De birra com Jorge Amado

Por Agenor Gasparetto*

Jorge Amado nasceu em Ferradas, hoje município de Itabuna, que se emancipou de Ilhéus em 1910. Todavia, Ferradas continuou pertencendo a Ilhéus até 1916, quando passou a integrar o município de Itabuna, segundo João Cordeiro, acadêmico do curso de História da Uesc, em pesquisa sobre as raízes históricas de Ferrada. Sendo assim, quando nasceu, Jorge Amado nasceu e engatinhou como ilheense.

A vila de Ferradas nasceu bem antes. Era um entreposto, com serviço de ferragem de animais,  ligando o litoral ao sertão. Por volta de 1815, passou a condição de aldeamento indígena e hoje, sua principal via, além de uma travessa, presta uma homenagem ao frei capuchinho Ludovico Livorno, que, antes de consumir-se como missionário por longos anos nela e nos arredores, tinha sido capelão de ninguém menos do que Napoleão Bonaparte, em sua campanha na Itália, antes de tornar-se imperador, no final do Século XVIII.

A velha vila de Ferradas também viu a onda de sergipanos adentrar e desbravar as matas para o cacau, viu Tabocas nascer e virar Itabuna e, ao longo do século passado, afirmar-se como grande pólo de comércio e de serviços no Sul da Bahia. Viu nascer e ainda cedo ir-se embora para nunca mais voltar, primeiro para Ilhéus, depois para o mundo,  um de seus filhos, Jorge Amado. Esse foi-se e, contando estórias, conquistou um lugar ao sol no mundo das letras e da fama, enquanto Ferradas via, viu e foi ficando mais  velha e ganhou uma outra vila anexa, nova e mais pobre. Ferradas ficou no tempo, ferida em seus brios de mãe esquecida, profundamente magoada. Jorge Amado, tardiamente, lhe fez menção, tímida, discreta, acanhada, mas a fez na telinha. Contudo, parece que não foi convincente o suficiente.

Dois dias antes completar 89 anos, Jorge Amado morreu em Salvador. Itabuna, através de seu prefeito, lideranças e meios de comunicação, propõe uma grande homenagem. Há a convicção de que Jorge Amado merece, de Itabuna, o que essa tem de melhor. Sabem e querem dar um lugar ímpar a quem o é. Então, por que não renomear a via principal, a Avenida Cinqüentenário? Por que não rebatizar a velha Ferradas ou ao menos agregar-lhe um solene “de Jorge Amado”? Parece lógico, natural. Todavia, Itabuna está dividida.

A Avenida Cinqüentenário é a via na qual pulsa a cidade e a alma itabunense. É o palco de todos os momentos da vida pública da cidade, das procissões do padroeiro São José às manifestações políticas, dos humildes, tristes e constrangedores cortejos fúnebres às comemorações das vitórias coletivas. A vida pública de Itabuna passa, acontece, pulsa na Avenida Cinqüentenário. Fosse um cenário para um romance, esse seria rico e belo.  Ferradas, com Jorge Amado,  brilharia e, quem sabe, passaria a receber um tratamento diferenciado, por conta de sua visibilidade e notoriedade gratuitamente recebida.  

No entanto, o povo itabunense resiste, reluta, agarrando-se teimosamente em argumentações  razoáveis, mas que à presença de Jorge Amado soam como pretexto, decaem, empalidecem, esvaem-se. É como se Itabuna não conseguisse se livrar de um velho e reprimido ressentimento, decorrente do fato  de Jorge Amado e Ilhéus terem desde cedo se dado bem, numa recíproca declaração de amor. Itabuna viu e via e amargava um sentimento de abandono e de rejeição. Jorge Amado não escondia sua predileção por Ilhéus e o  itabunense assistiu e assistia, amargurando uma mágoa durante longa jornada. Sequer considerou o reconhecimento já tardio de que Ferradas foi o seu berço. Itabuna parece recear ter que agregar às referências do lugar em que Jorge Amado nasceu, um sempre “o verdadeiro”, porque enquanto esteve vivo, esse soube onde e por quem pulsava o coração de Jorge Amado.

Jorge Amado e Ilhéus viviam em  comunhão e por onde andasse, Jorge Amado era Ilhéus e Ilhéus tentava corresponder. O mundo se acostumou a isso e os associou indelevelmente. Essa era a sina. Estava escrito que assim seria.   E assim sempre foi. Ferradas e a outrora Tabocas viram e vêem caladas, quietas, resignadamente, como brasa ardente sob cinza.

No fundo, a resistência, a relutância de Ferradas e de Itabuna não parece se tratar da velha máxima bíblica de que o profeta não é benquisto em sua terra ou de que “santo de casa não faz milagres”. Nesse episódio, Itabuna e Ferradas fazem lembrar um filho pequeno, de birra com seu  pai, e que passa a recusar veementemente o que sempre desejou com paixão e nunca pôde saborear. Essa birra parece ser maior do que o ferradense, maior do que o itabunense. Esse último dirá que teve outros amados, o Gileno, a Amélia, de grandes realizações sociais e que, no último 28 de julho, no aniversário dos 91 anos de emancipação, foi a grande esquecida. O nó dessa questão não está na Avenida Cinqüentenário, tampouco na velha vila de Ferradas e não está, concretamente, em lugar algum. O nó está na alma e essa está endurecida, de birra.

