AVALIAÇÃO INSTITUCIONAL: PROCESSO DOLOROSO DE
MUDANÇA; A EXPERIÊNCIA DA UESC, ILHÉUS, BAHIA
Agenor Gasparetto
Avaliação Institucional: demarcando espaços
A literatura que trata da avaliação institucional tende a situá-la,
simplificando-a, em dois campos ou duas perspectivas, que refletem diferenças de
concepção acerca da universidade e da educação. Segundo Dias Sobrinho (1998), esses
dois enfoques não são sempre e necessariamente excludentes, podendo ser complementares e
se interpenetrarem. Um enfoque de "avaliação institucional", no dizer
desse autor, "vem de cima para baixo e de fora para dentro", sendo
expressão de políticas neoliberais, fomentadas por organismos internacionais, como o
Banco Mundial, sendo seu eixo dominante a lógica de mercado, que visa maior
produtividade e eficiência, diferenciação e hierarquização das instituições e o
outro enfoque, aqui referido como autoavaliação, seria resultante dos princípios e/ou
características pressupostas pelo Programa de Avaliação das Universidades
Brasileiras-PAIUB, quando de sua implantação. Na mesma linha, Martinato (1998) fala em
avaliação como instrumento do poder e como processo de melhoria da qualidade do fazer
universitário. Belloni (1998), ancorada no conceito de função social da
avaliação, distingue entre avaliação como "controle e hierarquização entre
instituições", funções do Estado, e como estratégia "para a
identificação das insuficiências e das potencialidade de instituições e do sistema,
com vistas à melhoria e mudança em seu funcionamento" ou, ainda, como processo
de "autoconhecimento e tomada de decisões", com vistas à finalidade
de aperfeiçoar o funcionamento e alcançar melhores resultados em sua missão
institucional, junto à ciência e junto à sociedade", assegurando relevância e
qualidade. Leite e Balarine (1998) falam da tensão entre o Estado e a Comunidade
Acadêmica "em nível de concepções, finalidades e objetivos da avaliação".
Em suma, essa dualidade de perspectivas transparece na literatura e faz parte do cotidiano
das instituições.
Essas diferenças de concepção acerca da avaliação institucional,
como assinalam Dias Sobrinho(1998) e Belloni(1998), por exemplo, são expressões de
perspectivas diferentes: de um lado, o poder instituído, o Estado; e do outro, a
Comunidade Acadêmica enquanto expressão de uma visão democrática, de construção de,
e a partir de, dentro da instituição, ou seja, o desejo de autonomia, de participação,
de decisão consensuada e de não interferência externa.
A Figura 1 tenta visualizar essas duas perspectivas. De um lado, há o
Estado, com suas prerrogativas de exercício das funções de controle, regulação, de
fiscalização, credenciando e descredenciando, pelo menos em tese, de cursos e
instituições. De outro lado, está a Universidade com sua autonomia, sua liberdade
acadêmica, com sua proposta de avaliação. Na prática, sendo Estado e Universidade
realidades vivas, dinâmicas, eivadas de contradições e interesses, não constituem
unidades monolíticas, ainda que o discurso tenda a reduzi-las a isso. Esse reducionismo
pode gerar distorções e incompreensões, todavia.
Figura 1: Avaliação institucional versus controle e regulação ou as perspectivas da
Comunidade Universitária e do Estado (e Mercado)

Primeiramente, é preciso não perder de vista que a Universidade,
enquanto instância de poder, pode reduzir o seu processo autoavaliativo à função de
controle e fiscalização, internalizando, reproduzindo, ampliando e aprofundando o papel
do Estado. Essa possibilidade aumenta pelo fato de que as instâncias executivas da
Universidade, quer seja a Reitoria, quer seja o Departamento, quer seja o Colegiado ou
outras instâncias de poder, têm necessidade de exercer um controle mínimo (da
perspectiva do funcionamento), que é, a rigor, o máximo conseguido (da perspectiva da
vontade política) sobre o processo do fazer universitário e sobre os resultados
alcançados. Essa inclinação para o controle e para a regulação é inerente ao poder,
faz parte de sua natureza. Ocorre que na falta de mecanismos para melhor exercer esse
papel, a avaliação institucional, por também conter elementos que possibilitam o
conhecimento do que se passa, tende a ser vista na perspectiva de suprir essa função.
Aqui, não há problema maior com esse uso, quando se trata de políticas, do sistema e
mesmo das estruturas de poder. Todavia, o problema está quando incide sobre os
atores-sujeitos da universidade, individualizando-os e abrindo brechas para a punição.
Isso resulta na ampliação da resistência ao processo avaliativo e a sua agonização e
morte. Essa tentação é uma realidade e parece "natural" aos detentores de
algum poder tentarem se valer dela para essa finalidade. Se isso vier a acontecer, será a
credibilidade e a legitimidade da avaliação que paga o preço. Essa prática se
constitui em uma ameaça à avaliação institucional, pelo menos na perspectiva aqui
assumida. A propósito, o que mais diferencia o caráter da avaliação institucional não
é o dado em si, mas o seu uso, assim como o contexto e funções que desempenha.
Isto não invalida o uso dos resultados da avaliação para a
adequação das políticas internas e para a redefinição das prioridades. Nisso reside
parte da razão de ser desse processo avaliativo. A esse respeito, na análise da
experiência da UNICAMP, Dias Sobrinho (1994) reflete essa propensão de uso, quando trata
dos diversos objetivos da avaliação, destacando que as estruturas formais e
representativas da Universidade devem cuidar para que, segundo ele, "a
avaliação, com suas distintas formas, alimente a instituição com a visibilidade dos
indicadores quantitativos e com a perspicácia de análises qualitativas que orientem a
universidade em suas tomadas de decisão quanto ao ordenamento dos grandes programas e
políticas prioritárias, ao seguro e forte desenvolvimento das atividades acadêmicas e
quanto à adequada e eficaz distribuição e administração dos recursos".
Em resumo, a avaliação institucional, ainda que conduzida
autonomamente pela instituição, dependendo do seu uso, contexto e referencial, pode
apenas reproduzir, ampliar e aprofundar a dimensão avaliativa presente nas avaliações
externas, de controle e regulação, que têm no Estado o principal referencial. Com a
diferença de que se trata de um autocontrole e uma auto-regulação, com efeitos
praticamente idênticos sobre os atores-sujeitos do processo universitário e sobre suas
instâncias burocrático-acadêmicas e se constitui, em realidade, num fomento à
resistência do avaliado, sob vários mecanismos, sendo um deles a tendência à
incorporação do formalismo prático, no cumprimento burocrático-contábil das
atribuições. À medida em que esse processo avança, corre-se o risco de se estar
abortando valores essenciais à universidade e à sua missão.
