A FALTA QUE A POLÍTICA FAZ (AFINAL, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?)

 Contrariando expectativas, que se revelaram infundadas, já que mais tributárias dos nossos anseios profundos do que da realidade, neste começo de  Século XXI, o mundo parece pouco risonho. A qualidade de vida piorou e parece não dar sinais de arrefecimento. A barbárie e a selvajaria ocupam insistentemente a agenda dos noticiosos. É um tempo em que a cada dia parece esconder uma surpresa, desagradável como  se estivesse a dizer: “você ainda não viu o pior”. Os males em vez de diminuírem estão se agigantando. O racismo e suas múltiplas formas de intolerância, estão a crescer em quase todos os quadrantes deste nosso planeta Terra. Nesse clima de insegurança e de suspense, nos encontramos hoje. Respira-se  um mal-estar permanente e isto, logo no começo do Século XXI, que parecia tão promissor.

 Afinal, o que está acontecendo?  Os homens  pioraram? Logo agora que tecnologia avançou tanto e multiplicou suas promessas, cogitando-se inclusive a clonagem humana? Afinal, porque tantos conflitos, tanto sofrimento, tantos ódios e tanta intolerância, agora que o mundo parecia dar sinais de estar a se sentar à mesa e, pela primeira vez, saborear a ceia da globalização globalmente?

 Os noticiários são um terror pelos horrores que expõem diariamente e sistematicamente. Palestinos e israelenses, paquistaneses e indianos, são os atores do momento. No entanto, nesse teatro, os atores protagonistas mudam e mudam os cenários, mas a tragédia ou o enredo, parece ser sempre o mesmo. Anteontem foi nos balcãs, ontem em Nova Iorque e no Afeganistão, desde muito e hoje  na Terra Santa e na Caxemira, amanhã pode ser qualquer lugar e, depois de amanhã, um lugar qualquer, já que parece cada vez mais difícil  haver um  lugar a salvo. Em comum, uma mesma e velha lei, do Talião, do Trabuco, do “olho por olho e dente por dente” e o mundo das armas prospera, para a desgraça de contingentes crescentes de  desgraçados. A Irlanda do Norte parece um velho filme rodando um mesmo enredo anacrônico, quase uma ficção. A situação da Argentina inspira compaixão: como foi possível que tenham ficado tão parecidos conosco e com o restante de nossa América Latina? A Colômbia há muito que suscita cuidados. A Venezuela, graças ao seu generoso petróleo, parecia imune. O Equador, o Peru, a Bolívia, o Uruguai, o Paraguai, o Brasil. Todos com suas especificidades e seus imensos problemas. Enquanto isso, a televisão ainda nos presenteia no horário nobre com a imbecilidade dos reality shows.

 Tomado de perplexidade, olhando de longe, o que está realmente distante e também o que está nos espreitando não está muito depois da primeira esquina. Tentando encontrar um denominar comum para esses males, não consigo ver a não ser os frutos de perspectivas equivocadas,  insuficientes.

 Os homens não mudaram. E creio que não é de mais armas que o mundo precisa, nem mesmo de mais e sofisticadas tecnologias, ainda que desejáveis. O mundo parece precisar e urgentemente é de mais humanidade, ainda que esse termo pareça dizer muito pouco hoje.  Creio que o mundo precisa de mais política, mas entendida  no sentido de negociações.

A globalização é uma promessa por demais promissora, não fosse sua limitação ao âmbito do mercado e dos capitais. É necessário globalizar a globalização, convertê-la num projeto sócio-cultural da comunidade mundial, indo muito além de sua dimensão econômico-comercial. É preciso que a vida valha mais e valha a pena em todos os quadrantes do planeta e que os deslocamentos das pessoas não sejam somente buscas desesperadas pela sobrevivência, mas signifiquem apenas turismo. A política dos organismos mundiais precisaria apontar para essa globalização, completa, integral, de todos os homens e do homem todo. É preciso que se dê aos países pobres alternativas reais de emancipação e não condená-los de um lado, a humilhação de necessárias, escassas e insuficientes  ajudas  humanitárias e, de outro, submetê-los a políticas protecionistas que são muito mais poderosas em seu poder de causar  prejuízos, não viabilizar desenvolvimento, do que essas ajudas. A boa ajuda é a oportunização de oportunidades reais, no próprio local em que vivem, autonomamente. 

 A questão palestino-israelense ou indo-paquistanesa não parece ser de ordem primeiramente militar. A via militar no contexto atual, potencializará o ódio, a intolerância e a destruição. Essas questões, como outras, parecem ter seu ponto crucial na dimensão política, ainda que pareça difícil percebê-la dessa maneira hoje. No entanto, ou se criam as condições para a emergência da dimensão política desses problemas, ou tal solução terá um preço  talvez demasiadamente alto para ser suportado por aqueles que não têm escolhas.

 A dimensão política parece exigir organismos mundiais e meios para fazer valer suas deliberações. Parece faltar a esses, contudo, autonomia e capacidade para impor-se aos interesses particulares. Essa dimensão parece exigir, na perspectiva dos participantes, disposição para renúncias e perdas. Renunciar e perder parece ser necessário. De pequenos aprendemos que “quando um não quer dois não brigam”, ou ainda que “dois bicudos não se beijam, se bicam”.  O que vale para o plano dos homens, pode não valer para o plano dos países ou mesmo mundial. Todavia, parece caber ao lado mais forte, mais poderoso, a primazia de colocar na agenda a dimensão política, do contrário, vizinhos e irmãos continuarão se bicando, por mil razões, tendo todas as partes seu quinhão de razão e sua fração de irracionalidade. Talvez o mundo precise e espere, hoje, a grandeza dos mais fortes. Somente aos mais fortes parece dada a oportunidade de definir a agenda do futuro. Somente aos mais fortes é dado o privilégio  de fazer valer a aposta da negociação, da diplomacia, do diálogo e da solidariedade acima dos ódios e rancores, da intolerância e dos preconceitos mal disfarçados e até mesmo explícitos, milenarmente enraizados na alma de povos, Por isso, o tempo hoje parece exigir que as partes percam um pouco, renunciem, sobretudo e primeiramente as mais fortes. Essa perda, essa renúncia, poderá oportunizar a que outras partes possam se sentar à mesa, estabelecendo-se aí a primazia da política e da diplomacia. A paz tão almejada parece exigir a revalorização da política, que há muito vem fazendo falta.

 Agenor Gasparetto
Sociólogo

Itabuna, 16 de julho de 2002