ITABUNA E O DESENVOLVIMENTO URBANO II: espaços públicos*

Itabuna tem cerca de 200 mil habitantes. Bem ou mal, possui uma estrutura urbana para esse contingente humano. Possui ruas estreitas, não existem vias mais amplas para escoamento rápido do trânsito, possui praças acanhadas e em várias ruas os passeios são ocupados, por falta de espaço, por carros estacionados, obrigando os pedestres a  caminhar pelas ruas. Não se está aqui analisando a qualidade dos equipamentos ou dos recursos da estrutura urbana da cidade, mas apenas sua quantidade. Não é difícil concluir que há problemas. Passam os prefeitos, cada qual dando sua contribuição, no entanto, o quadro resultante de suas ações é o que está aí.

Agora, imagine Itabuna não mais com 200 mil habitantes, mas com 500 mil. Imagine-a também com um milhão de pessoas. Se com 500 mil pessoas a estrutura atual revelaria sua insustentabilidade, o que dizer com um milhão de pessoas? No entanto, Itabuna terá 500 mil e, um dia, como tantas outras cidades, também chegará ao seu milhão.

Cabe ao Poder público definir suas estratégias e suas ações pensando numa Itabuna de 500 mil e de um milhão de pessoas. Do contrário, os seus problemas estruturais se multiplicarão e se complexificarão, inviabilizando-a.

Não há como ignorar a Itabuna real e planejar a construção de uma nova Itabuna. A rigor, já há uma Nova Itabuna, um bairro além da BR 101, mas esse, no entanto, reproduziu, para pior, a velha Itabuna. Em outras palavras, é preciso a partir da Itabuna de hoje, projetar a Itabuna de amanhã, a Itabuna que se deseja.

Nesse empreendimento, convém não perder de vista alguns princípios. Um deles, talvez o principal, é de que Itabuna precisa crescer com qualidade, mais precisamente, com qualidade de vida. Essa pressupõe a existência de serviços, como água, energia, comunicação, espaços para o lazer e a convivência,  segurança, educação entre outros, além do trabalho e o acesso à renda e à sobrevivência digna.

Numa perspectiva de expansão urbana, a Itabuna do futuro precisa olhar com especial atenção para o espaço público: o das vias, dos passeios, praças e parques, dos campos para práticas esportivas ou recreativas.

Na Itabuna de hoje, o espaço físico é crítico para pedestres e para os carros e ônibus. Na Itabuna com 500 mil pessoas, as ruas e avenidas de hoje serão ainda mais congestionadas e sem espaço. Se o cliente do comércio de hoje revela insatisfação com o problema do espaço para andar e estacionar, na Itabuna de 500 mil pessoas poderá ser ainda pior. Se esse fato hoje se constitui em um desestímulo para comprar em seu comércio, poderá não ser diferente no futuro.

Afirmou-se, no texto anterior, que os shopping centers, em geral, trabalham bem o conceito de espaço, têm amplos estacionamentos e razoáveis áreas internas para a circulação das pessoas ou clientes. Afirmou-se, também, que a cidade deveria incorporar esse conceito. Para isso, seria necessário definir horizontes e estratégias, corrigindo problemas e não permitindo que a expansão da cidade ocorra sem assegurar os pressupostos da qualidade de vida.

Itabuna precisa de mais e de melhores espaços para a circulação de pessoas e carros. Precisa de um parque acessível para as pessoas fazerem suas caminhadas, andarem de bicicleta, nas manhãs, nos finais de tarde e nos fins de semana e feriados. O espaço interpontes da Beira-Rio, hoje principal área para essas atividades, é uma alternativa pobre. Os itabunenses merecem opção melhor.

Itabuna, como já se afirmou no texto anterior, precisa compatibilizar o interesse dos pequenos comerciantes e o do comércio das lojas. Os passeios das ruas, em particular da Avenida Cinqüentenário precisa ficar mais livre, sobretudo em épocas de picos de movimento, como o final de ano, que também coincidem com épocas de pico do comércio de camelôs e pequenos comerciantes. A ocupação de praças pelos camelôs, como nas  praças Adami ou  Camacã por exemplo, é uma meia solução, uma vez que subtrai à cidade a função de praça, de que já é carente, e parece não resolver o problema dos pequenos comerciantes à procura de um espaço para comercializar seus produtos e sobreviver.

Bairros e loteamentos foram aprovados e implementados em Itabuna sem um arrojado senso de espaço público. Bairros antigos como o Santo Antônio, Fátima e Califórnia estão pagando preço alto pela falta de pelo menos uma grande avenida, capaz de impulsionar seu setor comercial. O Bairro Santo Antônio tem na Avenida Itajuípe uma via de acesso à BR 101. Todavia, é uma via tão apertada que, em muitos lugares, até o passeio está comprometido pela falta de espaço. E o que poderia ser uma grande via e um grande comércio, parece estar comprometida pela falta de perspectivas e pelo aperto. São bairros relativamente grandes e, no entanto, dispõem de precários ambientes públicos para os seus moradores, como praças e áreas públicas maiores, e os parques simplesmente inexistem.

Fez-se referência a que o bairro Nova Itabuna de nova só tem o nome, uma vez que reproduziu a velha Itabuna e para pior. Os espaços públicos nos bairros mais pobres e humildes, são precários, poucos e, não raro, mal localizados, se levarmos em conta que deveriam ocupar os espaços mais nobres.

Observa-se que mesmo em bairros social e economicamente mais aquinhoados, como Góes Calmon, Castália, Zildolândia e Jardim Vitória, os problemas se repetem. Para isso, bastaria olhar a localização e a dimensão das áreas públicas nos mesmos. Parece prevalecer  o imperativo de curto prazo.  No entanto, no médio e longo prazo a insuficiência e/ou inexistência dessas áreas produzem efeito inverso, uma que se constituem em fator de desvalorização imobiliária dos mesmos.  O que parecia ganho no curtíssimo prazo, revela-se um problema e um fator de empobrecimento estético e funcional no médio e longo prazos.

Em suma, uma Itabuna com 500 mil pessoas ou com um milhão de pessoas precisa pensar-se com coragem e visão de longo prazo. Só assim não estará multiplicando seus problemas urbanos.

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*Agenor Gasparetto, sociólogo, professor da UESC