A lágrima da fome...
*Joselito dos Reis
Caminhava pelas ruas de minha cidade. O dia estava nebuloso. Pensava em meu
futuro, quando de repente deparei-me com um quadro que nunca gostaria de
ver. Era um ser humano, um cidadão pai de família, sendo amparado por dois
policiais. De inicio pensei tratar-se de uma doença, mas não era doença,
não! O cidadão brasileiro estava com fome e sentou-se na calçada, consolado
pelos policiais, pois estava querendo desmaiar. Era um pai de família,
informando que seus filhos, quatro no total, e sua mulher, também estavam em
casa passando fome.
O homem que conseguiu um pão para alimentar-se, um bom ato de um cidadão,
naquele momento, estava verde... Tratava-se de um profissional na qualidade
de pintor de parede, mas não encontrava emprego. Quem o observava, via
sinceridade em suas palavras. Naquele momento, me senti impotente queria
fazer algo pelo meu semelhante e não podia! As lágrimas vieram em meus
olhos! O que pude fazer, foi rogar uma oração ao nosso Ser Supremo para que
na mesa daquele cidadão não faltassem mais alimentos. Supliquei também a
mesma oração para os milhares de brasileiros iguais a ele, que - segundo
pesquisa - existem trinta milhões de famintos no país. Como acabar com a
miséria, desta maneira?...
Não pude naquele momento, fazer nada pelo triste cidadão, além da minha
oração, só pude falar com ele e indicá-lo a um canal de televisão e o rádio,
onde existem programas de assistência social. Ironia da vida, naquele
instante lembrei-me dos banquetes, de um deles que teria acontecido no dia
anterior comemorando a vitória da Seleção Brasileira, quando toneladas de
alimentos foram jogadas fora, as pessoas comemoravam o penta! Muita comida,
fogos, euforia extravasavam a alegria do povo que nem imaginava que nas
ruas de sua cidade estava um cidadão, entre a vida e a morte, por falta de
comida...
Enquanto isso, o cidadão combalido, pálido como um papel marcado pelo tempo
- iguais a milhões... - chorava sua dor e de seus familiares sem
nenhuma esperança, apesar do Sol nascer para todos nós.
Esses são os contrastes da vida, enquanto uns sorrirem a alegria, outros
choram a miséria, a fome, a doença, a falta de sorte..., Muitas vezes,
culpa de um regime nefasto, como estamos passando agora, e da sociedade que
às vezes parece estar cega, e se queixa da violência. Vamos acabar com o
egoísmo, pois não é possível que em pleno Terceiro Milênio, com a invenção
da moderna tecnologia, não se possa inventar uma tecnologia para acabar com
a fome do povo.
Nunca mais esquecerei aquele quadro, o olhar daquele cidadão, desesperado,
alucinado, perdido no tempo cheio de incógnitas e de interrogações...
Quais seriam as suas incertezas e incógnitas? Com certeza um delas seria
meu Deus, onde está Você??.
Já era fim de tarde, aquele trôpego homem indefeso, frágil, fraco,
amparado pelos policiais comeu o pão, tomou água e consegui se erguer,
combalido retornou a caminhar pelas ruas de da cidade tentando encontrar o
pão, ou um emprego para sustentar sua mulher e seus quatros filhos pequenos.
Meus olhos cheios de lágrimas e meu coração apertado pela impotência,
acompanharam à distância a imagem daquele cidadão até quando ela desapareceu
no tempo dos percalços da vida.
A noite chegava e eu pensava o drama daquele cidadão... Dormi, e nem mesmo
assim esqueci aquele drama, pois sonhei com o quadro. No sonho, fui
alimentado por um anjo da paz, estendendo a mão àquele cidadão, atendendo a
minha oração.
*É jornalista e poeta
E-mail: reislito@zipmail.com.br