Da mesma forma, o Estado, ainda que tenha como prerrogativas
inalienáveis o exercício das funções de controle e de regulação, dependendo da
conjuntura e do Governo, pode abrir espaços para outras práticas e dimensões. Nesse
sentido, o PAIUB, como proposta construída consensualmente entre o MEC e as
Universidades, é um exemplo claro de que o Estado não pode ser reduzido exclusivamente
às dimensões de controle e regulação, nem confundido com um Governo. Contudo, o PAIUB
representou um "cochilo", já que a prática usual do Estado está mais para
Provão do que para esse. De qualquer forma, sem abrir mão das funções que lhe dizem
respeito e precisa dar conta, o Estado pode alargar, e muito, a forma de cumprir sua
missão e o PAIUB, ainda que tenha sido apenas um lampejo, revelou essa possibilidade.
Objetivando uma melhor compreensão da avaliação institucional,
talvez se faça necessário acrescentar a essas distinções, mais uma, partindo-se do
pressuposto de que a perspectiva do Estado não necessariamente coincide com a do Mercado,
como tende a ser assumido no discurso. Aqui, dependendo da conjuntura, Estado (e nesse o
Governo) e Mercado podem apontar, inclusive, para direções opostas. Na interação entre
Estado, Mercado e Universidade, entendendo essa última enquanto expressão da Comunidade
Acadêmica (não necessariamente Universidade enquanto poder) parece, pois, crucial tentar
definir ou captar a singularidade de cada instância e de cada perspectiva, bem como o que
é comum às três e a cada uma das combinações. A Figura 2, nesse sentido, tenta
refletir essas interações entre as três instâncias principais na avaliação da
Universidade, buscando precisar o singular de cada interesse ou perspectiva. A questão é
definir o essencial e o singular de cada perspectiva, bem como o que há de comum entre
elas. Em suma, dado que a Universidade não pode ser confundida nem com torre de marfim,
nem com balcão de negócios, nem com chicote, sua avaliação precisa levar
em conta todas as perspectivas, discernindo-as e contextualizando-as, todavia.
Figura 2. "Avaliações" da Universidade nas perspectivas do Estado, da
Comunidade Acadêmica e do Mercado.
A distinção entre Universidade e Comunidade Acadêmica também se faz
oportuna e pretende refletir a não necessária coincidência entre a equipe gestora da
Universidade, em uma determinada conjuntura, e a visão e perspectiva da Comunidade
Acadêmica. Isto porque há a tendência das instâncias dirigentes das universidades
assumirem as perspectivas do Poder e/ou do Mercado.
Portanto, a compreensão da natureza e da função da avaliação
institucional é maior quando se avança no discernimento do que constitui o essencial ou
singular nos complexos, estruturas ou dimensões principais da sociedade aqui denominados
por Estado, Mercado e Universidade, não considerando as rupturas ou dissenções comuns
nessas estruturas aparentemente monolíticas e, aqui, por uma questão de ordem didática,
assumidas como se assim o fossem.
Resumindo, da perspectiva da avaliação institucional, o foco da
Universidade centra-se no conhecimento dos problemas, limitações, condições e
potencialidade e na tomada de decisões, tendo como horizonte a melhoria e a mudança do
seu funcionamento. O foco do Estado centra-se no controle, na regulação, na
normatização, no credenciamento e descredenciamento, na garantia de um mínimo de
condições e de qualidade nos serviços prestados. O Mercado, por sua vez, segundo sua
lógica interna de dinamismo, competição ou concorrência, tem seu foco centrado na
hierarquização, na premiação, na punição ou exclusão ("quem não tem
competência não se estabelece"). Quando se fala que o foco "centra-se
em..." não se está dizendo que as outras dimensões também não se façam
presentes em menor grau. A percepção da singularidade de cada um dos complexos ou
estruturas no tocante à avaliação institucional pode melhorar a compreensão, pelo
discernimento daquilo que é essencial em cada uma. Essa não distinção, comum na
literatura, pode ofuscar o entendimento.
Para finalizar, faz-se necessário um reparo ao foco da Universidade,
como acima exposto. Via de regra, a ênfase da avaliação institucional recai sobre os
dirigentes, pois são esses que têm o poder de tomar as decisões, subsidiados pela
avaliação institucional. Trata-se, aqui, de um viesamento ou um reducionismo. Caso se
pretenda fazer com que a avaliação institucional tenha efetivamente uma função
educativa e crie cultura, firme valores, como sustenta Ristoff (1996), é preciso
ultrapassar esse conceito, alargando-o e aprofundando-o, como se verá a seguir.
Avaliação Institucional e cultura da mudança
A literatura aponta fases no interminável processo de avaliação
institucional: autoavaliação, avaliação externa, reavaliação, retomando o processo
em um novo patamar (Yarzabal, 1988). O documento básico do PAIUB fala em diagnóstico,
avaliação interna e avaliação externa. O Guia de Avaliação das Universidades
Espanholas fala em autoavaliação e avaliação externa. A Comissão Nacional de
Avaliação e Credenciamento Universitário da Argentina-CONEAU fala em autoavaliação,
avaliação externa e informe final (Navarro e Gottifredi, 1998). Em suma, há
praticamente um consenso acerca das etapas ou fases desse processo, sendo as variantes, de
pequena expressão.
A avaliação institucional é um processo, sem fim, de busca da
qualidade do fazer universitário e pressupõe e exige predisposição à mudança. É
impensável concebê-la dissociada da mudança, mais do que isso, de uma cultura da
mudança. Essa é exigida pela dinâmica da realidade científica, tecnológica, cultural,
organizacional, política e social. O fato é que o mundo, a sociedade, a economia, mudam
num ritmo cada vez mais acelerado. Essa aceleração da mudança agrava o processo de
corrosão e de obsolescência dos conhecimentos e das tecnologias e explicita a
necessidade de atualização, de renovação do conhecimento, de mudanças. Essas impõem
desafios à universidade.
Segundo Yarbazal (1998), no atual contexto, os desafios postos à
universidade pública são "preparar-se para responder a los requerimientos de la
formación permanente, a los cambios generados por la revolución científico-tecnológica
y a la necesidad de convertirse en instituciones altamente eficientes en el manejo de
recursos públicos". No prefácio à publicação Novas Idéias para a
Universidade, resultante de ciclo de seminários sobre as universidades portuguesas,
Roberto Carneiro, expõe três desafios de uma nova visão de universidade:
"a)conjugação de reformas na gestão das universidades com a
implantação da cultura
da avaliação e prestação de contas frente à sociedade;
"b)no processo de massificação do acesso à universidade, a
afirmação pela competência e pela qualidade em algumas áreas de conhecimento;
"c)como uma exigência crescente da nova sociedade do
conhecimento, estruturar-se para dar conta à necessidade da Educação ao Longo de Toda a
Vida, para a educação continuada e multifacetada demandada pelo público adulto"
(IST, 1998).
