à criação, situa-se nesse grupo. Já a Comunidade Européia, que possui uma agricultura com fortes subsídios diretos (US$ 40 bilhões ao ano) e indiretos (U$ 70 bilhões ao ano)19, a posição é protecionista. E esse protecionismo prejudica a agricultura brasileira, argentina, australiana e de outros países. A União Européia é o destino de 45% das exportações do agrobusiness brasileiro e os Estados Unidos são o destino de outros 11%. Nesse último caso, na defesa de seus interesses, são impostas taxas elevadas para a entrada de produtos brasileiros, barreiras não-tarifárias e quotas de importação. O caso mais típico dessas restrições é o caso do suco de laranja e do aço brasileiro nos Estados Unidos, onde em nome de um antidumping nossos produtos são altamente taxados20. Segundo a OCDE, o total global de subsídios somou, em 1998, US$ 362 bilhões. No período de 1986 a 1988, os subsídios somavam cerca de US$ 320 bilhões/ano21.

O fim dos subsídios e do protecionismo geraria expressivo número de postos de trabalho e expressivo aumento do volume da renda, com reflexos em toda a economia. No país, o agronegócio responde por 32% do PIB (aproximadamente U$ 250 bilhões/ano), 38% das exportações (cerca de U$ 20 bilhões/ano) e ocupa cerca de 40% da população economicamente ativa do país22. Nesse caso, seguramente, o fim do protecionismo abriria muitas oportunidades de negócios, de renda e de emprego no país, ampliando a participação desse segmento na economia do país.

Quando o foco centra-se nos produtos industriais, nos serviços, na proteção à propriedade intelectual (patentes, direitos autorais) as posições mudam. Nesse caso, são os países tecnologicamente mais avançados que advogam o livre-mercado ou o acesso livre de seus produtos e serviços aos consumidores de outros países, mesmo que isso se dê às custas de preciosos (para pais e/ou mães de família que os perdem) empregos, de aumento da desigualdade e da exclusão social. O grau de protecionismo ou de abertura tem conseqüências e define margens de lucros ou de perdas. A título de ilustração, quando indagados sobre uma política de "céu aberto", pela Folha de São Paulo, dirigentes de grandes empresas aéreas da aviação civil brasileira assim se pronunciaram: Wagner Canhedo, da VASP: "não tem fundamento nenhum, absolutamente. Os EUA querem "céus abertos" para todo mundo, menos para eles"; Fernando Pinto, da VARIG: essa política "interessa muito! Mas aos americanos..."; e Rolim Amaro, da TAM: "não há um só país no mundo com o tamanho e a densidade de tráfego do Brasil que tenha feito isso. Falar em "céu aberto" é até um atentado contra os interesses nacionais"23. A política de " céus abertos" significaria abrir o mercado aéreo brasileiro às empresas estrangeiras, que poderiam definir rotas, tarifas, horários etc, tendo como argumento o aumento da concorrência e da oferta de serviços e o barateamento das passagens24. Todavia, nem todos os setores da economia brasileira têm o poder de pressão das grandes companhias aéreas. Em muitos setores, como no caso das privatizações de empresas públicas, o mais provável é que houvesse uma internacionalização das empresas, compradas inclusive com recursos do BNDES e sua expansão pós-compra, como no caso das telecomunicações, sustentada em grande parte pelo aumento dos preços dos serviços, todavia, com maior oferta no mercado.

Frente ao dilema protecionismo versus livre-comércio, as posições dos países também mudam no que tange às compras governamentais, política de concorrência, investimentos de capital externo e no que tange ao comércio eletrônico. O grau de desenvolvimento de cada país em cada segmento da economia leva a posicionamentos que tendem ou ao protecionismo ou ao livre-mercado.

Por fim, as questões "ambiental" e "social", que podem fazer parte da próxima negociação da OMC, defendidas por ONGs e pelos países tecnologicamente mais avançados, que temeriam uma espécie de "dumping social" ou "dumping ambiental", se constituem em uma ameaça a países mais pobres e com grau de desenvolvimento tecnológico inferior. Por questão ou "cláusula social" se entende o compromisso de respeito aos direitos trabalhistas básicos. E por "cláusula ambiental" se entende o compromisso de respeito às práticas de desenvolvimento sustentável na produção e na comercialização, de não predação dos recursos naturais, de preservação do meio ambiente.

Essas duas cláusulas correspondem a dois fatores de encurralamento do capitalismo e de redução de suas margens de lucro aludidas acima por Wallerstein. A propósito, a "guerra fiscal" que o país vem assistindo nos últimos anos, induzida pelo grande capital e internalizada por governadores, que vem resultando na migração de empresas intensivas em trabalho do Sul e Centro do país para o Nordeste e Centro-Oeste e mesmo de empresas globalizadas para regiões do país, motivadas por incentivos e isenções fiscais, é reveladora de uma estratégia de fuga do capital das forças que pretendem subjugá-lo, disciplinando-o. A outra estratégia do capital, mediada pelo avanço tecnológico, situa-se no plano da automatização ou robotização das funções e do sistema produtivo. Se o grande capital consegue resolver em boa parte seu problema de lucratividade, a situação complica-se para o pequeno capital.

