TRABALHO DURO, MARCA E MAGIA

Por Agenor Gasparetto*

 

    Fazer as coisas com maestria e aparentemente sem esforço fascina.  Há um quê de  sedutor em ser capaz de surpreender pela genialidade, pelo encanto e pela magia.

     A  grande maioria das pessoas, contudo, tem uma vida relativamente pobre, difícil, sofrida, de trabalho duro, com recursos contados e a escassez espreitando o tempo todo pela porta entreaberta. No entanto, alguns parecem driblar essa condição. Os salários pagos para alguns jogadores de futebol e de outros esportes, por exemplo, parecem exorbitantes às pessoas em geral. Um misto de admiração e uma certa incompreensão acompanha-os, porém.  Essa última converte-se em  críticas e essas ficam mais duras e mais azedas quando o seu time ou a seleção vão mal ou apresentam desempenho aquém do desejado. Nessas situações, é comum se ouvir “é dinheiro demais”, acompanhada, às vezes, da expressão “falta amor à camisa”. Esse aparente absurdo de premiar exemplarmente quem está no topo parece ser um expediente natural do mercado. O brilho do topo ofusca e atrai e quanto mais brilha, mais atrai e mais ofusca. Esse parece ser o encanto, esse parece ser o canto de sereia do mercado. Os muitos outros que ficam a meio caminho ou no mero ensaio não parecem dignos de servir como referência.

     Desde os primórdios até hoje, o ser humano parece fadado a ter as estrelas como referência.  E se essas, em seus inescrutáveis desígnios assim o desejarem, ser também uma estrela. E para ser estrela e fazer parte de alguma constelação, o ser  humano é capaz de fazer o  impossível, tamanha é sua capacidade de superar os limites e de transpor fronteiras. Na condição de estrela parecem enfeixados  os desejos e as ambições por dinheiro, por poder, por beleza, por sexo, por prestígio.

     Há uma expressão popular que afirma que “quem trabalha muito não tem  tempo para ganhar dinheiro”. Não faltam, entretanto, os que trabalham duro e pesado, tendo que cumprir ao pé da letra o castigo bíblico de “ganhar o pão com o suor do seu rosto”. Por outro lado, também não faltam aqueles, se bem que em menor número, que nem parecem trabalhar e acumulam milhões. A expressão acima parece insinuar a existência de atalhos para o ouro, inacessíveis para a maioria. A mensagem da estória da cigarra e da formiga também parece ter sido corroída pelos novos tempos, pouco parece já significar e sensibilizar. 

     Na literatura há várias passagens belas e por vezes dramáticas focando a condição humana quanto ao fazer as coisas: o trabalho duro e o fazer as coisas em estado de graça, com leveza e prazer. Na Bíblia, por exemplo, destaca-se, já nos primórdios, o episódio que precedeu e parece ter motivado a morte de Abel por seu irmão mais velho, Caim. A oferenda do lavrador Caim não foi olhada por Deus e a do pastor Abel, todavia, lhe foi agradável. Irado e abatido, Caim convidou Abel para o campo e lá o assassinou. Deus o castigou e esse transformou-se num peregrino errante e infortunado,  marcado com um sinal indelével. Nesse episódio, não está clara a razão pela qual a oferenda de Abel cativou o olhar de Deus e a de Caim sequer mereceu-o, como se a sorte de ambas já estivesse aprioristicamente  selada. Onde está a diferença parece difícil se saber. Aos olhos de Deus, segundo o escritor bíblico, seriam grãos e frutas inferiores às ovelhas enquanto oferenda? Seria a condição de lavrador inferior a de pastor? Aparentemente, naqueles tempos e naquelas condições, a condição de pastor de ovelhas era mais nobre que a de lavrador, com ferramentas rudes e técnicas bastante  primitivas.  Nesses tempos, ainda não havia marketing e as oferendas não estampavam marcas. Contudo, é como se as tivessem.

     Num outro episódio bíblico, Sansão perdeu a vida porque foi incapaz de guardar seus segredos, contando-os à sua mulher Dalila, que não hesitou em cortar-lhe os cabelos, fragilizando-o, facilitando, assim, o seu aprisionamento pelos inimigos e sua morte, na destruição de um templo, juntamente com esses. Sansão parece que não sabia exatamente com quem dormia e tampouco sabia que o “segredo é a alma do negócio”.

