Itabuna e desenvolvimento urbano: sinergias  - I

Por Agenor Gasparetto*

No início de abril do ano passado, portanto há quase  um ano, realizou-se uma reflexão sobre a situação de Itabuna com a inauguração do Jequitibá Plaza Shopping que, então, estava por ser aberto. Esse texto “ITABUNA, REGIÃO E JEQUITIBÁ PLAZA SHOPPING” pode ser lido nesta mesma página e se mantém   atualizado.

Hoje, antes do primeiro aniversário de inauguração do mencionado shopping volta-se ao assunto para algumas objetivas e pontuais ponderações, que parecem oportunas.

Vale  lembrar que, por iniciativa do então ex-vereador João Piton, em 1997, ainda no início da terceira gestão  do ex-prefeito Fernando Gomes, foi elaborado e encaminhado ao Poder Público Municipal um documento contendo subsídios para uma política de promoção do comércio itabunense. O texto deste documento também pode ser lido nesta página.

Uma outra iniciativa sobre o assunto foi desencadeada pela CDL de Itabuna, sob a presidência de Carlos Leahy, no início de sua gestão à frente dessa casa, a CDL propôs a realização de uma pesquisa com lojistas. Os principais resultados desta pesquisa também podem ser encontrados nesta página e, acredita-se, continuam mantendo atualidade.

E para encerrar essa contextualização, lembramos que, em 1990, sob a presidência de José Adolfo Gomes, a Associação Comercial de Itabuna também realizou uma pesquisa com lojistas associados e não associados à ACI.

Objetivamente, o problema do desenvolvimento de Itabuna, em particular do seu comércio, é um tema recorrente e, que em determinados momentos ganha visibilidade. Dentre esses momentos, destacam-se o início de gestões municipais e início de gestões da CDL e da ACI, por exemplo. A recorrência dessa questão é um sinal de vitalidade e  dinamismo da sociedade local.

No início de maio do ano 2000, Itabuna ganhou o Jequitibá Plaza Shopping, um marco no comércio itabunense, mas perdeu a Rede Messias e o seu Shopping Center Itabuna. Ganhou e perdeu.

Afirmou-se, no texto de um ano atrás “Itabuna, região e Jequitibá Plaza Shopping”, que a  “inauguração (...) do Jequitibá Plaza Shopping, em Itabuna, que vem a ser o maior empreendimento comercial da história de Itabuna e da região Sul da Bahia, na medida em que fortalecer a vocação de pólo comercial e de serviços desta cidade e conseguir alargar a base geográfica de atração dos consumidores, poderá ser um elemento importante na consolidação de um novo quadro. Todavia, é preciso que o conjunto do comércio atue no sentido de contribuir para consolidar essa vocação natural da cidade. Assim, comércio tradicional e shopping center poderão mais do que competir por consumidores, poderão se reforçar  mutuamente, fazendo prevalecer os ganhos de sinergia contra o risco de mútua destruição, risco esse agora agravado com a concorrência por fora do comércio eletrônico, via Internet. Para isso, é preciso que o comércio tradicional melhore. E melhore em variedade, em qualidade, em condições de preços, em ambiência e aparência, bem como melhorar a cidade enquanto unidade, no que a Câmara dos Dirigentes Lojistas e a Associação Comercial de Itabuna poderão atuar como catalisadoras de aspirações e necessidades e indutoras de soluções, sensibilizando o Poder Público local”.

Afirmou-se, ainda, que  “o sucesso do empreendimento Jequitibá Plaza Shopping é necessário para a consolidação e ampliação da vocação comercial de Itabuna. Seu sucesso também será o sucesso de Itabuna, que precisa reforçar sua auto-estima. Em suma, estamos diante da situação em que pela sinergia capaz de gerar, todos ganham com o êxito deste empreendimento, mesmo aqueles que, aparentemente, não tem nenhuma ligação com o mesmo”.

Hoje, quase um ano após a inauguração do Jequitibá Plaza Shopping e quando se aproxima a data da abertura das suas salas de cinema, que deverão agregar nova motivação para os freqüentadores daquele local, no intuito de contribuir para a realização da sinergia acima enfatizada, serão focalizados neste texto  três pontos que parecem problemáticos no comércio de Itabuna.