A tendência dos países ainda com graves problemas de respeito aos direitos trabalhistas, até mesmo porque o nível de rentabilidade das atividades é muito baixo para oportunizar seu pleno atendimento, bem como para assegurar a não predação do meio ambiente, é de assumir um posicionamento de resistência, interpretando essas cláusulas como formas sutis de protecionismo. Na prática, sua adoção abrupta acabaria por aumentar o contingente dos sub e desempregados, que já é por demais expressivo nesses países.

A questão que deve ser perseguida é a do país ter clareza de seus interesses e assumir posições firmes, ainda que flexíveis, tendo em vista a necessidade de chegar a um acordo e de sua própria defesa. Num país em que o seu banco de desenvolvimento em vez de promover, criar, expandir e consolidar o seu mercado interno em mãos brasileiras, nosso maior trunfo e riqueza, parece mais empenhado em viabilizar, inclusive financiando, a compra de empresas brasileiras por grupos internacionais, é difícil não ficar temeroso. Diante do que vem acontecendo com o atual Governo, parece difícil ficar em situação de segurança. Ao contrário. E o crescimento da remessa de lucros para o exterior será um bom e triste indicador dessa realidade. Abstraindo isso, o essencial, como reconhece o diretor-geral da OMC, Mike Moore, é que prevaleça o equilíbrio, que ninguém possa se proclamar vencedor. Que o mérito da OMC seja, na medida em que acorda regras para o comércio mundial, dotar o sistema de mais estabilidade, de mais previsibilidade25.

Todavia, dada a grande desigualdade de poder entre os países, de um lado, e dada a tendência das transações comerciais entre desiguais favorecer mais a emergência de um componente predatório, de outro, a questão a ser respondida é o que são "regras justas" nesse comércio internacional, o que seria um "bom acordo" se o "melhor dos acordos" possível contém o peso de uma desigualdade estrutural? Sem dúvidas, regras não muito boas são melhores do que sua falta. No entanto, dada a situação real, somente uma decisão política, para além das regras do jogo e da lógica do sistema comercial, permitiria assegurar um "bom acordo" aos pequenos e mais pobres países, que precisam muito mais do que doações para aplacar a fome nos períodos mais agudos de sua triste condição, mesmo assim sempre insuficientes. Aqui, será preciso tratar desigualmente os que são muito desiguais, para que suas chances pelo menos não se deteriorem ainda mais. E, pensando a médio e longo prazos, contribuir, através de políticas públicas internacionais, para que superem seus problemas.

Hoje, em nome da "globalização" e das políticas recomendadas e balizadas pelo FMI e Banco Mundial, os países mais ricos protegem seus interesses de forma vigorosa, ainda que às custas do sofrimento de pessoas e de povos e às custas de lideranças e da estabilidade política de países.

Sendo o mundo um só, bom seria que a globalização significasse bem mais do que a liberdade dos fluxos do grande capital e o livre acesso de bens e serviços de empresas de países tecnologicamente mais avançados aos mercados dos países tecnologicamente mais dependentes, corroendo-lhes a sua viabilidade econômica26. Na referida Conferência Mundial a ser realizada em Seattle, EUA, ainda neste mês, a partir do dia 30, caso se chegue a um acordo sobre a realização de uma nova rodada de negociação das regras do comércio internacional, será importante ver em quais termos essas são definidas e como a sua aplicação irá impactar as diferentes economias dos países mais pobres. Hoje, sob os ventos imprevisíveis da globalização, assiste-se à situação das economias mais pobres, com graves problemas, perderem posições face à situação da economia dos países mais ricos, uma vez que a lógica do mercado agrega mais a quem mais tem, ampliando e intensificando as desigualdades sociais e econômicas27.

No aniversário dos 10 anos da queda do Muro de Berlim e às vésperas de uma nova Conferência Ministerial da OMC e de uma possível re-discussão das regras do jogo do comércio mundial, talvez seja oportuno repensar o sentido das políticas globais conduzidas pelos grandes organismos, incluindo a própria OMC. Repensá-lo na perspectiva da imensamente necessária e desejada estabilidade econômica e social e na perspectiva da paz e da prosperidade dos povos e países. É preciso repensá-lo na perspectiva de sua identidade enquanto comunidades humanas no conjunto das nações e não apenas na perspectiva dos interesses comerciais e de poderio político (e militar). Em suma, repensá-lo na perspectiva de que o comércio mundial e suas regras e todo o sistema devem estar a serviço do Homem e da Humanidade e não o inverso. Só assim haverá uma chance real para todos no século que inaugura o terceiro milênio da atual civilização. Só assim poderemos ter da globalização não apenas o seu lado perverso, mas também a possibilidade de usufruir suas promessas.


1 Sociólogo, professor da UESC, responsável técnico pela Sócio Estatística. www.socio-estatistica.com.br

2 Robert Kurz é autor dos livros O colapso da Modernização, editado pela Paz e Terra, e Os Últimos Combates, editado pela Vozes. É também colunista mensal do caderno Mais, da Folha de São Paulo.

