O povo afaga, o povo apedreja

                                             Antônio Lopes

 

Todo poder corrompe, sendo o verbo utilizado aqui em seu sentido de
 estragar, apodrecer, decompor, viciar, envelhecer... 

  Creio que chegou a hora da mídia descer do palanque, guardar as bandeiras, tirar a praguinha do peito. É tempo de pautar não o emocional, que festeja a vitória de Geraldo, ou o choro das inconsoláveis carpideiras debulhadas em lágrimas porque Fernando foi derrotado. De forma, já não digo isenta (pois não conseguiríamos tanto), mas ao menos adulta e civilizada, precisamos pensar um pouco sobre o significado desta eleição. Até porque, a nos manter na discussão que tem tomado os bares, lojas, ruas, becos, casas e Redações de Itabuna, corremos o risco de  chegar a uma conclusão lapidarmente acaciana: “Geraldo ganhou porque teve a maioria dos votos”. O assunto carece de tratamento mais sério.

Todo poder corrompe, sendo o verbo utilizado aqui em seu sentido de estragar, apodrecer, decompor, viciar, envelhecer. Embebido no repetido poder que o povo lhe deu, Fernando Gomes se permitiu a arrogância, a intolerância, o autoritarismo e a truculência, termo emblemático de sua campanha. Mais do que se permitir, permitiu que essa prática crescesse e prosperasse à sua volta, e quando não fez, deixou que fizessem, o que vem dar o mesmo efeito. Nestes dois meses, eu vi menino que nem tinha 12 anos dizendo que nas passeatas de Geraldo só havia “sem-terra”, numa prova de que a arrogância, num exemplo vindo de cima, é capaz de cegar e, dentre seus piores defeitos, ser mãe e pai de filhos chamados Ódio e  Preconceito, irmãos maiores de Mentira. Se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe até o pensamento e a visão, e o faz de maneira absoluta. Isto também é escancaradamente acaciano.

A eleição deste ano em Itabuna não representou a luta dicotômica entre o Bem e o Mal (conforme desejam os cabos eleitorais de ambos os lados), mas outro tipo de dicotomia: a eterna, filosófica e inevitável luta do velho e o novo. E aqui não há idéia preconcebida: o velho não é necessariamente ruim, é apenas velho, 

Esse debater-se para manter o espaço que o tempo nos quer tomar
existe igualmente entre os bichos, na família, na empresa e nas artes

 enquanto o novo não é necessariamente bom, apenas é novo. Talvez seja conveniente  esclarecer: as expressões “velho” e “novo” não se referem à idade, à experiência ou à aparência exterior. Collor, só para dar um  exemplo, era velho, apesar de cercado de todo um arsenal de “modernidade”. Já Barbosa Lima Sobrinho, na prorrogação de um século de vida, era novo.

A luta do velho contra o novo é um capítulo notável do pensamento político, sem que seja privilégio dos políticos. Esse debater-se para manter o espaço que o tempo nos  quer tomar existe igualmente entre bichos, vegetais, na família, nas artes, na empresa, no campo geral das idéias, dos conceitos e da filosofia.

 Alguns velhos (raríssimos, só os sábios) reconhecem a hora de deixar o campo de jogo (e a lembrança de Pelé parece ser mais do que um trocadilho), enquanto a maioria deles, usando como muletas suas idéias preconcebidas, superadas e já recobertas pela pátina da idade, resiste, sem suficiente compreensão da realidade. A renúncia, em tais casos,  também é um gesto de grandeza. Para encerrar esta digressão, lembremo-nos de que a cada um de nós, mesmo resistindo ao envelhecimento com todas as forças e todas as técnicas médicas, está reservada a morte. O velho sempre dará lugar ao novo, mesmo que seja com esta medida traumática, embora natural.

Fernando Gomes, com um belo passado de ganhador de eleições, foi vítima dos seus próprios métodos, com sua obra administrativa pontuada pelos atos de violência típicos do grupo político a que pertence (não esquecer que a violência é uma atitude de direita), o que apressou seu envelhecimento e sua queda. A “parceria” com ACM, ao menos neste aspecto,

foi algo como juntar-se a corda e a caçamba, ou a fome com a vontade de comer, formando uma equipe do tipo “um segura, o outro bate”.

 Geraldo encarnou nesta eleição a parte do povo que se cansou
do velho e deseja nova experiência

 Geraldo, por sua vez, encarnou, não se sabe se com a devida compreensão do fenômeno sociológico, a parte do município (para sorte dele, a maior parte) que se cansou do velho e deseja abrir novos caminhos, perspectivas, sonhos e esperanças. Liderou, contra o uso abusivo da Prefeitura e do Governo do Estado, a maior reação popular que Itabuna já viu, imaginando-se que tenha decretado o fim da prepotência, da arrogância, da insolência, do desrespeito de um mandatário que, extrapolando a função de servidor público pago pelo erário, comportava-se como dono do município. O eleitor disse nas urnas que esta cidade não tem dono, a não ser seu próprio povo. E já mandara esse aviso dias antes, nas passeatas, aquelas que os pais levaram  o menino a acreditar que eram de “sem-terra”, um erro de avaliação, uma tentativa de autoconvencimento que lhes custou caro.

No sábado, véspera da eleição, quando Geraldo caminhava na praça Adami, sem seguranças, sem aparato, sem excessos, cumprimentando pessoas e pedindo votos, ouvi de um ambulante, que Fernando estava à beira de encerrar melancolicamente a carreira política, porque deixara de ser o que Geraldo estava sendo naquele momento: uma figura simples, solidária, com um olhar de respeito por essa gente que dele tanto espera. O homem me transmitiu, mesmo sem saber disso, que Fernando foi Geraldo em outros tempos, quando era novo, antes que o poder lhe trocasse o amor autêntico e puro por uma “paixão” produzida na Propeg, com fins claramente eleitoreiros. Que Geraldo Simões aprenda a lição vinda das ruas e das urnas: o povo bota, o povo tira.

No mais, penso em dizer a quem interessar possa que o fernandismo morreu de braço dado com o carlismo, embora (sonho de uns e pesadelo de outros) ainda tenha reais possibilidades de renascer. Cabe a Geraldo, mantendo-se novo nas atitudes e eficiente no atendimento dos anseios da população, providenciar com urgência os funerais do período eleitoral que cobre os últimos vinte anos. Que o faça com urgência, sem choro nem vela, em cova funda e, se não for pedir muito, providencie para que tais práticas políticas sejam enterradas cristãmente, fincada no peito uma estaca, para garantir que permaneçam debaixo do solo, no seu sono eterno, até o fim dos tempos. Amém.


Antônio Lopes é jornalista de vasta experiência.Trabalhou na Última Hora (SP), editou os dois semanários de Itabuna, dirigiu a Rádio Difusora (Itabuna) e os departamentos de jornalismo da Rádio Baiana (Ilhéus) e da TV Santa Cruz, afiliada da Rede Globo no sul da Bahia. Publicou o livro Buerarema Falando Para o Mundo (crônicas) e tem em fase de edição Solo de Trombone (pesquisa em torno dos epigramas do ilheense Alberto Hoisel). Assina uma crônica semanal no jornal Agora (Itabuna). E-mail: abcd@uol.ciom.br