Estatística, ética e cidadania

 Irene Mauricio Cazorla(*)

 

As informações estatísticas sempre estiveram presentes na vida dos cidadãos e, assim, como muitas pessoas confiam e as utilizam para nortear suas decisões, outras olham-nas desconfiam e/ou atacam sua verossimilhança.

 Não é a toa essa desconfiança, principalmente para aqueles que baseados numa informação, fizeram uma escolha e depois verificaram, que as pesquisas estatísticas falharam. Basta recordar a enxurrada de equívocos nos prognósticos nas eleições de 1998, onde institutos de pesquisa “erraram” em diferentes lugares. Apenas a titulo de ilustração, os eleitores de Marta Suplicy, naquela eleição, optaram por Covas, por imaginar que esse seria o mal menor e depois se deram conta de que ela era viável.

Agora estamos a quase seis meses da eleição para Presidente, Governadores, Senadores e deputados federais e estaduais e  estamos sendo literalmente “bombardeados” por pesquisas que monitoram a queda e ascensão de candidatos face ao escândalo que abalou a imagem de Roseana Sarney e, certamente, continuaremos no fogo cerrado de todos os lados, pois cada candidato precisa se mostrar viável para que o cidadão o eleja e ai muita coisa é possível, talvez não na pesquisa, mas em sua divulgação.

 Nesse processo, os cidadãos estão se acostumando a termos antes restritos à academia: intervalo de confiança, margem de erro, amostragem entre outros, próprio do jargão estatístico. Porém, a cada dia a desconfiança nos “números” também cresce.

 A Estatística, de fato, ajuda a maquiar os dados e, já em 1954, Huff escrevia um livro célebre “Como mentir com Estatística”, no qual mostrava como o uso de certas estatísticas pode fazer falar aos números mensagens contraditórias, ou meias verdades. Na verdade, nem sequer é preciso mentir, apenas mostrar a informação conveniente e omitir as outras, como bem disse Ricupero por ocasião da primeira  eleição de FHC:  “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”. A desconfiança é tanta que até piadas maldosas são feitas para desmerecer a “Estatística”, uma delas é “um cidadão está com um fogareiro nos pés e a cabeça dentro de um iglu, mas em média, ele está numa temperatura confortável”.

 O problema não está na Estatística, mas no seu uso, que nem sempre obedece a lógica da ética, podendo se subordinando e obedecer aos interesses e à lógica do mercado.

 Como bem assinala Crossen (1996), as informações utilizadas para opinar, escolher, comprar, absolver, vêm sendo criadas, não para expandir conhecimento, mas para promover um produto, uma causa, um político. E isso porque os números parecem conferir um senso de racionalidade para as decisões complexas, numa “crescente sensação de que nada pode ser definido como verdade a não ser que seja sustentado por uma pesquisa estatística” (p.11). As informações vêm “vestidas em complexas tabelas e gráficos que medem, geralmente com aridez, do décimo ao centésimo de um ponto decimal, o empacotamento das conclusões de uma pesquisa faz com que elas pareçam ainda mais intimidadoras do que realmente são. As únicas pessoas que podem analisar as pesquisas são aquelas que as fazem. Isto praticamente garante uma recepção a crítica da imprensa e do público” (p.28).

 Para Crossen, no final da cadeia da informação se encontram os consumidores (nós, os cidadãos), sendo que a grande maioria desses não possui sequer noções básicas de Estatística. Como resultado, a maioria dos consumidores, eleitores, leitores, telespectadores, incluindo líderes, não têm nem a confiança, nem as ferramentas necessárias para analisar as informações divulgadas e apesar de saberem o suficiente para desconfiar  de alguns números, em geral, se encontram sem defesas.

 Em toda informação estatística  veiculada com o objetivo de fazer o marketing ou a propaganda de um produto ou serviço existem dois lados: o do produtor (gerador da informação) e o do consumidor (nós, consumidores, eleitores, juizes etc.).

 O produtor da informação, ao veicular informação, via propaganda, tem o intuito de vender seu produto, para tal utilizará a estatística de forma conveniente e convincente, cabendo ao consumidor fazer uma análise crítica da qualidade da informação e a partir dessa tomar uma decisão consciente.

 A titulo de ilustração, tomemos, em função de sua proximidade, o exemplo das informações veiculadas em faixas e panfletos espalhadas na nossa cidade (Itabuna), após o Vestibular. A mensagem  informa o número de aprovados em cursos prestigiados, sendo que nos panfletos essa é mais contundente: “Batemos recorde: 12 em Medicina X 0 dos concorrentes”.