Esses desafios postos à universidade, que precisa redefinir-se,
construindo permanentemente sua identidade, tem implicações sobre os seus elementos
constituintes. Ao professor, por exemplo, é exigida uma busca contínua de atualização
em todas as dimensões de seu fazer, quer pelas mudanças nas ferramentas e nas técnicas
de pesquisa, quer pelos avanços da ciência em sua área de conhecimento, quer pelos
avanços da ciência pedagógica, quer por mudanças no ambiente econômico, social e
cultural externo à Universidade, locus em que o estudante deverá atuar enquanto
profissional. O mundo muda e os atores-sujeitos do processo universitário precisam se
atualizar continuadamente. A avaliação institucional pressupõe e exige essa mudança e,
mais do que isso, exige a criação de um espírito predisposto à mesma. Portanto, a
mudança pressuposta e exigida é de ordem cultural e pode ser traduzida na criação de
uma cultura e de um espírito aberto à inovação, ao novo, que responda, em suma, ao
imperativo da atualização permanente.
São todos os atores-sujeitos do processo universitário que precisam
mudar e incorporar o desafio de sua autosuperação ininterrupta, do aprendizado
permanente. São os estudantes que precisam fazer valer sua condição, exigindo o máximo
da Instituição e de seus professores, em prol de seu desenvolvimento pessoal e
profissional. São os professores que precisam ajudar a construir a ponte entre o mundo da
ciência, da tecnologia, da filosofia e o estudante e suas necessidades formativas. Enfim,
estar atualizado e fazer a parte que lhe toca no aprendizado dos estudantes. Há também a
ponte com a sociedade e com o mercado, que estudantes e professores precisam construir,
tendo como parâmetro o mundo da ciência. Os servidores precisam cumprir com eficácia
sua parte, para que as funções fins da Universidade se realizem, impedindo que se
estabeleça uma cultura burocrática, contábil, à semelhança, por exemplo, de uma
repartição pública formalmente eficiente, mas sem compromissos efetivos. Mudando os
atores-sujeitos, as estruturas em que esses atuam, sejam as salas de aula, os
laboratórios, os núcleos de pesquisa, os Colegiados, os Departamentos, a Reitoria, as
instâncias de representação dos interesses corporativos e a própria Universidade
refletirá concretamente essa mudança. E, mudando os atores-sujeitos, a cultura
universitária, o entorno, a comunidade regional e suas instituições também deverá,
progressivamente, refletir essa nova cultura. A possibilidade de uma universidade
constituir-se numa instância transformadora de seu entorno está diretamente ligada à
sua capacidade de atualizar-se, de superar-se permanentemente, e esse é o papel
estratégico que uma avaliação institucional pode operar.
A mudança dos atores-sujeitos e o aprimoramento das estruturas precisa
se refletir nos processos universitários, como na produção de conhecimentos, na
formação de profissionais, na criação de cultura, na prestação de serviços. É
nesses processos que ensino, pesquisa e extensão interagem e moldam o grau de
indissociabilidade alcançada, concretamente, em cada ação e em cada prática do fazer
universitário.
A Avaliação Institucional conjuga-se com mudança e essa assume
diferentes significados. Trata-se de um processo, sem dúvida, doloroso, lento, com
avanços e retrocessos, mas com grande potencial de transformação. Portanto, a
avaliação institucional está indelevelmente conectada à mudança e à melhoria, como
também afirma, por exemplo, Belloni (1998), se adequadamente instrumentalizada, uma vez
que se constitui em meio, em ferramenta e não em um fim.
Há na literatura sobre a avaliação institucional uma ênfase que
pode induzir ao empobrecimento do seu potencial transformador. Quando se afirma, por
exemplo, que se pretende identificar as insuficiências e as potencialidade de
instituições e do sistema, ou, ainda, que a avaliação institucional é um processo
de autoconhecimento e tomada de decisões, (Belloni, 1998), transparece a idéia de
que o sujeito da avaliação institucional é a elite dirigente, que é quem decide
conhecer e quem toma decisões a partir desse conhecimento da realidade. Aos outros, que
não orbitam o poder e o mundo das políticas, compete aceitar, aderir e operacionalizar
políticas e decisões. Sem dúvida, essa é uma das suas dimensões essenciais. No
entanto, essa maneira de colocá-la parece relegar uma dimensão importante da mesma, que
é a criação de cultura de avaliação, do "firmar valores" (Ristoff, 1996) ao
nível de cada ator-sujeito do processo, seja servidor, seja estudante, seja professor. A
avaliação institucional, em sentido pleno, é a conjugação dessas duas dimensões da
realidade: a das estruturas de poder e seus dirigentes e a dos atores-sujeitos,
responsáveis, em última instância, pelo funcionamento de todo o sistema. Sustenta-se,
portanto, que a mudança precisa se dar nesses dois níveis, sob pena de degenerar numa
"avaliação externa" (aos atores-sujeitos), embora conduzida pela própria
instituição. Aqui, quanto maior a sintonia, articulação e interação entre esses
níveis, maior a probabilidade da avaliação institucional realizar a promessa de que é
portadora. É por essa razão que nos princípios e características colocadas como
desejáveis, os autores que comungam com o PAIUB dão relevo ao espírito democrático,
como ser participativa, consensuada, negociada, ter adesão espontânea, entre outras.
Avaliações Externas e Autoavaliação
É importante traçar uma linha demarcatória clara entre a
autoavaliação e as muitas modalidades de avaliação externa. Dentre as modalidades de
avaliação externa está a avaliação por pares. Essa pode representar um passo
importante no processo de avaliação institucional. Seu traço distintivo consiste no
fato dessa se constituir em um olhar de fora, livre, realizado por professores com
reconhecido conhecimento e competência no meio universitário.
Essa avaliação por pares diferencia-se de outras avaliações
externas por se situar no âmbito paradigmático da avaliação institucional da própria
universidade, comungando de seus princípios e características, e não tem nenhuma
função de controle e de regulação direta e imediata. Caberá à própria instituição
ponderar sobre a validade do parecer emitido, levando-o em conta ou não. No fundo,
trata-se de uma análise crítica, tendo como pano de fundo o propósito de
contribuir para a melhora da qualidade do fazer universitário. Nisso reside a sua
grandeza e mérito, bem como o seu risco, representado pela possibilidade de capitulação
dos pares ao corporativismo próprio da academia. A UESC submeteu-se, a partir do final de
maio e primeiros dias de junho de 1999, a esse olhar relativamente livre e aberto do ponto
de vista de sua focalização.
O MEC seguidamente institui e envia às universidades Comissões de
Especialistas para fins de verificação das condições, de credenciamento e
recredenciamento de cursos e das próprias instituições. A ênfase dessas Comissões
tende a avaliar as condições de oferta dos serviços educacionais, tendo como
referência o mínimo legal para o seu funcionamento.
No país, a avaliação da pós-graduação stricto sensu,
coordenada pela CAPES, possui maior tradição. Essa tenta combinar condições de oferta
e produto.
O Exame Nacional de Cursos, Provão, enfatiza o resultado final do
processo formativo, mediante a aplicação de uma prova. Pretende avaliar os cursos pelo
desempenho dos seus estudantes concluintes. Ainda que ofuscada pelas notas obtidas pelos
estudantes, e destacadas na mídia, essa avaliação também agrega a avaliação de
condições de ofertas dos cursos. O alargamento das pretensões dessa modalidade de
avaliação, em vez de aprofundar o processo de avaliação de produto, ampliando e
melhorando as suas condições de avaliação, tenderá a empobrecê-la, desfocalizando-a.