3 Historiador inglês, autor de muitos livros, dentre os quais A Era das Revoluções (1789-1848) e Era dos Impérios (1848-1875) editados pela Paz e Terra e Era dos Extremos (1914-19910) editado pela Companhia das Letras.

4 Em entrevista concedida ao Clarin, Argentina, e republicada pela Folha de São Paulo, 1º de janeiro de 1999, 1-12.

5 Folha de São Paulo, Caderno Mais, 17-10-99, p.9, entrevista concedida a Gustavo Ioschpe, A ruína do capitalismo.

6 Folha de São Paulo, Caderno Mais, 17-10-99, p.9, entrevista concedida a Gustavo Ioschpe, "A ruína do capitalismo".

7 A OMC foi criada em 1º de janeiro de 1995, tendo substituído e ampliado as funções do Acordo Geral de Tarifas e Comércio-GATT, criado em 1947, quando foi assinado por 23 países. Fazem parte da OMC 134 países. A China está em negociação para também fazer parte. Hoje, o diretor –geral da OMC é o neozelandês Mike Moore.

8 A Rodada do Milênio, nona rodada de negociações comerciais em escala mundial, terá lugar em Seattle, Estados Unidos, a partir de 29 de novembro de 1999, por ocasião da Conferência Ministerial da OMC.

9 Folha de São Paulo, Caderno Dinheiro, p.2, 24 de outubro de 1999.

10 Folha de São Paulo, Caderno Mais, 17-10-99, p.9, entrevista concedida a Gustavo Ioschpe, "A ruína do capitalismo".

11 A propósito da recente privatização de parte da empresa de energia elétrica de São Paulo, a Cesp, no dia seguinte, a principal manchete da Folha de São Paulo estampava: "BNDES salva o leilão da Cesp". O referido "salvamento" deu-se pelo empréstimo de 360 milhões de dólares, 50% do preço mínimo estipulado no leilão de privatização, a juros anuais de 5%, contra até 15% dos praticados no mercado interbancário de dólar. Já Elio Gaspari, em sua coluna dominical na Folha de São Paulo de 31 de outubro último, traz como principal título: " Aos fortes, o BNDES. Aos demais, a fila de espera" (Folha de São Paulo, 31 de outubro de 1999, 1-16). Esse fato é recente e exemplifica o modo como o atual Governo trata os recursos públicos, no caso parte proveniente do Fundo de Amparo ao Trabalhador-FAT, em seu firme propósito de privatizar as empresas públicas, pela via da desnacionalização, com recursos que poderiam promover efetivamente oportunidades de negócios, de renda e de postos de trabalho, para e pelos brasileiros, que parecem se situar no final da fila dos que têm e merecem prioridade.

12 Eric Hobsbawm, Folha de São Paulo, 1º de janeiro de 1999, 1-12.

13 "Globalização com sotaque diferente", Folha de São Paulo, 24 de outubro de 1999, 2-2,

14 Idem

15 UNCTAD: Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento.

16 "Globalização com sotaque diferente", Folha de São Paulo, 24 de outubro de 1999, 2-2,

17 Idem

18 A partir do dia 30 de novembro, em Seatlle, Estados Unidos.

19 Folha de São Paulo, Agrofolha, 26 de outubro de 1999, p. 1.

20 Referindo-se a esse fato, a secretária dos Estados Unidos para o Comércio Exterior, Charlene Barshefsky, em entrevista à Folha de São Paulo, 03/11/99, 2-3, afirmou que "não são as restrições norte-americanas que atrapalham as exportações brasileiras aos Estados Unidos". No entanto, entre 1994 e 1998, enquanto as exportações americanas para o Brasil cresceram 103,1%, as brasileiras rumo aos Estados Unidos apenas 11,9%. (idem). O fato é que os representantes norte-americanos sabem quais são seus interesses e não titubeiam em fazer a sua defesa.

21 Folha de São Paulo, Agrofolha, 26 de outubro de 1999, p. 1.

22 Idem

23 Folha de São Paulo, 31 de outubro de 1999, 2-9.

24 Na União Européia, a propósito, há barreiras e nos Estados Unidos não é permitida a operação de empresas estrangeiras em seu mercado interno, segundo o economista sênior do Departamento de Desenvolvimento Privado do Banco Mundial em entrevista à folha de São Paulo, 1º de novembro de 1999, 3-3.

25 Folha de São Paulo, 31 de outubro de 1999, 2-4.

26 O diferencial tecnológico dos países mais desenvolvidos e suas empresas, em certo sentido, equivaleria também a um dumping tecnológico contra a economia dos países tecnologicamente mais frágeis ou dependentes, ainda que isso não costume ser levado em conta, dada a mistificação da tecnologia.

27 O crescimento continuado e com taxas expressivas da economia norte-americana surpreende, uma vez que são taxas sobre uma imensa base econômica.


  Publicado no Jornal Agora/Sócio Estatística, 27 de novembro de 1999, Itabuna, Bahia