SÉCULO XX1: SINAIS DE MUDANÇAS

 

O novo século começou reforçando sinais do velho.  Dentre esses, alguns parecem positivos e promissores, porque apontam para um futuro menos trágico. 
O primeiro deles é a realização de um evento paralelo ao Forum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Trata-se do Forum Social Mundial, em Porto Alegre, que dá a essa cidade um movimento nesses tempos em que portoalegrenses esvaziam a cidade e se mudam para o litoral.   

Davos, Suiça, Primeiro Mundo. Porto Alegre, Brasil, Terceiro. Foco Econômico versus Foco Social. O principal pecado atribuído aos signatários do Forum Econômico é que sua política e sua prática é de exclusão social, eliminando postos de trabalho pelo avanço tecnológico, agravado pelos protecionismos de que se valem na defesa dos interesses econômicos. (ver também o texto “10 anos da queda do Muro de Berlim, ...”). O principal pecado atribuído aos signatários do Forum Social é que têm dificuldade em apontar vias efetivas. De um lado, a bandeira global, de outro, as bandeiras locais, das cidades.

O fato novo é que pela primeira vez, as oposições à globalização da economia e finanças conseguem ultrapassar o estágio do protesto, como em Seatlle, EUA, em final de 1999, quando roubaram a cena e contribuíram para frustrar as pretensões da Organização Mundial do Comércio, OMC, ainda que nessa pesaram mais as tensões provocadas por interesses dos participantes, quase sempre ciosos com a abertura do mercado dos outros países, sem abrir mão da proteção dos seus.

Em Porto Alegre, nesse ponto, além dos protestos, as oposições, nesse início de século, continuam protestando, mas já conseguiram realizar um evento, que por si só reforça a tese central de que o progresso e o desenvolvimento e as políticas devem ter  o homem   e  seu bem-estar em primeiro plano. Esse parece ser o maior mérito do Forum Social: colocar em relevo que a dimensão econômica não é absoluta, ainda que em teoria isso pareça questão pacífica. A prática, contudo, questiona quem está ganhando com o sofrimento de civis, crianças e velhos, quem produz as balas e as bombas.  A globalização encerra promessas e problemas e que é importante contribuir para que as primeiras possam se realizar e os últimos, minimizados. As políticas postas em práticas por organismos mundiais como o FMI, O Banco Mundial e outros, bem como os governos podem se constituir num filtro e num suavizador da lógica centralizadora e concentradora do capital privado e sua busca de lucros e mercado.

Obviamente, enquanto evento paralelo, o Forum Social, por si só, se constitui numa espécie de pedra no sapato do Forum Econômico e dos países ricos. A rigor, trata-se apenas de uma forma protesto em um patamar mais elevado, diferente  Faz parte do jogo democrático o convívio de posições diferentes. Pressões e tensões são necessárias e constituem a realidade. Muito pior, é sua impossibilidade, sobretudo se as formas de manifestação assumirem, então, as vias da intolerância e da violência. Não é preciso pesquisar muito para descobri-las e ver os seus resultados e, porque não dizer, seus estragos. Esse pode ser a contribuição de Porto Alegre a Davos.

Um segundo sinal neste início de século foi emitido por Colin Powell, Secretário de Estado dos Estados Unidos, Governo de Bush, em discurso ao congresso norte-americano.

Collin Powell, propõe uma mudança radical na política exterior norte-americana, acabando com parte expressiva das sanções impostas por Washington aos outros países durante a década de 90, definindo-as, segundo jornal El País (24/01), como  "un grado de presuncion y arrogancia que al fin y al cabo no sirven a nuestros intereses", sugerindo ao Congresso “contar até dez” antes de solicitar novas sanções.  Segundo esse jornal, cerca de 75 dos 193 países sofrem algum tipo de sanção por razões as mais diversas. Essas resultariam na perda de 200 mil empregos e 19 bilhões de dólares por ano aos Estados Unidos. Apesar de provocar essa perda econômica, segundo Powell, “raramente conseguem o objetivo de mudar o comportamento do governo do país castigado”.

 Dado o poder destrutivo da intolerância, independentemente de sua roupagem, essa sinalização parece promissora, em que pese bater de frente a uma outra, a que aponta para alguma forma de intervenção norte-americana em território colombiano, por exemplo.

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Agenor Gasparetto
Itabuna, 26 de janeiro de 2000.