O mérito maior dessa modalidade situa-se no fato de fazer incidir seu foco sobre o
produto final do processo formativo, aclarando um pouco a qualidade do profissional
colocado no mercado, permitindo uma percepção menos difusa sobre a qualidade dos cursos
e dos profissionais lançados a cada ano. Todavia, a prova, por não ter uma dimensão
prática, está ainda longe de dar conta do que se propõe.
Uma variante muito promissora de avaliação externa é oportunizada
pela análise da situação ocupacional dos egressos e sua visão do curso que realizaram.
Todavia, essa é de difícil operacionalização, sobretudo em função da mobilidade dos
egressos. A UESC realizou essa avaliação a partir da situação no mercado de trabalho e
visão dos egressos de seus cursos, no segundo semestre de 1997. E, no momento, está em
curso uma análise crítica da situação e da trajetória institucional e visão
prospectiva por seus principais ex-dirigentes, que é uma outra variante dessa.
Em comum, as avaliações externas focadas, em última instância, no
controle e regulação, apresentam uma tendência, que é a de partirem do pressuposto do
mínimo que uma instituição e/ou um curso deve reunir de condições para poder
funcionar e continuar prestando serviços. Nesse sentido, o olhar de fora é sempre
um olhar que traz implícito esse viés, sendo esse agravado pelo fato dele estar marcado
pela brevidade de tempo e pelo pouco aprofundamento, pela reduzida convivência e limitado
conhecimento das instituições avaliadas. Nesse sentido, enquanto o olhar da avaliação
institucional situa-se na perspectiva do futuro, não raro, julgamentos de avaliadores
externos fixam seu olhar no presente, no imediato, no visível, no quantificável,
perdendo de foco a perspectiva histórica, estando esse olhar, em conseqüência,
prejudicado pela frágil contextualização, pelo acúmulo de atribuições e pela
escassez de tempo que esses têm para produzir relatórios ou pareceres.
Esses olhares de fora, quando dotados de honestidade de
propósitos, ainda que marcados por essas características, têm o seu lugar, valor e
necessidade e, se adequadamente contextualizados e interpretados, podem resultar em
expressiva contribuição. A rigor, podem e devem compor com a autoavaliação um todo.
Essa é a perspectiva perseguida pela UESC.
Contudo, uma instituição que se pretende portadora de futuro, não
pode ter o mínimo legal como parâmetro. O foco deve ser o máximo, dadas
as condições e momento histórico. E esse requer o engajamento de todos os
atores-sujeitos do processo universitário e, por um processo permanente de
auto-superação, buscar o máximo do potencial existente em cada um e em cada ação.
Nisso reside o segredo e a força da autoavaliação, se essa conseguir ultrapassar a fase
ou condição de mais um fazer imposto por uma autoridade exterior, ainda que essa
seja internalizada em cada nível hierárquico de uma instituição. Se os atores-sujeitos
do processo sentirem e interpretarem a autoavaliação como um poder de controle e não
como subsídio e estímulo para a auto-superação ou ainda como um fazer de conta
burocrático, a autoavaliação não passará de mais uma avaliação externa sobre
os sujeitos do fazer universitário, ainda que realizada pela própria Instituição. Por
essa razão, dentre os princípios do PAIUB, no plano dos atores-sujeitos, um nos parece
crucial, ainda que tenha ficado nele subsumido: a avaliação institucional não é
premiativa, nem punitiva, nem neutra, todavia.
Não fazê-la premiadora ou punidora, como sustenta esse princípio, é
o que a liberta da tentação do controle e da regulação, enfim, da perspectiva do
poder, interno ou externo. Todavia, essa condição, necessária porém insuficiente,
precisa ser conjugada com uma outra: também não pode ser neutra. E isto para não
ser inútil, insossa, insípida, vazia, uma grande encenação ou um fazer de conta
burocrático-institucional. Quando se afirma que ela não pode ser neutra, está-se
dizendo que ela precisa induzir necessariamente à mudança anteriormente referida. Ela
precisa desequilibrar e projetar para padrões cada vez mais elevados de qualidade e de
relevância o fazer de cada um dos atores-sujeitos do processo universitário e a própria
Instituição. A mudança pessoal, profissional e institucional é um processo doloroso,
porque admitir a necessidade de mudar e operar essa mudança de si mesmo, de seu espaço e
das estruturas de atuação é difícil, porque é mais cômodo resistir, acomodar-se.
Portanto, a conjugação dessas duas condições presentes nesse princípio do PAIUB
demarca o grau de sucesso do processo de avaliação institucional. É por essa razão que
seus melhores resultados são a médio e longo prazos. Constituem um importante componente
de realização pessoal, mas sobretudo de realização profissional. Compreender isso faz
a diferença. Aqui reside a razão da crítica feita anteriormente a tendência de
circunscrever a avaliação institucional como função e a serviço da elite dirigente.
Isso pressupõe, também, que o tempo, como espaço de amadurecimento, é uma necessidade.
A UESC, por enquanto, está conseguindo manter a continuidade desse processo, iniciado em
1994.
Estratégia de avaliação institucional da UESC
A avaliação institucional foi pensada como um meio privilegiado de
induzir a mudanças, no plano dos atores-sujeitos e no plano das estruturas de poder.
Perseguiu-se, ao longo dos anos, criar cultura de avaliação, incorporando a avaliação
ao dia a dia da Instituição, rotinizando-a.
Para isso, delineou-se uma estratégia em duplo movimento: num sentido,
a avaliação aproxima-se gradualmente e com contundência crescente de cada ator-sujeito
do processo universitário e de cada instância burocrático-acadêmica, pelo
aprimoramento dos instrumentos, das técnicas, mas, sobretudo, pelo discernimento da
relevância de cada elemento ou aspecto focado, por todos os envolvidos no processo. A
missão da avaliação institucional começa a cumprir-se à medida em que ninguém e
nenhuma instância sente-se indiferente à mesma, tendo necessidade de responder
criticamente, quer seja pela sua contestação, quer seja pela incorporação de mudanças
sugeridas, quer seja confirmando o acerto do fazer e do rumo escolhido. Obviamente, esse
processo não é linear. Os relatórios produzidos, adiante citados, explicitam esse
movimento.
O outro movimento consiste no alargamento e no aprofundamento do
alcance do processo de autoavaliação, buscando, tanto quanto possível, realizar a
utopia da globalidade, explicitando as conexões entre as partes e entre o(s) conjunto(s)
e as partes do sistema universitário. A cada ano, novas funções e novas dimensões da
Universidade vêm sendo incorporadas, como pode ser visto na relação dos relatórios
adiante mencionados.