Sendo assim, essa geração de itabunenses relutará até o fim, continuará a percorrer e a circular na Avenida Cinqüentenário e na velha e ainda maltratada vila de Ferradas. O itabunense relutará até que o tempo passe a limpo esse capítulo, cicatrize a ferida pela morte do ferido. Jorge Amado, na condição de imortal, pode e saberá esperar. É quem mais tempo tem e o tempo joga a seu favor. E isto até que a nova geração se afirme.  Jorge Amado ainda será bem amado em Ferradas e em Itabuna.

Ao dar-lhe o nome de sua principal via pública, Itabuna presta uma relevante homenagem a seu filho hoje ainda mal-amado. Esse, por sua vez, magicamente, gratuitamente, generosamente, homenageia deixando que  se pense  que está sendo homenageado.

Não estivesse a alma do itabunense tão endurecida, um outro gigante da região nas letras, Adonias Filho,  da outrora Pirangi e hoje Itajuípe, teria uma chave capaz de pacificar as mentes e os corações. Essa chave seria a “nação grapiúna”, assim adjetivada, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, tendo sido, na ocasião, recebido no ritual para a imortalidade, pelo contemporâneo Jorge Amado. Nessa “nação”, Jorge Amado seria grapiunense e grapiunenses seriam os ilheenses, os itabunenses e todos quantos estão sob as bênçãos do cacaueiro neste Sul da Bahia ou se sentiriam à vontade encarnando algum personagem da “saga cacaueira”,  ficcionada pelo grande Jorge Amado.

Até parece um novo enredo da última ficção desse romancista, em que o personagem principal, agora sem nome, anonimamente, difusamente, está de birra com o seu criador. Se o povo de sua terra, nem que fosse por um lampejo, vislumbrasse que sempre ocupou o melhor lugar, o centro, o topo do universo criado por ele! Contudo, esta geração parece por demais prisioneira de si mesma e de suas atribulações, embriagada em suas razões e ilusões. Jorge Amado saberá esperar, não para ser o nome de uma avenida, praça ou rua. Isso é fácil demais, basta um simples canetaço, em dois momentos, e pronto! E esse não tardará. Saberá esperar, portanto, não para tão pequena empreitada, obviamente, mas para ocupar  o lugar que, no fundo, bem no fundo, reservou ao seu povo em seu universo ficcional.

A birra, ainda que possa parecer burra, no caso de Itabuna, inclusive infundada, remete aos domínios do sentimento ferido, do coração e da irracionalidade. É preciso tempo, tempo que não há de fazer falta a um imortal, até que uma nova geração agarre de corpo e alma Jorge Amado, reinterpretando os tempos de hoje como um grande mal entendido. Amanhã, se saberá que Jorge Amado  quando falava Ilhéus estava dizendo Ferradas, Itabuna, a região do cacau, a “nação grapiúna”. Deu uma referência, a que em todos os mapas está e encanta (e nesse encanto sua poção mágica foi  poderosa) e que durante muitos séculos, desde os tempos de Capitania Hereditária, tudo foi São Jorge dos Ilhéus. Jorge Amado levou em conta, portanto, a história e a geografia. Cabe ao itabunense, doravante, fazer a sua parte e começará bem se for capaz de ser maior do que seus sentimentos feridos, até justificáveis,  mas, convenhamos, ainda assim, menores.

Parece bom que se estabeleça a polêmica acerca da homenagem a ser-lhe prestada. Obviamente, não colocando em questão o mérito de Jorge Amado. Esse está acima e além, definitivamente. Parece bom porque, quem sabe, com isso não tenha que morrer duas vezes, porque Itabuna tem sido cruel com os seus homenageados que, em um dia são nomes de logradouros públicos e noutro, bem,  noutro, há um outro dono, não raro, inclusive vivo. Em Itabuna, os vivos são terríveis para com os seus mortos homenageados. Assim foi com o Presidente Kennedy, assim foi com José Soares Pinheiro, assim foi com outros menos eminentes. Jorge Amado, em sendo amado, que o seja eternamente, como num romance de final feliz. Essa polêmica parece oportuna exatamente por isto, para que se processe esse amadurecimento. Quanto a mim, alguma coisa me diz que  de Cinqüentenário a Jorge Amado, a Avenida, que já é regional, ganha uma nova e incomensurável conexão. Alguma coisa me diz que há grandeza na homenagem e há brilho de em sendo estrela consentir em ser placa, chão e fluxo.  

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* Sociólogo, professor da Uesc. Outros textos em www.ecobahia.com.br

Itabuna, 20 de agosto de 2001