ITABUNA E O DESENVOLVIMENTO URBANO III:
o custo de não fazer bem e de não  conservar*

Uma marca de subdesenvolvimento é fazer mal as obras que deveriam ser feitas com qualidade. O resultado é que recursos escassos acabam sendo desperdiçados em obras que custam caro, porque precisam ser refeitas em poucos anos e como continuam mal feitas, novamente precisam ser refeitas num processo contínuo de perda de recursos escassos.  Aqui, a expressão de que “o barato sai caro” parece manter atualidade.

E isto vale para o asfalto das ruas, para os passeios das casas, para os prédios escolares, para os equipamentos de um parque infantil e para qualquer obra pública. Seguramente, uma marca de subdesenvolvimento é fazer seguidas vezes a mesma coisa, consumindo os parcos recursos nessa tarefa de Sísifo, agravada pela cultura geral instaurada.

O caso recente do asfaltamento por razões eleitorais de ruas da cidade, sem o devido embasamento, faz com que, em pouco tempo, ou tudo volta ao período pré-asfalto ou gastar-se-á uma ou mais vezes os recursos necessários para um trabalho bem feito. E não é por falta de exemplos que as coisas não são feitas como deveriam. Há bons exemplos que poderiam ser seguidos, como o asfalto aplicado no acesso ao CEPEC. Vão-se décadas e o asfalto continua. Veja-se os prédios da UESC, de 1974, parecem recém feitos. Custaram, mas seguramente muito menos do que outras obras feitas e refeitas uma ou mais vezes. No caso do asfaltamento de Itabuna, acredita-se que  Fernando Gomes teria tido mais votos se tivesse asfaltado metade das ruas, mas as tivesse asfaltado  com a qualidade requerida para uma durabilidade de pelo menos 20 ou 30 anos. A referência ao ex-prefeito está sendo feita por razões de proximidade e visibilidade. Acredita-se, contudo, que se aplicaria a mesma análise a muitos antecessores.

E não são problemas apenas de prefeitos. Observe-se, por exemplo, a ferrugem que está corroendo a base de barracas de pequenos comerciantes da praça Camacã. Seria preciso que essas durassem bem mais que o período do pagamento de suas prestações. No entanto, a ferrugem vai progredindo.

Além da qualidade das obras, há que se ter em mente uma outra dimensão: a da conservação das obras. Muito se pouparia se a manutenção funcionasse em tempo hábil, antes que o patrimônio fosse corroído pelas intempéries e pelo vandalismo. Aqui, quando há a conjugação de obras com qualidade precária e negligência na sua manutenção, o processo de destruição é acelerado.

Talvez mais grave que a qualidade das obras públicas e a prática de conservação ou manutenção seja a cultura que consente com uma e com outra, passivamente. Reflexos dessa cultura geral, que permeia todas as camadas sociais, pode ser percebida nas mais diversas manifestações. Bastaria olhar, por exemplo, a quantidade de plásticos nas ruas e passeios num final de tarde em qualquer uma das ruas do Centro da cidade. Não há serviço de limpeza pública e nem bueiros em dias de enxurradas que possam dar conta.  Essa cultura talvez seja o maior problema. Não se trata de um problema de pobreza material. Se isso fosse uma realidade, latas de refrigerantes e outros objetos não seriam jogados das janelas de carros do ano. Não se trata de um problema de pobreza material, ainda que possa refletir um traço de pobreza cultural. 

Quem sabe essas reflexões possam, de alguma forma, contribuir para uma nova cultura, uma nova maneira de ver a cidade, menos passiva e menos dependente do poder público? Esse não é um problema de solução  fácil e nem rápida. Todavia, uma Itabuna de 500 mil ou de um milhão de pessoas pode não ter os seus problemas agravados se hoje seus dirigentes e seus cidadãos, cada um, fizer sua pequena parte.

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*Agenor Gasparetto, sociólogo, professor da UESC