A Comissão de Avaliação Institucional teve como propósito principal
criar uma cultura de avaliação, com vistas a mudanças no fazer universitário, com o
propósito de contribuir para a melhora da qualidade dos cursos de graduação. Esse foi o
mote utilizado e presente em todo o processo. Também se teve o entendimento de que tudo
pode ser indicador de qualidade e de não qualidade no fazer universitário. Em razão
disso, a Comissão passou a integrar e a considerar todos os elementos que, de uma forma
ou outra, pudessem contribuir para uma maior compreensão da realidade institucional, como
o Exame Nacional de Cursos, por exemplo.
Partiu-se do pressuposto de que a criação de cultura era e é uma
possibilidade objetiva, ainda que de médio e longo prazos, desde que o processo fosse
iniciado e não sofresse retrocessos ou interrupção. Isto porque a criação de cultura
é uma questão, também, de tempo. Pareceu-nos importante colocar a avaliação na
condição de rotina. E, gradativamente, incorporar novos elementos ao processo, bem como
novas dimensões e funções.
Investiu-se muito tempo, sobretudo no ano de 1996, com Coordenadores de
Colegiados e com Diretores de Departamento, quanto ao alcance e aos focos da avaliação.
Só foi possível um acordo mínimo e se iniciou o processo operacional de avaliação no
final do segundo semestre letivo. Mesmo assim, por resistência, não foi incluída a
avaliação por disciplinas, demandada no ano seguinte, todavia. O processo iniciou pelo
ensino de graduação e, a partir de 1998, passou a ser semestral. Em 1997 foi realizada a
avaliação na perspectiva do professor e teve início a avaliação na perspectiva dos
servidores, que passou a ser realizada todos os anos. Os cursos de pós-graduação
aderiram ao Programa de Avaliação Institucional no final de 1998 e início de 1999.
Em 1996, a Comissão reelaborou projeto de avaliação original e o
remeteu ao MEC/SESu, tendo, então, recebido um pequeno recurso nesse ano. A partir daí,
não foi mais possível contar com recursos do MEC, cabendo a Instituição assumir os
seus custos.
À medida em que o processo de avaliação foi evoluindo, e em função
dos resultados, a Reitoria passou a dar-lhe mais atenção e valorização. Hoje, a
posição é muito firme na sua defesa e de confiança no trabalho empreendido. Todavia,
as funções da Comissão ainda não foram formalmente institucionalizadas pelo Conselho
de Ensino, Pesquisa e Extensão. Os Diretores de Departamento e Coordenadores de Colegiado
de Curso, em graus variados de adesão e de resistência a pontos tópicos do Programa de
Avaliação, têm assumido o processo e, apesar da rotatividade na ocupação destes
postos, renovados a cada dois anos, tem sido crescente a percepção de seu valor
estratégico, sobretudo para detectar pontos problemáticos.
Os estudantes, pelo menos em algumas manifestações pessoais, têm se
queixado quanto à eficácia da sua participação na avaliação. Essa sinalização
aponta para o risco da avaliação perder credibilidade e legitimidade, pela incapacidade
da instituição de transformar seus resultados em ações, ou pelo menos, na sua não
visibilidade. Portanto, apesar de haver uma consciência de que a avaliação é um
direito e um instrumento de que dispõem para pressionar por mudanças, paira sobre a
avaliação institucional o fantasma de naufragar em seu mar de promessas não cumpridas.
Aqui, seguramente, a incapacidade de dar conta desse deficit, por corporativismo
docente, por omissão, por acomodação, por falta de discernimento dos dirigentes, ou por
quaisquer outras razões, se constitui na maior ameaça ao futuro da avaliação
institucional na UESC. Esse é o grande desafio e ao qual se está atento. Aqui, há uma
sobrecarga de valores e expectativas e sua não satisfação não ficará impune. Se isso
vier a acontecer, a Comissão terá colhido, ainda que a contragosto e sem o desejar, o
que semeou, já que essa resposta também é resultante de um amadurecimento político,
para o qual contribuiu. Os servidores, através de seus representantes, discutiram o
instrumento e os resultados. Todavia, vale para esses e também para os professores, o que
se está dizendo aqui acerca dos estudantes.
Fazendo uma síntese, cresce o entendimento de que a avaliação se
constitui, potencialmente, numa ferramenta poderosa no sentido de contribuir para a
melhoria da instituição, dos cursos e do desempenho de cada ator-sujeito do processo. À
medida em que a avaliação vai agregando novas dimensões da vida universitária, sem
abrir mão dos espaços já conquistados, seu poder de indução de mudanças aumenta e
passa a ser sentida mais fortemente como necessidade, sobretudo para aqueles que ocupam
cargos de direção e precisam decidir.
O processo avaliativo da UESC, iniciado em 1994, vem ganhando solidez.
Os instrumentos foram aprimorados. Novas iniciativas foram sendo empreendidas, buscando as
informações mais oportunas e necessárias e a forma mais efetiva de obtê-las. A
experiência acumulada em quase seis anos de avaliação contínua revela a importância
da continuidade do processo.
A análise da experiência da primeira Comissão da UESC, de fevereiro
de 1994 a maio de 1996, revelou que a sensibilização, comumente colocada como sendo a
primeira ou pré-etapa, a rigor, precisa estar presente o tempo todo e todos os passos
dados devem se constituir num elemento de re-sensibilização, de re-motivação. Por si
só, é insuficiente para sustentar o processo, que precisa de resultados. E isto porque,
a cada ano, ingressa um expressivo contingente de estudantes na Universidade, cerca de
20%, novos funcionários vêm sendo agregados, professores saem e outros entram no quadro
e isto é uma realidade que se impõe com força, sobretudo numa instituição em
expansão, como a UESC o é hoje. Em suma, face à dinâmica institucional, cada resultado
deve se constituir num reforço ao processo, num elemento de conscientização e de
sensibilização. Os resultados representam um potencial ímpar de sensibilização. Sendo
assim, é o próprio processo que se retroalimenta.
Avaliação Institucional e outras avaliações internas
Há muitas definições de avaliação institucional na literatura. E
também há muitas definições do que não é. Todavia, o que não é e o que constitui
elemento integrante de uma avaliação institucional não está tanto no dado em si, mas
no seu enquadramento teórico.
O PAIUB, em sua versão original, fala em princípios que comandariam a
avaliação institucional. Dilvo Ristoff (1996) aponta os seguintes: globalidade,
comparabilidade, respeito à identidade institucional, não punição ou não premiação,
adesão voluntária, legitimidade, continuidade. Dias Sobrinho (1996), tentando
demarcá-la conceitual e metodologicamente apontou, nesse sentido, a institucionalidade
como princípio explicativo, a globalidade como princípio heurístico, entendido
como "uma reconstrução da articulação, da integração, do interrelacionamento
das partes", qualidade como objetivo, a avaliação como um processo
pedagógico, ênfase no enfoque da qualidade. Retomando o assunto
posteriormente, (1998) aponta-lhe as principais características e condições: a globalidade,
ser integradora, ser participativa e negociada, ser operatória e
estruturante, ser contextulizada, ser formativa, ser permanente, ser
legítima, ser voluntária, estar adaptada a cada instituição. Há
outras tentativas de demarcação e todas as que têm no PAIUB uma importante fonte de
inspiração apontam nessa direção. Um dado interessante é que entre o primeiro e o
segundo momento de análise, os termos do discurso mudaram: passou-se de princípios
para características e condições.