O primeiro problema, confirmado pela pesquisa da CDL, ou seja, pelos próprios lojistas, diz respeito às fachadas e passeios das lojas, agregando-se ainda o calçadão da Rui Barbosa. Há, em Itabuna, lojas e passeios para todos os gostos e em todas as situações. O conjunto, por causa de tanta diversidade, mas sobretudo devido ao estado de muitos passeios e de muitas fachadas, não poderia ser diferente do que é, tendendo ao caótico, depondo, por assim dizer, contra a plena potencialidade de Itabuna de atrair, manter e agradar consumidores de outras praças.  Em razão disso, Itabuna pode estar perdendo clientes e recursos.

Obviamente, nem todos os lojistas têm condições de realizar as obras necessárias num curto espaço de tempo. Todavia, poderiam ser pensadas alternativas em que por exemplo, ACI e CDL, conjuntamente com a Prefeitura Municipal, avalizassem pelo menos a restauração dos passeios. Como estímulo, o proprietário que se inscrevesse num programa de melhoria da fachada e do passeio de sua loja, poderia abater do IPTU, por exemplo, o valor investido em materiais utilizados na restauração do passeio e da fachada, mediante apresentação de notas fiscais dos materiais comprados em lojas de Itabuna. Ultrapassando o valor do IPTU de um ano, abateriam o imposto dos anos seguintes. Uma Comissão formada pelo Poder Público Municipal, pela ACI e pela CDL, incluindo representante do Conselho Regional de Engenharia,  poderia aprovar o plano de restauração de cada lojista e comprovar sua realização.  O risco de abusos existe, todavia, como o passeio e a fachada são visíveis, públicos, não fica difícil avaliar se o montante dos gastos com materiais que consta das notas apresentadas é compatível com a obra realizada ou não. Nesse caso, o Poder Público confia ao cidadão a responsabilidade de abater sua contribuição do IPTU. Os investimentos em mão de obra seriam a contrapartida exclusiva do proprietário.   

O segundo problema diz respeito ao espaço para o estacionamento dos carros e de circulação das pessoas. Esse é um problema crônico, a zona azul foi implantada na gestão Ubaldo Dantas, salvo engano, foi abolida na segunda gestão Fernando Gomes, voltou na primeira gestão de Geraldo Simões, foi abolida, reintroduzida e novamente abolida no dia seguinte à perda da eleição de primeiro de outubro último pelo ex-prefeito Fernando Gomes. Em suma, essa tem sido uma solução recorrente a um problema que se revela cada vez mais grave.

Um terceiro problema, que apresenta picos de alta em ocasiões de grande apelo comercial, como no período de Natal e final de ano, é o comércio informal e/ou ambulante.

Os picos de alta existem porque há mercado. Quando o mercado se retrai, esse comércio também se retrai naturalmente. O comércio informal é uma estratégia de sobrevivência e em períodos de emprego difícil e dificuldades econômicas é uma das poucas alternativas socialmente aceitáveis ao alcance de muitos. Esse problema tem que ser tratado com objetividade e coragem como um problema de ordem social e econômica. Ignorá-lo ou convertê-lo num problema de polícia terá como conseqüência mais provável um aumento da demanda policial, da insegurança e da violência. Portanto, é necessário preservar o interesse do comércio estabelecido e, ao mesmo tempo, contribuir para a diminuição da tensão social gerada pelas dificuldades de sobrevivência de muitos jovens e pais e mães de família.

Observa-se que, com o Jequitibá Plaza Shopping e seu ambiente, o comércio de Itabuna ganhou em sofisticação.  Há, portanto, da perspectiva do ambiente e da estética, vários patamares de comércio. Há um comércio  popular, representado pelas feiras, camelôs e pequenos estabelecimentos. Esse apresenta algumas concentrações, como no Centro Comercial, na Feira do São Caetano entre outras.  Há um comércio tradicional. Esse tem na Avenida Cinqüentenário, adjacências e prolongamentos o maior exemplo. E, a partir de maio passado de 2000, o Jequitibá Plaza Shopping.

A questão passa a ser a seguinte: como potencializar os três patamares de comércio, fazendo com que conjuguem energias e maximizem os seus efeitos sinergéticos?

Para isso, será necessário melhorar as condições do comércio tradicional e popular, para que o ambiente do Jequitibá não se constitua numa ilha. Uma primeira alternativa seria a  de melhorar o visual, o ambiente, representado pelos passeios, calçadas e pelo calçadão da rua Rui Barbosa. O lojista precisa compreender que passeio e calçada também podem refletir o quanto de atenção está sendo dada aos seus clientes e à sua cidade. A sugestão acima poderia ser um ponto de partida.

