SOLO DE TROMBONE (DITOS & FEITOS  DE ALBERTO HOISEL)

Por Agenor Gasparetto*

Antônio Lopes resgata para o presente e para o futuro, para a história e para a literatura, em um texto tecido com leveza, graça e a fluência de um fluxo de água das serras, um “homem de fibra”, Alberto Hoisel, expondo-o humano, politicamente conservador, amante da família e da terra,  mas cujo senso de irreverência, de crítica, de humor, de sátira, de ironia transbordava, realizando-se esse na arte poética dos epigramas, tendo como palco primeiro e principal, os bares de Ilhéus e os seus universos circunstanciais, e  impressos no Diário da Tarde, entre os 50 até o final do século, através dos pseudônimos “Zé ... ferino”, “Bolinete”, “Zé ... ferrão”, “Zé ... feliz”, nas seções “Flashes & Flechas...”,  “Trovas & Sovas”, “Bolas e ... Balas”, “Das terças às cestas!” ou “Ridendo... e Três Por Vez”. Os pseudônimos e  as seções denunciam e  informam dos propósitos e  o tom espirituoso de Alberto Hoisel, seu indomável e incontido espírito irônico.

O leitor poderá iluminar, como num relâmpago, alguns momentos e alguns personagens da história de Ilhéus a partir do olhar crítico, posicionado e irreverente, por vezes até grosseiro, de Alberto Hoisel. Por exemplo, a propósito da criação da Faculdade de Direito, em Ilhéus, em 1960, fustiga-a como “produto gravoso”, bastando-lhe um direito, o de “matricular Zé ... ferino!”, ao tempo em  que acusa a  ausência “da de “Deveres””.  Em Nova Iorque, com um amigo, bebendo cerveja em lata, comentando diferenças culturais, exprime  sua condição: “- Aqui na América, nós não passamos de uns vira-latas...”. Acerca do final do segundo mandato de Antônio Olímpio, 1996, em que o serviço de limpeza pública entrou em colapso, assim se pronunciou: “Neste olímpico reinado / Ilhéus tem menção honrosa / Por ser a mais lixuosa / Cidade do nosso Estado”. Ou, em 1960, anota “pior do que a inflação de candidato são os candidatos inflados”. Dentre os focos preferenciais de suas flechadas satíricas estavam a política e os políticos, a justiça, pessoas poderosas, fatos pitorescos aos quais não resistia e flechava-os, à sua maneira.

Antônio Lopes, com seu Solo de Trombone, preserva fragmentos da memória e da história, a partir de um de seus atores e sujeitos, Alberto Hoisel, que expressa a perspectiva de um homem que se situou com um pé no povo e o outro  na  elite,  antes que o tempo varra para sempre elementos dessa passagem e dessa paisagem.

O  livro desdobra-se em quatro seções, Rimas, em que apresenta importantes fragmentos do humor e da sátira de Antonio Hoisel, seu ponto forte, Canto, em que apresenta seu  lado de sonetista parnasiano, Casos, em que  narra  situações e fatos engraçados ou pitorescos e Oração, em que sumariza aspectos biográficos de Alberto Hoisel e de seus principais parceiros de boemia.

Com este livro, Antônio Lopes vai se afirmando definitivamente como autor regional de bem com as letras, como foi dito no início, com texto fluente e agradável, combinando nele com maestria promissora as dimensões literária e jornalística, num veio investigativo, de pesquisador. Afirma-se ao tempo em que posiciona e confere relevo a outros autores regionais,  apresentando-os às novas gerações, como o próprio Alberto Hoisel, mas também Abel Pereira, Marcos Santarrita entre outros.   A UESC, com sua Editus, editando esta obra cumpre seu papel de fomentadora e criadora de cultura e de ciência.

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Itabuna,  13 de agosto de 2001