Essas características, condições, e mesmo princípios, sinalizam, em
seu conjunto, o quanto um projeto denominado de avaliação institucional corresponde ao
que anuncia e o quanto está distante. A rigor, uma avaliação institucional stricto
sensu sempre será uma aproximação, uma pretensão, um desafio e, em última
instância, uma utopia. Esse fato, todavia, não invalida o esforço de tentar
realizá-la. Ao contrário, o propósito é avançar continuamente nessa direção,
buscando a superação de situações e de patamares de qualidade do fazer acadêmico. A
dimensão de caráter utópico da avaliação institucional reflete a própria natureza da
Universidade e de seu fazer, reflete a infinita busca da qualidade, da ciência e da
tecnologia, todavia, sempre provisórias.
Há, porém, uma outra dimensão dessa realidade. Numa instituição,
tudo e todos os processos sinalizam. Se o todo ou os todos parecem inalcançáveis, cada
elemento, cada ator-sujeito, cada processo, cada estrutura, aponta para o conjunto. Por
esta razão, na discussão do que é parte componente de uma avaliação institucional e o
que não o é, o ponto crucial está na sua conexão com o conjunto e, mais precisamente,
em como se dá a articulação com o programa de avaliação institucional.
É possível estabelecer-se aqui uma distinção entre um conceito
amplo e outro restrito de avaliação institucional. A propósito, Belloni (1998) faz
algumas distinções. Uma delas é entre avaliação educacional, centrada na
aprendizagem, no desempenho escolar, nos programas ou nos currículos, e avaliação
institucional, cujo foco são instituições, sistemas, projetos ou políticas públicas.
A respeito da literatura e da prática na área de avaliação institucional e políticas
públicas, Belloni (1998) constata "certa fluidez conceitual e metodológica,
grande dose de amadorismo e empirismo, além de pouca clareza sobre sua relevância ou
utilidade, assim como freqüente escassez de critérios".
Bielschowski (1996) aponta quatro fases na evolução do conceito de
avaliação. A primeira, associada à mensuração, confundia-a com medida. A segunda,
focada na perspectiva do alcance dos objetivos, desenvolveu o conceito de avaliação
educacional. Distingue-se avaliação de medida. Todavia, tratava-se de uma
avaliação descritiva. A terceira, incorpora o julgamento de valor como elemento
essencial. A quarta fase tenta integrar as dimensões técnicas, descritivas e valorativas
das anteriores, envolvendo "aspectos humanos, políticos, sócio-culturais e
contextuais, sendo a negociação elemento crucial de integração". Para
Bielschowski (1996), a avaliação exige "uma postura crítica permanente da
própria avaliação", de meta-avaliação, definida como "uma visão
crítica do processo avaliativo".
Para esse autor, nas "verdadeiras avaliações",
"o juízo de valor tem lugar primordial, e questões essenciais, referentes a
mérito e relevância, são objetos de atenção". Bielschowski (1996) distingue,
ainda, "pseudo-avaliações" e "quase-"avaliações".
Observa-se, todavia, que na prática nem sempre é fácil fazer essas distinções e é um
pouco difícil ser categórico a respeito.
Primeira Comissão de Avaliação Institucional: março de 1994
a maio de 1996
Analisando a contribuição da primeira Comissão de Avaliação
Institucional da UESC, de fevereiro de 1994 a maio de 1996, no tocante às metas e
publicações, tem-se o seguinte quadro:
As metas da primeira Comissão de Avaliação Institucional da UESC
foram as seguintes:
- Realização de Seminário para intercâmbio de experiências;
- Participação em eventos sobre Avaliação Institucional;
- Envolvimento da comunidade acadêmica no processo avaliativo.
O Seminário foi realizado, componentes da Comissão participaram de
eventos concernentes aos trabalhos e foi tentado o envolvimento da comunidade acadêmica.
Em graus variados, portanto, as metas foram atingidas.
Os trabalhos dessa Comissão resultaram na publicação, de caráter
interno, dos documentos:
- Da Universidade do Sul da Bahia à UESC: uma história em construção (junho de 1995).
Este breve estudo faz uma reconstrução histórica do sonho do Sul da Bahia de ter sua
universidade. Analisa a criação formal, pelo Governo do Estado da Bahia, da Universidade
do Sul da Bahia, em 1969, depois convertida em Universidade de Santa Cruz, seguida pela
solução provisória, com a agregação das três faculdades isoladas de Ilhéus e
Itabuna na Federação de Escolas de Ensino Superior de Ilhéus e Itabuna-FESPI, até, em
1991, consumar-se como Universidade Estadual de Santa Cruz-UESC. Nesse processo,
digladiaram-se as alternativas federalização, estadualização, que acabou se impondo, e
a tendência privatista. Destaca-se, também, o papel desempenhado pela CEPLAC.
- História da FAFI-Faculdade de Filosofia da Ação Fraternal de Itabuna (junho de 1995).
Trata-se, a rigor, de um depoimento, revelando fatos de uma fase heróica dessa Faculdade
e de seus cursos, marcada pelas dificuldades e pelo sacrifício e idealismo dos seus
professores.
- Dados cadastrais da UESC: 1974, 1984 e 1994 (junho de 1995). Esse estudo faz um
comparativo de dados estatísticos em três momentos históricos da UESC, como relações
professor-aluno, servidor-aluno, qualificação dos professores, dentre outras.
- Curso de Enfermagem: da autorização ao funcionamento (junho de 1995). Analisa o
processo histórico que resultou na implantação do curso de Enfermagem.
- Um olhar atual sobre os problemas da UESC: análise comparativa 1984/1994 (junho de
1996). Este relatório faz referência a pesquisas realizadas em dois momentos da
história da UESC. Dificulta uma melhor interpretação o fato de não existirem
informações sobre a metodologia utilizada e todos os dados estão em percentuais, não
informando o número de casos a que fazem referência.
- O curso de Estudos Sociais da UESC sob a ótica dos seus alunos (janeiro de 1996). Este
trabalho aborda, na ótica dos estudantes, aspectos do curso de Estudos Sociais, hoje
extinto, substituído pelos cursos de História e Geografia.
- Projeto de Avaliação Institucional da UESC. Trata-se do documento que contém o
projeto de avaliação institucional da UESC, encaminhado e aprovado pelo MEC/SESu, em
1994. (Esse trabalho assumiu o formato de pequeno livro).
- Pesquisa com professores e estudantes, realizada em 1994, mas que teve o processamento
final e produção de relatórios em 1996, pela 2ª Comissão.