     Na mitologia grega há uma  passagem  de singular beleza retratando os modos de fazer a mesma coisa com métodos radicalmente diferentes. Após Cadmo e Harmonia, sua esposa, vitimados pela tragédia familiar, vagarem  perdidamente, “carregados de males e de anos”, e de serem transformados em serpentes, a sucessão do poder em Tebas, fundada por Cadmo, avô de Édipo, coube aos jovens irmãos Anfíon e Zeto, esses filhos da união de Zeus e de Antíope. Zeto era forte, rude e meio selvagem. Vivia unicamente da criação de animais e da caça. Anfíon ocupava-se em tocar a sua lira de ouro de sete cordas, recebida de Apolo, por esse ter-lhe construído o primeiro altar, e a cantar. Anfíon era todo “moderação e delicadeza”.  Seus acordes soavam com poder de ordem e “arrastavam atrás de si animais selvagens, rochedos e árvores”.

     Diante da necessidade de construir muros para proteger a cidade de Tebas,  coube aos dois irmãos a tarefa de construí-los. Zeto carregava pesados blocos de pedras tirados das montanhas circunvizinhas e com sua força e suor construía a sua parte do muro. Anfíon, também fazia a sua parte nessa construção, mas tocando apenas a sua maravilhosa lira. Como que embaladas pelos acordes, como numa cantiga encantada, as pedras se acomodavam magicamente nas muralhas, uma após outra. Ao ritmo de seus acordes, para as sete  cordas de sua lira, Anfíon construiu setes portas nas muralhas da cidade de Tebas.  

    Zeto e Anfíon poderiam refletir a condição de  fazer com a força dos músculos e fazer em estado de graça, sem fazer força, com arte e com prazer. Hoje, a mecanização e a automatização dos processos de trabalho parecem sugerir que estaríamos ingressando numa era com o sinal  de Anfíon. No entanto, ainda hoje seu instrumento de trabalho parece continuar incomparável e inacessível. Na civilização grega, ateniense em particular, trabalhar atestava inferioridade. Aos cidadãos livres cabia as artes, a filosofia e os saberes, a guerra e a condução dos destinos da cidade.

    Anfíon parece simbolizar o poder de persuasão, de sedução e de desejo representado por uma marca hoje. Os acordes da lira de Anfíon seriam equivalentes aos apelos irresistíveis dessa. No rastro de marcas, milhões em vendas se acumulam. São as pedras que se movem e se acomodam na construção do futuro ao som da nova lira de novos Anfíons.  

    Para encerrar, após essa viagem um tanto tortuosa por caminhos da imaginação e da experiência humanas retratadas pela literatura mundial, uma pergunta: o que esses fatos efetivamente têm a ver com marcas e com o marketing de hoje, em Itabuna? Praticamente nada, exceto um tênue elo que liga trabalho duro, marca e magia. Para elucidar esse elo, eis uma pequena  estória, porque as grandes são por muitos e por demais conhecidas. Numa certa praia havia vários carrinhos vendendo sorvetes e picolés. Nos dias e noites de calor do verão, esses faziam o deleite de pequenos e de grandes. No entanto, enquanto em um carrinho havia sempre filas, nos outros fazia pena o abandono. Diante desse fato, os donos desses últimos passaram a pintá-los com as mesmas cores do carrinho bem sucedido. Como pequenos e grandes sabiam diferenciar as cores mesmo essas sendo iguais, os nomes também foram ficando cada vez mais parecidos. Mesmo assim, a situação perdurava para a aflição e a incompreensão desses. Não resistindo, um dono de carrinho disse para o outro em semelhante desdita: “afinal, o que é que nossos sorvetes e picolés não têm?”.   O outro disse: “acho que o consumidor não sabe escolher”.   

    Bem, se há um atalho para o ouro e para as estrelas, “ter estrela” e “estar no lugar certo e na hora certa”, parece ser crucial. Porém, trabalhar duro, com correção e com o olhar também no horizonte pode compensar e até fazer acontecer o aparentemente inimaginável. Aqui, o trabalho bem focalizado pode acabar substituindo a Lira de Anfíon. A propósito, Zeto também fez sua parte no muro. Como a maioria parece ter mais de Zeto do que de Anfíon, talvez seja essa a lira ao alcance da maioria.

     No mundo das empresas, a marca, que confere identidade para a empresa, seus produtos e seus serviços e reflete a sua personalidade, os seus valores e a sua cultura, pode ser esse atalho e essa estrela. Ainda que “ter estrela” signifique sempre meio caminho andado  e uma imensa economia de energias, é possível também tornar-se estrela, se bem que isso é um empreendimento bem mais difícil, complexo e demorado. 

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* Sociólogo, professor da UESC. Outros textos em www.socio-estatistica.com.br ou www.ecobahia.com.br