Itabuna: Agenda para o futuro

 Por Agenor Gasparetto*

 Itabuna completou 91 anos no último dia 28 próximo passado. Trata-se de um marco respeitável. Muitas gerações de itabunenses se sucederam nesse espaço de tempo. Há um acúmulo de experiências, bem e mal sucedidas, que poderão ser úteis. Muitos intendentes e prefeitos já ocuparam a posição de comando municipal. Muito foi feito e, no entanto, muito mais está por fazer e, o que é pior, por refazer.

 Um ponto elementar para qualquer administração é não perder de vista que os recursos são escassos e as demandas em muito os ultrapassam. E que, diante disso, fazem-se necessárias escolhas e que cada escolha implica necessariamente renúncias. Sendo assim, é preciso ser seletivo para que os recursos tenham poder multiplicador e duradouro.

 Na prática, essa seletividade e priorização dos recursos significa que a ação do Poder Público municipal precisa focalizar os problemas estruturais e estruturantes, ou seja, problemas que uma vez resolvidos resultam na resolução de muitos outros que lhes são associados.

 Dentre os problemas dessa natureza está a instrução escolar, a educação. Se a educação nos últimos 500 anos  foi  fator e elemento importante no desenvolvimento dos povos, hoje, na atual etapa do desenvolvimento, ganha estatuto de crucialidade. Um deficiente ou insuficiente processo de formação resulta na não percepção de oportunidades, no seu não aproveitamento e no seu desperdício. Na medida em que a vocação de comércio e de prestação de serviços se afigura como a vocação maior de Itabuna, a maior obra de uma administração pública municipal  é realizar um trabalho maiúsculo na área de educação, universalizando seu acesso, qualificando seu conteúdo e alongando o período de permanência da criança e dos jovens na escola, para que muitos e em número cada vez maior conquistem formação superior, em todos os sentidos. Em suma, parece crucial ao  desenvolvimento da vocação da cidade de Itabuna a promoção de uma melhoria global do padrão educacional da comunidade, em seu conjunto. Fazer isso é caminhar rumo ao rompimento das amarras do atraso e do subdesenvolvimento. O desenvolvimento exige maiores patamares de educação, não apenas de parte, mas do conjunto da população. 

 Todavia, se a  educação é condição necessária ao desenvolvimento, não é suficiente. A rigor, nenhuma dimensão por si só é suficiente. O conjunto é que pode criar condições mínimas de suficiência para uma arrancada desenvolvimentista.

 A estabilidade social e a perspectiva de futuro para si e para os filhos constituírem uma dimensão de grande relevância.  Essa estabilidade passa pelo provimento da  segurança, obrigação do Poder Público Estadual, pelo provimento do acesso aos serviços básicos de saúde, pelo acesso à rendimentos via trabalho e/ou emprego, aposentadoria e, como última e provisória opção, a mecanismos de assistência social, como cestas básicas, por exemplo. Sem a promoção de condições mínimas de estabilidade social, a repressão e a força poderão se revelar insuficientes para assegurar a tão desejada e valorizada estabilidade econômica. Para o investidor, é a estabilidade econômica que permite visibilidade à médio e longo prazos, permite perspectivas de futuro. Sem essa visibilidade, nenhum elemento isolado, inclusive mão-de-obra barata e abundante, incentivos fiscais, entre outros, será suficiente para convencê-lo a investir.

 Aqui parece oportuna uma questão: é possível estabilidade econômica sem estabilidade social? A eclosão da greve das polícias e os tristes episódios de Salvador durante sua vigência recente podem estar sinalizando que essa situação é, no mínimo, problemática. Parece sintomático que na capital dos estados brasileira que vinha ostentando os maiores índices de desemprego do país e, seguramente, uma das maiores taxas de trabalho informal, uma greve do aparato policial tenha desencadeado uma situação de caos social, exigindo a presença do Exército. Numa situação de estabilidade social, uma greve como essa não deveria ter em tão curto espaço de tempo, produzido o quadro que produziu ou ter  tido o desfecho que teve, corroendo de forma indelével uma imagem de cordialidade, de alegria, como se a vida fosse uma festa ao longo de todos os dias do ano, construída ao longo de muitos anos.

 Nesse sentido, o Poder Público como promotor  maior da estabilidade social, tarefa, todavia, do conjunto da sociedade e das suas organizações, somente terá sucesso se pensar de forma global, isto é, se a sociedade como um todo crescer e alcançar patamares superiores de civilidade e de desenvolvimento pessoal e institucional. E, com isso, retornamos ao papel estratégico da educação.  