A análise dessa produção, de caráter interno e com divulgação
restrita, com exceção do Projeto, seguramente integra um Programa de Avaliação
Institucional em sentido amplo. Todavia, cada um desses trabalhos poderia constituir
projeto específico, sem relação direta com o mesmo. Os textos de reconstrução
histórica, elaborados por componentes individuais da Comissão, enriquecem a avaliação
institucional. No entanto, dado que são elaborações individuais, com características
de forma e conteúdo diferentes e não abarcam, por exemplo, duas das três faculdades
fundadoras da hoje UESC, a de Direito de Ilhéus e a de Ciências Econômicas de Itabuna,
e praticamente não falam da exclusão e da morte de uma quarta, a de Sociologia e
Política de Ilhéus, exceto menção de sua não autorização para funcionar a partir de
um certo momento, poderiam constituir projetos independentes desse Programa. Todavia, são
trabalhos que contribuem para a compreensão da instituição. Esse foi, todavia, o
resultado possível naquele momento histórico e revela o desempenho da Comissão e de
suas subcomissões, que foi desigual.
Segunda Comissão de Avaliação Institucional: desde maio de
1996
No caso da UESC, com a mudança na Reitoria, mudou a composição das
comissão. Todavia, tanto numa como noutra, coube à Assessoria de Planejamento a sua
coordenação, em função da posição estratégica dessa no conjunto da Instituição.
A Segunda Comissão de Avaliação Institucional, também reelaborou o
Programa, mantendo a concepção, todavia. Realizou, em 1996, pesquisa com estudantes, no
final do segundo semestre. Em 1997, foi agregada a essa, a avaliação por disciplinas. A
partir de 1998, essa passou a ser semestral e cada professor passou a receber o seu
relatório individual, denominado Quadro-Síntese, contendo a sua avaliação em aberto e,
em código, a avaliação de todos os colegas de curso.
Relatórios da Comissão de Avaliação Institucional da UESC.
- Estudante 1996. UESC, Ilhéus, 1997.
- Estudante 1997. UESC, Ilhéus, 1998.
- Estudante 1998; Primeiro Semestre. UESC, Ilhéus, 1998.
- Estudante 1998; Segundo Semestre. UESC, Ilhéus, 1999.
- Estudante 1997/2; Avaliação das Disciplinas. UESC, Ilhéus, 1998.
- Estudante 1998/1; Avaliação das Disciplinas/Quadro Síntese. UESC, Ilhéus, 1998.
- Estudante 1998/2; Avaliação das Disciplinas/Quadro Síntese. UESC, Ilhéus, 1999.
- Servidor 1997. UESC, Ilhéus, 1997.
- Servidor 1998. UESC, Ilhéus, 1998.
- Professor 1997. UESC, Ilhéus, 1998.
- Situação Ocupacional e Visão do Egresso. UESC, Ilhéus, 1998.
- A cultura do Abandono das Disciplinas na UESC. UESC, Ilhéus, 1999.
- Estudante de pós-graduação da UESC 1998/99; Avaliação Geral, por Cursos e por
Disciplinas. UESC, Ilhéus, 1999.
- Informe Avaliação Institucional; retrospectiva dos principais resultados. UESC,
Ilhéus, 1999. Esta publicação, pensada como jornal, acabou virando uma revista, com 40
páginas, tendo sido distribuída a partir do início de julho, para os professores,
estudantes e servidores da UESC, com o propósito de também dar a cada integrante da
comunidade acadêmica um retorno, em linguagem jornalística, sobre sua participação no
processo de avaliação institucional. Constitui-se no maior esforço já empreendido pela
Comissão de Avaliação em sua estratégia de aproximar-se cada vez mais do ator-sujeito
do fazer universitário, dando-lhe ciência sobre a realidade.
- Avaliação externa, por pares. Aguardando relatório.
- Avaliação da pós-graduação, por cursos e disciplinas, julho de 1999.
Com a avaliação externa, por pares, a avaliação institucional da
UESC chega a um ponto de inflexão e fecha um ciclo relativamente longo, devendo reiniciar
num novo patamar, incorporando as críticas, discutindo em cada instância o relatório da
referida Comissão. No planejamento inicial, o lugar dessa avaliação externa era ainda
em meados de 1998, quando foi feito um esforço significativo e pensava-se fechar esse
ciclo. Todavia, a Comissão, tendo em vista o propósito de criar cultura de avaliação,
entendeu ser prematuro e decidiu dar mais tempo, acumulando elementos e experiência.
Neste momento, está em andamento a análise da avaliação na
perspectiva dos servidores e em fase de codificação, digitação e processamento, a
pesquisa com os estudantes, concernente ao primeiro semestre de 1999. Deverá, também,
ter nova edição a pesquisa sobre o que aconteceu com cada estudante, em cada disciplina,
em todos os cursos (comportamento acadêmico) nesse primeiro semestre. O importante é que
a avaliação na UESC está tendo continuidade. Está ganhando consistência e
contundência, no sentido de explicitar a realidade e induzir uma postura mais aberta à
mudança, ou pelo menos, de menor acomodação.
A avaliação da UESC não colocou o julgamento de valor dos
resultados, entendido como um dizer o que fazer, como ponto principal e, em
decorrência, não se avançou muito nessa direção. A propósito do julgamento de valor,
esse existe e muito, mas na seleção dos focos ou aspectos avaliados, nos problemas
abordados e nos seus instrumentos. E isto por acreditar que tal competência não lhe
caiba, sendo responsabilidade primeira e principal de cada ator-sujeito e de cada
dirigente em seu nível de mando e/ou coordenação. A visão é que compete à Comissão
de Avaliação expor os problemas e fundamentá-los, valendo-se, para isso, do esforço de
pesquisa. Decorre disso que é difícil atribuir uma decisão, como uma construção, como
conseqüência dessa avaliação, ainda que essa a tenha sinalizado. A avaliação
institucional é uma fonte privilegiada de informações, mas não é a única que um
dirigente dispõe para decidir e justificá-la. Nesse sentido, antes de concluir acerca do
valor da avaliação institucional, é preciso levar em conta os propósitos e a
estratégia perseguida em cada instituição, razão pela qual seu julgamento parece
difícil e complexo.
A Comissão de Avaliação tem tido a preocupação para que o tempo
entre a avaliação e o acesso aos resultados, seja o menor possível, nunca superior a 60
dias. A velocidade do processo vem sendo um fator importante para que os resultados não
se constituam apenas num referencial bibliográfico. Além disso, todos os resultados,
exceto a avaliação por disciplinas, são públicos.
Alguns indicadores globais do desempenho da Instituição já são
elaborados pela Assessoria de Planejamento e constam do relatório anual da Instituição.
Todavia, com a finalização do processo de informatização da Universidade, será
possível avançar muito em relação a esses. É propósito criar um capítulo no
relatório anual, contendo-os, dando conta dos índices exigidos pelo MEC e suas
comissões.
A pesquisa na UESC é uma realidade embrionária. O primeiro seminário
de pesquisa aconteceu no final de 1993 e a partir desse ano é que ganhou impulso. Com a
crescente qualificação do quadro docente, essa função deverá ganhar relevo na
Instituição, devendo também ser incorporada ao Programa de Avaliação. O mesmo deverá
acontecer com a Extensão, realidade mais antiga, todavia. Essa, contudo, só ganhou
densidade, continuidade e volume a partir do processo de estadualização da então
Federação de Escolas de Ensino Superior, hoje UESC, em 1991. A propósito, também na
UESC, localizada no eixo Ilhéus-Itabuna, no Sul da Bahia, a história marca
indelevelmente a cultura e molda as suas características mais importantes.
