“INDEPENDÊNCIA OU MORTE” E “EXPORTAR OU MORRER” ?

Agenor Gasparetto*

Momentos e eventos importantes da história do Brasil são marcados e lembrados por “brados retumbantes”, como  expressa nosso hino nacional. Somos uma país que preza, desde suas origens, a tradição oral.

O homem escalado por Cabral para, do topo do mastro,  avisar sobre sinais e terra firme, parece que, com seu “terra à vista!”, não apenas deu a ardentemente desejada boa notícia, como parece também ter inaugurado uma longa tradição. O evento da descoberta, todavia, também foi documentado por cartas enviadas ao El-Rei D. Manuel, destacando-se a de Pero Vaz de Caminha. Esse, diante da exuberância do verde dos grandes arvoredos à sua frente e das águas infindas que a regavam esta “mui longa terra”, não hesitou em proclamar: “e em tal maneira é graciosa que, querendo a aproveitar, dar-se-á neta tudo, por bem das águas que tem”. 

D. Pedro I, que veio a ser o nosso primeiro Imperador, diante da pressão portuguesa para que retornasse a Portugal e da pressão dos brasileiros, já não dispostos a ver de novo o país na  condição de mera Colônia, resolveu o dilema que o atormentava,  mandando dizer ao povo que se era para o bem desse, que ficava. A expressão “diga ao povo que fico” durante muitas gerações constou nos livros escolares como o “Dia do Fico”.

O passo subsequente a esse ato, que marcou a ruptura política do Brasil  com a sua Metrópole, em lugar das guerras e do sangue derramado nas freqüentes lutas de independência, exitosas ou fracassadas, foi decidido por um novo brado, conhecido como o “grito do Ipiranga”, de “independência ou morte!”. A emancipação política de Portugal foi pacífica, ainda que, na Bahia, por exemplo, bravos morreram, consagrados no Dois de Julho, celebrado posteriormente nos versos do poeta Castro Alves.

O ocaso do longo reinado do nosso segundo e último imperador, D. Pedro II, também teve o seu brado, o “viva a República!” Essa foi proclamada, em 1889, o imperador acabou indo-se embora  para o exílio e, novamente, sem derramamento de sangue.

A República, sob inspiração do pensamento positivista do final do século XIX e início do século XX, inscreveu no  pavilhão auriverde  a expressão: “Ordem e Progresso”. Essa, numa faixa branca, cortando o céu azul finitamente estrelado, compondo com o verde florestal e o amarelo precioso uma singular combinação de cores e figuras geométricas, proclamando graficamente para o presente e para a posteridade os anseios profundos das pessoas e dos povos por paz e prosperidade.

Mesmo em episódios tristes, como na carta-testamento de Getúlio Vargas, em 1954, o presidente não hesitou em encerrar sua jornada presidencial e pessoal com uma frase de quem se sabia história, saindo da vida.

Curiosamente, os dois movimentos revolucionários, de 1930 e de 1964, talvez em razão de sua excessiva sisudez, não se permitiram expressões ou frases de efeito quando de sua eclosão, ou ao menos  essas não foram registradas.  Todavia, no seu esforço de legitimação, o segundo contou com  expressões que ainda ecoam forte na lembrança dos brasileiros menos jovens. Destacam-se as frases “Brasil, país do futuro”, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, “Pra-frente Brasil” entre outras.

O ex-presidente Collor de Mello e o atual presidente Fernando Henrique Cardoso têm em comum ao menos uma marca: o gosto por expressões ou frases de efeito.

Collor de Mello assegurou que acabaria com o tigre da inflação com “um só (e certeiro) tiro” ou teria sido com um “tiro só”? Não importa, já  que o tigre ficou mais feroz e, um pouco antes de sua renúncia, sob o insuportável peso da solidão do poder ou talvez de seu sufocante vácuo, externou sua desesperadora situação no “Não me deixem só”. Era tarde e, nessa condição,  solitário, apostou no senhorio do tempo para lhe dar a razão que os homens daquele momento, e naquelas circunstâncias, lhe negaram. O tempo é implacável, mas é paciente. Collor continua aguardando.

Fernando Henrique Cardoso, do alto de sua trajetória acadêmica, é mais familiarizado com a palavra escrita. Nos seus quase sete anos de presidência foram muitas as frases ou expressões de efeito. Uma das mais conhecidas que lhe é atribuída é a que pedia para que esquecessem o que tinha escrito, logicamente escrito antes de ocupar a presidência do país. Enquanto as frases de Collor revelavam sua personalidade e sua condição, ou seja, pareciam falar dele mesmo, as de Fernando Henrique parecem fazer cumprir duas funções principais: numa, as frases foram utilizadas como elemento contribuinte para o propósito de desqualificar opositores, sistemáticos ou circunstanciais, com as expressões  “neobobos”, “fracassomaníacos”,  “nhém-nhém-nhém”, “trombone”, “cupim da dignidade alheia” entre outros. Noutra, tem função afirmativa de suas pretensões enquanto governo. Nessa última situação está a recente frase “Exportar ou morrer”, convertida em manchetes de vários jornais e em noticiários.  

