PACTO POR UMA COMUNIDADE MUNDIAL

 

Agenor Gasparetto*

 O horror e o terror perpetrados pela insanidade de fanáticos nos Estados Unidos contra  inocentes, expôs de forma contundente o que há de mais abominável na natureza humana. O Século XXI começou de maneira triste e dramática, acenando com horizontes tenebrosos para toda a Humanidade. Essa tragédia expôs a vulnerabilidade de todos. Se havia a ilusão de um refúgio seguro, esse não mais existe. Essa tragédia representa um ponto de inflexão no cenário político mundial. Não há mais volta possível. O Século XX está definitivamente encerrado e inaugurou-se um novo período  e esse parece pouco animador, porque sob as sombras de um terror suicida.

 Impensável até há poucos dias,  a realidade superou a ficção, sepultando vidas e esperanças, semeando morte e destruição. Fez de um majestoso cartão-postal no coração da maior metrópole do mundo numa montanha de escombros e poeira. Essa é uma provação duríssima, particularmente para os americanos. O escritor israelense Amos Oz, que acredita que “a maioria árabe não é cúmplice do crime, condena fundamentalismos e defende o direito à autodeterminação palestina”, no artigo “As duas faces do fanatismo”, publicado na Folha de São Paulo, (13/09/2001),  aponta o ódio e o fanatismo como sendo a personificação do “Grande Satã”.  São duas doenças mentais que acompanham a Humanidade desde muito, desde Caim e Abel, para ficarmos no âmbito da tradição judaico-cristão. Amos Oz, a propósito do crime inominável cometido contra Nova York e Washington, afirmou que “não é uma guerra entre religiões nem uma luta entre países. É, mais uma vez, a batalha entre fanáticos, para quem os fins -sejam eles religiosos, nacionalistas ou ideológicos- santificam os meios, e o resto de nós, que atribuímos santidade à própria vida”. Amos Oz coloca em relevo o valor da vida e sua banalização ao extremo.

 Newton  Carlos, no artigo “Ninguém está a salvo”,  publicado no Jornal do Brasil, (13/09/2001) observa que “O atentado pegou o isolacionismo e o unilateralismo de Bush, a idéia de uma nação poderosa, cheia de si, a salvo num bunker, fechada numa fortaleza inexpugnável, e afinal se constata que não é bem assim”. Nessa mesma linha, no editorial  “O sonho acabou para Bush e os EUA”, numa tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves, o jornal francês Le Monde afirma que  O sonho era o de George W. Bush. Ele pretendia proteger os EUA do cenário internacional; vê-los menos expostos, porque menos envolvidos nos conflitos existentes. Ele ignorou a guerra israelense-palestina; enfim, ele jurou santificar o território nacional, colocando-o ao abrigo de um escudo antimísseis. O despertar é terrível”.

 Os Governantes ocidentais, particularmente dos Estados Unidos, têm diante de si o desafio de punir de forma exemplar os que engendraram as mortes e a destruição, sem perder, contudo, o senso de humanidade e de justiça. Caso o ódio e a sede de vingança prevaleçam e ceguem, corre-se o risco de alimentar esse nefasto processo, marcado pela intolerância, pelo fanatismo, pelo preconceito, potencializando a injustiça e a barbárie, mais uma vez contra outros inocentes, numa interminável cadeia de horrores.

 A questão é como responder efetivamente contra esse mal sem por a perder conquistas da civilização, como a liberdade de ir e vir, de pensar e opinar, tão preciosas e tão caras, hoje? Há um mal que precisa ser expurgado. Há, também, uma cultura que precisa ser afirmada, mais do que nunca, cujos traços principais são a afirmação do valor sagrado da vida, da liberdade, da democracia, do respeito às diferenças, estando essas necessariamente  parametrizadas em valores de uma comunidade mundial, solidária, autêntica. Nesse cenário de perplexidade, de tristeza e de dor, a idéia de uma comunidade mundial pode encerrar  perspectivas promissoras. Nesse sentido, a necessária punição dos envolvidos e a repressão não parecem suficientes para criar uma cultura de valorização da vida e de uma comunidade mundial, capaz de preservar os valores conquistados ao longo de muitos séculos de civilização. Parece crucial a formação de um pacto mundial, tendo como pilares a paz, a liberdade, a democracia, o desenvolvimento, a prosperidade, a segurança, o bem-estar de todos os povos e de todos os “homens de boa vontade”, em todos os lugares do Planeta.  

 A propósito, enquanto muitos tiverem que correr riscos de vida para ilegalmente atravessarem fronteiras, migrando para nações desenvolvidas, enquanto as oportunidades de desenvolvimento não estiverem ao alcance em todos os quadrantes do Globo, enquanto muitos intuírem que nada têm a perder,  o mal-estar prosseguirá e o pesadelo, no plano individual ou num plano mais geral, será um espectro que nos rondará, numa esquina ou num outro World Trade Center. Enquanto uma cultura de ódio e violência, de intolerância e de preconceito, de fanatismos  insanos tiver ambiente favorável, o perigo persistirá. Seria ser demasiado simplista acreditar que qualquer fator por só fosse capaz de engendrar  e de explicar barbáries como essa, mesmo a pobreza e a miséria, mesmo a ignorância e a religião e sua ambigüidade, como revelam cenas da Irlanda do Norte, do mundo muçulmano, hoje e ontem. Todavia, desde a sua eclosão, essa tragédia ocupa as mentes, os corações e os principais espaços de todos os noticiários. Parece, pois, insuficiente se seus desdobramentos se resumirem apenas à necessária punição de todos os que a perpetraram e o desencadeamento de mais barbárie. Se, como afirmou Amos Oz, o “Grande Satã” está personificado no ódio e no fanatismo, qualquer reducionismo soará como uma postergação do problema. Essa tragédia parece fazer lembrar que a técnica oportunizou poder destrutivo e maléfico em demasia a quem carece Humanidade.

  O desafio parece ser, pois, transformar esta tragédia numa proposta de paz e de desenvolvimento, numa proposta efetiva de criação de uma comunidade humana mundial, muito além da globalização dos mercados. Talvez seja necessário voltar ao Imagine de John Lennon, que tampouco escapou da barbárie individualizada, e outros muitos que sonharam um mundo sem fronteiras. Parece necessário, neste momento, fazer uma aposta na paz e no desenvolvimento, no sentido de contribuir para dar a cada povo uma oportunidade em seu próprio ambiente.  Parece necessário fazer uma aposta consistente no valor sagrado da vida, da liberdade, da democracia, do respeito às diferenças num contexto de comunidade mundial, solidária, autêntica. Isto simplesmente porque à sombra do terror a vida perderá graça e encanto. 

 Em suma, se a tragédia dos Estados Unidos inaugurou uma era de terror como nunca antes visto, de seus escombros também parece haver um aceno para o lançamento das bases sólidas para a construção de uma comunidade humana mundial, mais solidária e mais eqüitativa, e para a criação de uma cultura que preserve as conquistas de mais de dois mil e quinhentos anos de civilização. Os próximos passos poderão ser cruciais.

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* Sociólogo, professor da UESC. Outros textos em www.socio-estatistica.com.br

Itabuna, 14 de setembro de 2001.