 Estando a educação, a saúde, a segurança em bom funcionamento, as condições gerais de vida serão melhores. É preciso, no entanto, que as pessoas tenham acesso a rendimentos. As vias do emprego e do trabalho são atribuições que fogem às possibilidades dos Poderes Públicos. Esses tem limites, hoje, definidos pela Lei de Responsabilidade Social. É preciso que o conjunto da sociedade crie as oportunidades, atuando os Poderes Públicos como fomentadores e promotores das mesmas.

 Aqui, uma priorização acertada dos escassos recursos públicos pode se constituir, no futuro, em um relevante diferencial. Itabuna tem muitas e importantes novas demandas, mas não pode descuidar da grande proliferação de  buracos que surgem da noite para o dia nas ruas e avenidas, do lixo que se avoluma todos dias nos passeios e vias. Há um esforço imenso consumido na preservação e recuperação, drenando energia humana, recursos e tempo, também escassos.

 Na prática, o montante que efetivamente poderá ser utilizado como investimento, é sempre muito menor do que as necessidades.  E isto reforça o imperativo da priorização. É prioritário investir, com o que há de recursos disponíveis para investimentos,  no que se constitui como elemento ou fator estrutural, contribuindo para a consolidação e atração de novos investimentos privados para a cidade, lembrando que o principal fator de atração na ótica empresarial é a estabilidade econômica e  seus pressupostos, destacando-se, entre esses, a patamar educacional alcançado pelo conjunto da sociedade e a  estabilidade social.

 Toda decisão de investimento público será mais produtiva se tiver em mente esse referencial, ditado pelo discernimento entre o essencial e o secundário, entre o indispensável e o bom, entre o estruturante e o estruturado. É também desejável que os Poderes Públicos federal, estadual e municipal, já que administram o que não lhes pertence, mas o que lhes delega a sociedade, concentrem suas energias numa mesma direção, superando diferenças e divergências de ordem pessoal ou partidária, porque essas sempre existirão, mesmo dentro de uma mesma agremiação política ou de uma aliança governista.

 No caso concreto de Itabuna, acertou o ex-prefeito Fernando Gomes quando intuiu a necessidade e decidiu construir o Hospital de Base. Errou, quando no ímpeto de ganhar a eleição, preferiu a quantidade à qualidade, cobrindo de asfalto ruas sem o necessário embasamento, resultando num desperdício de recursos públicos, exigindo, hoje, uma operação tapa-buracos permanente, como se fosse um “Cavalo de Tróia” que todos os dias se renova. Hoje, está acertando o prefeito Geraldo Simões quando anunciou que o problema da água será resolvido nesta gestão. Água é fator essencial. Universalizar o seu acesso diário a todos os itabunenses é resolver um problema de base, para as famílias e para as empresas. Contribui para a estabilidade social e econômica acima referidas. Sem problema de oferta de água será mais fácil atrair novos investimentos empresariais e é, sem dúvida,  um grande investimento em saúde pública e nas condições de vida da população mais pobre. Nesse sentido, se no final da atual gestão o problema da água tiver sido realmente resolvido, no plano dos recursos públicos destinados a investimentos estruturantes, Itabuna terá iniciado o Século XXI de forma muito positiva. Caberá ao próximo prefeito eleger outra prioridade e depois de alguns mandatos, é possível que os investimentos recaiam sobre aspectos de ordem menos estrutural, como o embelezamento e a reurbanização de regiões da cidade, ações desejadas e necessárias, mas que remetem a problemas secundários face outros, típicos do Século XIX, resolvidos ao longo do século passado nos países hoje desenvolvidos, mas que persistem em Itabuna e na maioria das cidades do país, neste início de Século XXI. No entanto, mais importantes que as ações específicas, por maiores e melhores possam essas parecer, é o conjunto. A resolução do problema da água, por exemplo, não pode se dar às custas da educação, sendo essa universalizada, de qualidade e por período mais extenso. Descuidando da educação, é possível que se esteja andando, mas se estará  ficando para trás em relação aos outros, e as obras, ainda que grandes,  ruirão como castelos de areia.

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*Sociólogo, professor da Uesc. Outros textos sobre Itabuna podem ser lidos na página www.socio-estatistica.com.br 

Itabuna, 01 de agosto de 2001