 Seguramente,  a informação veiculada nas faixas e no panfleto, referida acima,  é verdadeira. A informação em si não está em questão. Contudo, mesmo verdadeira  no sentido de factual,  certamente é incompleta. Afirmar que 12 foram aprovados no curso tal, pode não significar muita coisa, porque é preciso saber quantos candidatos daquela instituição concorreram, ou seja, qual  foi a taxa de aprovação nesse curso. Por exemplo, 12 aprovados entre 12 concorrentes é uma coisa, 12 em 120 é outra e 12 em 1200, uma outra ainda. Esse dado, que daria ao leitor elementos para conclusões  realistas, não é informado. Por outro lado, a afirmação de que nas outras instituições ninguém foi aprovado no curso, também é incompleta. Por exemplo, e se porventura em algum desses cursos ninguém  concorreu? E se em algum apenas um concorreu e foi aprovado. Não  seria um caso de 100% de eficácia desse curso?

 O ponto relevante aqui, que diz respeito aos professores que lidam com estatísticas e números, é a importância da escola formar cidadãos capazes de ler informação estatística, de tal forma que quando esses se defrontarem com informações dessa natureza sejam capazes de questioná-las, tornando-se consumidores críticos e conscientes de suas decisões.

 Como bem alertava Well, em 1904, para ser um cidadão, o indivíduo deveria estar capacitado a calcular, pensar em termos de média, máximo e mínimo, bem como a ler e escrever, ou “para uma eficiente cidadania, o pensamento estatístico é tão necessário quanto a capacidade de ler e escrever”, como lembram Ruberg e Mason, 1988. Por pensamento estatístico é aqui entendido como a capacidade de ler informação estatística.

            Apenas a título de curiosidade, visando mostrar como se “manipula” informação, apresenta-se  o trabalho de Wainer(1992), que ilustra claramente como a estatística é vulnerável a manipulações tendenciosas e é utilizada para formar opinião deturpada da realidade. O gráfico mostrado na Figura 1, publicada pela Revista Forbes, em 14 de maio de 1990, propõe-se a mostrar que enquanto o gasto com educação do governo americano tem crescido rapidamente na última década, o desempenho dos estudantes, medido como a média das notas do SAT[1], não tem correspondido. A conclusão, óbvia, é de que o governo americano não deve desperdiçar o dinheiro do contribuinte com educação.

Contudo, manipulando as escalas verticais separadamente, pode-se fazer com que o gráfico mostre exatamente o efeito oposto, tal como pode ser observado na Figura 2. Esse exemplo e outros mostram, que no campo da Estatística, não é suficiente a competência técnica dos estatísticos e a postura ética do “veiculador” de informações estatísticas, é preciso, sobretudo, a competência técnica e postura crítica do “consumidor”.

O problema, portanto, não está na Estatística. Está na sua utilização, subordinada  aos interesses dos geradores da mesma. Cabe a nós consumidores de estatísticas estarmos preparados para “digerir” tal informação. 

            E, sem ilusão, podemos concluir que dada a lógica de mercado e os imperativos da propaganda, a informação estatística continuará a ser utilizada dessa forma. Cabe aos  professores de estatística e matemática “alfabetizar em estatística” os alunos, a fim de contribuirmos na construção de cidadãos ciosos de sua formação, opinião e liberdade de escolha e, ao mesmo tempo, superar o preconceito contra os números e buscar conhecimento para não continuar passivo nesse processo de formação das opiniões.


Figura 1. Gasto com educação do governo americano e média do SAT
- o gasto é expresso em dólares constantes base 1988

Figura 2. Redesenho da Figura 1

      

  (*) Irene Mauricio Cazorla é Professora de Estatística da UESC, Mestre em Estatística pela UNICAMP e está concluindo  o curso de Doutorado em Educação, na UNICAMP.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Crossen, C. (1996). O Fundo falso das pesquisas: a ciência das verdades torcidas. Rio de Janeiro: Ed. Revan.

Ruberg, S. J. e Mason, R. L. (1988). Increasing public awareness of Statistics as a science and profession starting in high school. The American Statistician, 42 (3), 167-170.

Wainer, H. (1992). Understanding graph and tables. Educational Researcher, 14-23


[1] SAT Scholastic Aptitude Tests, equivalente, no Brasil, ao ENEM Exame Nacional de Ensino Médio