A situação revelada por essa expressão tem sido uma marca maiúscula do Brasil. No tempo de Delfim Neto, salvo engano, essa  era “Exportar é o que importa”. Essa última versão tinha o mérito de ser  menos trágica enquanto frase, embora a realidade fosse praticamente a mesma. Aliás, essa tem sido a sina dos últimos 500 anos, desde o primeiro governo que o Brasil conheceu, o de Tomé de Souza, em Salvador, em 1549.  Nosso modelo estruturante sempre foi o de exportar, para honrar os pesados encargos do endividamento externo, ou para satisfazer à fome de riqueza da metrópole quando éramos Colônia. No século XX, passamos do estágio agrário-exportador para um novo estágio, indo além  da dimensão rural, pela ampliação da matriz produtiva e exportadora. A dependência, agora elevada à condição de portadora de morte, é o permanente de nossa situação.

“Independência ou morte” e “Exportar ou morrer” parecem remeter a um poder situado no exterior.  Na primeira expressão o relevo é mais político. Na segunda, é mais econômico. Nas duas, a revelação de uma situação que teima em se perpetuar, de geração em geração, de século em século.

É possível que o “Exportar ou morrer” de hoje seja o resultado de uma opção, para relembrar outra frase assumida ou atribuída ao presidente Fernando Henrique,  que se perdeu ao longo dos  anos de seus dois mandatos como governante: “A política é a arte do possível” quando o imaginário de seus leitores estava querendo ler “do impossível”. “Exportar ou morrer” talvez não seja senão o resultado da prematura renúncia ao utópico e de uma excessiva delegação, do destino do país, às forças cegas  e surdas do mercado, que o espectro do apagão sinaliza hoje com luminosa eloquência, se quisermos ficar no âmbito interno, ou que poderemos ser num futuro não muito distante a Argentina de hoje, aluna exemplar das políticas do FMI e enredada em suas armadilhas cambiais, ou ainda, a depressão dos anos 30 do século passado, se quisermos um olhar mais retrospectivo. O mercado parece por demais poderoso para ser deixado totalmente livre. Somente a ação mediadora e compensatória do Estado e a ação da Sociedade Civil parecem capazes de salvá-lo de sua “exuberante irracionalidade”.

O Brasil, com seus mais de 170 milhões de habitantes, dos quais apenas um terço realmente participa do mercado, e um outro terço, mal sobrevive, caso fosse capaz de olhar para si, talvez pudesse ver que há um mercado fabuloso para ser formado e integrado. Talvez pudesse ver, sem desmerecer  a necessidade de exportar e de ser o suficientemente aberto para o mundo, que a inclusão de seu povo ao mercado é seu grande e dificílimo desafio. Nesta semana de  mais um Sete de Setembro, o primeiro do novo século, o “Independência ou morte” de D. Pedro I poderia ser traduzido para um “inclusão ou caos”, ou ao menos, quanto maior  for a inclusão menor será a magnitude do caos.

Esse está sendo o desafio pós-muro de Berlim. Este parece ser o desafio posto à globalização, que teima em ser unilateral, liberal para  o capital e as mercadorias, e intolerante e xenófoba para as pessoas. Nestes tempos de transição, o capitalismo, que apresenta uma incrível capacidade de reestruturação e de renovação, que gratifica generosamente os melhores,  nos esportes e em todos os campos, ao mesmo tempo em que parece ser absurdamente cruel e desumano para com os últimos e abandonados pela sorte, parece ter nesse dilema o seu “decifra-me ou devoro-te”, da esfinge, talvez fundamentalista, provavelmente sem nome, talvez para qualquer um, aleatoriamente. Aqui, expressões como a de Craig Barret,  herdeiro do fundador Andy Grove, da Intel, de que “só os paranóicos sobrevivem” ou a metáfora de Douglas Ivester, enquanto presidente da Coca-Cola mundial, em relação a um concorrente que está se afogando: “pegar a mangueira e jogar água em sua boca”, revelam os limites do mercado enquanto a “mão invisível” para comandar o que lhe vai além, e que parece incapaz de compreender. 

É possível que a atual conjuntura, que aponta firmemente para a desaceleração econômica dos Estados Unidos, do Japão e do mundo de hoje e que parece sinalizar para um novo ciclo recessivo, se constitua num obstáculo a mais a ser superado, uma vez que impulsiona ainda mais o protecionismo comercial dos países desenvolvidos, agora agravado pela pressão do desemprego crescente, local e mundial. O Brasil deverá ter mais dificuldades para exportar e honrar seus compromissos. O caso Embraer-Bombardier, Brasil-Canadá, em que esse último não hesitou em desqualificar o primeiro com uma hipotética “vaca louca”, fato hoje já esquecido, talvez apenas esteja sinalizando para as agruras futuras.

Pero Vaz de Caminha, em sua carta  ao El-Rei D. Manuel, de um “porto seguro da vossa Ilha de Vera Cruz”, numa sexta-feira, primeiro de maio de 1500, antes de seguir com a expedição para  Calecute, Índia, depois do “dar-se-á nela (terra) tudo”, continuou: “mas, o melhor fruto que nela se pode fazer, me parece, que será salvar essa gente, e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar”. Depois de mais de 500 anos,  depois do “Independência ou morte” e antes do “exportar”,  nesta terra, o melhor fruto que nela se pode produzir, me parece, continua sendo salvar a sua gente, incluindo-a, também no mercado. Salvá-la da ignorância, da fome, da doença, do abandono reservado aos últimos, ainda assim, humanos. Aqui, onde o mercado revela sua inapetência e sua incapacidade, o Estado e a Sociedade Civil têm uma imensa responsabilidade.  

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*Agenor Gasparetto, Sociólogo, professor da UESC.

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Itabuna, 3 de setembro de 2001.