Os consumidores precisam ter espaço para circular, caminhar; precisam ter ambiente para conversar, apreciar, “perder tempo”  com o que constitui o objeto de seus desejos.  Os passeios cumprem também essa função. Os calçadões, como o da Rui Barbosa, também. Os shoppings têm, em geral, esse conceito bem desenvolvido. Sendo assim, Itabuna precisaria ampliar esses espaços. A velha idéia da rua Paulino Vieira se converter num “shopping a céu aberto”  parece inteligente e deveria ser olhada com especial atenção. Trechos de algumas ruas com forte vocação comercial  poderiam ser destinadas exclusivamente aos pedestres.

A ampliação dos espaços e ambientes para os consumidores circularem a pé conflita, no entanto, com a necessidade de mais espaço para estacionamento dos carros. Sustenta-se,  mesmo assim, que será preciso resolver as duas necessidades. A re-introdução da zona azul é a primeira e mais simples das idéias. Todavia, ainda que necessária, parece insuficiente. 

Observando a situação e o desenvolvimento comercial de Itabuna há mais de 10 anos, desde a primeira pesquisa realizada para a Associação Comercial, algumas situações chamam a atenção.

Aqui, destaca-se apenas uma, que se constitui num nó e num entrave ao desenvolvimento do comércio de Itabuna em importantes vias do centro da cidade. Aqui se está fazendo referência  à garagem da Rota, situada entre às Avenidas Amélia Amado e José Ignácio Tosta Filho, na área central da cidade. Num extremo está  a área da Rodoviária e do Centro Comercial, que concentra um grande pólo de comércio e de serviços, e no outro, um pólo um pouco dinâmico  de comércio, que inicia após o final da referida garagem e na rua Alício de Queiroz que liga o Centro ao bairro Santo Antônio, e é uma das saídas para a BR 101.

É sintomático que um longo e estreito quarteirão cercado por um muro, esteja caracterizado pela ausência do comércio, tanto na Avenida Amélia Amado como na Avenida José Ignácio Tosta Filho. A pobreza desse comércio deve-se ao quarteirão praticamente morto, do ponto de vista comercial.

É praticamente inimaginável que um empreendimento em uma área central de uma cidade de médio ou de grande porte consiga sobreviver como garagem, que se constitui em uma atividade de baixo retorno econômico e, via de regra, tende a ocupar áreas de baixo valor comercial. O mais provável é que empreendimentos como esse sejam empurrados, até mesmo pela tributação, para áreas comercialmente menos valorizadas. Essa tende a ser a regra.

O que se está tentando dizer é que, talvez, o maior nó ao desenvolvimento do comércio da área central de Itabuna é esse grande quarteirão comercialmente empobrecido pela extensão dos muros da referida garagem. 

Nesse caso, o Poder Público Municipal poderia negociar com os proprietários dessa empresa, permutando área, indenizando investimentos realizados. E, após resolvidas essas questões, transformar o espaço hoje ocupado pela garagem num pólo reservado aos pequenos comerciantes, camelôs, artesãos, entre outros. Em pouco tempo, esse espaço apresentará grande efervescência econômica, fará com que a área do Centro Comercial e da Rodoviária se encontre com a área que começa exatamente após a garagem. Todavia, não será mera agregação de área, mas potencialização de toda a extensão das duas avenidas. Não será apenas o quarteirão hoje comercialmente morto que nascerá para o comércio, mas também surgirão investimentos no lado direito da Avenida Amélia Amado, que dá para o Santo Antônio, bem como no lado direito da Avenida José Ignácio Tosta Filho, hoje áreas deprimidas comercialmente.

Adicionalmente, o canal, através de um projeto de engenharia poderia ser convertido, em toda sua extensão, num amplo espaço para estacionamento e, em alguns trechos, também para o pequeno comércio.

 Portanto, por um custo relativamente baixo, Itabuna resgataria uma área hoje comercialmente morta ou deprimida, acomodaria um expressivo contingente de pequenos comerciantes e de camelôs, revitalizaria essas duas importantes avenidas. O comércio popular teria seu espaço ampliado. Dessa forma, ter-se-ía um corredor de comércio popular representado por essas duas importantes avenidas, um corredor de comércio tradicional, representado pela Avenida Cinqüentenário, adjacências e prolongamentos e um comércio esteticamente mais sofisticado, representado pelo Jequitibá  Plaza Shopping, além do corredor representado pela Avenida José Soares Pinheiro, que também tem sua vocação definida. 

De alguma forma, os três problemas inicialmente pontuados  teriam alguma forma de equacionamento. O desafio é acreditar e apostar na direção com maiores potencialidades.

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Agenor Gasparetto, Sociólogo e Professor da UESC

Itabuna, 16 de abril de 2001