Uma frente de pesquisa, ainda não suficientemente explorada, são os
bancos de dados do concurso vestibular, seu questionário sócio-econômico, e desempenho
em cada questão nas provas. A Comissão tem a pretensão de transformar esses dados em
subsídios ao planejamento e ao processo pedagógico.
A administração vem sendo objeto da avaliação desde 1996,
abrangendo os principais serviços, incluindo os terceirizados. Aqui, seguramente, será
necessário aprofundá-la, definindo melhor os seus indicadores de desempenho.
Para concluir
A avaliação institucional é um processo de criação de cultura, de
busca contínua de atualização e de auto-superação pelos atores-sujeitos e de
auto-regulação institucional, ao nível das estruturas de poder e do sistema,
assegurando, assim, sintonia com as mudanças operadas no entorno, na economia, na
ciência e tecnologia. Pressupõe o envolvimento e a disposição de cada ator-sujeito do
processo universitário em buscar patamares superiores de qualidade e de relevância de
seu fazer. Provavelmente, esse é o caminho mais seguro para a construção da autonomia
universitária. Trata-se de um processo de mudança e de melhoria lento, gradual, com
avanços e retrocessos, de não acomodação, de compromisso com o futuro. É relevante
distinguir esses dois níveis da avaliação institucional, que devem ser, todavia,
necessariamente conjugados. Da mesma forma, é relevante distinguir também em que nível
se está operando, em sentido amplo, uma vez que tudo pode ou não se constituir em
avaliação institucional, dependendo do enfoque e enquadramento teórico, e, em sentido
estrito, de avaliação institucional propriamente dita.
No plano dos atores-sujeitos, a mudança está na busca de
atualização, de aprimoramento profissional, de maior qualificação do fazer. Poderia
ser traduzida na reconstrução do projeto profissional, pedagógico e, com repercussões
projeto de vida de cada um. No plano das estruturas de poder e do sistema, a mudança se
traduz no funcionamento eficiente e eficaz, nos planos operacionais, no plano
institucional de desenvolvimento, no funcionamento de mecanismos de auto-regulação.
Quanto mais os projetos de vida e profissionais e os planos operacionais e estratégicos
forem expressão da avaliação institucional, mais a cultura de avaliação terá
conseguido enraizar-se e consolidar-se. Para isso acontecer, primeiramente será preciso
dar tempo ao amadurecimento do processo. Será preciso que esse não remeta nem à
premiação e nem à punição no plano dos atores-sujeitos. Todavia, será necessário
que não seja neutro, que não deixe ninguém indiferente e nem fora do mesmo, incidindo
sobre os aspectos e dimensões cruciais da vida e do fazer universitário.
A título de curiosidade, após recebimento dos resultados da
avaliação de serviços terceirizados, como cantinas, fotocópias e transporte coletivo,
empresas desses segmentos visitaram à Comissão, buscando conhecer metodologia e
justificar resultados. O propósito da Comissão é que cada professor, cada estudante e
cada servidor, no plano dos atores-sujeitos, e de cada dirigente, no plano das estruturas
de poder, percebam a avaliação e decidam mudanças em função de seus resultados, não
por imposições externas, mas por decisões autônomas, livres e amadurecidas. E quanto
mais isso ocorrer, mais se estará, seguramente, numa cultura de avaliação. A UESC já
deu, nessa direção alguns passos, mas o caminho a ser percorrido é longo. É por essa
razão que a continuidade assume importância nesse processo, porque só será possível
consolidá-lo a médio e longo prazos.
No plano das estruturas de poder interno da Universidade, a
construção e reconstrução contínua de um plano estratégico, global e setorial,
embasado nos resultados da avaliação, é um indicador-maior de que o processo está na
direção certa. Isto porque o processo institucional precisa ser governado pelo plano
estratégico e não pelas circunstâncias, como nos diria o economista chileno Carlos
Matus. E esse é mais um passo que a UESC ainda não deu de forma plena, embora tenha o
seu plano. Contudo, falta nesse uma marca mais forte da avaliação institucional.
A UESC, para finalizar, está aprendendo a fazer sua avaliação
institucional. Há muito ainda a ser melhorado, redefinido e redirecionado. Seu olhar
está no futuro, no projeto que pretende construir. É por acreditar que tem muito a
aprender que se submeteu à avaliação por pares e dela pretende tirar o máximo
proveito. Será preciso conjugar mais e melhor avaliação e mudança, avaliação e
autonomia. Será preciso passar, também, de uma avaliação em sentido amplo, rica em
dados que sinalizam para o conjunto, para uma avaliação em sentido restrito, focando o
institucional, definindo indicadores, valendo-se, todavia, de todas as contribuições, de
todas as pesquisas e de todas as fontes de informação.
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de Trabajo para los Comites de Autoevaluación. Salamanca, Espanha. 1996.
AVALIAÇÃO INSTITUCIONAL: PROCESSO DOLOROSO DE MUDANÇA; A
EXPERIÊNCIA DA UESC, ILHÉUS, BAHIA
Resumo
A avaliação institucional é um processo de criação de cultura, de
busca contínua de atualização e de auto-superação pelos atores-sujeitos e de
auto-regulação institucional, ao nível das estruturas de poder e do sistema,
assegurando, assim, sintonia com as mudanças operadas no entorno, na economia, na
ciência e tecnologia. Pressupõe o envolvimento e a disposição de cada ator-sujeito em
buscar patamares superiores de qualidade e de relevância de seu fazer. Provavelmente,
esse é o caminho mais seguro para a construção da autonomia universitária. Trata-se de
um processo de mudança e de melhoria lento, gradual, com avanços e retrocessos, de não
acomodação, de compromisso com o futuro. No plano dos atores-sujeitos, a mudança se
traduz na reconstrução do projeto profissional, pedagógico e, de certa forma, do
projeto de vida de cada um. No plano das estruturas de poder e do sistema, a mudança se
traduz no funcionamento eficiente e eficaz, nos planos operacionais, no plano
institucional de desenvolvimento, no funcionamento de mecanismos de autoregulação.
Quanto mais os projetos de vida e profissionais e os planos operacionais e estratégicos
forem expressão da avaliação institucional, mais a cultura de avaliação terá
conseguido enraizar-se e consolidar-se. Para isso, será crucial que essa avaliação não
remeta nem a premiação e nem a punição no plano dos atores-sujeitos. Todavia, será
necessário que também não seja neutra, que não deixe ninguém indiferente e nem fora
do processo. A Universidade Estadual de Santa Cruz já deu, nessa direção passos, mas o
caminho a ser percorrido ainda é longo.
Palavras-chaves: avaliação institucional, cultura de mudança,
autonomia universitária.